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In document Leders beretning (sider 142-158)

Os muros e as sebes são elementos culturais importantes da paisagem açoriana que desempenham uma função crucial de quebra dos ventos e delimitação dos terrenos. Tanto aos muros como às sebes encontram- se muitas vezes associadas modelações de terreno que permitem a suavização de declives e um maior aproveitamento agrícola. Nos casos em que o declive é mais acentuado utilizam-se por vezes muros em socalcos. As sebes desempenham importantes funções adicionais de conservação da água e dos solos e de produção de material lenhoso, sendo especialmente importantes para a regulação do microclima num

84 TOSTÕES, A. et al, op. cit. p. 549.

85 DUTRA, M.; BANDEIRA, R.S. - “Fábrica da baleia de Porto Pim “. Horta: Observatório do Mar dos Açores (O.M.A.), 2008. p. 7-8. 86 BETTENCOURT, L. -“Moinhos dos Açores: novo papel na sociedade contemporânea”. Angra do Heroísmo: Instituto Açoriano de

171 arquipélago onde a presença dos ventos se faz sentir com muita intensidade, tanto ao nível da linha de costa (onde protegem os terrenos do ventos salinos) como nas zonas de maior altitude.87 São também importantes pela sombra que conferem às parcelas de pastagem que beneficiam o gado.88 As sebes e muros são usados na protecção das parcelas agrícolas mas também nas zonas urbanas, variam de ilha para ilha e apresentam tipologias próprias segundo as ilhas e usos associados. Estes elementos são importantes constituintes da paisagem dos Açores, que lhe conferem diversidade e ritmo e concorrem para a presença de reticulados ou malhas impressivos.

Os muros de pedra e as sebes de canas e silvas são usadas desde os séculos XV e XVI e “o apreço a que eram tidas as silvas ia a ponto de se fazer presente delas, não só por fazerem abrigada, mas por dissuadirem os ladrões de assaltar propriedade alheia.”89 As silvas (Rubus sp.) eram usadas como sebes delimitadoras de propriedade e dissuasoras de entradas, enquanto as canas são a primeira linha da frente de protecção dos terrenos quanto aos ventos salinos, previnem a erosão em zonas costeiras e impedem que os terrenos sejam erodidos para o mar. No entanto, o carácter invasor tanto das silvas como das canas, sempre que os terrenos agrícolas eram abandonados, começou logo a ser notado. Contudo, as suas vantagens suplantavam largamente as desvantagens em ilhas à época intensamente cultivadas.

A vegetação endémica tem um papel amplamente reconhecido na formação de sebes, estas com um valor acrescentado, por contribuírem para a preservação de um importante património natural. As faias e urzes foram (e são) utilizadas para a formação de sebes vivas. A faia usou-se muito no século XIX como sebe de abrigo para a laranja e é usada ainda em algumas ilhas como São Miguel e Pico. A urze é encontrada na maior parte das ilhas formando sebes ao longo dos caminhos agrícolas ou então a dividir pastagens,90 sendo frequente em São Jorge com porte arbóreo.91 Para além destas duas espécies endémicas amplamente usadas é possível referir aquelas que eram toleradas nas sebes, como o azevinho, o pau branco, o sanguinho, o folhado, o tamujo e o queirós. Estas últimas forneciam folhagem para a alimentação do gado pelo que a sua presença em sebes constituía um benefício acrescentado. Por outro lado, o louro, tóxico para o gado, deverá ter sido retirado da proximidade dos campos onde este era pastoreado. É possível deduzir que em épocas anteriores as sebes mistas de vegetação endémica terão constituído um importante elemento da paisagem de média altitude, onde se encontravam as pastagens. Estas sebes deverão ter atingindo um porte considerável em termos de altura e largura, contribuindo para o correcto funcionamento dos ecossistemas e funcionando como repositório da vegetação natural, à semelhança do que acontece ainda em certas zonas do Pico.92

Ao aliar as funções de protecção dos ventos e a produção de material lenhoso as sebes foram sendo alteradas consoante as culturas a que se destinavam os terrenos e as conveniências dos seus proprietários. Introduziram-se diversas espécies com qualidades variadas, umas mais altas, outras mais densas ou de valor ornamental. As sebes para abrigo de laranjeiras e outras árvores de fruto dos finais do século XIX eram constituídas por espécies hoje usualmente encontradas na paisagem do arquipélago: faias e incensos, mas também metrosíderos (Metrosiderus excelsea) e bansias (Banksia integrifolia) conformavam um reticulado

87 SOUTO, L.F.M.A.R., MENESES, J.F. - “A acção e importância das sebes naturais no arquipélago açoriano”. “Anais do Instituto

Superior de Agronomia” Vol. XLVI (1997) p. 102.

