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Kapittel 3 - Metode og forskningsdesign

4.3 Fiskars Redskapsfabrikk i Nydalen Fiskars Redskapsfabrikk

(21) Jesus declarou a ele: "Se tu queres ser maduro, vai, vende do teu o que há

e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu, e agora segue-me".152

(22) E o jovem tendo ouvido a palavra partiu entristecido; pois estava

possuindo muitas propriedades.153

O diálogo entre os dois personagens continua a partir do versículo 21. Em resposta à última pergunta do jovem (qual ainda me falta?) Jesus faz uma declaração, e esta é de suma importância, pois pretende não substituir os preceitos judaicos tradicionais que antes foram

152 Texto grego: (21)e;fh auvtw/| o` VIhsou/j\ eiv qe,leij te,leioj ei=nai( u[page

pw,lhso,n sou ta. u`pa,rconta kai. do.j Îtoi/jÐ ptwcoi/j( kai. e[xeij qhsauro.n evn ouvranoi/j( kai. deu/ro avkolou,qei moiÅ

153 Texto grego: (22)avkou,saj de. o` neani,skoj to.n lo,gon avph/lqen lupou,menoj\

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listados, mas excedê-los, conforme a proposta de Frank Kermode (1997, p. 419-424). Através desse constante impulso à excedência, à prática de uma justiça superior, o discurso mateano pretende afirmar a superioridade de seu judaísmo em relação àquele de seus rivais (Mt 5.20), que é indiretamente declarado um judaísmo incompleto.

Segundo Jesus, faltava ao jovem ser completo, ou perfeito, como a maioria das versões brasileiras traduzem o adjetivo grego te,leioj. Pensando na incompletude da religião que guarda os mandamentos, tema desenvolvido no interior da narrativa, também optaríamos por “completo”, não fosse por um detalhe: somente na versão mateana o personagem que busca as respostas em Jesus é chamado de “jovem” (neani,skoj), e tal modificação imposta à tradição literária não parece ser impensada. O autor, ao fazer do “homem” de Marcos um “jovem”, coerentemente adequou outros pontos do texto, como por exemplo, aquele em que o jovem diz que guardava os mandamentos com as palavras “Todos esses observei” (v. 19). Na versão do Evangelho de Marcos o homem responde dizendo: “Todos esses observei desde a minha juventude” (Mc 10.20). Obviamente, o “jovem” de Mateus não poderia se vangloriar pelo longo tempo em que era observante da Lei como faz o “homem” de Marcos. E entendendo que a pouca idade do personagem é um elemento intencional, optamos por traduzir te,leioj por “maduro”, uma acepção perfeitamente possível154 e que permite reconhecer o jogo linguístico mateano que usa o grego para fazer simultaneamente e com poucas palavras duas oposições semânticas: a juventude está em oposição à maturidade, e a incompletude em oposição à completude (Luz, 2003, p. 169). A Semiótica diria se tratar de um conector de isotopias, ou seja, de um termo que abre caminho para mais de uma leitura simultânea.155

Assim, em português nossa tradução inevitavelmente imporá limites interpretativos impróprios, posto que não há em nosso idioma uma palavra que possa expressar de uma vez só, como o adjetivo grego te,leioj, tanto a maturidade quanto a completude.

Perseguindo a vida eterna, o jovem judeu observante da lei deveria agora buscar algo novo, a maturidade, estado que aqui não somente denota mais anos vividos como também traduz o ideal mateano de vida. O evangelho não só incentiva a observância dos mandamentos como espera excedê-los a fim de que os discípulos (leitores/ouvintes) alcançassem a

154 De acordo com o Dicionário do Grego do Novo Testamento de Carlo Rusconi o adjetivo grego caracteriza

indivíduos que alcançaram a própria completude, indivíduos acabados, maduros, perfeitos (2005, p. 452).

