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Neste ponto pretende-se explorar as diversas escalas em que a paisagem pode ser analisada e, consequentemente, o sucessivo desdobramento, adaptação e pormenor que instrumentos como as unidades paisagem e elementos singulares podem ter em função de objectivos específicos e escalas de abordagem diferenciadas. As unidades de paisagem e elementos singulares apresentados no “Livro das paisagens dos Açores” estão intimamente relacionados com a escala de trabalho - a escala da ilha - e com o objectivo específico da execução de um estudo de base de paisagem. À medida que se progride para escalas de trabalho de maior pormenor surgem outras unidades de paisagem, elementos singulares e pontos de vista específicos de cada lugar em questão. As unidades de paisagem e elementos singulares mais gerais podem inclusivamente deixar de fazer sentido a uma escala de maior pormenor e os seus limites deixam de se fazer num determinado ponto e passam a fazer-se noutro. Longe de demonstrar a falibilidade da metodologia, a sua flexibilidade traduz a dinâmica própria da paisagem e o esforço holístico que é necessário fazer para abarcar as diversas escalas simultaneamente ou então para “deixar cair” determinados elementos.

O processo de apreensão do carácter de uma paisagem a escalas de maior pormenor mantém-se na generalidade, mas novos dados da paisagem vão surgindo a partir da análise do lugar. Para além do relevo são tidos em consideração os elementos lineares presentes, como sebes e muros, ou o padrão com que estes surgem numa determinada área (com por exemplo uma malha reticulada de muros) já que estes podem servir para identificar unidades de paisagem. Também os usos do solo específicos e característicos de determinadas zonas (como por exemplo a presença de árvores de fruto com um padrão pontuado) podem servir para a identificação de unidades de paisagem. No caso dos Açores as sebes e muros são um elemento estruturante da paisagem e as suas tipologias e dimensões permitem diferenciar ilhas entre si e mesmo caracterizar determinadas zonas das ilhas. Face à homogeneização das pastagens como uso do solo

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dominante as áreas mais usadas para culturas cerealíferas, pomares e vinha podem constituir-se como unidades de paisagem diferenciadas, desde que o uso do solo seja representativo à escala de trabalho escolhida.

Os elementos singulares também são diferenciados a uma escala de trabalho de maior pormenor. Assim, se à escala da ilha consideramos a presença de ilhéus, caldeiras ou lagoas como elementos singulares, na abordagem a uma área específica de uma ilha os elementos singulares podem ser aspectos da geomorfologia locais (como cabeços, depressões diferenciadas ou formas erosivas singulares) mas também elementos da paisagem cultural, como a presença assinalável de elementos da arquitectura de produção tradicional. À escala de uma determinada parte da ilha ou freguesia - que é também a escala do passeio pedestre e do “turismo da natureza” - pode fazer sentido considerar as eiras, cisternas agrícolas, moinhos de água ou vento como elementos singulares. Também algumas sebes, muros ou troços de linhas de água podem ser considerados elementos singulares. Estes elementos pontuais e lineares, mesmo que privados, se articulados numa estrutura coerente de visitação e pedagogia podem contribuir para a identidade do lugar e vivência do carácter da paisagem.

Para além dos pontos de vista mais emblemáticos que se referiram no ponto anterior a uma escala intermédia é possível encontrar outros pontos de vista de interesse, não só para obtenção de vistas amplas sobre a ilha e o mar mas também para a obtenção de vistas particulares da paisagem, mais contidas ou focadas sobre aspectos diferenciados, como um determinado conjunto habitacional ou um trecho de costa. Alguns elementos da arquitectura religiosa e de produção tradicional, como ermidas ou moinhos de vento, pela sua implantação tradicional em zonas altas, podem ser bons potenciais pontos miradouro, aliando a preservação do património a funções de interpretação da paisagem.

Assim, a uma escala de maior pormenor a dimensão cultural da paisagem tem grande importância para a sua definição. As sebes, muros e elementos da arquitectura religiosa ou de produção tradicional desempenham um importante papel na estruturação da paisagem à escala do lugar. Estes elementos são importantes para a definição do carácter da paisagem e a sua protecção é essencial. As unidades de paisagem e elementos singulares são instrumentos operativos que permitem aceder a uma multiplicidade de níveis de informação sobre a paisagem e revelar a subtileza das interligações entre os diversos níveis. Estes são, portanto, instrumentos com uma componente holística forte e que fornecem informação adequada a uma síntese unificada da paisagem.

