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Quando Milton Santos fala da força do lugar, revela que a relação do indivíduo com o mundo foi alterada. Remetendo-se a uma citação de Michel Serres, Milton Santos diz que antes o olhar do homem partia do local sobre o local, mas após a globalização, essa relação se dá na ambiência do local sobre o global, já que, a partir do local, o mundo pode ser visto. Deste modo, “cada lugar é, à sua maneira, o mundo” (SANTOS, 2006a, p. 213) e, como diz Renato Ortiz (2010, p. 21) ao evocar a identidade, “cada ‘povo’ é uma entidade, um ‘mundo’ diverso dos outros.” Sendo assim, cada lugar comunga com outros ambientes e experiências permitidos pelo processo de globalização, mas, ao mesmo tempo, assinala, neste mundo, suas peculiaridades culturais e sociais, suas formas identitárias que o individualiza e o torna único. É nesta unicidade que mora o cerne da cultura popular enquanto caracteristicamente local, algumas vezes exercendo a funcionalidade de estratégia de sobrevivência.

É difícil encontrar análises sobre o localismo da cultura na contemporaneidade sem passar pelo termo globalização. O sociólogo Renato Ortiz (2010), todavia, faz ressalva à utilização do termo. Quando relacionado à cultura, para ele, o ideal é a palavra

mundialização. Assim Ortiz interpõe: “existe uma única cultura? Não. Existe um processo de

mundialização da cultura que está acoplado ao processo de globalização econômica e tecnológica.” (ORTIZ, 2007)22, pensar na mundialização da cultura implica, de algum modo, ir de encontro à cultura nacional. Nesse sentido, não há o aniquilamento das manifestações culturais, senão a coexistência de diferentes culturas, uma alimentando a outra; ou seja, “uma cultura mundializada corresponde a uma civilização cuja territorialidade se globalizou.” (ORTIZ, 2010, p. 31)

Do ponto de vista de Ortiz, a globalização pode ser compreendida como um processo em construção contínua, que se inscreve enquanto fenômeno da dinâmica do capitalismo, correspondente a uma integração funcional econômica, tecnológica, política e ideológica convergente em todo o mundo, em larga escala. Diferente da internacionalização – que se

50 refere apenas à ampliação do espaço geográfico de atuação de determinadas economias –, a globalização “se aplica à produção, distribuição e consumo de bens e de serviços organizados a partir de uma estratégia mundial, e voltados para um mercado mundial (...) modificando as relações políticas, econômicas e culturais entre as partes que a constituem.” (ORTIZ, 2010, p. 16-17)

De outro modo, ao aludir ao termo universalização, o professor Milton Santos remete à mundialização, quando define, detalhadamente por meio de fatos, o cenário que engendra a cultura enquanto mercadoria no processo contemporâneo, que suscita uma racionalidade alimentada em cadeia pelo capital:

A universalização do mundo pode ser constatada nos fatos. Universalização da produção, incluindo a produção agrícola, dos processos produtivos e do marketing. Universalização das trocas, universalização do capital e de seu mercado, universalização da mercadoria, dos preços e do dinheiro como mercadoria-padrão, universalização das finanças e das dívidas, universalização do modelo de utilização dos recursos por meio de uma universalização relacional das técnicas, universalização do trabalho, isto é, do mercado do trabalho e do trabalho improdutivo, universalização do ambiente das firmas e das economias, universalização dos gostos, do consumo, da alimentação. Universalização da cultura e dos modelos de vida social, universalização de uma racionalidade a serviço do capital erigida em moralidade igualmente universalizada, universalidade de uma ideologia mercantil concebida do exterior, universalização do espaço, universalização da sociedade tornada mundial e do homem ameaçado por uma alienação total.

Vivemos num mundo em que a lei do valor mundializado comanda a produção total, por meio das produções e das técnicas dominantes, aquelas que utilizam esse trabalho científico universal previsto por Marx. A base de todas essas produções, também ela, é universal, e sua realização depende doravante de um mercado mundial. (SANTOS, 1988, p. 5-6)

Considerando a opinião do Roberto Benjamim (2000), que vê a produção cultural popular como algo regional ou microrregional, como se comporta a cultura popular neste quadro de mundialização e universalização disposto por Renato Ortiz e Milton Santos? É possível manter as características locais em meio ao terreno aparentemente sem fronteiras? Como “entrar na Idade Mídia sem perder a identidade regional?” (MARQUES DE MELO, 2011, p. 25). Em primeira instância, talvez seja adequado pensar que a noção de pertencimento não se restringe apenas ao espaço físico, geográfico, vai além, na condição da bagagem cultural, social e simbólica carregada por todo indivíduo. A identidade regional, nessa circunstância, tem raízes no lugar onde se vive, mas também naquilo que está à sua volta, na dialética e dialógica do espaço-mundo. Mesmo o pensamento reformulado a partir da leitura do mundo, tende a considerar como referência o local, o ambiente cotidiano de convivência e sobrevivência.

