• No results found

Kravene til subjektiv skyld

A mulher tem, no geral, uma imagem predefinida pela sociedade, em que ela se deve comportar e falar, entre outras coisas, de determinada forma, caso contrário, se ela já faz parte de uma um grupo excluído, nomeadamente, o “outro”, ela será ainda mais diferenciada do grupo dominante. Mas como é óbvio, a tentativa de dominação por parte do homem não se estende só a um tipo de mulher, é a todas, incluindo as artistas. Tal como Marleen Gorris afirma numa entrevista a Augusta Palmer:

But there again, some people said, "This film is so different from your previous ones that we can't like this; we can't allow this." So, you know, I thought to myself, Well, as a matter of fact it's not a question of permitting me or allowing

me to make films. I make

the films that I want to make and the audience will see what they do. If they don't like it, well that's okay, they don't. If they do like it, great. But I think you should at least allow the artist the freedom of speech; the freedom to do what she or he wants to do. (Entrevista com Augusta Palmer)

Assim, Fisher argumenta que Potter quebrou com o padrão das artistas femininas, em que, normalmente, fazem a passagem de estrela de cinema/atriz para realizadora, como Jeanne Moreau,

120 Ida Lupino, e Barbra Streisand (Fisher, 2004:46). Potter faz o caminho inverso, ela é primeiro realizadora, e só depois é que se torna a protagonista do seu próprio filme. É engraçado como isto se assemelha de alguma forma aos cameos de Alfred Hitchcock, em que ele fazia pequenas aparições nos seus filmes, como forma de assinatura. Fisher estabelece também uma ligação com artistas que exploraram, no mesmo sentido que Potter, o cinema experimental em que se focavam no seu estatuto de dançarinas e cineastas, como Maya Deren, Yvonne Rainer, Amy Greenfield, Doris Chase, e Kathy Rose (Fisher, 2004:46). No mesmo parágrafo, Fisher comenta que o facto de haver uma grande atenção à dança, no filme de Potter, ela vai-se aproxima do cinema dominante. Mas porque é que Sally Potter escolheu ser a protagonista do seu próprio filme?

De todos os filmes, Sally possui uma característica que a une a Antonia (Antonia’s Line, 1995) e Clarissa (Mrs. Dalloway, 1997), pois as três resultam de uma representação de uma mulher mais madura e experiente, ao contrário de Ada (The Piano, 1993), Isabel (The Portrait of a Lady, 1996) e Orlando (Orlando, 1992), que são um retrato da mulher jovem e no auge da sua beleza. Ebert no seu texto comenta que Sally Potter foi fortemente criticada por ser uma mulher madura, que decidiu ser protagonista do seu próprio filme, e viver uma história de amor com um bailarino de tango. Como Ebert afirma, a questão que muitos colocaram foi: será que ela será boa o suficiente para ser parceira de um dançarino tão qualificado e jovem? As críticas à personagem feminina centram-se na sua idade e na sua capacidade de dançar, o que eu acho que é uma forma de castigo, pela vontade de Sally em querer aprender uma dança que pertence a uma cultura diferente da sua. Por exemplo, quando o taxista fica incrédulo com a associação de Potter ao tango, e duvida que ela seja capaz de sentir como uma verdadeira “dançarina” (provavelmente, alguém que pertença a uma cultura em que o tango é uma parte importante) a emoção do tango, e da cultura argentina. No seu texto Fisher fala sobre este assunto. Para Fisher, Potter ocupa uma posição em que ela usurpa um “artefacto cultural estrangeiro” (2004:51/2). Em Buenos Aires, alguém questiona Potter sobre a sua identidade inglesa, como se estivesse a sugerir que ela não estaria no seu “habitat” normal. E o taxista também questiona a paixão de Sally pelo tango, pois para ele aquele que dança e compreende o tango tem de ser um sofredor. É como se a nacionalidade, neste caso, fosse um impedimento à confraternização entre diferentes culturas, e sobretudo, mais um obstáculo da mulher.

Numa entrevista com Augusta Palmer, a realizadora Sally Potter explica quais foram os fatores que a levaram a auto escolher-se para desempenhar este papel no filme:

Well, I'm not sure who could have played me better. There was a kind of inevitability about it, really. It had to be someone close to my age, in order to have the life experience to be an experienced diretor. It had to be someone who was English to create the maximum cultural contrast with the fiery Latin American (Pablo Veron). And someone who

121

had already reached a professional level at the authentic Argentinean tango, which takes at least 2-3 years of studying, so that in the story we can see somebody graduate from the stumbling first steps to credibly performing on stage. Now, to try and get all of those three ingredients in one person. . .

There are lots of wonderful actresses out there who might well have played a better version of me, or a different version; but there weren't any out there who at this point in time could fulfill all those requirements. But, you know, it wasn't just that. I think it’s that I was truly indivisible from the story that was being told. We're watching a film director thinking about, imagining, struggling with how to turn what's in her head into a film; how to move from looking, from the gaze, to being looked at. (Entrevista com Augusta Palmer)