3.4. As ilhas

Nesta fase faz sentido um olhar mais pormenorizado às características da paisagem de cada ilha, complementado a apresentação das unidades de paisagem e integrada na abordagem paisagista. Isto porque, como refere João de Melo “Nove ilhas tão diferentes entre si (e que se complementam tanto na paisagem como na sua humanidade) não podem comparar-se sem o conhecimento profundo da sua diversidade. Nenhuma delas é mais ou menos bela que a outra. Todas se impõem e se distinguem entre si pela sua própria “diferença”.”43 Também Cancela d’Abreu et al referem que “para além da dominante de azul e verde, do vigor do relevo ou das características climáticas, a paisagem açoriana tem traços comuns bem marcados. Contudo, a combinação desses factores com os de ordem histórica e cultural permite distinguir um carácter e uma identidade própria em cada uma das ilhas. Também no interior de cada uma delas, apresentam uma apreciável diversidade.”44 Assim, é essa diversidade de paisagem à escala da ilha que agora se apresenta.

43 MELO, J. op cit. p. 8.

157 Para a caracterização de cada ilha procede-se à apresentação sumária da sua geologia e geomorfologia com base em dados provenientes da bibliografia já apresentada no capítulo das componentes telúricas. Caracteriza-se também o clima local e apresentam-se os usos do solo para cada ilha com base na carta de ocupação do solo da Região Autónoma dos Açores (COSRAA). A esta carta são sobrepostos os limites das unidades de paisagem do “Livro das paisagens dos Açores” procedimento que ajuda a entender a base da sua delimitação, já que ambas as fontes têm como base a realidade açoriana nos anos de 2000-2001.45 A localização das principais manchas de vegetação natural de cada ilha é apontada tendo como base a carta COSRAA e complementada com dados provenientes da bibliografia específica.46 A cartografia das unidades de paisagem elementos singulares do “Livro das paisagens dos Açores” é também aqui apresentada, procedendo-se a uma leitura da paisagem de cada ilha por meio desta. Às classes de ocupação do solo usadas para a elaboração da carta COSRAA correspondem as descrições apresentadas no quadro 12.

Quadro 12 - Classes de ocupação e correspondente descrição. (segundo a ficha técnica da carta de ocupação do solo. DROTRH - “Carta de Ocupação do Solo da Região Autónoma dos Açores (COSRAA) (ficha técnica)” - Ponta Delgada: DROTRH, SRAM, 2007. p. 15).

Classes de espaços Descrição

Espaços Urbanos Cidades, Vilas, Aeroportos, Aeródromos, Rede Viária, Áreas Portuárias

Espaços Industriais

Indústria, Infra-estruturas de produção de energia, Infra-estruturas de captação, tratamento e abastecimento de água, Infra-estruturas de tratamento de resíduos

Espaços Agrícolas

Culturas Arvenses (cereais)

Culturas Permanentes (chã, estufas de ananás, pomares, vinha) Outras culturas (inhame, beterraba, tabaco)

Pastagens Pastagens permanentes

Espaços Florestais Criptoméria, Eucalipto, Pinheiro, Acácia, Incenso Espaços de

Vegetação Natural Vegetação endémica, Matos

Incultos Barreiros de Santa Maria, Zonas de derrames lávicos recentes, Areeiros do Pico (decorrentes de situações geomorfológicas particulares)

Áreas Descobertas Pedreiras, Praias, Rocha-nua (falésias e arribas costeiras)

Lagoas Lagoas

Esta carta apresenta uma precisão geral de 80% e a maior dificuldade, segundo os executores da cartografia, consistiu na classificação dos espaços agrícolas e sua distinção de pastagens. Os espaços

45 A COSRAA foi executada tendo como base imagens de satélite dos anos de 2000-2001 que são também os anos em que foi

elaborado o estudo de “Caracterização e identificação das paisagens dos Açores”.

46 DIAS, E. et al - ““Distribuição das principais manchas de vegetação natural: Açores” in SILVA, J.S. (coord.) - “Açores e Madeira: a

floresta das ilhas” Lisboa: Edição Público, Comunicação social SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, 2007(b). Colecção Árvores e Florestas de Portugal vol. 6. pp. 299-320.

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agrícolas foram os mais difíceis de classificar já que as imagens de satélite não eram todas da mesma data mas sim de datas aproximadas (anos de 2000 e 2001) pelo que as culturas podiam estar em diferentes fases dos seus ciclos biológicos ou então encontrar-se em diferentes fases de um ciclo de rotação agrícola.47 Uma outra dificuldade foi a distinção entre os espaços florestais e os espaços de vegetação natural, pois muitas vezes estes encontram-se intrincadamente relacionados.48 A elevada cobertura de nuvens que habitualmente se faz sentir nestas ilhas foi o facto que levou à necessidade de utilização de imagens de satélite com datas diferentes. As caracterizações da paisagem de cada ilha são apresentadas no anexo I. Aqui apenas se apresenta a caracterização do Faial por ser a ilha onde se localiza o caso de estudo à escala do lugar apresentado no capítulo 7.

