2.3 K ARAKTER OG KARAKTERSTYRKER
2.3.4 Krigsskolens 12 utvalgte karakterstyrker
As ilhas oceânicas são geralmente pobres em fauna herpetológica (Klemmer, 1976). A maioria das ilhas atlânticas nem sequer possuem répteis de grande porte como crocodilos e as serpentes são raras (Bertin 1946). Em contrapartida apresentam um número relativamente grande de lagartos, lagartixas e osgas. Embora, em termos de número de géneros ou espécies
não possam rivalizar com outros grupo animais ou insectos, eles não são menos importantes do ponto de vista biogeográfico.
3.1.1. Arquipélago da Madeira
No Arquipélago da Madeira e Selvagens existe um pequeno lacertídeo que é o único vertebrado não voador endémico (Sadek, 1981). Mertens (1938) definiu uma subespécie melânica com dimensões menores na Deserta Grande - Lacerta dugesii mauli Mertens(1938). Bischoff et al. (1989) definiu três subespécies endémicas, Lacerta dugesii dugesii (Madeira e Desertas), Lacerta dugesii selvagensis (Selvagens) e Lacerta dugesii jogeri (Porto Santo). Segundo González et al. (1996) a separação subespecífica das populações das Selvagens e da Madeira é bem suportada ao nível molecular.
Na Ilha da Madeira tem sido referida a presença de osgas, dadas como pertencentes à espécie Tarentola mauritanica (Báez & Biscoito, 1993) (Tabela 4). Sendo quase certa a sua introdução a partir da Europa (Harris et al., 2004a), a espécie parece estar a expandir-se nos últimos anos.
Joger (1984a) refere ainda a existência de osgas do subgénero Makariogecko (subgénero primitivo) na Madeira, mas esta observação nunca foi confirmada posteriormente e nós também não a confirmamos.
Outras espécies de répteis como Chalcides viridanus e Calcides sexlineatus foram referidas erroneamente, ou carecem de confirmação para o Arquipélago Madeira (Báez & Sanchez- Pinto, 1983; Bertin, 1943; Mateo, 1997b). Pasteur et al. (1988) afirmam que não existem espécies deste género na Madeira e que as referências devem-se provavelmente a trocas ou mal etiquetagem das amostras.
Bertin (1943) referiu que Lacerta dugesii terá existido nas Canárias e Gallotia galloti (género endémico do Arquipélago das Canárias) na Madeira. A presença de Gallotia na Madeira foi também referida por Bischoff (1997). Esta nunca foi devidamente provada e a realidade evidencia o contrário. É provável que nestes casos tenha havido troca de especímenes ou mal etiquetagem das amostras (opinião partilhada por Sarmento, 1948). Mais recentemente, a espécie é referida novamente para a Madeira por Bischoff (1998), mas uma vez mais não a confirmamos. Gallotia galloti é bem maior e diferencia-se bem de L.dugesii. Durante a nossa longa experiência de campo, nunca encontramos alguma Gallotia galloti. Pode ainda dar-se que a referência tenha sido ocasional e decorrente duma introdução ocasional e sem sucesso. Apesar de nunca ter sido capturado nenhum destes indivíduos na Ilha da
Madeira, na base de dados do “EMBL Reptile database”1 voltamos a encontrar a referência de G. galloti para a Madeira, G. caesaris e Chalcides viridanus todas fruto de introduções. García- Talavera (1998) volta a referir a existência de Chalcides spp. na Madeira. Nunca presenciamos nenhum exemplar e duvidamos seriamente que alguma vez tenha existido.
Lacerta dugesii terá sido introduzida em Lisboa (Mateo, 1997b; Sá-Sousa, 1995) e nos
Açores (Bertin 1946; Dellinger, 1997; Malkmus, 1984; Mateo, 1997b; Mertens, 1934; Rosa & Crespo, 1997). Neste último arquipélago a introdução está documentada, cerca do ano de 1860 nas ilhas dos grupos Central e Oriental, não se encontrando no grupo ocidental (Dellinger, 1997). Dellinger (1997) refere ainda que existe a possibilidade da introdução antropogénica desta espécie nas Selvagens o que, como veremos é impossível.