155 Citamos as palavras de José Luiz Fiorin para definir isotopia: “O que dá coerência semântica a um texto e o

que faz dele uma unidade é a reiteração, a redundância, a repetição, a recorrência de traços semânticos ao longo do discurso. Esse fenômeno recebe o nome de isotopia” (2005, p. 112). Veja também: (Barros, 2011, p. 74-77; Zabatiero, 2007, p. 99).

completude. Essa excedência obviamente possuía uma expressão pragmática, que é explicitada quando Jesus sugere ao jovem: “vai, vende do teu o que há e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu, e agora segue-me”. Voltamos a ouvir o autor de Mateus falando de caridade, de ajuda aos pobres, de assistência aos mais pequeninos, e novamente a motivação para tal atitude aparentemente altruísta não se pauta na condição alheia, e sim no desejo pessoal de se tornar um sujeito completo que conquista a vida eterna e adquire um tesouro no céu. Quando lemos “vende do teu”, devemos compreender que Jesus está falando do tesouro terreno do jovem, do seu depósito de bens, que deveria ser trocado por tesouros celestiais, como veremos com mais detalhes quando estudarmos Mateus 6.19-21. É importante notar que a religiosidade da excedência proposta por Mateus acrescenta a oferta de um tesouro celestial para convencer o jovem a aceitar a pobreza, invertendo assim, no seu horizonte utópico, os valores socialmente estabelecidos em relação a status social e posses materiais. Lembremos que na lógica retributiva que está por trás do discurso mateano essa ação é um benefício praticado para o próprio Deus, que como patrono celestial tem a obrigação de retribuir a boa obra praticada, nem que seja no futuro escatológico. Essa promessa literalmente tenta o jovem, procura manipulá-lo através da oferta de um valor desejável que só pode ser obtido se ele aceitar o contrato proposto (Fiorin, 2005, p. 29-30). Em suma, a vida eterna é alvo comum entre judeus, sejam mateanos ou fariseus, e concorda-se que ela deve ser adquirida pela observância dos mandamentos em ambas as tradições religiosas; porém, Jesus propõe novos e duros desafios.

Tanto a vida eterna quanto os tesouros celestiais, recompensas devidas àqueles que guardam os mandamentos e abdicam dos interesses econômicos da vida para seguir Jesus, são promessas escatológicas, compensadores religiosos, substitutos intangíveis para os bens concretos que a maioria das pessoas busca conquistar (Stark; Bainbridge, 2008, p. 48). Só quem poderia oferecer tais recompensas na religiosidade mateana era Deus, o patrono legítimo e confiável, e isso num tempo futuro que eles deviam aguardar com esperanças apocalípticas. Para o tempo presente eles deviam se fazer pobres voluntariamente, ou na linguagem mateana, tornarem-se “pobres pelo espírito” (Mt 5.3)156 e seguir Jesus (ou sua

156 Sabe-se que o “em espírito” que geralmente segue ao substantivo “pobres” em nossas Bíblias é um acréscimo

mateano, e que o texto de Lucas, mais próximo da fonte Q, é mais direto ao se referir simplesmente aos “pobres”. Também encontramos esta primeira bem-aventurança no dito 54 do Evangelho de Tomé, outra vez sem o acréscimo “em espírito”. Quanto à tradução, seguimos Paulo Roberto Garcia que entende que o artigo definido da frase tw/| pneu,mati está no caso instrumental, o que nos leva a entender a expressão como “por meio do espírito” ou “por causa do espírito”, ou algo assim (Garcia, 1995, p. 50-52; Lima, 2010, p. 107-111).

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ideologia após sua morte) contando com a providência divina para lhes conceder o suprimento necessário (Mt 6.25-35).

Aí o elemento econômico mais relevante do texto aparece. No versículo 22 o narrador reassume o controle da enunciação dizendo que o jovem, “tendo ouvido a palavra partiu entristecido; pois estava possuindo muitas propriedades”. O convite ao seguimento foi recusado e isso porque ele, como (provável) representante da religiosidade farisaica, valoriza excessivamente os seus bens, suas propriedades, o poder e o status que tais posses traziam naquela sociedade. O quadro de valores do jovem não coincide com o de Jesus: intregrado à cultura da reciprocidade que exalta ricos proprietários ao nível de patronos, ele considera suas posses valiosas demais para abrir mão delas, e não aceita um contrato em que deve abdicar da riqueza em troca de tesouros intangíveis. De sua parte, o Jesus de Mateus não quer ser um patrono rico, antes, quer ser um fiel cliente de Deus, desprezando os valores concretos, escolhendo viver a partir de expectativas religiosas. Diante dessa incompatibilidade de valores o contrato proposto por Jesus é recusado; o jovem se afasta e abre mão da companhia de Jesus, da maturidade ou completude, dos supostos tesouros celestiais e também da própria vida eterna. Todos os contratos religiosos que o leitor deve ter como confiáveis foram quebrados, consequentemente o jovem permaneceria em disjunção com a vida, pois preferia a riqueza, coisas que na perspectiva mateana eram inconciliáveis.

