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7. KONKLUSJON

7.2 S AMMENDRAG OG K ONKLUSJON

7.2.1 Konstruksjon av kunnskap

Dahlet (2005), ao buscar a fundamentação epistemológica do sujeito bakhtiniano que emerge, no discurso, sob o olhar do outro, diz que há algo do sujeito kantiano no sujeito bakhtiniano. Kant recusa a possibilidade de

conhecer o sujeito como coisa em si119, o que, segundo Dahlet, também

estaria em Bakhtin, quando ele diz que o conhecimento do sujeito só pode ser dialógico. Vemos que a raiz da crítica de ambos os autores remete ao sujeito cartesiano, segundo o qual um poder central é atribuído à razão e à consciência. O que diferencia os dois filósofos é que enquanto Kant rejeita

118 A seguir retornarei a esta questão; por hora basta explicitar que o outro do sujeito, como

bem observa Dahlet (2005, p. 66), é o “nós”, isto é, a pessoa na qual podem desaparecer todos os outros, o ‘eu’ inclusive.

119 A coisa em si só pode ter uma ‘definição’ relativa ou negativa: é tudo aquilo que, não

sendo fenômeno, portanto não determinado no tempo e no espaço, ainda assim se apresenta de maneira irrecusável à nossa razão (COSTA, 2005, p. 281).

qualquer possibilidade de conhecimento substancial do sujeito, Bakhtin

introduz a possibilidade de um conhecimento relativo a partir da realidade das vozes de seu discurso (DAHLET, 2005, p. 59).

O dialogismo bakhtiniano tem como pressuposto a impossibilidade do sujeito ser reconhecido fora do discurso por ele produzido, somente pode-se conhecê-lo a partir de uma propriedade – as vozes que ele enuncia. É por essa razão que não se pode afirmar que Bakhtin proponha uma teoria do sujeito, mas uma teoria da linguagem. Teixeira (2006, p. 229) verifica que o sujeito em Bakhtin só pode ser objeto de teoria sob a condição de ser de linguagem, isto é, a partir de uma teoria da linguagem fundada na idéia da interação verbal.

Na origem da concepção dialógica da linguagem, a questão da subjetividade, em Bakhtin, não se dissocia da de alteridade, uma vez que a alteridade e a unidade coexistem na enunciação como própria condição do discurso. Nesse sentido, é equivocado reduzir o discurso a um dizer explícito cuja autoria é de um sujeito dono de sua fala; trata-se, na verdade, de atribuir ao sujeito um estatuto que não coincide com o de um só autor. Essa não unicidade do sujeito falante leva Dahlet a afirmar que o eu só pode se

realizar no discurso, apoiando-se em nós (2005, p. 59). Há uma persistência

do nós no sujeito bakhtiniano, que se dialogiza não tanto por uma pluralidade de lugares distintos do enunciador em seu discurso, mas na sua

divisão por um sujeito coletivo único, o ‘nós’ de todos os homens no ‘eu’ que fala, ou seja, é pelo nós que o sujeito se vê ser homem em Bakhtin

(DAHLET, 2005, p. 66).

Portanto, na concepção teórica de Bakhtin, é na categoria do nós que é possível situar a enunciação, entendida como produto de uma voz na

outra, em que a significação é produzida, sob as pressões de um dialogismo, na realidade do discurso. Desta forma, Bakhtin opera uma revisão das teorias lingüísticas e constrói uma concepção de discurso como sendo uma

‘construção híbrida’, (in)acabada por vozes em concorrência e sentidos em conflito (DAHLET, 2005, p. 56).

A constituição da subjetividade é um processo duplo entre a situação externa e a apreensão interna do sujeito em interação permanente com o outro. Essa interação, que Bakhtin denomina de exotopia em O autor e a

personagem na atividade estética, é um modo essencial de conhecimento de

si mesmo. É uma atitude que compreende a singularidade do sujeito, isto é, a insubstitubilidade de seu lugar no mundo, e ao mesmo tempo o reconhecimento da necessidade do outro.

A idéia de auto-reconhecimento através do outro, que Bakhtin destaca como constituinte da subjetividade em O autor e a personagem na atividade

estética, também aparece exposta em Marxismo e filosofia da linguagem, no

momento em que Bakhtin/Volochínov (2006, p. 116) afirmam que a

enunciação é o produto da interação de dois indivíduos socialmente organizados. Sendo a enunciação o que resulta da interação entre dois

sujeitos, isso significa que não há enunciação sem interlocutor. O sujeito, ao expressar-se, não emite palavras que não estejam motivadas pelo exterior, ou nas próprias palavras de Bakhtin/Volochínov: toda palavra comporta duas

faces. Ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém, como pelo fato de que se dirige para alguém (2006, p. 117). Desse modo, a

subjetividade sempre está relacionada com o outro, só se tornando efetiva na enunciação.

