Kapittel 5 - Diskusjon og analyse
5.2 Kulturminner og kollektivknutepunkt
O afastamento do jovem e seu entristecimento são sinais dados pela narrativa que nos fazem ter certeza de que o personagem é um arquétipo negativo, um modelo a ser evitado para se fugir àquele mesmo destino. Assim, tem-se o que o autor julga ser um desfecho instrutivo aos seus leitores ou ouvintes, que também poderiam lidar com conflitos semelhantes aos daquele personagem, mas que ainda poderiam alcançar finais mais felizes para suas próprias histórias. A impressão deixada pela narrativa é de certo modo decepcionante, não traz o reconfortante repouso que poderíamos esperar pela solução das crises suscitadas, mas essa sensação é exatamente a que o texto queria provocar.
De todo modo, a narrativa está conclusa. Após a intervenção do narrador descrevendo o afastamento do jovem, a perícope estava encerrada e a participação do jovem no evangelho finda. Todavia, o autor de Mateus procura continuar lidando com o mesmo tema nas linhas seguintes, e faz isso narrando, a seguir, qual foi a repercussão daqueles últimos acontecimentos no grupo de discípulos de Jesus. Seguindo o enredo do Evangelho de Marcos, após a perícope que estudamos (v. 16-22), Mateus continua falando de economia, e como esse é o tema que nos importa em todas essas leituras, julgamos necessário dedicar mais algumas
183
páginas a este contexto literário posterior. Consideremos primeiro os versículos 23 e 24 desse mesmo capítulo 19:
(23) E Jesus disse aos seus discípulos: “Em verdade vos digo que um rico
dificilmente entrará para o reino dos céus. (24) E outra vez vos digo: É mais
fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar para o reino de Deus”.157
(25) E tendo ouvido, os discípulos ficaram muito admirados, dizendo: “Então,
quem pode ser salvo?”.158
(26) E Jesus, tendo observado, disse a eles: “Segundo os homens isto é
impossível, mas segundo Deus tudo (é) possível”.159
Apesar de o jovem sair de cena, a narrativa tenta manter o leitor no mesmo tempo e lugar, apenas fazendo Jesus dirigir suas palavras a novos interlocutários, os discípulos, personagens que não participaram do diálogo anterior, mas que ao que tudo indica, estavam lá e o assistiam. Por um lado as palavras de Jesus abrem novo diálogo, mas é preciso levar em conta que elas mantém o caráter conclusivo e podemos dizer que Jesus oferece novos julgamentos em relação aos fatos já ocorridos. Sua voz apresenta novas sanções cognitivas que interpretam para o leitor os eventos passados, acentuando a desaprovação das decisões do jovem.160 Jesus aqui declara com mais clareza do que antes que aquele jovem era um “rico” e que fora sua riqueza o que o impedira de entrar no Reino dos Céus (v. 23); depois oferece outro exemplo metafórico sobre a impossibilidade de um camelo passar pelo “buraco de uma agulha”, coisa que só Deus, por meio de um milagre, poderia fazer (v. 24).161
157 Texto grego: (23) ~O de. VIhsou/j ei=pen toi/j maqhtai/j auvtou/\ avmh.n le,gw
u`mi/n o[ti plou,sioj dusko,lwj eivseleu,setai eivj th.n basilei,an tw/n
ouvranw/nÅ (24) pa,lin de. le,gw u`mi/n( euvkopw,tero,n evstin ka,mhlon dia.
truph,matoj r`afi,doj dielqei/n h' plou,sion eivselqei/n eivj th.n
basilei,an tou/ qeou/Å
158 Texto grego: (25) avkou,santej de. oi` maqhtai. evxeplh,ssonto sfo,dra
le,gontej\ ti,j a;ra du,natai swqh/naiÈ
159 Texto grego: (26)evmble,yaj de. o` VIhsou/j ei=pen auvtoi/j\ para. avnqrw,poij
tou/to avdu,nato,n evstin( para. de. qew/| pa,nta dunata,Å
160 Embora já tenhamos tratado disso, vale relembrar que a Semiótica Discursiva entende que há uma fase
conclusiva dos percursos narrativos que chama de “sanção”. Por “sanção cognitiva” se entende uma espécie de juízo final que é emitido por um sujeito sancionador, que interpreta positiva ou negativamente a ação principal da narrativa e sua adequação aos contratos estabelecidos, e reconhece ou desmascara o sujeito que é sancionado (Barros, 2011, p. 33-34). Neste caso, como o jovem não supera seus desafios, mas recua diante do contrato proposto por Jesus, ele é sancionado negativamente, sendo desmascarado como um sujeito rico, o que neste contexto é o mesmo que um sujeito ganancioso.
