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6. Avslutning

6.2 Konklusjon

Seu Zé Lourenço, como costumo chamá-lo, mora em Recife; foi a primeira pessoa do Estrela de Ouro que tive contato. Falei com ele por e-mail e, posteriormente, por telefone, quando me convidou a visitar o Sítio. Na manhã de 29 de outubro de 2011, um sábado, lá

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Figura 12: Mestre Luiz Caboclo organiza as crianças para o desfile do maracatu, 2011.

Fonte: A autora.

estava eu no Chã de Camará, acompanhada por meu cônjuge e duas filhas, com então 4 anos, após uma viagem extremamente desgastante.

Logo na entrada da estrada de terra que dá acesso ao Sítio, uma placa de sinalização grande e um pouco enferrujada: Ponto de Cultura Estrela de Ouro. Seguimos caminhando. À primeira vista, o casarão, sede do Ponto de Cultura, com cordões de papéis coloridos enfeitando a varanda. Os cordões também coloriam todo o terreiro. Era dia de festa na Chã, reinauguração da Biblioteca Mestre Batista.

Passei praticamente todo o sábado conversando com seu Zé Lourenço, que me contou pacientemente a história do lugar, das pessoas, atividades, dificuldades de manter aquele trabalho. Falou do seu pai, da sua luta e persistência, e também da felicidade que o Mestre Batista tinha em brincar o maracatu. Uma biblioteca com o seu nome era uma justa homenagem.

O pequeno espaço da biblioteca estava em festa, todos os livros haviam sido catalogados e organizados nas poucas estantes. Crianças agitavam todos os lados, dentro e fora do casarão, entravam e saiam da biblioteca; maioria delas fardadas com a camiseta do projeto Leitura no Ponto. Mais tarde, aquelas mesmas crianças protagonizaram uma das cenas mais bonitas que já pude ver na zona rural. Sob o cuidado da coordenadora pedagógica Wanessa Santos, das assistentes Daniele Ferreira, Manuela Guedes e Érica Fernanda, as crianças vestiram as indumentárias do maracatu rural. Rei, rainha, dama do paço, caboclos mirins. Na coordenação, dirigindo o espetáculo que levantava a poeira do terreiro em tarde branda de sol, o Mestre Luiz Caboclo. Ele esbanjava felicidade. Ao meu lado, seu Zé Lourenço, explicando o ritmo, os componentes, as arrumações, a história do maracatu rural.

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Figura 13: Péricles, caboclo de lança mirim, 2011. Figura 14: José Lourenço, 2011.

Fonte: A autora

Mais tarde, o cavalo-marinho, ali no terreiro, arrancou sorrisos e passos de dança dos presentes. Foi a primeira vez que presenciei o auto do cavalo-marinho, assim como o desfile do maracatu. Bolo e refrigerante fecharam aquele dia quase onírico, em festa à Biblioteca e às manifestações de cultura popular que davam vida àquele lugar no meio do canavial. Voltamos para João Pessoa no início da noite, depois de muito agradecer o convite feito por Seu Lourenço.

Seu Lourenço, um senhor de 60 anos de idade, tem características faciais que lembram o Mestre Batista. Dizem que também no temperamento, os dois têm semelhanças. Enquanto está no Sítio, seu Lourenço observa cada detalhe, é exigente, gosta de ver perfeição em tudo. Observa se o terreiro está limpo, entra nos cômodos do casarão, verifica se está tudo em ordem – cozinha, biblioteca, banheiro, laboratório de inclusão digital, estúdio multimídia, salas de aula. Dialoga sempre com o Mestre Luiz, os dois se aconselham, se estranham, se entendem.

Após aquele dia, eu e seu Zé Lourenço passamos a nos falar mais vezes, por telefone, por e-mail; ele sempre solícito, auxiliando no que eu precisasse para a pesquisa. Pouco a pouco, fui conhecendo sua história e os conflitos que também enfrentava por investir dinheiro e energia naquele lugar, tal qual seu pai.

Durante a entrevista que concedeu, quase um ano depois da minha primeira visita, ele descreveu minuciosamente sua vida; a tarde anoiteceu e nós dois conversando. Ele sonhava em ser marinheiro, mas não deu certo. Trabalhou como servente; almoxarife; carregador de açúcar; vendedor em loja de departamento. Passou no vestibular em Letras, começou a namorar sua atual esposa, noivou, casou. Com dois meses de casado, ficou

132 desempregado. Teve que abandonar o curso de Letras, nunca retomou. Ele pontua: “geralmente eu era muito fácil de ser demitido, não sei o porquê.”

Um detalhe que muito me chamou a atenção foi o longo tempo em que seu Lourenço se prendeu a falar da sua carreira profissional. Mesmo quando eu tentava enfatizar a relação com o Ponto de Cultura, ele retornava ao seu passado, detalhadamente, contando sua busca pelo sucesso profissional. Entendi que aquele trecho tinha grande importância em sua história de vida. Talvez por mostrar sua luta no terreno instável em praticamente todos os empregos que passou, sem sucesso; talvez por querer demonstrar que sempre procurou trabalhar em outros ramos que não a cultura popular, e acabou neste ficando. Ou talvez simplesmente por querer dizer-se sem pressa, relatando o percurso laboral que ele julgava importante em sua forma de estar no mundo.