Esse é sem dúvida nenhuma um final frustrante, e o texto traduz este resultado por meio de um sentimento, dizendo que o jovem “partiu entristecido”. O jovem demonstrou ser mais fácil guardar os mandamentos, como os fariseus faziam, do que praticar a excedência de justiça abdicando das suas propriedades para ajudar os pobres e seguir Jesus. Ele estava demasiadamente envolvido no sistema econômico clientelista e como os hipócritas que buscavam recompensas terrenas; desse modo, apesar das ofertas tentadoras de Jesus, ele não foi capaz de atingir seus objetivos. No fim da história o protagonista é derrotado.

Empregando uma vez mais a Semiótica em favor de nossa análise, vamos recorrer a um novo quadro comparativo que exibe os percursos da narrativa:

Destinador Estabelece o Objetivo Vida Eterna

Ação 1 Exigência Guardar Mandamentos Sociais

Exigência Pobreza Voluntária e Seguimento

Ação 2 Tentativa de Manipulação Ofertas de Maturidade e Tesouros Celestiais

Resultado Fracasso = Não integração a Jesus

Sancionador Punição / Sanção Negativa Tristeza = Morte Eterna

No quadro acima separamos cada um dos três percursos previstos pelo esquema narrativo canônico, sendo que nas linhas centrais temos o percurso da ação dividido em duas partes, cada uma estruturada em torno de uma pergunta do jovem e uma resposta de Jesus. Como já vimos, o jovem já estava em busca de seu objetivo, a vida eterna, missão em que se envolvera como resultado de um contrato pré-estabelecido com o judaísmo. O jovem procura Jesus para ter sua competência (saber) transformada, e assim Jesus assume na narrativa um papel temático bem definido, o de mestre. Na primeira parte do percurso da ação, Jesus ensina algo que o jovem já sabia, que o caminho para a vida eterna era o caminho da observância dos mandamentos, pelo que podemos dizer que o jovem alcança seu primeiro objetivo com sucesso, se encontra em conjunção com a tradição religiosa judaica e com a promessa de vida eterna que esta faz. Todavia, ele nota que ainda haviam outros mandamentos, que aquela resposta estava incompleta, e isso abre a oportunidade para que Jesus exponha a incompletude do judaísmo, que só lhe ensinara parte do caminho. Jesus oferece novos valores para convencer o jovem a aceitar um novo contrato religioso, o qual não somente lhe permitiria alcançar a vida eterna, mas também lhe daria tesouros no céu e o faria um sujeito maduro. O jovem parece se interessar pelas ofertas, mas recua diante das exigências de abdicar de suas propriedades para estar em conjunção com Jesus e seus discípulos. Seria necessário ao jovem vender suas terras e distribuir aos pobres seus tesouros para que a partir do completo desprendimento social e econômico ele pudesse se dedicar a seguir Jesus como fizeram Pedro, André, João, Tiago e Mateus. Diz o texto que o tal jovem rico desiste de sua nova missão, rejeita o contrato, se afasta de Jesus e termina o texto destinado à incompletude, à pobreza celestial e, principalmente, à morte eterna. Esse percurso final que traz as sanções permanecerá implícito, mas podemos supor com segurança que o personagem está entre aqueles que serão chamados de “cabritos” ou “malditos”, conforma a perspectiva escatológica que o autor de Mateus nos dá no capítulo 25.