161 Warren Carter observa que a dificuldade do rico “entrar no reino” parece aumentar, passando de difícil no
versículo 23 para impossível (a não ser por milagre) no versículo seguinte (Carter, 2007, p. 563), mas esse resultado interpretativo só é possível se lermos “Reino dos Céus” (v. 23) e “Reino de Deus” (v. 24) como
Percebemos que a ênfase dada à questão econômica não diminui depois do afastamento do jovem rico. No novo diálogo que se dá entre Jesus e os discípulos estes últimos expressam surpresa, perguntando se alguém poderia se salvar diante de uma realidade tão dura (v. 25). Será que realmente a vida eterna é uma exclusividade dos poucos que são capazes de se fazer pobres? Jesus novamente recorre à fé, dizendo que este modo de vida aparentemente impossível, em que somente os absolutamente pobres e desprendidos são recompensados por Deus e herdam o reino, é algo que Deus pode fazer (v. 26). A inversão dos valores que o texto pede é um milagre, e ele admite isso. Esta unidade textual (v. 23-26), portanto, condena a riqueza de uma vez por todas, mas ao mesmo tempo reconhece quão rigoroso é o éthos desse seguimento de Jesus.162
E finalmente, o capítulo 19 de Mateus termina assim:
(27) Então, respondendo, Pedro disse a ele: “Eis que nós deixamos tudo e te
seguimos! Assim, o que será para nós?”.163
(28) E Jesus disse a eles: “Em verdade vos digo que vós, os que me tem
seguido no novo começo, quando se assentar o filho do homem sobre o trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos julgando as doze tribos de Israel. (29) E todo que deixou casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pais, ou
mães, ou filhos, ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e herdará a vida eterna. (30) E muitos primeiros serão últimos e últimos primeiros”.164
sinônimos. Deveras não há consenso sobre a razão de Mateus dar preferência a “Reino dos Céus”, modificando grande parte das passagens em que os demais evangelhos sinóticos trazem “Reino de Deus”. Em Mateus 19.23- 24 esse problema é particularmente complexo, pois o uso das duas formas se constitui numa dificuldade para qualquer uma das hipóteses que os estudiosos já apresentaram. Apesar de nossa simpatia pela hipótese defendida por Robert Foster em seu artigo chamado Why on Earth Use ‘Kingdom of Heaven’?: Matthew’s Terminology Revisited, em nossa opinião ele também não oferece uma saída satisfatória neste caso específico (2002, p. 495). Uma abordagem comparativa e valiosa sobre as mais importantes das hipóteses existentes foi feita por Jonathan T. Pennington, e sua leitura é importante para aqueles que procuram maior profundidade nesta questão (2007, p. 299-310).