ESPÉCIES Madeira Porto
Santo Ilhéu Chão Deserta grande Bugio Lacerta dugesii ● ● ● ● ●
Tarentola bischoffi Introduzida *
Tarentola mauritanica Introduzida
Hemidactylus mabouia Introduzida
Tabela 4. Espécies presentes no Arquipélago da Madeira. Fontes: Observações próprias; Cook (1979); Dellinger (1997); Geniez, (1997); Guerrero et al., 1997; Sadek (1981); Sarmento (1948); (“EMBL Reptile database”: http://www.embl- heidelberg.de/~uetz/LivingReptiles.html) * pouco credível segundo Nogales et al (1998)
É referida também para a Ilha da Madeira Tarentola bischoffii (Joger, 1985). Mas a existir, cremos que não devem ser organismos estabelecidos mas ocasionais (Tabela 4). Mesmo assim temos as nossas dúvidas sobre uma potencial troca de amostras. Nogales et al. (1998) referem que não existe nenhuma indicação que sugira a sua presença na Ilha da Madeira e nós corroboramos inteiramente esta opinião.
3.1.2. Arquipélago das Selvagens
A osga das Selvagens apresenta afinidades com algumas das suas congéneres canárias e caboverdeanas, nomeadamente com Tarentola boettgeri. Diferencia-se desta osga canária pela cor do olho (mais clara), presença de tubérculos carenados, baixo número de escamas interorbitais e pelo baixo número de lamelas subdigitais (Geniez, 1987).
Antes de 1984, a osga das Selvagens era considerada como pertencente à espécie
Tarentola delalandii. Nesse mesmo ano foi considerada como uma subespécie de Tarentola boettgeri, i.e. Tarentola boettgeri bischoffi. É, também neste ano que é elevada ao estatuto de
espécie distinta devido às diferenças existentes em certos caracteres proteicos e imunológicos
A osga das Selvagens foi estudada bioquímica e imunologicamente por Joger (1985) que lhe atribuiu o nome de Tarentola bischoffi. Já em 1984, o autor tinha publicado um trabalho com estudos imunológicos da espécie, dando-lhe o nome de Tarentola (Makariogecko) boettgeri. Este autor considera muito provável que Tarentola bischoffi constitua a espécie mais primitiva da radiação do género Tarentola das Canárias e Cabo Verde. Assim, com base neste trabalho, ele defende que a expansão das osgas nas Canárias se tenha dado de Norte para Sul. A outra espécie de réptil que se encontra neste arquipélago é Lacerta dugesii (Tabela 5)
ESPÉCIES Selvagem Grande Selvagem Pequena
Lacerta dugesii ● ●
Tarentola bischoffi ● ●
Tabela 5. Espécies presentes no Arquipélago das Selvagens. Fontes: Cook (1979); Dellinger (1997); Geniez (1997); Guerrero et al. (1997); Sadek (1981).
3.1.3. Arquipélago de Cabo Verde
Segundo Angel (1935), os primeiros trabalhos realizados com a fauna do Arquipélago de Cabo Verde são dados por Lopez de Lima nos seus trabalhos estatísticos sobre as possessões portuguesas datados de 1844 e 1846. É referido nestes trabalhos a presença de muitas tartarugas marinhas e ausência de serpentes. Só em 1896 Barboza du Bocage publica uma lista comentada dos répteis de Cabo Verde (Angel , 1935).
Bertin (1946) refere para Cabo Verde a existência de espécies pertencentes aos géneros Tarentola, Mabuya, Hemidactylus e Macroscincus. Erradamente ou não, este autor refere a existência de Mabuya fogoensis para o Fogo. Embora tenha este restritivo específico, em estudos recentes não se faz alusão à sua existência na ilha do Fogo.
Além das espécies referidas na Tabela 6, Bertin(1946), refere ainda a existência de
Hemidactylus boavistensis (Boavista) e Hemidactilus chevalieri (Sal), provavelmente formas de H. bouvieri. Quanto às osgas do género Tarentola, Bertin (1946) considera apenas a existência de 2
espécies, T. gigas e T. delalandei (subespécies: delalandei, rudis e boettgeri). A literatura mais recente está mais de acordo com a Tabela 6 do que com a classificação de Bertin (1946).
Mertens (1934) refere que a herpetofauna destas ilhas apresenta uma maior influência etiópica enquanto que nas outras ilhas da Macaronésica, a influência é essencialmente europeia.
Hemidactilus bouvieri parece estar em risco de extinção no ilhéu de Santa Luzia. É
riqueza herpetofaunística das ilhas Desertas deste arquipélago, com várias espécies e subespécies endémicas (Santa Luzia, Razo e Branco) (Mateo et al., 1997; Schleich, 1987) dado a sua pequenez.
Em Cabo Verde houve referências a cágados no Ilhéu de Santa Maria, ou num ilhéu da Baia da Praia (Bertin, 1943), nunca tendo sido capturados quaisquer exemplares.
