Os cursos de licenciatura oferecidos pela FAFI foram estruturados nos moldes então praticados nas demais faculdades de Filosofia do País (três anos de estudos no campo específico acrescidos de um ano didático). Mas as três primeiras turmas de egressos – 1960, 1961 e 1962, concluíram apenas o bacharelado, pois o ano didático ainda não era oferecido. O empecilho para sua realização era a falta de um professor habilitado para ministrar a disciplina Administração Escolar. A dificuldade só foi sanada quando uma funcionária dos Correios, transferida para Teresina, e que tinha o curso de Pedagogia, pôde ser contratada para ministrar a disciplina.
A partir de 1963 os cursos passaram a ter quatro anos de duração, conferindo o diploma de licenciatura. Ainda neste mesmo ano, com autorização do MEC, a Faculdade promoveu um curso especial, somente com as disciplinas de formação pedagógica27, destinado aos egressos das três primeiras turmas, para que
recebessem o diploma de licenciatura. Também em 1963 os cursos de História e Geografia foram desmembrados em dois cursos distintos.
Os cursos ministrados pela FAFI (licenciaturas em Filosofia, Letras Neolatinas, História e Geografia) foram reconhecidos através do Decreto n. 54.038, de 23 de julho de 1964. O Padre Raimundo José, nos anais do Seminário sobre a Faculdade de Filosofia, relata que:
A fase mais dura e pesada foi a fase do reconhecimento. Isso devido a uma série de carências de que, naquela época a gente padecia no Estado do Piauí. Para que a FAFI fosse reconhecida, tivemos uma ajuda muito grande do relator do seu processo no Conselho Federal de Educação, o Professor Valnir Chagas. Para conseguir que a FAFI fosse reconhecida, ele próprio tomou a iniciativa de certas medidas concretas, como por exemplo, a de listar entre os professores da faculdade, alguns professores de fora, detentores da habilitação legal que naquela época era exigida e que nossos professores daqui não
27 As disciplinas ministradas nesse ano didático foram Administração Escolar (com 90 h/a), Psicologia
possuíam. Não se tratava da falta de capacidade objetiva. Acho que tínhamos bastante pessoal capacitado realmente. Não tínhamos, porém, naquela época, pessoal que possuísse os diplomas legais necessários. (...) Aconteceu então entre nós o que era muito comum acontecer nesse país. Os nomes dos professores importados constaram do processo, a FAFI foi reconhecida e esses professores nunca vieram aqui. (AIREMORAES SOARES, 2002, p. 1430).
Com relação ao corpo docente observe-se o que diz o relatório do Inspetor Federal, Hélio Martins Correia Lima, apresentado ao Ministério da Educação no final do ano letivo de 1961:
Foi a Faculdade Católica de Filosofia do Piauí extremamente feliz quanto à escolha do seu corpo docente. Dificilmente poderiam ser encontrados em Teresina, professôres que melhor se enquadrassem às exigências do programa do Estabelecimento. São professôres reconhecidamente capazes e que há longo tempo vêm lecionando as disciplinas que ministram, ou homens sabidamente cultos e que empregam as suas atividades intelectuais em ramos diretamente correlatos à matéria que vierem a ensinar. De qualquer forma pode a Faculdade orgulhar-se do corpo docente que mantém. (p.3).
A FAFI se mantinha com recursos muito limitados28, oriundos das modestas
mensalidades pagas pelos alunos, de subvenções sociais do orçamento da União, via emendas parlamentares dos representantes piauienses, de eventuais auxílios do governo estadual e de doações. Professores e funcionários recebiam salários quase simbólicos.
Apesar das dificuldades, a criação de novos cursos começou a ser planejada. A opção foi pelos cursos de licenciatura em Matemática e em Física, áreas em que havia carência de professores para o ensino secundário. Assim, com apoio financeiro e operacional da SUDENE, estes dois cursos foram instalados no início de 1970, último ano de funcionamento da FAFI. No vestibular foram aprovados quarenta e três candidatos.