Existe um “antes” e um “depois” bem marcado na vida de Seu Lourenço, tendo o falecimento do pai como linha limítrofe. Quando foi estudar na zona urbana de Aliança, aos 17 anos, ele, que cresceu observando o Mestre Batista nas brincadeiras no Sítio, já estava desmotivado com os folguedos. Tinha vergonha de dizer aos amigos que brincava o cavalo- marinho, aquela brincadeira de gente “do mato”:

Quando eu fui estudar em Aliança, na cidade, meus 17 anos, aí eu comecei... já tinha uma visão diferente e tal, não queria encaminhar com a cultura, eu não queria continuar com a cultura, eu já tava saindo da cultura. Aí eu fui pra rua, encontrei outros amigos e tal, colegas de escola, e eu calado mesmo já estava alimentando algo fora da cultura. (...)

Eu já estava com o pensamento um pouco distanciando da cultura, aí ajudou, né. Além disso, as amizades. Aí eu na rua, você vai, uma bebidinha, vai os colegas, os colegas... “ah, eu não vou brincar esta brincadeira não, como é que eu vou namorar com as meninas com este negócio do mato, né? Negócio todo estranho...”

Este “negócio todo estranho” era a paixão do Mestre Batista, a quem Seu Lourenço visitava periodicamente, normalmente em fins de semana. Aos 17 anos, Lourenço parou de brincar o cavalo-marinho, mas continuou indo ao Sítio. Quando chegava no Chã de Camará, lá estava seu pai com o povo da comunidade, envolvido, coordenando as brincadeiras no terreiro.

Depois que se casou, as visitas de Seu Lourenço ao Sítio ficaram mais esparsas. Foram intensificadas quando o pai adoeceu, em 1990, vítima de um câncer na garganta. A doença se alastrou rapidamente e, quase um ano depois, ele faleceu. Neste intervalo, entre o diagnóstico e a morte, o Mestre Batista continuou se dedicando aos folguedos na roça, especialmente o cavalo-marinho, momento em que se reunia com os amigos e, mesmo

133 enfermo e abatido, não deixava de dirigir a brincadeira; determinando o timbre, o compasso, a canção a ser tocada. Seu Lourenço lembra deste período:

(...) aí eu vinha, quase todo domingo eu tava aqui. Acompanhava ele e ele se reunia, gostava muito de maracatu, mas se reunia com o pessoal do cavalo-marinho e ficava tocando, né, relembrando, às vezes chorava, né... pensando na partida e em deixar tudo aquilo. Se emocionava, chorava.

Na linguagem das pessoas do lugar, o maracatu se “desmantelou” depois que o Mestre Batista se foi. Nenhum dos filhos quis assumir a responsabilidade, nem mesmo Seu Lourenço. Nos primeiros três anos, as indumentárias do cavalo-marinho permaneceram no casarão, a pedido do Mestre Batista. Antes de ir-se também, percebendo que ninguém da família queria dar continuidade à tradição do maracatu, ele entregou as arrumações do folguedo para um dos brincantes:

meu pai passou o maracatu para um brincante chamado Ramiro, José Ramiro da Silva; os filhos não quiseram – se eu não fiquei à frente, quanto mais os outros. Que um fugiu de casa com 15 anos, vinha uma vez por ano. A minha irmã que, como eu te falei, que ela não gostava da história do maracatu, ela tinha raiva, discutiu com ele também, fazia 5 anos que não visitava. (...) se eu que tinha um contato mais próximo, em menos tempo tava visitando, não segui, os outros que não, né. Aí, o que é que ele fez: ele viu que não tinha continuidade na família, ele enxergou que um brincante que foi nascido, criado no maracatu seria a continuidade do maracatu. Mas mesmo em mãos de um “filho da terra”, o maracatu não teve continuidade. Todas as vezes em que Seu Lourenço visitava o Chã de Camará, o caseiro se aproximava com a mesma conversa – “mas, seu Zé, veja direitinho, você vai deixar acabar o maracatu do seu pai, é?” Ele ficava com aquela ideia “martelando, martelando”, lembrando do quanto o seu pai se dedicou às brincadeiras daquele lugar. Depois de muita insistência e pedido de outros brincantes, Seu Zé Lourenço resolveu assumir a direção do maracatu. Falou com Manoel Salustiano, então presidente da Associação dos Maracatus. Foi na casa de Ramiro, pegou todas as vestimentas e levou de volta ao Sítio. Pagou a dívida que tinha com costureiras e outros profissionais que trabalhavam para “botar o maracatu na rua”. Acabou assumindo a presidência do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança. Era o ano de 1995.