51 Na Idade Mídia, com o barateamento de equipamentos tecnológicos audiovisuais, por exemplo, realidades pontuais refletoras de culturas específicas conseguem alcançar maior produção e disseminação (esta especialmente por conta da Internet). Em tempos globais, a cultura de cada povo, de cada grupo social, alimenta a mídia; de forma que também a mídia se apropria destas culturas. A fronteira é antes de identidade e representação que de locus geográfico.

Por meio da instrumentalização dos aparatos técnicos – aportes materiais a serviço de sentidos imateriais – indivíduos e grupos têm potencializado suas ações e pensamentos; endossando assim, seu lugar de pertencimento diante da desterritorialização. Enquanto conteúdo, aí reside a cultura popular como instrumento de comunicação e estratégia de sobrevivência, contexto que realça a folkcomunicação e corrobora com as palavras de Milton Santos, quando afirma que:

A cultura popular tem raízes na terra em que se vive, simboliza o homem e seu entorno, encarna a vontade de enfrentar o futuro sem romper com o lugar, e de ali obter a continuidade, através da mudança. Seu quadro e seu limite são as relações profundas que se estabelecem entre o homem e o seu meio, mas seu alcance é o mundo. (SANTOS, 2006a, p. 222)

A partir deste viés que radicula a cultura popular ao homem e ao seu meio, levanta-se a discussão sobre a existência da comunidade nos dias atuais. Diante do esfacelamento das linhas limítrofes, onde se situa a comunidade? Será que ela não passa de um ideal, de um tipo de mundo longe do alcance? (BAUMAN, 2003). Cicilia Peruzzo e Marcelo Volpato (2009) reforçam o que já foi aqui falado, vinculam a comunidade mais à noção de pertencimento e à construção de identidade que às características físicas de um espaço; uma visão que se aproxima do ideal comunitário vinculado ao conceito de “comunidade de sentido”, definido como

determinadas agregações de indivíduos que partilham interesses comuns, vivenciam determinados valores, gostos e afetos, privilegiam determinadas práticas de consumo, enfim, manifestam-se obedecendo a determinadas produções de sentido em espaços desterritorializados, por meio de processos midiáticos que utilizam referências globais da cultura atual. [Não se refere] a um espaço geográfico preciso e às relações diretas com certas tradições. (...) [São], antes de tudo, territórios simbólicos que possibilitam a manifestação de sentidos, presentes na produção discursiva das culturas midiáticas. (JANOTTI JR., 2005, p.119)

Em nível didático, a comunidade, sempre que citada nesta dissertação, toma a limitação apriorística e mais tradicional que circunscreve o lugar e as pessoas envolvidas no

52 projeto do PC Estrela de Ouro; um recorte dentro duma região – um lugar específico que germina, sedia e difunde atividades da cultura popular.

Ao situar um lugar ou região como recorte de uma totalidade, toma-se-lhes como subespaços pelos quais parte da funcionalidade do mundo pode ser notada empiricamente. Ver o local no global (e vice-versa) vem, então, da quase impossibilidade de se encontrar um sítio totalmente isolado; os lugares e seus sujeitos dialogam com outros lugares e sujeitos, outras fronteiras e culturas, numa expansividade contínua de troca de ideias e formação de sentidos; situações intrínsecas ao processo de comunicação.

Mesmo em territórios de individualização e desagregação de valores, outras formas de enlace vão se constituindo, redes construídas por interesses ou identidades comuns, que podem fortalecer o agir coletivo, o protagonismo, e potencializar ações em direção ao empoderamento social.

53 A passagem da consciência

ingênua para a consciência crítica é fruto de um processo de desenvolvimento das habilidades individuais, estimuladas pela criatividade e pela compreensão da realidade social concreta. (Paulo Freire, 1998)