A demarcação proposta por Nunes (2002) encontra respaldo nos fatos que marcaram a história da formação de professores no Piauí. No entanto, cabe acrescentar, com relação à primeira fase, que a presença de professores não qualificados, embora reconhecidamente cultos, acompanha o processo de implantação da educação escolar no Piauí desde o seu início, no século XIX. Advogados, médicos, padres, engenheiros, dentre outros membros letrados da sociedade de então, sempre foram convocados a colaborar ou se anteciparam nas iniciativas com relação à educação escolar piauiense.
12 Este seminário foi realizado no período de 17 a 19 de janeiro de 1995, na UFPI, como parte de um
projeto de pesquisa mais amplo que investigava a história da formação do educador no Piauí. Os Anais do seminário, publicados em 2002, trazem a transcrição integral das conferências, dos depoimentos de ex-professores, funcionários e alunos da FAFI e dos debates realizados.
13 Pode-se considerar a instalação da Universidade Federal do Piauí como o início da fase em que a
formação de professores passa a ocorrer em larga escala em cursos de nível superior. Mas é preciso acrescentar que a Universidade Estadual do Piauí, criada em 1988, expandiu de modo significativo este nível de qualificação.
Ferro (1996) registra que a primeira escola piauiense foi fundada em 1820 pelo Padre Marcos de Araújo Costa - a Escola Boa Esperança, no município de Jaicós. A escola funcionou durante trinta anos ininterruptos, custeada por seu criador, oferecendo ensino gratuito, só encerrando suas atividades em 1850, com a morte de Padre Marcos.
No Piauí, desde o final do século XIX e durante a primeira metade do século XX, o magistério do ensino secundário foi exercido por profissionais liberais, padres e normalistas. A melhoria da formação dos professores piauienses para o exercício do magistério no ensino secundário,14 de fato, só tem início na década de 1950, com o trabalho desenvolvido pela CADES, conforme a esquematização apresentada por Nunes (2002).
Deve-se lembrar, entretanto, que as preocupações e providências atinentes à formação de professores primários são bastante anteriores. Assim, em 1909, é criada em Teresina a Escola Normal Livre, mantida pela Sociedade Auxiliadora da Instrução. A iniciativa é de um grupo de intelectuais e políticos, ligados à Maçonaria, composto, dentre outros nomes, por Matias Olímpio, Antonino Freire, Honório Parentes, Abdias Neves, Miguel Rosa e Brandão Junior. Em 1910, tendo assumido o Governo do Estado, Antonino Freire funda a Escola Normal Oficial15, que substitui a
Escola Normal Livre. A melhoria da formação dos professores para o ensino primário constituía um ponto fundamental na reforma da instrução pública empreendida por Antonino Freire.
A tarefa de implantação definitiva da Escola Normal Oficial foi entregue à professora normalista Firmina Sobreira, formada pela Escola Estadual do Maranhão. Além do trabalho como diretora, a professora Firmina Sobreira também ministrou várias disciplinas do curso normal, sendo catedrática de música, e dirigiu a Escola
14Nos termos da Lei Orgânica do Ensino Secundário (Decreto 4.244, de 9/4/1942), vigente no período
em referência e parte do conjunto de normas que ficaram conhecidas como reforma Capanema, o ensino secundário estava estruturado em dois ciclos, a saber, o ginasial, com 4 anos de duração, e o colegial, com 3 anos de duração; o ciclo colegial se ramificava em dois cursos paralelos: o clássico e o científico.
15 Freitas (1988, p. 111-112) registra que por força do Decreto n°434, de 19 de abril de 1910, eram
as seguintes as matérias constitutivas deste curso normal: português, literatura portuguesa; francês, aritmética, geometria, geografia e cosmografia, história universal e do Brasil, noções de física, química e metereologia; noções de história natural, agronomia e higiene; pedagogia, metodologia, educação moral e cívica; desenho e caligrafia; música, trabalhos manuais e cartografia. Além dessas matérias haveria facultativamente uma aula de ginástica sueca. O decreto obrigava ainda a existência de administração do ensino primário, anexo à escola normal, “onde os alunos mestres observem e pratiquem” o ensino.
Modelo, estabelecimento de ensino e de prática profissional para as normalistas, anexo à Escola Normal.
As aulas funcionaram em prédios alugados ou cedidos, até a conclusão das instalações definitivas. A construção teve início no governo Eurípedes Aguiar (1916- 1920), mas o prédio só foi concluído no governo de Matias Olímpio, que o inaugurou, com grande solenidade, em junho de 1924. Amplo, bem iluminado e arejado, em estilo neoclássico, a arquitetura do prédio materializa a importância social dada à formação das normalistas.16
Foram surgindo outros estabelecimentos de ensino destinados à preparação do magistério primário, alguns a cargo da iniciativa privada, tanto em Teresina como nas cidades mais populosas do Estado do Piauí. Dentre todos a Escola Normal Antonio Freire/Instituto de Educação Antonino Freire teve papel destacado, por ter sido o primeiro empreendimento oficial de longa duração no campo da formação de professores no Piauí.
Cabe acrescentar que houve tentativas anteriores de implantação do curso normal no Piauí. Assim, em 3 de fevereiro de 1865, em decorrência da Lei Provincial n° 563, de 5 de agosto de 1864, foi instalada a primeira escola normal do Piauí, sendo extinta dois anos após, pela Resolução n°599, de 09 de outubro de 1867 (BRITO, 1996).
A partir de então, novas e infrutíferas tentativas foram feitas para manter uma escola normal em Teresina: de 1871 a 1874 o ensino normal funcionou anexo ao Liceu, com duração de três anos; de 1882 a 1888 funcionou um novo curso normal, este com duração de dois anos. Durante o Império a formação de professores primários em escolas normais não vingou no Piauí. A insuficiência de matrículas era o motivo alegado com frequência para justificar os pedidos de fechamento da escola normal, apresentados à Assembleia Provincial.
Não se tem notícia de qualquer outra iniciativa neste sentido até 1909, quando foi criada a Escola Normal Livre, cujo currículo previa uma duração de quatro anos de curso. No ano seguinte, porém, a Escola Normal Livre foi substituída pela Escola Normal Oficial, que adotou um currículo com a duração de três anos.
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Em 1973 a Escola Normal passou a ser denominada “Instituto de Educação Antonino Freire”, este transferido para uma nova sede, um prédio mais moderno e também construído especificamente para abrigar esta importante instituição de ensino. Em 1981 o prédio original foi tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional. Nele funciona, desde 1986, a sede da Prefeitura Municipal de Teresina.
Esta não sofreu interrupções, firmando no Piauí a prática da formação de professores primários em Escolas Normais.
Assim, por mais de quatro décadas, a Escola Normal Oficial, mais tarde Escola Normal Antonino Freire, e por último Instituto de Educação Antonino Freire, foi a principal agência formadora de professores e centro de constituição e irradiação de uma cultura pedagógica que teve reflexos em outras instâncias de formação, como se verá em outra parte deste trabalho.
2.2 A Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário: atuação