Parece ter existido neste Arquipélago, mais precisamente no Ilhéu Branco e Ilhéu Raso (Bertin, 1943; Greer, 1976), uma forma gigante de escincídeo Macroscincus coctei (Duméril & Bibron, 1839), entretanto extinta há cerca de um século (Andreone, 2000; Andreone & Guarino, 2003). Esta espécie com mais de 50 cm terá sido designada de Macroscincus por Bocage em 1873, em vez de Euprepis como havia sido designada por Duméril e Bibron que a descreveu a partir de um indivíduo de origem desconhecida (Peracca, 1891). Andreone & Guarino (2003), ao medirem onze machos e quinze fêmeas da colecção do Museu de Zoologia de Turim (Itália), verificaram que os comprimentos entre o focinho e a cloaca oscilavam entre os 283 mm nos machos e 255 mm nas fêmeas e que tinham idades máximas entre 12 anos nas fêmeas e 16 nos machos. Carranza et al. (2001) chegaram a considerá-la como uma forma especializada de Mabuya.
É curioso que Bertin (1943) nunca refira que M.coctei está extinto, afirmando a determinado momento « …il doit être signalé comme survivance ou relique d’un groupe de scinques à nombreux ecailles qui devait exister à l’ époque Miocène ».
Contudo esta constatação da sua não extinção deverá ser considerada com muito cuidado, pois Bertin parece errar em muitos outros aspectos, como a referência de Gallotia spp. (Sauria: Lacertidae). e Chalcides spp. (Sauria: Scincidae) para a Madeira.
Outro dado curioso está relacionado com Tarentola annularis que apesar de constar da “EMBL Reptile database”1 não foi nunca referida por Carranza et al. (2001) nem nós a encontramos nas duas missões ao Arquipélago de Cabo Verde.
3.1.4. São Tomé e Príncipe e Annobon
Em 1999, Jonathan Baillie visitou a Ilha do Príncipe essencialmente para observar aves, e no seu “diário” relata que a única espécie de lagarto encontrada na manta morta das florestas primárias e secundárias é Panaspis africana 2.
1 http://www.embl-heidelberg.de/~uetz/LivingReptiles.html 2 http://ggcg.st/jon_principe.htm
ESPÉCIES SA SV SL BR Rz SN Sal BV M St SM F B Rh Mabuya delalandii ● ● ● ● ● ● Mabuya fogoensis ● ● ● ● ? Mabuya stangeri ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● Mabuya salensis ● ● Mabuya spinalis ● ● ? ● Mabuya vaillanti ● ● ● Tarentola caboverdiana ● ● ●? ●? ● ● Tarentola rudis ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● Tarentola Darwin ? ? ● ● Tarentola gigas ● ● ●? ●? Hemidactylus bouvieri ● ● ● ● ● ● ● ● ● ● Hemidactylus brooki ● ● ● ● ● ● ● ● ● ●
Tabela 6. Espécies dadas para o Arquipélago de Cabo Verde. SA- Santo Antão; SV- São Vicente; SL- Santa Luzia; Br- Branco; Rz- Razo; SN- São Nicolau; BV- Boa Vista; M- Maio; St- Santiago; SM- Santa Maria; F- Fogo; B- Brava; Rh- Rombos Fontes: Observações próprias; Angel (1935); Bocage, 1875; Boulenger (1887); Brown et al. (2001); Greer, 1976; Guerrero et al 1997; Joger (1993); Mateo et al. (1997); Mertens, (1934, 1955); Pinheiro (1989, 1990); Schleich (1987).
É pouco provável a existência da cobra venenosa Dendraspis spp. como havia sido por Bocage (1904-1905) e Mertens (1934). Pode ter-se dado o caso de ter sido confundida com pequenas cobras esverdeadas existentes no arquipélago e pertencentes ao género Philothamnus de nome vulgar Soá-Soá. Leonard Fea1 designou a forma de São Tomé por Dendrophis
jamesoni, que significava mamba-soá-soá que seria assim uma forma híbrida. Não queremos
deixar contudo uma pequena advertência do facto de que muitos curadores de museu, poderão ter recebido amostras incorrectamente identificadas e etiquetadas, dando origem a muitos mal-entendidos que prevalecem até hoje.
Também na “EMBL Reptile database”2 é feita referência a Pelusios subniger e não a
Pelusius castaneus que já havia sido mencionada por Bocage (1904-1905) e Mertens (1934).
Mertens (1934) refere o pouco conhecimento da herpetofauna de Annobon e esta constatação parece válida até aos nossos dias (Tabela 7).
Neste capítulo tentaremos identificar aquelas espécies utilizadas nesta dissertação. As sinonímias e subespécies foram baseadas em dados oriundos da “EMBL Reptile database”. As descrições encontram-se essencialmente em anexo.