O sujeito, ao enunciar, além de dirigir-se sempre a um tu, usa palavras que estão relacionadas com a situação. O que eles destacam é que tanto o(s) interlocutor(es) quanto o contexto determinam a forma e o estilo

ocasionais da enunciação (2006, p. 118), ou seja,

a atividade mental se realiza sob a forma de uma enunciação, a orientação social à qual ela se submete adquire maior complexidade graças à exigência de adaptação ao contexto social imediato do ato de fala, e, acima de tudo, aos interlocutores concretos (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2006, p. 122).

Já que a enunciação somente se concretiza mediante o outro, numa interação intersubjetiva que se efetiva na e pela linguagem, a unidade fundamental da língua passa a ser o diálogo, entendido como toda a comunicação verbal, independente do tipo. Segundo Flores (2001, p. 35), Bakhtin/Volochinov concebem o diálogo como unidade da linguagem, sendo

que o diálogo é o produto da relação de alteridade existente entre duas consciências socialmente organizadas, ou seja, o dialogismo é um modo

constituinte da interação entre o eu e o tu e não um mero produto das trocas dialógicas entre elas. É o reconhecimento da linguagem enquanto constituinte da subjetividade que Bakhtin destaca.

Bakhtin, em O discurso no romance, esclarece que entre o discurso e o objeto interpõe-se um meio flexível de discursos de outrem, de discursos alheios sobre o mesmo objeto, sobre o mesmo tema, porque todo discurso concreto já se encontra impregnado por discursos alheios sobre o objeto. Decorre disso que o objeto não é neutro/abstrato, mas é um ponto de vista repleto por entonações e por apreciações de outros. É nesse sentido que Bakhtin observa que o discurso, orientado para o seu objeto, penetra neste

julgamentos e entonações. Ele se entrelaça com eles em interações complexas, fundindo-se com uns, isolando-se de outros, cruzando-se com terceiros (BAKHTIN, 1990, p. 86).

Trazendo estas vozes para a prosa literária, o objeto (a pessoa que fala e seu discurso) é para o autor-criador a absorção de vozes multidiscursivas que criam o fundo necessário para a sua voz, ou seja, são vozes constituídas na atmosfera do já-dito. No entanto, a dialogicidade

interna do discurso do autor-criador, para além de se relacionar com o

objeto, também é orientada para uma atitude responsiva ativa, ainda não dita, mas esperada/solicitada. Os elementos que nutrem esta dialogização

interna – a relação com o objeto (com as vozes multidiscursivas) e a relação com a resposta antecipada do ouvinte/leitor (as vozes prenhes de resposta) –, inseparáveis da enunciação, são produzidos/gerados pelo plurilingüismo social. Introduzido no romance, Bakhtin esclarece que o

plurilingüismo é:

o discurso de outrem na linguagem de outrem, que serve para refratar a expressão das intenções do autor. A palavra desse discurso é uma palavra bivocal especial. Ela serve simultaneamente a dois locutores e exprime ao mesmo tempo duas intenções diferentes: a intenção direta do personagem que fala e a intenção refrangida do autor. Nesse discurso há duas vozes, dois sentidos, duas expressões. Ademais, essas duas vozes estão dialogicamente correlacionadas, como que se se conhecessem uma à outra (...) como se conversassem entre si (BAKHTIN, 1990, p. 127).

A dialogização interna do discurso não decorre de elementos externos, de um diálogo social alheio, mas ressoa entre os limites do próprio discurso do autor e de discursos alheios, ou seja, nossos enunciados

expressam concomitantemente a palavra do outro (com ou sem aspas/citadas direta ou indiretamente) e a perspectiva com que a tomamos.

Sendo assim, o sujeito é social e é também individual, na medida em que são as vozes escutadas (já-ditas) e esperadas (prenhes de resposta) que, ao se incorporarem no discurso do sujeito (singularidade do sujeito e

singularidade do seu discurso), possibilitam a constituição de sua

subjetividade na interação com as vozes sociais. Em Problemas da Poética

de Dostoiévski, Bakhtin, ao propor seu projeto de estudo da linguagem (a metalingüística), também destaca que o sujeito, ao enunciar, faz sua a

palavra alheia e a refrata, carregando-a de nova significação.

Embora Bakhtin não proponha uma descrição do sujeito, nem formalize uma teoria do sujeito, a sua concepção de dialogismo permite dizer que o sujeito não se constitui somente através de uma (sua) subjetividade, mas pela compreensão responsiva ativa que atravessa constitutivamente o

um.

2.3.2 Formas e graus de representação da heterogeneidade na prosa