De especial valor é o fato de Jesus extrapolar seu papel temático inicial de mestre e passar mesmo a atuar como um novo destinador, que quer manipular o jovem com um novo

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contrato que excede o anterior. Isso faz de Jesus um anti-sujeito típico, que conflita com o judaísmo farisaico em busca de discípulos ou seguidores. Ambos manipulam seus destinatários com ofertas de vida eterna, ambos exigem a adesão aos mandamentos da tradição escrita, mas a diferença se dá na oferta de tesouros. O judaísmo “deles” não pede a disjunção com as riquezas, pelo que os fariseus podem seguir buscando a vida eterna e as recompensas terrenas que adquiriam bajulando os patronos dos ambientes urbanos do Império. Por outro lado, Jesus exige pobreza voluntária, solidariedade extrema em troca de uma filiação com o seu confiável patrono divino e seus tesouros celestiais.

Essa conclusão do versículo 22, que nos explica ser a riqueza o motivo do fracasso do jovem e a razão de sua tristeza, é a maior intervenção direta do narrador em todo o texto. Até aqui ele deixara tudo por conta de seus personagens, mas no final decide explicar ao leitor algo que só mesmo esse onisciente enunciador poderia saber: que o jovem não aceitou o convite de Jesus por ser rico. Não só o uso da tristeza, como toda a estratégia de deixar os personagens interagirem por si na maior parte do tempo, deram ao texto um tom mais passional, além de criarem o que podemos chamar de efeito de realidade. São os resultados desse abundante uso da voz dos próprios personagens, recurso que a Semiótica entende como uma forma de ancoragem, que se dá quando o narrador procura “atar o discurso a pessoas, espaços e datas que o receptor reconhece como ‘reais’ ou ‘existentes’” (Barros, 2011, p. 60).

O texto nos havia ensinado que a completude e a vida eterna eram valores positivos. O protagonista aparentemente assimilou tais valores, porém, não foi capaz de considerar os bens materiais que possuía sem valor. Assim, para ele, as propriedades que tinha continuaram concorrendo com os tesouros celestiais e com o desejável estado de completude. O leitor dessa narrativa sempre compreenderá que o jovem, ao não seguir as instruções de Jesus e se afastar, fizera a escolha errada, e estará sendo convidado a pensar sua própria relação com os bens materiais. O conteúdo está, portanto, em perfeita harmonia com o que já expusemos sobre a ideologia econômica do Evangelho de Mateus.

Nesse enredo de final frustrante os elementos econômicos novamente assumiram um papel decisivo; foi o apego às posses materiais que levaram o jovem ao fracasso. Este jovem, que identificamos como um judeu aproximado à tradição farisaica encenou diante de nós um papel que o discurso mateano considera típico, o de escribas e fariseus que se orgulham de guardar a Lei, mas que erram por sua ligação doentia com os tesouros da terra. Esse é, segundo Mateus, o motivo pelo qual eles não podem seguir Jesus, que se caracteriza como um

Messias peripatético que vive apenas com o pão necessário a cada dia (Mt 6.11). Esse é o modo mateano de estigmatizar economicamente seus vilões.

Em relação à linguagem econômica, a herança marcana parece ter afastado o discurso das expressões típicas da linguagem urbana e retributiva do antigo Mundo Mediterrâneo; aqui ninguém foi chamado de patrono ou cliente, ninguém é escravo ou liberto, ninguém procura trabalho no “mercado” nem lida com talentos e denários. Mas isso não quer dizer que aquele mesmo pano de fundo extratextual não esteja presente nesse texto coletado de Marcos. Nossa leitura das questões econômicas procurou ser coerente às anteriores, pois mesmo que o cenário marcano dessa passagem seja menos urbano, ele não distoa do mundo do texto que se pretendia criar. Mateus não procurou urbanizar a linguagem marcana; fez Jesus encontrar o jovem num cenário neutro em meio a suas missões peripatéticas, mas não perdeu de vista a ênfase econômica. Sua mais evidente preocupação redacional se dá na direção de deslegitimatizar explicitamente seus adversários, nomeando ou descrevendo como fariseus, escribas e hipócritas pessoas cujas identididades antes não eram definidas.