• No results found

– Krav til FRT (fault-ride through) egenskaper

In document SAMMENDRAG Notat (sider 71-79)

Del II – Generelle bestemmelser for tilknytning av HVDC-systemer

Kapittel 3 – Krav til FRT (fault-ride through) egenskaper

A escrita do Sudoeste constituiu a base de um dos primeiros modelos explicativos do I milénio a.C. A abordagem histórico-arqueológica a partir dos anos 70/ 80 resulta num modelo explicativo em que as estelas coroavam a expressão de um eloquente mundo funerário e de uma civilização da chamada I Idade do Ferro de cariz orientalizante. O cariz “alfabetizado” dessa I Idade do Ferro contrastariam em termos de “expressão civilizacional” com a então apelidada II Idade do Ferro celtizante e marcadamente continental na qual a escrita desapareceria (Beirão e Gomes, 1980 e Beirão, 1986). A revisão crítica desse modelo, em grande parte resultante da revisão cronológica da cultura material do chamado “Ferro de Ourique” (Arruda, 2001; Torres, 2002; Jiménez Ávila, 2002-2003), viria a centrar essa realidade e o fenómeno de escrita do Sudoeste que lhe surge associado para âmbitos mais tardios em torno dos séculos VI/ V a.C., em contraste com o enquadramento inicialmente proposto para os séculos VIII/ VI a.C. Um momento “pós-orientalizante” marcado pelo disseminar de uma ocupação rural, dispersa e junto a linhas de água, ao qual é inerente que se reequacione o enquadramento da epigrafia na discussão dos modelos explicativos da Idade do Ferro como da sua cronologia.

É tomado como relativamente consensual que os vestígios epigráficos pertencem a contextos funerários: logo no século XVIII, pela associação, estabelecida por Frei Manuel do Cenáculo, entre estes e a sepulturas existentes junto ao Castro da Cola, Ourique (Vilhena, 2006: 26); no século XIX, pela sua vinculação à necrópoles de Fonte Velha de Bensafrim, Lagos (Veiga

1891; Correia 1995-1997: 183-188); e, por fim, pela sua ligação com as necrópoles na região de Ourique, em particular as da Mealha-a-Nova, Herdade do Pêgo (Dias, Beirão e Coelho 1970; Beirão 1986: 61-63) e Fonte Santa (Beirão 1986: 65-70). Contudo, é evidente a reutilização ou abandono dos monumentos epigráficos nos contextos funerários, não se conhecendo, todavia, nenhum caso em que possa afirmar-se categoricamente que as estelas são contemporâneas das sepulturas em que elas ocorrem.

Acresce deste modo, às problemáticas da escrita do Sudoeste, um dado incontornável: o reiterado cariz de reutilizações das epígrafes, o que implicaria algum desencontro temporal – ainda que possa ocorrer num limitado horizonte – entre a utilização primária das estelas com as necrópoles, facto que até ao momento levanta sérias reservas na associação direta tradicionalmente estabelecida.

Ainda que não fossem necessariamente diferenciáveis de uma função funerária, a interpretação não deve excluir liminarmente outras hipóteses, dentro de um quadro de variabilidade funcional que poderiam ter. Nesse sentido, como bem demonstra o povoamento pré e proto-histórico dos Campos de Ourique (Vilhena, 2006) e na Serra do Caldeirão (Melro e Barros, 2010; Barros, Melro e Estrela, 2013), é notório como a localização de algumas destas estelas com escrita do Sudoeste, sejam no âmbito de achados isolados, sejam recolhidas num contexto de necrópole, remetem para antigos lugares de referência territorial desde época pré- histórica (linhas de festo, portelas, zonas de planalto, principio/fim de vales abertos, entre outros). Tal sugere que, mais do que terem alguns destes funcionado como marcos delimitadores territoriais, poderiam, enquanto monumentos de funcionalidade funerária, constituir-se, simultaneamente, como marcos essenciais da paisagem, dispostos em locais chave no trânsito pelo território.

Já a constatação da deposição secundária das estelas não é uma observação nova. José Leite de Vasconcellos, refutando Estácio da Veiga, considera que “Cenáculo não diz expressamente (…) que se relacionassem com as sepulturas” e considerava que a posição das estelas de Fonte Velha de Bensafrim ao se encontrarem “voltadas para o interior das sepulturas”, era evidência de “que as lajes com as inscripções ibéricas ou turdetânicas não pertencem originalmente às sepulturas de que se trata (embora possam ser da mesma civilização, o que não nego, nem affirmo), mas pertencem a outras sepulturas

mais antigas, e que foram apenas aproveitadas para a construção d’aquellas” (Vasconcellos, 1913: 3, 6-7, 9-11).

Filtrando o conjunto da epigrafia, haveríamos que excluir da discussão contextual as reutilizações tardias e romanas1; as reutilizadas no edificado rural

moderno2 e de momento todo um vasto conjunto de

recolhas superficiais em locais que não chegaram a ser intervencionados e esclarecidos3. Do mesmo modo

pouco ou nada sabemos de locais identificados como necrópoles da Idade do Ferro que foram objecto de trabalhos arqueológicos, nomeadamente de decapagens “superficiais”4. Este cenário de imprecisão estende-se

assim desde as antigas epígrafes de Ourique registadas por Frei Manuel do Cenáculo à mais recente estela por nós recolhida à superfície junto ao empedrado tumular de Corte Pinheiro, Loulé.

