Analyse av bostøtte
2. Koronatiltak
A dimensão cultural da paisagem diz respeito a todos os aspectos que expressam a relação do homem com o seu meio. Desta fazem parte as diversas ocupações do solo impressas pelas populações e as suas marcas presentes no território, como a modelação do terreno e armação em socalcos, a plantação de sebes, a construção de muros e de estruturas de apoio à vida humana. Os jardins, praças, quintas e matas de recreio são também importantes expressões da dimensão cultural da paisagem que, de uma forma mais ou menos erudita, constituem um repositório de vivências, tanto passadas como presentes. Formam-se assim, conjuntos de pontos, linhas e mosaicos diferenciados de uma matriz de paisagem marcada pelas pastagens, que é a ocupação cultural dominante na actualidade. Os aspectos e elementos físicos que permitem a interpretação cultural e histórica da paisagem contribuem simultaneamente para o sentido do lugar e identidade cultural a nível local e regional.72 Estes elementos são também um recurso de recreio e turístico, podendo contribuir inclusivamente para revitalizar actividades económicas.
A paisagem actual é a expressão dos usos presentes mas também comporta a memória de algumas fases anteriores. Algumas ficaram de modo mais marcado expressas na paisagem, como o ciclo agrícola da
69 Edward Wilson cit. por BORGES, P. - “Diversidade dos Açores em números” in CARDOSO, P. et al “Açores: um retrato natural”.
Ponta Delgada: Veraçor, 2009. p. 30.
70 SRE, DRT - “Plano de ordenamento turístico da Região Autónoma dos Açores (POTRAA): relatório - volume I: estratégia e programa
de intervenção”. Ponta Delgada: Secretaria Regional da Economia / Direcção Regional do Turismo/ Consórcio GEOIDEIA/IESE/PLURAL. Março, 2007. p. 32-33.
71 Idem, ibid.
167 laranja e da vinha, mas todas elas contribuíram para a construção de paisagens diferenciadas, que se foram desenrolando ao longo dos séculos. Se no século XV e XVI as culturas de maior expressão eram o trigo e o pastel a paisagem tenderia a ser mais aberta, largamente entrecortada pelos muros e sebes. Os terrenos mais baixos, de microclima mais favorável e em redor dos aglomerados eram ocupados pelas culturas anuais e pomares. Na época da laranja, nos séculos XVIII e XIX, os horizontes agrícolas tiveram tendência a ficar mais estreitos, já que esta cultura requeria um reticulado de abrigos de sebes vivas para protecção dos ventos que compartimentavam mais o espaço, cortando-o quase a régua e esquadro. A estreiteza das parcelas do pomar era compensada com a presença de pontos miradouro nas quintas da laranja, que permitiam a observação de áreas mais vastas e do mar, para vigiar a aproximação dos barcos comerciais. Foi nesta altura introduzida uma espécie para a formação de abrigos que teria um impacto bastante importante até à actualidade, o incenso. No fim do século XIX e inicio do século XX com o abandono da laranja e início da produção pecuária em larga escala a paisagem teve uma nova mudança, tornou-se novamente mais aberta e as pastagens passaram a ocupar vastas áreas delimitadas por sebes ou muros.73 Existem, no entanto, ilhas e lugares onde as evidências de ciclos agrícolas anteriores ainda se encontram bastante patentes na paisagem, especialmente a vinha, a laranja e outros pomares. A cultura das bananeiras e outras árvores de fruto num reticulado de sebes vivas em redor dos aglomerados urbanos é ainda hoje bastante expressiva nas zonas mais rurais.
Uma tipologia de paisagem bastante particular nos Açores é a da vinha, que se concentra numa faixa próxima do mar em exposições soalheiras e sobre terrenos pedregosos de escoadas lávicas recentes. É plantada no interior de um reticulado de muros de pedra seca de basalto que conformam currais, canadas e outras tipologias murarias, num labirinto construído com o objectivo de dar abrigo aos pés das plantas.74 No interior destes muros executavam-se pequenas covas para a plantação da vinha ou então aproveitavam-se as fendas existentes nos mantos basálticos que recobrem o chão. Executavam-se também covas maiores, circulares, delimitadas por muros também eles de forma circular, onde se plantavam outras árvores de fruto, especialmente figueiras que eram usadas para o fabrico de aguardente.75 Todos estes muros resultam da limpeza dos terrenos e conferem abrigo às plantas. Este tipo de paisagem encontra-se patente de modo muito expressivo no Pico e em Santa Maria, e com um carácter mais pontual na Terceira, na Graciosa, em São Miguel e no Faial. Para a cultura da vinha foi criada uma paisagem intensamente trabalhada pelo homem que ainda hoje se mantém, onde cada minúscula parcela de terreno é tratada no sentido da obtenção de espaço para a plantação. O valor patrimonial deste tipo de paisagem é, actualmente, amplamente reconhecido, sendo que em Santa Maria a plantação da vinha se conjuga com a presença de socalcos, situação comum na Madeira mas excepcional neste arquipélago. No Pico, parte da paisagem da vinha encontra-se classificada como Património Mundial da Humanidade.