162 Sobre esse éthos Gerd Theissen já escreveu muitas linhas em seus trabalhos sobre a sociologia do Movimento
de Jesus. Para ilustrar nosso estudo, citaremos algumas delas:
O radicalismo ético da tradição sinótica era um radicalismo itinerante que somente podia ser praticado sob condições extremas e marginais na vida. Unicamente quem estava desobrigado dos laços cotidianos do mundo, quem havia abandonado casa e bens, mulher e filhos, quem deixava aos mortos sepultar os mortos e tomava por paradigma os lírios e pássaros era capaz de praticar e transmitir esse éthos de modo convincente. (Theissen, 2008, p. 113)
163 Texto grego: (27)To,te avpokriqei.j o` Pe,troj ei=pen auvtw/|\ ivdou. h`mei/j
avfh,kamen pa,nta kai. hvkolouqh,same,n soi\ ti, a;ra e;stai h`mi/nÈ
164 Texto grego: (28) o` de. VIhsou/j ei=pen auvtoi/j\ avmh.n le,gw u`mi/n o[ti
u`mei/j oi` avkolouqh,sante,j moi evn th/| paliggenesi,a|( o[tan kaqi,sh| o` ui`o.j tou/ avnqrw,pou evpi. qro,nou do,xhj auvtou/( kaqh,sesqe kai. u`mei/j evpi. dw,deka qro,nouj kri,nontej ta.j dw,deka fula.j tou/
185
Lemos que Jesus fez declarações severas em relação às riquezas, demonstrando por argumentos religiosos que aqueles que aceitam a pobreza entram mais facilmente no reino (v. 23-24). Os discípulos, coletivamente, mostraram admiração ao saber quão difícil é o caminho da salvação (v. 25), mas Jesus não deixou de os motivar dizendo que com a ajuda divina tudo era possível (v. 26). Por motivo desconhecido, o autor agora não mais usa a voz coletiva dos discípulos de Jesus, mas prefere destacar Pedro, que fala em nome de todos (v. 27a). Pedro diz que ele e os demais discípulos deixaram tudo para seguir Jesus, ou seja, fizeram o que o jovem rico não fizera, escolheram o seguimento e a pobreza itinerante; agora eles querem saber que recompensa terão (v. 27b). A pergunta não poderia ser mais explícita em relação às expectativas de retribuição dos discípulos que aceitaram um contrato em que a pobreza imediata resultaria em riqueza vindoura. E a resposta já poderia ser obtida do diálogo de Jesus com o jovem rico, no qual vimos que, segundo a teologia mateana, guardar a lei, abdicar dos tesouros terrenos e seguir Jesus resultam em vida eterna, tesouros celestiais, e maturidade, que é um sinônimo de completude. A intenção do autor com esse retorno aos temas já trabalhados não é questionar a atenção dos discípulos ou sua capacidade de concentração; quer o texto outra vez opor Pedro e os demais pobres seguidores àquele rico que se afasta de Jesus, enfatizando por meio da repetição dos temas a economicamente radical teologia mateana.
Tratemos da resposta de Jesus à pergunta de Pedro falando uma vez mais das diferenças entre as versões de Mateus e Marcos: Marcos, que escreveu seu evangelho primeiro, traz a mesma dúvida sobre a recompensa dos discípulos que deixaram tudo para seguir Jesus em 10.28, e nos versículos 29 e 30 Jesus lhes responde dizendo que:
“[...] não há ninguém que deixou casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por minha causa e por causa do evangelho, que não receba neste tempo presente cem vezes mais casas e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos com perseguição, e para a era que vem, vida eterna.”165
VIsrah,lÅ (29) kai. pa/j o[stij avfh/ken oivki,aj h' avdelfou.j h' avdelfa.j
h' pate,ra h' mhte,ra h' te,kna h' avgrou.j e[neken tou/ ovno,mato,j mou(
e`katontaplasi,ona lh,myetai kai. zwh.n aivw,nion klhronomh,seiÅ (30) polloi.
de. e;sontai prw/toi e;scatoi kai. e;scatoi prw/toiÅ
165 Texto grego: (29) [...] ouvdei,j evstin o]j avfh/ken oivki,an h' avdelfou.j h'
avdelfa.j h' mhte,ra h' pate,ra h' te,kna h' avgrou.j e[neken evmou/ kai.