3.4.1. Faial

A ilha do Faial, de forma aproximadamente pentagonal, apresenta um prolongamento a ocidente que se desenvolveu na direcção WNW-ESE e que conforma a denominada península do Capelo. Esta ilha é dominada geomorfologicamente pelo vulcão central da Caldeira, no entanto a sua origem encontra-se na zona da Ribeirinha, no antigo vulcão em escudo que aí existiu. A sua morfologia encontra-se actualmente muito apagada devido a movimentos tectónicos posteriores mas o centro emissor deve localiza-se no eixo do actual graben de Pedro Miguel.49 A partir desta zona a ilha começou a crescer para ocidente e iniciaram-se os primeiros episódios do estratovulcão da Caldeira: o morro de Castelo Branco - um domo traquítico provavelmente construído em ambiente subaéreo, que é uma raridade em termos geomorfológicos50 - e a zona de costa adjacente são resquícios desta fase de construção da base do vulcão central.

Simultaneamente ao processo de construção do vulcão da Caldeira surgiu uma zona de vulcanismo fissural a SE, que é responsável pela formação da plataforma que integra a Horta, Flamengos e Feteira. É desta altura, acerca de 11 mil anos, a formação dos cones de escórias e tufos que constituem os Montes Queimado e da Guia, respectivamente,51 cujo estudo é aprofundado no capítulo 7. O vulcão da Caldeira continuou a erguer-se com sucessivas fases de actividade e posteriormente começou a surgir no seu flanco Ocidental um conjunto de cones que deram origem, por actividade do tipo fissural, ao complexo do Capelo. O último episódio de expansão da ilha para Ocidente deu-se à pouco mais de 50 anos, nos Capelinhos.

Em termos geomorfológicos evidenciam-se quatro grandes unidades: o vulcão central da Caldeira, o maior volume da ilha e que integra uma caldeira de subsidência no seu topo; a região Horta-Flamengos- Feteira a SE que é uma plataforma aplanada e integra diversos pequenos cones monogenéticos; a península do Capelo que constitui o prolongamento da ilha para WNW por meio do surgimento de um alinhamento de cones vulcânicos relativamente recentes; e o graben de Pedro Miguel, um dos melhores exemplos deste tipo de formação no arquipélago, que se caracteriza por um conjunto de abatimentos em degrau provavelmente devido aos intensos movimentos tectónicos locais.52 Estas unidades encontram-se assinaladas na figura 17.

47 DROTRH - “Carta de Ocupação do Solo da Região Autónoma dos Açores (COSRAA) (ficha técnica)” - Ponta Delgada: Direcção

Regional do Ordenamento do Território e dos Recursos Hídricos (DROTRH), Secretaria Regional do Ambiente e do Mar (SRAM), 2007. p. 36.

48 Além disso optou-se por classificar as zonas de incenso como espaços florestais, quando esta espécie é invasora de espaços com

vegetação natural o que complica por vezes o destrinçar entre as duas classes. No entanto a classificação desta invasora como vegetação natural também não traria mais fiabilidade à carta, por isso a opção tomada acaba por ser válida. DROTRH (2007) op. cit. p. 24.

49 FRANÇA, Z. et al, - “Geologia dos Açores: uma perspectiva actual”. “Açoreana: revista de estudos açoreanos”. Ponta Delgada:

Sociedade Afonso Chaves. Vol. X. Fasc. I. (Dezembro 2003). p. 86.

50 FORJAZ, V. H. - “Ilha do Faial: Aspectos geológicos e riscos associados”. in vários, OLIVEIRA; COSTA; NUNES (eds.)- “Sismo de

1998: Açores. Uma década depois.” Horta, Açores: Governo dos Açores/SPRHI, S.A., 2008. p. 189.

51 FRANÇA, Z. et al, op. cit. p.84.

52 MEDEIROS, A. et al - “Geologia dos Açores” [on line] Ponta Delgada: CVARG - centro de vulcanologia e avaliação de riscos

geológicos da universidade dos Açores. [consulta em 10/06/2010]. Disponível em http://www.cvarg.azores.gov.pt/Cvarg/Centro Vulcanologia/geologiaacores/FAI++Unidades+geomorfologicas.htm.

