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3. KONSTRUKTIVISME – KUNNSKAPSKONSTRUKSJON

3.2 L ÆRINGSTEORIER

3.2.6 Vygotskys teori

Inúmeros são os trabalhos que investigam o discurso de outrem, baseando-se na obra Marxismo e Filosofia da Linguagem. Em sua maioria, buscam investigar o outro nas Ciências Humanas e Sociais, seja o profissional em pesquisa ou em prática. Nesta seção, ressaltamos quatro pesquisadoras (MATÊNCIO, 2005; AMORIM 2004; CUNHA, 2011; ZANDWAIS, 2011) que contribuem de forma efetiva para a discussão dessa temática como alternativa que se configura de encontro a abordagens positivistas e objetivas como também ao relativismo e subjetivismo das abordagens contemporâneas.

O trabalho de Matêncio (2005) trata sobre investigação da relação entre os discursos que se engendram para constituir os saberes sobre a língua/linguagem através da análise de atividades de retextualização, de textos acadêmicos para novos gêneros textuais que também circulam na universidade. A pesquisa parte do princípio de que a atividade de retextualização é uma das estratégias mais frequentes na formação de professores e que, idealmente, envolve tanto a apropriação e sistematização dos saberes científicos quanto a construção de conhecimento. A autora

reporta-se à abordagem bakhtiniana, remete, também, ao trabalho de Boch & Grossman (2002) para analisar os mecanismos enunciativos aos quais recorre o aluno – tanto por meio da introdução do discurso do outro quanto por meio da manifestação do intertexto, quando traz para sua retextualização a voz dos discursos sociais sobre os conceitos com os quais opera.

Em relação ao recurso do discurso do outro efetivado nos textos, a estudiosa levanta a hipótese de que, oriundos de uma prática escolar que, sistematicamente, tem valorizado um padrão em que se privilegia o dito (o “conteúdo informacional”, poder-se-ia dizer), em detrimento do jogo enunciativo de marcar pontos de vista (de quem é lido, daqueles com os quais se dialoga e do próprio escrevente), os alunos não conseguem identificar, de imediato, funções precisas para as diferentes formas de manifestação do discurso reportado. Ela acrescenta ainda que, articulando esses mecanismos enunciativos aos movimentos identitários que os cercam, por sua vez, a pesquisa revela que, embora o almejado pelo formador fosse que o aluno se projetasse como professor em formação – como leitor que está construindo sua autonomia para ler e refletir sobre a leitura especializada –, o que ocorre é o apagamento dessa cena enunciativa, para que se sobreponha outra, construída nos moldes do discurso didático, a cena em que dialogam tão somente formador/aluno, em que prevalece a importância do dito, não a relevância da conjunção entre dito e dizer.

Zandwais (2011) busca caracterizar o fato de que o componente sintático da língua torna-se insuficiente para demarcar as fronteiras entre discursos direto e indireto, sendo necessário, portanto, repensar as relações entre língua e discurso, a fim de que se possa compreender que para tratar das formas por meio das quais as enunciações se imbricam, configurando a função responsiva que constitui todo dizer, é preciso ultrapassar os limites/fronteiras que separam os aspectos formais e semióticos. Essa autora tece reflexões produzidas por uma gramática “não tradicional”, de base semântico-sintática, a fim de iniciar um contraponto entre as empirias da língua e do discurso, com base em questões propostas por Bakhtin/Volochínov ([1929] 2009), as quais retomam algumas relações entre língua, estilo discursivo, subjetividade e sentido, tendo como ponto de ancoragem os conceitos sobre discurso direto e

indireto. Assim, a estudiosa analisa conceitos de discurso direto e indireto produzidos em A University Grammar of English e ilustra tais conceitos a partir de enunciados produzidos no cotidiano, propondo a problematizar a dialética entre língua e discurso.

Vale ressaltar o texto de Amorim (2004) – “O pesquisador e seu outro” – que se baseando no princípio dialógico da obra bakhtiniana, reflete sobre a problemática das Ciências Humanas incluindo a questão da alteridade. No entanto, busca aprofundar e detalhar “De que outro estamos falando?” (AMORIM, 2004, p. 20). O profissional em Ciências Humanas está sempre às voltas com um outro (o aluno para o pedagogo ou linguista, o informante para o antropólogo, o paciente para o clínico). A obra procura esclarecer o que acontece quando o profissional deve escrever e publicar sua experiência com esse outro. Assim, a autora enfatiza que, no processo de escrita, o diálogo vivido em campo se transforma, ganha novos sentidos e incorpora novas vozes, pois muitos outros habitam o texto e é no interior dessa multiplicidade que se produzem, ao mesmo tempo, um conhecimento do objeto e uma singularidade de autor.

A alteridade sob a forma do diálogo e da citação é o traço fundamental da linguagem. De acordo com Amorim (2004, p. 97), “não há linguagem sem que haja um outro a quem eu falo e que é ele próprio falante/respondente; também não há linguagem sem a possibilidade de falar do que um outro disse”, sendo as figuras do diálogo e da citação centro da problemática do texto de pesquisa. Vale dizer que a citação é própria do ser humano. Contar ou reproduzir a um terceiro o que me disseram e que eu mesma não vi é uma atividade estruturante de minha humanidade. Sendo assim, “o conjunto de pessoas eu, tu/ele não é homogêneo. Eu e tu são, a cada enunciação, pessoas únicas, singulares. O ele, ao contrário, é a possibilidade de expressão da não pessoa” (idem, p. 98). Ela acrescenta também que entre o eu e o tu há uma relação de inversibilidade. O tu pode sempre se tornar um eu que então designará o outro como tu. O ele não é inversível porque está ausente da enunciação tal como ela foi formulada.