Excluídos estes achados à discussão dos seus contextos, ficamos reduzidos a um conjunto de necrópoles escavadas, onde o reaproveitamento das estelas é no entanto um dado adquirido. No Algarve em Fonte Velha de Bensafrim, Lagos, como já referido; Fazenda das Alagoas, Loulé (Vasconcellos, 1913:11); Cômoros da Portela, Silves (Barros, Melro, n. p.); Corte de Pére Jacques, Aljezur. A mesma constatação ocorre no Baixo Alentejo nas necrópoles da Abóbada, Almodôvar (Barros, Melro e Gonçalves 2013); Pardieiro, Odemira (Beirão e Gomes, 1988; Vilhena, 2006); Herdade do Pêgo (Coelho, 1971) e Fonte Santa em Ourique (Beirão, 1986). Do mesmo modo a intervenção na necrópole Mealha-a- Nova, Ourique, a única onde é afirmada a presença de estelas in situ (Dias; Beirão; Coelho, 1970:175; Beirão 1986:46) ocorreu após a destruição da necrópole pela lavra mecânica antes da chegada dos arqueólogos em 1970, o que sem descurar a hipótese defendida levanta porém algumas reservas.

1 Mesas do Castelinho e Monte Novo do Castelinho em Almodôvar e Rossio do Carmo

em Mértola.

2 Monte Gordo; Vale de Ourique; Monte Mealho e Corte da Azinheira em Almodôvar.

Monte da Portela e Vale de Vermelhos em Loulé; Capote, província de Badajoz, entre outras.

3 Guedelhas, Goias, Corte da Azinheira, Canafexial e Cerca do Curralão em Almodôvar;

Benaciate, Dobra, São Martinho, Barradas, Passadeiras e Vale de Águia, Silves; Alcan- forado e Saboia, Odemira; Cerro do Castelo da Fuzeta, Tavira; Azinhal dos Mouros e Ameixial, Loulé; Gavião, Monte Novo do Visconde e Arzil, Ourique; Alcoutim; Alcalá del Rio, Sevilha; Siruela, Badajoz; Los Castellares de Puente Genil, Córdova; Cañamero e Almoroquí, Cáceres.

4 Caso de Mestras, Alcoutim; Vale de Vermelhos, Loulé, Tavilhão e Corte do Freixo em

Almodôvar; Monte do Touril em Castro Verde; e em Ourique: Cerro dos Enforcados, Azinhal, Penedo, Biscoitinhos e muito provavelmente na Herdade dos Bastos e no Monte de A-dos-Nobres.

A cronologia destas necrópoles de Ourique em associação à cultura material fora revista para uma etapa dita de “pós-orientalizante”, com enfoque entre os meados do século VI a. C. e o século IV a.C., surgindo referenciados os seus espólios em torno dos séculos VII e VI/ V a.C. Exemplo ainda do conjunto material do Pardieiro entre os séculos VII e V a.C. (Vilhena, 2006) ou em torno do século V a.C. da Abóboda (Barros, Melro e Gonçalves 2013). Em Castro Verde a epígrafe de Neves II sobrepõe-se por sua vez a um nível de habitat datado de meados-finais do século V a.C. (Maia 1988: 32). Já a necrópole de Medellín (Badajoz), testemunha o reaproveitamento de uma estela numa estrutura tumular do último quartel do século VI a.C., propondo o monumento epigráfico como sendo anterior aos meados dessa centúria (primeira metade do século VI a.C. ou desde os meados/ último quartel do século VII a.C.) (Almagro 2004: 14).

Perante as dificuldades em precisar os limites cronológicos desta manifestação epigráfica, parece certo observando a reutilização das estelas de que o seu uso primário ocorra num curto intervalo de tempo. Por outro lado, como refere Virgilio H. Correia (1996: 20) a formação da escrita pode ocorrer numa passagem não unívoca, mas com vários momentos e pontos de transmissão. A verdade é que até à data não dispomos de nenhum contexto seguro e primário do uso destas estelas epigrafadas. Assim, os contextos secundários onde ocorrem remetem-nas para uma cultura material a partir dos meados do século VI até ao século IV a.C., a escrita e os seus contextos primários teriam tido lugar afinal num anterior e curto intervalo de tempo. Neste âmbito é conveniente anotar como o intervalo de uma ou poucas gerações é suficiente para que os elementos funerários sejam reutilizados, razão pelo pela qual se deve entender o fenómeno da escrita do Sudoeste distribuído essencialmente pelos séculos VI e V a.C..

Por outro lado as leituras dos grafitos em cerâmica do Castillo de Doña Blanca, Cádis (Correa e Zamora 2008) e de Abul, Alcácer do Sal (Correa 2011: 104-107), como da escrita do Sudoeste, e que ilustrariam o seu uso desde os inícios do século VII a.C. devem atender a alguma reserva à sua associação com as estelas face à ausência de redundância, podendo-os remeter a uma realidade mais antiga, um sistema primitivo “tartéssico” de que derivaria a escrita do Sudoeste (Hoz 2010: 517- 522).

5. A ESCRITA E OS POVOS DO SUDOESTE

In document SAMMENDRAG Notat (sider 71-79)