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Figura 17 - Unidades geomorfológicas do Faial. (1 - Vulcão central da Caldeira; 2 - Graben de Pedro Miguel; 3 - região Horta-Flamengos- Feteira; 4 - Península do Capelo. Adaptado de SRAM - “Plano de gestão de recursos hídricos: Caracterização e diagnóstico da situação de referência e perspectivas de evolução”. Horta: Secretaria Regional do Ambiente e do Mar (SRAM), 2010. Faial, p. 11).

O clima surge muito estratificado em função da altitude, com o vulcão central da Caldeira a ditar os valores mais elevados de precipitação (acima dos 3200 mm médios anuais) e humidade e os mais baixos de temperatura (abaixo dos 11ºC no bordo da Caldeira).53 O povoamento concentra-se na cidade da Horta e é linear ao longo de toda a ilha. Os espaços agrícolas encontram-se em redor das freguesias mais rurais, especialmente nas costas Sul e Norte. A vegetação natural encontra-se na Caldeira e na cordilheira entre esta e o vulcão dos Capelinhos. Esta é, segundo a cartografia do COSRAA, a ilha com maior percentagem de pastagens (51,84%). Os espaços florestais ocupam a segunda posição em termos de área (17,90%) seguidos dos espaços agrícolas (12,74%) e a vegetação natural ocupa 9,35% da área da ilha.

Figura 18 - Uso do solo e unidades de paisagem do Faial. (A partir de SRAM/DROTRH - “Carta de Ocupação do Solo da Região Autónoma dos Açores.” Ponta Delgada: Secretaria Regional do Ambiente e do Mar (SRAM) /Direcção Regional do Ordenamento do Território e dos Recursos Hídricos (DROTRH), 2007 e SRAM - “Caracterização e identificação das Paisagens dos Açores”. Horta: Secretaria Regional do Ambiente e do Mar (SRAM), 2001).

53 A partir de FORJAZ, V. H. et al op. cit. p.34,43,46 e AZEVEDO, Eduardo Brito de, et al - “CIELO - Cartografia climática” [on line] Angra

do Heroísmo: CMMG - centro de clima, meteorologia e mudança globais da Universidade dos Açores. [consulta em 05/08/2010] Disponível em http://www.climaat.angra.uac.pt/.

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A ocupação e usos do solo actuais são fruto do momento presente mas também dos usos do solo passados e das marcas que gerações anteriores deixaram impressas na paisagem. No século XVI, Gaspar Frutuoso referia que “colhe-se nesta ilha muito trigo e pastel, por a maior parte dela ser lavradia. Tem pouco vinho, por não haver senão mui poucas vinhas, de novo prantadas. Em toda ela não há ribeira alguma corrente, excepto a ribeira dos Framengos, mas bebem de fontes e poços que tem; mais da ametade dela está cheia de mato e arvoredo baixo. São as árvores cedros, zimbro, folhado, louro, sanguinho, tamujo e românia, que dá umas uvas pretas como murtinhos, que chamam uvas de serra, que muitas pessoas comem por terem o gosto agro e aprazível.”54 Assim, a presença de vegetação natural era bastante expressiva à época, e a agricultura fazia-se já com alguma intensidade. Em 2000 João de Melo realça, nas suas descrições, o cosmopolitismo da cidade da Horta, a presença da Caldeira e as relações visuais que se estabelecem com o Pico e com São Jorge, já que “o Faial é o Faial mais o Pico a sudeste e São Jorge a es- nordeste. Sempre e inseparavelmente. De certo modo, há nisto uma trindade una a que também não pode deixar de opor-se uma tripla individualidade (…)”. 55

As unidades de paisagem propostas no “Livro das paisagens dos Açores” dispõem-se em função da exposição face à forma de relevo dominante, o vulcão central da Caldeira. A própria Caldeira é uma unidade de paisagem distinta onde a vegetação natural se encontra bem presente. As unidades de paisagem independentes da Caldeira são o Vale dos Flamengos, a Horta e a Praia do Almoxarife/Pedro Miguel. Os elementos singulares considerados pelos autores são o vulcão dos Capelinhos, o morro de Castelo Branco, o Monte da Guia e a fajã da Praia do Norte. A maior parte dos pontos de vista considerados encontram-se na estrada para a Caldeira e os pontos de vista no litoral localizam-se na estrada regional que circunda a ilha.

Figura 19 - Unidades de paisagem e elementos singulares do Faial. (Adaptado de SRAM - “Caracterização e identificação das Paisagens dos Açores”. Horta: Secretaria Regional do Ambiente e do Mar (SRAM), 2001).