A autora busca revelar o modo como o conhecimento se tece, identificando a rede de fios enunciativos que o compõem. Assim, Amorim (2004, p. 207) apresenta dois princípios para quem se volta para o objeto:

1. A recusa de um subjetivismo relativista onde o objeto seria inteiramente reduzido ao modo como dele se fala; dito de outra maneira, o polo lógico-monológico da análise que fazemos supõe a aposta de que o objeto existe independentemente de mim, antes e depois de mim. A alteridade radical do objeto é o que tensiona a análise em direção a uma busca de verdade.

2. A recusa da ilusão positivista ou do pressuposto

fenomenológico de que é possível falar das coisas “tal como elas são”. Objeto das Ciências Humanas não é dado de modo imediato; é sempre construído, recolhido e transmitido em discurso, o que lhe confere seu caráter caleidoscópico. Ele é o próprio discurso e, enquanto tal, não há transparência possível.

A proposta de análise dessa autora não se situa nem no nível linguístico nem no nível do discurso e da pragmática, mas pretende antes se constituir no domínio do gênero tal como o concebe Bakhtin. Por isso, a autora enfatiza que o exercício de leitura55:

reivindica a dupla condição que é própria de toda presença do concreto e do singular no interior de uma pesquisa: a condição que dá forma ao debate e que, ao mesmo tempo o mantém aberto e inacabado. Pois se o estudo de um caso real deve permitir verificar o que dele pode se inscrever e se escrever em nosso campo teórico, deve também produzir silêncios e barulhos – rastros da alteridade radical que toda realidade traz para a teoria. (AMORIM, 2004, p. 210).

Com relação ao trabalho de Cunha, entre os vários que discutem o discurso de outrem, selecionamos aqui o publicado na revista Bakhtiniana no primeiro semestre de 2011. Cunha (2011) analisa formas de alteridade em cartas de leitores, fundamentada na análise/teoria dialógica do discurso e retoma discussões recentes sobre as diversas interpretações da obra de Bakhtin, sobre a questão da autoria vinculada aos fundamentos

epistemológicos do pensamento de Bakhtin e de Volochínov, os quais explicam as diferentes descrições do discurso de outrem nas obras dos dois autores.

A discussão esclarece porque as abordagens do discurso alheio são diferentes em Marxismo e filosofia da linguagem e em Problemas da poética de Dostoiévski, publicados no mesmo ano, e no Discurso romanesco. Volochínov classifica formas e variantes dos esquemas de transmissão do discurso alheio. Bakhtin classifica e se interessa especialmente pelo discurso bivocal no primeiro, e pelas formas híbridas, no segundo. (CUNHA, 2011, p. 129).

Com relação à análise, Cunha (2011) mostra a inter-relação das formas de presença do outro com o gênero, o ponto de vista e a argumentação. Para a autora, as formas de retomada não seguem os esquemas sintáticos descritos por Volochínov, mas assemelham-se ao discurso outro assimilado e disperso no discurso atual analisado por Bakhtin e acrescenta que o discurso outro funciona como heterogeneidade e movimento. No caso analisado – a carta de leitor – o discurso-fonte é integrado por meio da nominalização e da alusão, que trazem como fatos a doxa, discursos circulantes, ilações e reminiscências, o que permite apagar todos os elementos contextuais do discurso retomado. “Este gênero tem características da réplica de um diálogo e do comentário, porque os leitores têm o propósito de expor um ponto de vista para leitores que partilham um saber comum sobre o tema do momento discursivo” (idem, p. 129).

O que chama atenção nesses quatro trabalhos é a questão de como o discurso de outrem e o seu contexto enunciativo são determinantes para que se possa compreender o sentido por ele elaborado. Assim, parece-nos evidente que o único princípio que pode ser transposto e proposto para outras eventuais leituras é a problemática da relação com o outro na construção do saber.

A partir da proposta inicial desta seção e dos diálogos com outros estudiosos que retomam a obra de Bakhtin/Volochínov ([1929] 2009), refletir sobre a palavra de outrem nos leva a considerar as diferentes situações discursivas e as condições de enunciação em que tais pesquisas foram desenvolvidas.

Dependendo das intenções, das esferas (jurídico, científico, fictício, etc.) e dos gêneros, lançamos algumas questões que buscam refletir essa fronteira

entre o discurso citado e o citante, entre a voz ouvida e a voz silenciada, entre a polifonia e a monofonia:

 Como definir o ponto de articulação do discurso de outrem?

 Como formular a problemática e o objeto que estão nos diversos gêneros, considerando essa dinâmica do discurso de outrem e seu contexto narrativo?

Acreditamos que responder a essas questões inevitavelmente convém considerar o jogo de linguagem como uma forma particular e radical de dialogismo que evoca a expressão bakhtiniana: a palavra se dirige. Sendo assim, nas formas habituais de dialogismo, a resposta efetiva do outro é um dos elementos, entre outros, de construção de sentido; a representação e a antecipação da resposta suposta do outro devem integrar a própria estrutura do enunciado, sem o que ele não pode se formular e permanece ininteligível.

3.6 EM FRONTEIRA: AS BASES DO PENSAMENTO DO CÍRCULO DE