Não foram localizadas informações completas sobre a evolução da matrícula nem sobre a quantidade de egressos da FAFI. Entretanto, com base em alguns registros da Secretaria daquela faculdade, encontrados em seus arquivos, foi possível constatar que em 1959 havia 89 alunos matriculados nos três cursos da faculdade; em 1960 eram 128 e em 1961 a matrícula geral totalizou 133 alunos.
28 Cf. Depoimento de Benedito da Rocha Freitas Filho (Secretário-Tesoureiro da FAFI) registrado nos
Convém lembrar que as três primeiras turmas concluíram apenas o bacharelado, aguardando o ano didático que só foi oferecido em 1962. Grosso modo, estimando- se a mesma tendência para os anos seguintes, os dados sugerem que a contribuição da FAFI foi modesta quanto à quantidade de professores por ela formados. É possível supor que tenha ficado aquém da demanda de professores qualificados para o ensino secundário, inclusive porque este nível de ensino estava em expansão.
Dados do período, coletados por Medeiros (2002, p.222), dão conta de que a matrícula no ensino secundário piauiense, que era de 7.783 alunos no ano de 1959, subiu para 16.188 em 1964, ou seja, mais do que dobrou em cinco anos. O aumento mais significativo foi verificado no segundo ciclo do ensino secundário (mais tarde 2º grau): de 820 alunos matriculados em 1959, saltou para 2.604 matriculados em 1964, triplicando a matrícula inicial do período.
A este cenário, deve-se acrescentar que o processo de urbanização, motivado principalmente pela pressão da corrente migratória, estava em curso no período. O fluxo populacional campo-cidade, verificado desde os anos de 1950, quando a população urbana piauiense representava 10,31% do total, mais do que duplicou na década de 1960, chegando a 23,41%. Na década de 1970 as taxas de 31,93% da população residente nas cidades e de 68,73% na zona rural indicam a continuação do processo de urbanização29.
Observando também que o incremento populacional do Estado nas décadas de 1960/1970, da ordem de 3,22%, foi o maior do Nordeste e maior do que a média do país, percebem-se as implicações destes fatos não apenas em relação à oferta de educação escolar, mas também no que se refere à demanda de professores qualificados.
Levando em conta ainda o fato de que a FAFI atuou por um período relativamente curto – de 1958 a 197130, quando foi incorporada à UFPI, pode-se
supor que sua contribuição mais relevante não tenha sido quanto ao aumento da quantidade de professores qualificados. A presença da FAFI na história da educação
29 O fenômeno de ocupação das cidades estava fortemente relacionado às transformações
verificadas na economia piauiense. Com efeito, a produção extrativa – cera de carnaúba, babaçu e borracha de maniçoba - principal item da pauta de exportações, entrando em declínio desde a década de 1940, potencializou os processos migratórios internos, principalmente para as cidades de maior porte, em especial para Teresina.
30 O mesmo período de atuação da CADES no Piauí, o que indica que a necessidade de habilitar
piauiense tem realce mais significativamente como lócus de discussão e irradiação dos processos de mudança que aconteciam no contexto mais amplo, e que ao mesmo tempo formatavam uma dada cultura acadêmica.
Houve um esforço de crescimento, é certo, embora nada comprove que a FAFI tenha dado uma resposta quantitativamente expressiva à necessidade de professores qualificados para o ensino secundário piauiense. Sua principal contribuição parece ter sido de outra ordem: a face mais visível da história da FAFI, o ethos impresso na memória daqueles que passaram por ela e documentaram seu testemunho, pode ser sintetizada no depoimento de Medeiros (2002, p.222):
[A FAFI] Não era, pois, uma instituição educacional, onde a história da formação de professores estava sendo feita. Era uma instituição cultural, um termo muito em voga na época, porque as faculdades eram também “fazedoras” de cultura, centros de criação, de crítica e de difusão da cultura. A FAFI era essa instituição.
É exatamente aí que reside a importância da FAFI na história da educação piauiense: investindo na formação de uma consciência crítica e criativa e na sólida formação intelectual, ofereceu ao magistério piauiense profissionais que passaram a exercer funções de liderança, influenciando outras instituições e contextos sociais.
CAPÍTULO 4 - O SISTEMA EDUCACIONAL BRASILEIRO E AS REFORMAS DO