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7 Verdipapirforetakenes virksomhet
7.7 Kvalifiserte motparter
No primeiro capítulo, já mencionámos o cursus formativo do jesuíta professo, que envolvia as humanidades e as línguas, num primeiro momento, e, depois, os estudos de filosofia e de teologia217. O que não fizemos foi caracterizar o modo como isso era feito.
A influência principal da formação intelectual dos Jesuítas provém sobretudo de Pa- ris (o muito citado modus parisiensis), uma vez que foi ali que culminaram os estudos dos primeiros companheiros de Inácio de Loiola, e do próprio fundador da Companhia de Je-
cristiana en el escenario de la postmodernidad», Atualidade Teológica – Revista do Departamento de Teolo- gia da PUC-RIO, XVII-44 (maio-agost. 2013), pp. 332-343.
215 Hans U. von BALTHASAR, Teodramática. 2: Las personas del drama: el hombre en Dios, Madrid,
Encuentro, 1992, p. 17, cit. em C. A. de PALUMBO, Op. cit., p. 341. Nesta perspetiva, os santos são então «os intérpretes autênticos do drama divino» (loc. cit.).
216 Cf. António LOPES, Vieira, o Encoberto, pp. 94-99.
217 É clássica a obra de Francisco RODRIGUES, A formação intelectual do jesuíta: leis e factos, Porto
sus. A criação dos primeiros colégios inspira-se nos colégios parisienses e adota a mesma metodologia que os pioneiros apreenderam nos colégios de Montaigu e Sainte-Barbe. Mas é também o próprio modo de conceber a teologia e a exegese que absorve outras experiên- cias tidas na capital francesa, particularmente no colégio dominicano de Saint-Jacques e no recém-fundado Colégio dos Leitores Reais (futuro Colégio de França).
A par dos escritos fundadores de Inácio de Loiola (os Exercícios, as Constituições e a correspondência), são também importantes as obras pedagógicas do braço direito de Iná- cio, e seu sucessor, Diego Laínez, relativas ao estudo das teologias especulativa (tomista) e expositiva (hermenêutica bíblica).
3.2.1 O modus parisiensis
Os primeiros jesuítas foram marcados pelo modelo pedagógico «parisiense», o mo- dus parisiensis218, que depois implementaram nos seus colégios219, como sua referência pedagógica. A razão de tal preferência (em detrimento de modelos como os de Bolonha e Oxford) prende-se com o facto de o método representar melhor o ideal pedagógico, huma- nista e cristão desejado pela Companhia de Jesus.
O contacto com esse método foi prolongado e variado. Começou certamente na Uni- versidade de Alcalá, um importante centro renascentista europeu, organizado à imagem de Paris. Inácio teve ali uma breve estadia (1526-1527), mas muitos outros jesuítas estudaram ali (nomeadamente, Alfonso Salmerón, Diego Laínez e Nicolás Bobadilla). Depois, conti- nuou nos colégios parisienses de Montaigu, Sainte-Barbe, Saint-Jacques, Sorbona e Navar- ra. Ali estudaram Inácio e seus companheiros (Francisco Xavier, Pedro Fabro, Simão Ro- drigues, Cláudio Jay, Alfonso Salmerón, e outros).
218 Cf. Javier VERGARA CIORDIA, «El humanismo pedagógico en los colegios jesuíticos del siglo XVI»,
in Studia Philologica Valentina, 10/7 (2007), pp. 171-200, particularmente a síntese sobre o modus parisien- sis nas páginas 190-197. O estudo clássico sobre o tema continua a ser o de Gabriel CODINA MIR, Aux sour-
ces de la pédagogie des Jésuites: Le «modus parisiensis», Roma, Instituto Histórico da Companhia de Jesus, 1968; cf. ID., «The ‘Modus Parisiensis’», in Vincent J. DUMINUCO (ed.), The Jesuit Ratio Studiorum: 400th
Anniversary Perspectives, N. Iorque, Fordham University Press, 2000, pp. 27-49. Entre nós, vejam-se os es- tudos de Joaquim Ferreira GOMES, «O "modus parisiensis" como matriz da pedagogia jesuíta», in Revista
Portuguesa de Pedagogia, XXVIII/1 (1994), pp. 3-25; e Margarida MIRANDA, «Uma 'Paideia' humanística: a importância dos estudos literários na pedagogia jesuítica do séc. XVI», in HVMANITAS, XLVIII (1996), pp. 223-256.