54 FRUTUOSO, G. - “Saudades da Terra”. Livro VI, cap. 37, p. 272. 55 MELO, J. op. cit. p. 53.

161 Estas unidades de paisagem expressam efectivamente áreas homogéneas de carácter diferenciado que podem ser consideradas em estratégias de planeamento e gestão. A cada uma delas pode ser atribuído um valor em função de objectivos específicos como a conservação da natureza ou preservação da identidade cultural mas também podem contribuir para a regulação das actividades económicas quer sejam relacionadas com a agricultura ou turismo. Os elementos singulares apontados pelos autores são-no efectivamente à escala de trabalho considerada, e podem ser pontos-âncora das estratégias referidas. A área de Paisagem Protegida do Monte da Guia, que constitui o caso de estudo à escala do lugar, localiza-se na unidade geomorfológica da região Horta-Flamengos-Feteira. Os cones de tufos e escórias que constituem o Monte da Guia e o Monte Queimado, respectivamente, surgiram antes das últimas explosões da Caldeira e encontram-se parcialmente cobertos com produtos dessas explosões. Em termos de usos do solo o Monte da Guia é maioritariamente ocupado por vegetação natural, apesar de também existirem algumas áreas descobertas constituídas por falésias e arribas costeiras, segundo a cartografia do COSRAA. No Monte Queimado, para além destas duas classes de espaços encontram-se também espaços urbanos, segundo a mesma fonte. Esta área protegida pertence à unidade de paisagem da Horta e é um dos elementos singulares da paisagem da ilha. A sua importância como ponto miradouro é elevada, já que este é o único elemento singular de paisagem considerado que é simultaneamente um bom ponto de vista.

3.5. A dimensão natural da paisagem

À altura da sua descoberta as ilhas açorianas eram essencialmente cobertas por densas manchas de florestas naturais que foram gradualmente desaparecendo com a ocupação humana, primeiro nas zonas costeiras e depois nas zonas de média altitude. As características naturais de cada ilha (como o relevo, o clima local e recursos presentes) o curso da história e o valor dos solos determinaram a ocupação humana e a transformação da paisagem e os seus padrões específicos associados. Gaspar Frutuoso identificou a maior parte da vegetação natural arbórea presente nas diversas ilhas, dos seus relatos consta a presença de cedros, louros, ginjas, faias, sanguinhos, azevinhos, urzes, pau branco e teixos. Refere também a presença de arbustos como a uva-da-serra, o folhado ou o queiró (entre outros) e de diversas espécies de herbáceas, tanto costeiras como de altitude ou linhas de água.56 Nas “Saudades da Terra” é possível discernir a densidade e mesmo impenetrabilidade das florestas naturais no início do povoamento já que “eram tão bastas as árvores que em muitas partes um cão não podia passar por entre elas, nem por debaixo delas; e muitas vezes se andava grande espaço de terra, sem porem os homens os pés no chão, senão por cima de árvore, que estavam verdes, deitadas e alastradas umas por cima de outras,”57 descrição que corresponde mais à ideia que se faz de uma selva tropical do que uma floresta temperada. É possível distinguir também a presença de um mosaico de vegetação que integrava não só formações de porte arbóreo (os denominados “arvoredos”), como também de porte arbustivo (os “matos”) e herbáceo.58 Refere tanto a presença de

56 Gaspar Frutuoso lista todas as espécies arbóreas actualmente identificadas como fazendo parte da vegetação natural endémica

excepto os dragoeiros. FRUTUOSO, G. - “Saudades da Terra”. Livros III, IV e VI; MOREIRA, J. M. - “Alguns aspectos da intervenção humana na evolução da paisagem da ilha de S. Miguel (Açores). Lisboa: Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, 1987. p. 28.

57 FRUTUOSO, G. - “Saudades da Terra”. Livro IV, p. 226.

58 DIAS, E. - “A chegada dos portugueses às ilhas - o antes e o depois: Açores” in SILVA, J.S. (coord.) “Açores e Madeira: a floresta das

ilhas” Lisboa: Edição Público, Comunicação social SA e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, 2007. Colecção Árvores e Florestas de Portugal vol. 6. p. 141-143. Este aspecto é também referido por Ferreira Drumond que quanto à ilha Terceira e na altura do povoamento diz que “se conhece perfeitamente que o campo do Paul, onde se estabeleceu a povoação (…) não estava cultivado de matos, e só de ervas prestadias aos gados (…).”” Annais da ilha Terceira” vol.I, pg. 37 e seguintes cit. por COSTA, C. - “Arvoredos dos

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