88 SOUTO, L.F.M.A.R., MENESES, J.F. - op. cit. p. 111.

89 SANTOS, J.M. - “Os Açores nos séculos XV e XVI (volume I) ”. Ponta Delgada: Secretaria Regional de Educação e Cultura, 1990. p.

205.

90 BORGES, P.M. - “O desenho do território e a construção da paisagem na ilha de são Miguel, Açores, na segunda metade do século

XIX, através de um dos seus protagonistas.”Coimbra: Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade e Coimbra, 2007. p. 81.

91 COSTA, C. - “Arvoredos dos Açores: algumas achegas para a sua história”. Ponta Delgada: Tipografia Correio dos Açores, 1955. p.

142.

92 DIAS, E. - “A chegada dos portugueses às ilhas - o antes e o depois: Açores” in SILVA, J.S. (coord.) “Açores e Madeira: a floresta das

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denso e hierarquizado de abrigos que davam origem aos quartéis de laranjais.93 Todas estas sebes se adaptavam às condições de ventos salinos na zona de baixa altitude pelo que eram (e são) usadas para o abrigo de pomares e culturas agrícolas. Pedro Maurício Borges refere, quanto à paisagem de São Miguel no século XIX: “Em S. Miguel, as vedações também variavam consoante a localização na geografia da ilha: não havendo pedra, vedava-se modelando a terra em combros e valados, ou alinhando sebes vivas de silvas e bardos de canas. A não ser que se tratasse de quintas de laranja, pois aí ia-se buscar pedra onde a houvesse. Encontrar-se-iam também sebes de vimes plantadas ao longo das veredas. Na segunda metade do século, as hortênsias aparecem a bordejar as estradas e, para os finais da centúria, já se instalaram nos campos a dividir os cerrados.(…) Consociadas, ou não, com os valados e os combros, as sebes vivas acumulavam outras funções com a vedação e divisão da propriedade: sustentavam as terras em socalcos, retinham-na contra a erosão da água, amorteciam o vento, forneciam lenha, retendo a humidade combatiam a seca, “sem falar na beleza de que beneficia a paisagem.””94

Os grandes proprietários micaelenses do século XIX, interessados pelo desenvolvimento das práticas agrícolas, faziam amplo uso dos recursos presentes para modelação dos terrenos, preservação do solo e da água e melhoramento das culturas agrícolas. Assim, “Para além dos bardos [denominação local para sebes], as canas eram ainda utilizadas por José do Canto para fazer caniçadas e tanhos. Os tanhos eram faixas entrelaçadas de canas com que se protegiam os mergulhões da laranja. Os tanhos envolveriam o plantio ficando presos por estacas ao solo. Não se pense que as canas eram apenas utilizadas neste processo quando as havia por perto: acarretavam-se donde as houvesse para proteger o plantio das quintas. Também se empregavam canas para proteger os pinheiros semeados ou álamos plantados, e José do Canto nunca deixou de as utilizar, o que dá conta da importância desta espécie na paisagem e na prática agrícola de então.”95 José do Canto preferia-as como abrigo das culturas pelo seu bom desempenho em relação aos efeitos do vento, sendo mesmo consideradas um melhoramento da propriedade cultivada, apesar do seu potencial carácter invasor.96

Actualmente as sebes mais usadas junto à costa são constituídas por canas, por salgueiros (Tamarix

africana) e pela faia-do-norte ou da holanda (Pittosporum tobira), uma espécie do género Pittosporum sp.

que, ao contrário do incenso, não revela carácter invasor. Ainda no século XIX tinha sido introduzido o corinocarpo (Corinocarpus laevigata) também para situações próximas da costa, o qual foi posteriormente abandonado pela sua facilidade em expandir-se para outros lugares e por ser nocivo para o gado e para algumas culturas agrícolas, porque o seu fruto é hospedeiro da mosca do mediterrâneo.97 A média altitude e como abrigo dos pomares utilizam-se geralmente a faia, a bansia (Banksia integrifolia), o metrosídero (Metrosiderus excelsea) e o ligustro (Ligustrum lucidum). O incenso tem sido abandonado pelo seu forte carácter invasor. As sebes de camélias, com elevado valor ornamental, são também usadas em baixa e média altitude. Nas zonas de média e alta altitude as espécies que conformam as sebes mudam radicalmente: podem ser usadas as urzes e outras endémicas atrás referidas mas são também frequentemente usadas as hortênsias (Hydrangea macrophylla) e as criptomérias (Cryptomeria japonica). O buxo (Buxus sempervirens) era também usado para a formação de sebes em São Jorge e no Faial tendo sido substituído posteriormente pelas hortênsias devido ao seu crescimento mais lento. As hortênsias tornaram-se invasoras ultrapassando em muito a sua função original de sebes.