219 Veja-se a carta de Juan Polanco a Antonio Araoz, sobre as escolas jesuítas, em John P. DONNELLY,
É um método proveniente de múltiplas influências: elementos pedagógicos proveni- entes da práxis baixo-medieval, hábitos e costumes de tradição monacal, uma grande influ- ência das escolas dos Irmãos da Vida Comum e uma aposta numa pedagogia de tipo indu- tivo própria do humanismo de então. A síntese alcançada «está baseada numa pedagogia ativa, orientada para a formação intelectual, moral e espiritual [do estudante], e apoiada num plano de estudos muito organizado e fundamentado, que encontrou no colégio univer- sitário a sua expressão institucional mais acabada»220.
Tal como foi implementado nos colégios da Companhia, este método parisiense apresenta os seguintes traços característicos:
1.º O carácter regulamentista. Uma organização vertical, com postos de governo e responsabilidades docentes muito bem definidas. São sintomáticas: as Regras do Reitor do Colégio Romano (1551) e a própria Ratio studiorum (1599)221.
2.º A intensidade da temporalização pedagógica. O período escolar desenvolvia-se desde o dia 1 de outubro (São Remígio) até 24 (São João) ou 29 de junho (São Pedro), com algumas férias intercalares (Natal, Páscoa e Pentecostes). Um horário muito preenchido (lições ordinárias, lições especiais, etc.).
3.º Graduação docente. Um plano de estudos progressivo, sequencial e graduado (elemento de influência dos Irmãos da Vida Comum, via Colégio de Montaigu).
4.º Carácter literário e humanista do currículo. Os colégios parisienses, dependentes na sua maioria da Faculdade de Artes, respirava um ar renovador, de vanguarda. Estuda- vam-se as Artes e as línguas antigas, e predominavam os grandes autores clássicos. A Companhia viria a potenciar uma retórica cristã que harmonizasse as qualidades dos auto- res clássicos com as virtudes cristãs.
5.º A indução e o ativismo. Esta metodologia apostava no exercício e na prática constantes, de modo a envolver as faculdades e recursos da pessoa. A variedade desses exercícios era assombrosa.
6.º A disciplina (que envolvia também o castigo, normalmente ministrado por pesso- as leigas, exteriores à Companhia).
220 J. VERGARA CIORDIA, Op. cit., p. 193.
221 Para a Ratio studiorum, ver Margarida MIRANDA, Código pedagógico dos Jesuítas. Ratio studio-
rum da Companhia de Jesus (1599). Regime escolar e curriculum de estudos, ed. bilingue latim-português, introdução, versão e notas de M. Miranda, Braga, Faculdade de Filosofia-UCP/Província Portuguesa da SJ/Eds. Alcalá, 2008.
3.2.2 O tomismo e a teologia positiva
Durante a sua estadia em Paris, além do curso de Artes (que terminou em 1532 e de que recebeu o grau de Mestre em 1534), Inácio de Loiola frequentou aulas de Teologia no Colégio Saint-Jacques222, onde, desde o início do século, tinha havido uma reforma muito importante. A leitura do Mestre das Sentenças fora substituída pela leitura da Suma Teoló- gica de S. Tomás. E esta novidade espalhar-se-ia por toda a Europa, a começar por Sala- manca, por ação sobretudo de Francisco de Vitória. Por outro lado, também em Paris, Iná- cio teve contacto com as primeiras elaborações de uma «teologia positiva», tal como era definida pelo teólogo inglês John Main.
Portanto, é com naturalidade que vemos Inácio adotar, já nas suas Constituições, a teologia de S. Tomás de Aquino e a filosofia aristotélica como núcleo do programa de es- tudos da Companhia, bem como a teologia positiva. O curso de Artes, com uma duração de três anos – mais meio ano para revisões e prestação de provas – era essencialmente aristo- télico: começava pelo estudo da lógica e filosofia natural, para culminar com a ética e me- tafísica (cf. Const., 470), que preparavam proximamente os estudos teológicos. Estes, en- volviam o estudo das Sagradas Escrituras, a teologia escolástica tomista e a teologia posi- tiva (cf. Const., 464) 223. Este programa seria mais amplamente desenvolvido na Ratio stu- diorum, aprovada em 1599.
