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Kildegrunnlag og arbeidets gang

Segundo Marcel Duchamp, durante muito tempo, a arte deu prioridade ao prazer visual (no caso das pinturas, esculturas, instalações, performances, entre outros):

Desde Coubert, acredita-se que a pintura se dirige à retina; isso havia sido um erro cometido em todo o mundo. O calafrio retiniano! Antes, a pintura tinha outras funções, podia ser religiosa, filosófica, moral... Se teve a sorte de poder tomar uma atitude antirretiniana, infelizmente ela não mudou muito; todo o século é completamente retiniano, salvo os surrealistas, que tentaram sair um pouco disso. E, de todo modo, não o fizeram completamente! Breton crê julgar de um ponto de vista surrealista, mas no fundo o que interessa é a pintura no sentido retiniano. É algo totalmente ridículo. É algo que deveria mudar, não deveria ser sempre assim. (DUCHAMP; CABANNE, 1967, p.36, tradução nossa)24

Sua proposta, pelo contrário, era que a função da arte devesse ser semelhante à da filosofia: pensar sobre o tempo e o espaço em que se vive. Para isso, a ideia seria mais importante do que a técnica utilizada ou o material. Uma decorrência dessa lógica era que qualquer objeto poderia ser considerado uma obra, de forma que não houvesse mais diferença entre os elementos da "arte" e do "mundo real" (DANTO, 2013).

Seguindo esse raciocínio, Arthur Danto (ibidem) anunciou, em 1984, o "fim da arte". No entanto, em um livro publicado em 2013, o autor reviu sua conclusão, afirmando que não há diferenças visíveis, mas há as "invisíveis": a arte é arte porque incorpora sentidos. Além disso, para o autor, desde meados dos anos 1980, o universo artístico consiste em uma pluralidade de talentos individuais, agenciados por curadores que promovem seus trabalhos. Muitas vezes, em vez de movimentos artísticos, são as questões políticas e sociais, como o feminismo, por exemplo, que demandam lugar em teatros, museus e galerias.

Algum tempo depois de Danto, já em 1997, Michaud (2011) publicou a primeira edição do livro La crise de l'art contemporain (A crise da arte contemporânea) para responder a uma polêmica semelhante. Ele falava

24 Desde Courbet se cree que la pintura se dirige a la retina; eso ha sido un error que ha cometido

todo el mundo. ¡El escalofrío retiniano! Antes la pintura tenía otras funciones, podía ser religiosa, filosófica, moral... Si bien tuve la suerte de poder tomar una actitud antirretiniana, desgraciadamente eso no cambió mucho; todo el siglo es completamente retiniano, salvo los surrealistas que intentaron salirse de ello un poco. ¡Y de todos modos no lo hicieron del todo! Breton cree juzgar desde un punto de vista surrealista, pero en el fondo lo que le interesa es la pintura en el sentido retiniano. Es algo totalmente ridículo. Es algo que debería cambiar, no debería ser siempre así.

101 especificamente da França, mas lembrava aos leitores que a "crise" já se apresentava nos Estados Unidos e na Inglaterra desde os anos 1970. No entanto, o autor entendia que a dificuldade estava apenas em determinada forma de representar a arte e sua função e também ponderava que o que houve foi principalmente uma crise do mercado – do sistema que engloba a produção de artistas consagrados, a crítica especializada em veículos de comunicação, a venda de obras de alto valor econômico e a exposição em museus ou galerias, no caso das artes visuais. A produção artística, por sua vez, já no momento da primeira edição do livro, demonstrava enorme vitalidade, que atualmente se expande ainda mais.

Contudo, essa produção não é mais composta como na primeira metade do século XX. Além de uma tendência à descentralização, uma das principais mudanças é que a pluralidade em si mesma vem sendo valorizada como elemento de riqueza e dinamismo, uma vez que já não se trata somente de respeitar as diferenças, mas de incentivar a concorrência entre elas. Michaud (ibidem) distingue alguns aspectos: (1) a coexistência pacífica ou indiferente de diversas escolhas, por exemplo, ouvintes de rap e pessoas que gostam de quadros de pintores modernos; (2) a confrontação de ideias sobre um mesmo objeto, como a arte contemporânea; e, por fim, (3) divergências internas sobre uma mesma linguagem. Como Boulez já havia previsto, Michaud (ibidem) ressalta, por fim, o risco de que esses grupos se fechem em guetos, em suas próprias convicções estéticas, e afirma que as diferenças entre "alta" e "baixa" cultura vêm sendo substituídas por separações entre a "nossa cultura" e a "cultura do outro".

Certamente, pode-se apostar, como Amálio Pinheiro (2009), nas hibridizações que ocorrem o tempo todo na construção coletiva – e, em grande parte das vezes, anônima – da cultura e das artes. Ou ainda, pode-se perceber as redes de criação, que são fundamentais para a propagação de novas ideias (SALLES, 2011). Mas o que os textos de Michaud e Danto revelam é que, desde o final do século XX, para além da reprodutibilidade técnica e da cultura "de massas" ou "das mídias", as artes são também atravessadas por elementos como: a busca por identidades (ou comunidades) a partir de projetos ou de estéticas que reúnam pessoas com interesses semelhantes; a mobilidade dessas identificações, já que é possível participar de diversos grupos ao mesmo tempo, que, por sua vez, se sobrepõem ou se intercalam de acordo com o momento, as intenções e as afinidades em voga; a capacidade de "escolha" e de "decisão"; e certa linguagem empresarial – não no

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sentido estrito do lucro ou do comércio, mas principalmente do empreendimento e da iniciativa. Mesmo que essas não sejam as preocupações primárias de muitos artistas que buscam apenas realizar suas obras, um imaginário "neoliberal" vem se consolidando. Com isso, conceitos como os de "genialidade" ou de "obra-prima", tão caros à Estética, de fato perdem lugar, embora resistam em certo apelo romântico que atinge os meios de comunicação de massa e as grandes produções artísticas. As noções de "autonomia" e "liberdade", por sua vez, voltam a ressoar, mas com uma série de diferenças em relação às suas propostas originais.