e[neken tou/ euvaggeli,ou( (30) eva.n mh. la,bh| e`katontaplasi,ona nu/n evn
tw/| kairw/| tou,tw| oivki,aj kai. avdelfou.j kai. avdelfa.j kai. mhte,raj kai. te,kna kai. avgrou.j meta. diwgmw/n( kai. evn tw/| aivw/ni tw/| evrcome,nw| zwh.n aivw,nionÅ
O que se vê é que nesse trecho de Marcos há uma promessa de recompensa material feita aos seguidores que se deve esperar já para este “tempo”. A vida eterna é a única promessa para o futuro escatológico. Isso não quer dizer que exista aí uma promessa de prosperidade a todo discípulo; parece que no Movimento de Jesus os seguidores doavam seus bens de maneira planejada, para os pobres ou pequeninos que compõem o próprio Reino de Deus na terra, e dessa prática igualitária se esperava também colher benefícios (Aguirre Monasterio, 2009, p. 94-95). Noutras palavras, o seguidor entregava suas posses para o domínio coletivo, modelo socioeconômico que é apresentado com mais clareza em Atos dos Apóstolos 4.32-37. Assim, ao entrar para o Reino o seguidor perdia tudo o que era unicamente seu, mas em compensação, tinha direito a todos os bens coletivos, e por isso era- lhe possível ter cem casas, cem mães, cem irmãos, cem filhos etc. Mateus, em 19.28-29, faz nesse texto mateano uma modificação radical ao transferir todas as promessas para o futuro escatológico, para o tempo que se segue àquele em que o “filho do homem se assentar sobre o trono da sua glória” (Mateus 25.31-46). Em Mateus, Jesus não ameniza a escassez dos discípulos dizendo que há um tesouro comunitário capaz de assistir de alguma forma os seguidores; aquela história de cem vezes mais casas, campos, mães e irmãos, passa a ser parte do tesouro celestial.
O dito do versículo 30, se lido também em perspectiva escatológica, nos leva a ver outro incentivo religioso à adesão plena no movimento dos pobres de Jesus. A promessa de recompensas feita nos versículos 28 e 29 são os elementos que tornarão alguém um “primeiro” depois do juízo. Tanto econômica quanto socialmente, os miseráveis voluntários que seguiram Jesus no “novo começo” seriam primeiros, seriam os proprietários dos tesouros celestiais, os honrados benditos do Pai celestial (Mt 25.34).
Encerrando essa primeira seção de análises do nosso quarto capítulo, lembremos que nosso objetivo era demonstrar principalmente através da narrativa do jovem rico que Mateus escolheu um modo particular de estigmatizar seus rivais. O apego ao dinheiro, às propriedades, à estabilidade econômica, ao status social etc., já eram vistos negativamente nas páginas do Evangelho de Marcos, e provavelmente no próprio movimento do Jesus histórico; mas o autor de Mateus se apropriou do elogio à pobreza já tradicional daquela tradição religiosa para criar uma oposição econômica entre aqueles que ele considerava bons discípulos de Jesus e os adversários deles, que quase sempre eram escribas e fariseus gananciosos. Em Mateus, o grande erro daqueles sujeitos que eram líderes religiosos era o modo como eles avaliavam os tesouros terrenos e procuravam aliar sua ambição à religião.
187
Segundo Mateus, mesmo quando externamente eles demonstravam piedade religiosa, estavam fazendo tudo por recompensas humanas (Mt 6.1-18). Consequentemente, a ambição dos escribas e dos fariseus era o fator que os impedia de aceitar o ethos do movimento itinerante de Jesus, e a riqueza se revela assim como o maior empecilho rumo à vida eterna.
Vimos também que os discípulos que então estavam com Jesus e que seriam recompensados no futuro escatológico eram aqueles que haviam deixado tudo para trás, e vimos que o jovem e os demais religiosos que se afastaram de Jesus eram aqueles que tinham muitos bens, que esperavam por heranças, que queriam assegurar o próprio futuro econômico, que estavam presos aos desejos de riqueza e status social. A conclusão só podia ser essa: os ricos e os que buscavam riquezas não entravam no reino, mesmo quando esses ricos se diziam “filhos de Abraão” (Mt 3.9). Nesse contexto, a caridade era um instrumento eficaz para demonstrar desprendimento em relação aos bens materiais, como também para amenizar o sofrimento dos “pequeninos” que haviam aceitado a pobreza voluntária ou involuntariamente para ser parte grupo que se dizia parte do Reino dos Céus. A seguir, voltaremos definitivamente para o capítulo 6 do evangelho para verificar, analisando sua linguagem, quão demoníaco pode ser o dinheiro conforme o discurso econômico do Evangelho de Mateus.