Na experiência dos primeiros jesuítas, esse programa está bem claro. Restaurada em 1534, a Universidade de Roma – ou o Studium Urbis – contou entre 1537 e 1539 com dois professores jesuítas: Diego Laínez, para a teologia escolástica (tomista), e Pierre Fabre, para a teologia positiva224. O mesmo Laínez, juntamente com Alfonso Salmerón, terão um papel muito importante durante o Concílio de Trento, como teólogos papais. E, em 1552, é encarregado por Polanco, secretário de Inácio, de redigir um compêndio da Suma Teológi- ca de S. Tomás, para uso mais operativo enquanto teologia fundamental. Praticamente, dez anos antes da publicação do De locis theologicis (1563) de Melchor Cano, Laínez propõe uma metodologia de carácter dialético-didático dos «lugares teológicos», segundo um or- denamento tripartido: o testemunho da Escritura e da tradição eclesiástica (que compreen- dia as definições conciliares e os decretos pontifícios), o testemunho dos santos doutores
222 Cf. INÁCIO DE LOIOLA, The Autobiography of St. Ignatius Loyola, trad. de Joseph F. O’Callaghan,
introd. e notas de John C. Olin, N. Iorque, Fordham University Press, 1992, p. 80.
223 Cf. John P. DONNELLY, SJ (ed.), Op. cit., pp. 41-42.
224 Cf. Paul F. GRENDLER, Renaissance Education Between Religion and Politics, Alder-
(Padres da Igreja e grandes escritores eclesiásticos) e o testemunho da razão natural (ou dos filósofos e doutores leigos)225. Este texto terá, evidentemente, ampla repercussão na Companhia de Jesus.
3.2.3 Hebraísmo cristão e exegese
Diego Laínez e Alfonso Salmerón são modelos dos teólogos jesuítas: simultanea- mente especialista em teologia especulativa e em exegese. A sua formação é claramente humanista, iniciada em Alcalá de Henares – a universidade fundada pelo cardeal Cisneros, «à imagem da Universidade de Paris»226 – e continuada em Paris. Salmerón e Laínez foram alunos do Colégio Trilíngue (Colégio Real) e receberam ali, provavelmente, um bom trei- no nas línguas bíblicas e nos métodos de exegese bíblica.
No Colégio Real, estiveram também em contacto com grandes hebraístas da época. Uma das relações de Inácio, e dos seus primeiros companheiros, foi Guillaume Postel, que vivia também no Colégio Sainte-Barbe. Este futuro professor de hebraico do Colégio Real partilhava com os primeiros jesuítas aspirações místicas, o ideal de reforma da Igreja e o gosto pelas missões longínquas, nos territórios recém-descobertos por portugueses e espa- nhóis. Em 1544, quando já havia perdido o favor do rei de França, Postel chega mesmo a juntar-se aos Jesuítas, em Roma, mas não termina o seu noviciado por causa das suas idei- as messiânicas e os vaticínios que fazia publicamente.
Este ambiente favorável à aprendizagem das línguas bíblicas, e particularmente do hebraico, marcou o espírito dos primeiros jesuítas e da Companhia. Depois do primeiro período conciliar, e tendo em conta os debates em torno da Sagrada Escritura que nele tive- ram lugar, Diego Laínez escreveu a obra Documenta ad bene interpretandas Scripturas, que marcaria os estudos bíblicos na Companhia227. Dele se destacam duas características fundamentais: primeiro, uma clara opção pelo sentido literal, que é amplamente favorecida pelos estudos da língua hebraica, que permitiram o acesso aos textos originais e aos co- mentários rabínicos medievais; segundo, a interação entre exegese e teologia, que fazia com que os expositores jesuítas incorporassem na interpretação das Escrituras a doutrina
225 Cf. Franco MOTTA, Bellarmino: Una teologia politica della Controriforma, Bréscia, Morceliana,
2005, pp. 320-322.
226 Citado em J. VERGARA CIORDIA, Op. cit., p. 190, nota 45. Por esta universidade passou também,
brevemente, Inácio de Loiola (1526-1527) e Nicolás de Bobadilla, e, posteriormente, Jerónimo Nadal.
227 Cf. Franco MOTTA, Op. cit., p. 320. Curiosamente, apesar da sua importância e influência, só viria
católica (ou seja, o dogma cristão e o comentário dos santos Padres)228. Os Jesuítas vão claramente privilegiar o estudo do hebraico nos seus colégios e universidades, em vista de desenvolver o interesse pelo sentido literal, mas também, simultaneamente, como auxiliar para a defesa do texto «oficial» da Igreja católica – a Vulgata de Jerónimo –, em contrapar- tida ao gosto dos reformadores por novas traduções a partir dos originais.
A integração do dogma cristão e dos comentários dos santos Padres nas obras dos expositores jesuítas favorece, paulatinamente, a evolução da teologia expositiva e positiva para uma teologia fundamental das «fontes».