Para a construção da paisagem, para além da forma das parcelas agrícolas - mais orgânica e agarrada à paisagem ou rectangular e justaposta a ela - é também importante uma referência à implantação dos aglomerados urbanos. A pequena dimensão das ilhas e as suas condicionantes orográficas conduziram a que, ao longo dos tempos, a ocupação humana se concretizasse preferencialmente nas zonas planas próximas do litoral. Nas baías e enseadas com condições para o abrigo portuário localizaram-se os primeiros aglomerados urbanos de características comerciais. Para além dos aglomerados com características portuárias, o povoamento é geralmente linear e periférico, dispondo-se como um anel em redor nas ilhas até
73 Esta descrição é geral e depende em cada ilha e cada local do regime de propriedade dos solos. Há que notar também que a cultura
da laranja e de outras árvores de fruto assim como a cultura da vinha normalmente estavam associadas a determinadas características edafo-climáticas e por isso nem os pomares nem as vinhas subiam em altitude. As pastagens começaram a descer em altitude com a perda de outras valências agrícolas.
74 SRAM- “Paisagem da cultura da vinha do Pico: candidatura a património mundial (Landscape of the Pico island vyneyard culture:
candidature for world heritage)”. Horta: Secretaria Regional do Ambiente, 2004. p. 91.
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à cota dos 150 metros.76 Deste modo a faixa litoral - muitas vezes não imediatamente junto à costa mas recuada numa área que pode estender-se cerca de 500 metros a 1,5 km ou mais para o interior, dependendo da extensão de área plana das ilhas - foi sempre considerada uma área privilegiada em termos de recursos e de actividades humanas.
Genericamente a ocupação do solo dos Açores apresenta padrões bastante aproximados nas diversas ilhas e desenvolve-se numa progressão altitudinal.77 Esta ocupação em função da altitude está relacionada com a morfologia das ilhas, conforto bioclimático e exigência das culturas agrícolas. Os aglomerados localizam-se na zona mais plana e baixa junto à costa, apenas em São Jorge e em São Miguel se encontram aglomerados urbanos em altitudes mais elevadas, no primeiro caso devido à escassez de zonas planas junto à costa e no segundo, nas Furnas e Sete Cidades, relacionado com recursos específicos da paisagem. As principais cidades encontram-se localizadas em São Miguel, Terceira e Faial mas excluindo estas a ocupação urbana nunca teve um peso significativo na paisagem, tornando-a difícil de distinguir da ocupação rural. De facto, a ruralidade da paisagem é ainda hoje uma das marcas do seu carácter.78 A oposição mais marcante foi sempre entre a paisagem agrícola das zonas de baixa e média altitude e as pastagens, matas e paisagem natural das altitudes mais elevadas.79
Na zona mais intensamente humanizada, até aos 150 metros de altitude, mantém-se a cultura do milho, para gado e consumo humano, e as culturas hortícolas geralmente junto às habitações. A vinha ocupa as zonas de escoadas lávicas recentes junto à costa já que aí existem condições propiciadoras de um teor alcoólico mais alto, com mais calor e menos humidade. Os pomares de laranjeiras quase desapareceram devido a problemas fitossanitários que se espalharam por todas as ilhas e os restantes pomares são raros. Nos quintais das habitações surgem geralmente isoladas árvores de fruto diversas. As bananeiras são também comuns e encontram-se em pequenas chãs e socalcos nos vales e margens de linhas de água, têm uma proeminência visível face às outras fruteiras. Os terrenos de média altitude (até aos 400 metros), sujeitos a condições de maior humidade e ventos mais fortes que os anteriores, são geralmente ocupados por pastagens, embora também se possam encontrar algumas parcelas agrícolas com milho para forragem. Nas zonas mais altas a paisagem é novamente mais diversificada: encontram-se pastagens em zonas mais planas e as áreas de floresta de produção em zonas declivosas e por vezes em linhas de água, substituindo potenciais galerias ripícolas. As áreas de vegetação natural laurissilva localizam-se geralmente nas zonas mais altas e centrais das ilhas (acima dos 700 metros) ou então na faixa dos 400-700 metros em áreas protegidas ou zonas cujas condições pedológicas ou climáticas não permitem aproveitamentos agro- pecuários ou florestais. Este zonamento da dimensão cultural da paisagem em função da altitude é um dos aspectos do carácter da paisagem dos Açores.