93 BORGES, P.M. op. cit. p. 153; JORGE, F; ALBERGARIA, I.S.; MONTEIRO, R. - “Açores em vista aérea (Azores in aerial view)”.

Lisboa: Argumentum edições, 2008.p. 15.

94 BORGES, P.M, op. cit. p. 79-81. 95 Idem, p. 84-85.

96 Idem, p. 85-86.

97 OLIVEIRA, J.N.B. - “Espécies vegetais usadas nos Açores na formação de sebes”. “Arquipélago: série ciências da natureza.” nº6

173 Os muros em basalto, geralmente em alvenaria de pedra seca de basalto, são uma das características identitárias da paisagem açoriana. Surgem em todas as ilhas ainda que com particularidades próprias em cada ilha. Conformam parcelas cuja extensão depende do regime de propriedade e as suas particularidades estão dependentes da função dos muros e da disponibilidade do material, do declive do terreno mas também dos seus executores e da prática usual de cada ilha. Surgem da necessidade de arrumação da pedra solta que se encontra nos terrenos basálticos mas também da vontade de demarcação dos terrenos e da protecção contra os ventos. Assim, “não é (…) só na fase de preparação do solo que o serrado de pedra se mostra útil, mas ao longo de todo o ciclo vegetal.” 98 Os muros podem ser apenas de delimitação - caso em que aliam as funções de demarcação com a vedação - ou então ser também muros de contenção de terrenos. A altura depende das suas funções mas os muros de delimitação de propriedade são geralmente baixos em todas as ilhas, e apenas em redor das zonas urbanas de São Miguel se encontram muros de delimitação altos, que no século XIX teriam como função acessória o abrigo dos laranjais. Os muros de contenção também são baixos - até porque raramente são argamassados - e por isso nos casos em que é necessário vencer maiores desníveis são armados em socalcos sucessivos, como é o caso dos “quartéis de vinha” das encostas de Santa Maria, particularmente das baías da Maia e São Lourenço, de grande efeito cénico.99 Os altos muros das quintas da laranja micaelenses do século XIX e das propriedades mais ricas de todas as ilhas são em alvenaria de pedra argamassada e muitas vezes rebocada. Nos casos em que se pretendia maior solidez ou altura nos muros em alvenaria de pedra seca estes eram muitas vezes duplos. Um caso particular é o dos muros que conformam os currais e curraletes da vinha. A vinha era frequentemente plantada nos locais de “biscoito” próximos do mar, em delgados terrenos pedregosos sobre mantos de lavas recentes. Os muros que delimitam a vinha permitem a limpeza do terreno mas também o abrigo dos ventos salinos e a formação de um microclima que beneficia os pés de vinha, que requerem um maior calor e secura. As dimensões dos currais e curraletes e a pouca altura dos muros permitem que a luz solar atinja as plantas, o solo e a rocha. Assim, “as videiras crescendo entre as pedras recebem, ao longo do dia, a energia solar necessária à manutenção dos cachos. Durante a noite as pedras negras acumuladoras de energia, transferem para as vinhas o calor recebido. Uma verdadeira estufa!”100 As vinhas do Pico são geralmente vedadas por muros duplos em alvenaria de pedra seca com aproximadamente 2.00m de altura e portão de entrada.101 No seu interior encontra-se toda uma hierarquia de muros que vai subdividindo o espaço disponível até às unidades elementares, os currais. Os currais têm áreas geralmente compreendidas entre os 9 e os 12m2 e neles são habitualmente plantados 3 pés de vinha.102 Os muros conformam uma malha labiríntica e muitas vezes desencontrada que impede a formação de correntes de ar que possam afectar o microclima criado junto aos pés das plantas. Este sistema de construção, laborioso e cheio de sabedoria provinda da experiência, permitiu a criação de uma paisagem paradoxalmente anónima e monumental cuja beleza se encontra nos jogos de cheio e vazio que dão origem ao rendilhado das parcelas, mas também nos contrastes de claro e escuro que cada muro tem. Este tipo de abrigo para a vinha encontra- se patente nas diversas ilhas onde é plantada, mas em maior escala no Pico. As sebes e os muros são importantes elementos da paisagem açoriana que lhe conferem, simultaneamente, unidade e identidade mas também singularidade e diversidade.

98 SANTOS, J.M. op. cit. p. 199. 99 FERNANDES, J.M. (2008) op. cit. p. 96.

100 VELOSO, A. - “ A ilha do Pico e a paisagem dos muros negros”. Horta: Secretaria Regional dos Transportes e Turismo, Direcção

Regional do Turismo, 1988. p. 29.

101 VELOSO, A. op. cit. p. 45. 102 Idem, ibid.

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