José Lourenço, pouco a pouco, foi trazendo os brincantes de volta. Em 1997, conseguiu o retorno de um dos integrantes mais respeitados do maracatu: o Mestre Zé Duda, que havia se afastado desde quando Batista faleceu. Naquele ano, após Zé Lourenço investir boa parte do seu seguro desemprego na arrumação do maracatu, este se consagrou campeão

134 do carnaval recifense. Em 2000, o Mestre Luiz Caboclo chegou para acrescentar mais vitórias.

Ao perguntar sobre a mudança que o Ponto de Cultura trouxe, a partir de 2004, Seu Lourenço respondeu:

Olha, o Ponto de Cultura foi um momento de novos horizontes, né. Foi otimizado, novas possibilidades de mídia, de levar o maracatu para outros lugares, pra o grande eixo Rio-São Paulo-Brasília, né. Então, o Ponto de Cultura realmente que alavancou muito o dinamismo e a sair da fronteira do Estado pra novos horizontes e também a qualidade de vida do brincante, novas possibilidades. (...) o investimento foi geral, foi um investimento também nas pessoas, né.

Esta fala, acompanhada de todo o histórico relatado, certifica que as manifestações folkcomunicacionais do Chã, foram potencializadas pelo Ponto de Cultura. Demonstra que a transformação não foi apenas socioeconômica, melhorando a qualidade de vida do brincante, mas também houve uma mudança de autoestima, pois “foi um investimento também nas pessoas.” Este investimento foi exemplificado a partir de um dos projetos, o Ação Griô, que permitiu a interação de Mestres e aprendizes da cultura popular com alunos de escolas públicas em Aliança, a fim de transmissão de saberes. Seu Lourenço lembra que, embora o projeto tivesse chegado em um ótimo momento, não foi um processo tão fácil:

(...) não é um processo muito fácil não. Aos poucos [os Mestres e aprendizes] foram cedendo a esse novo momento e foi mudando a vida desse pessoal. Realmente veio numa época muito boa porque há muito tempo, esse pessoal era muito sofrido. Você vê, a tecnologia, ela evoluiu muito mesmo na cana de açúcar, né, então há muito tempo que esse pessoal trabalha só a safra. Essa safra, ela dura no máximo 5 meses. Na entressafra, eles ficam parados. E aí com o desenvolvimento, com a otimização do lado do maracatu com estas oportunidades, daí veio sobremaneira ajudar muito. A relação da cultura com a educação é algo que sempre esteve presente na fala de Seu Lourenço, como duas categorias indissociáveis. Não apenas para as crianças que frequentam o Ponto de Cultura, mas também para os mais velhos. No diálogo, ele revela o investimento na educação como relevante na afirmação das identidades culturais do povo e da sua localidade. Identidades que se estabelecem como um fio que liga o indivíduo ao seu lugar de pertencimento, mesmo que longe dali esteja:

(...) eu acho que a cultura é educação também, né. Só que uma educação diferente, uma educação voltada pro entretenimento, voltada pra os meios de vida, de hábito das pessoas. No caso, nosso cultural, de tradições culturais. Ela tem grande importância porque é a afirmação das identidades culturais e de um povo, da sua localidade. E, por mais que ele se distancie daqui, ele está relacionado aqui, à vivência que teve. “Não, eu fui criado lá, brinquei maracatu.” Aqueles que

135 conseguem se destacar, nunca vão esquecer, é a origem. É esse momento, essa educação voltada junto com a cultura. Tem esta importância

Seu Lourenço leva também a questão da valorização da memória bastante a sério; na compreensão de que registrar ou recuperar documentos que se perderam com o tempo é algo importante para a História do lugar e das pessoas. O recurso proveniente do prêmio Ponto de Memória tem auxiliado nesta tarefa, contratando colaboradores para organizar todo o acervo iconográfico do espaço e das suas manifestações de cultura popular.

Sempre atento aos materiais que foram e que são publicados sobre o Estrela de Ouro, seu Lourenço mantém uma espécie de compilado bibliográfico, constantemente atualizado. Em uma das minhas visitas ao Ponto, recebi de suas mãos um material encadernado com mais de 200 páginas, com artigos e textos sobre o Ponto de Cultura e suas atividades. “Tome, Júnia, para ajudar em sua pesquisa.” E ajudou.

É perceptível que aquele rapaz de 17 anos, envergonhado para brincar o cavalo- marinho, assumiu a paixão pelo lugar e por suas brincadeiras. Mais que isso, assumiu a função do Mestre Batista, chegando a ser chamado por alguns de “Batista” ou “Zé Batista”. É notória a sua alegria ao ver as crianças na escolinha, os jovens na biblioteca, assim como é notória a sua vontade de assimilar os mais diversos conteúdos referentes ao Ponto de Cultura. Foi assim na oficina de fotografia em que ministrei, quando tive a satisfação de tê-lo como aluno. Pontual, questionador, assíduo. Ao mesmo tempo, exigente com o grupo, cobrando, em alto som, silêncio e atenção. E é esta a imagem de Seu Lourenço que gostaria de deixar registrada – a de um senhor solícito, persistente, exigente, dedicado à educação e à cultura popular da comunidade. Características que me fazem lembrar sempre dele como “o filho do Mestre Batista”.