PP, vai ter jornal esse ano?23
A presente seção objetiva descrever, brevemente, a continuidade da pesquisa de campo, cujos dados não foram analisados devido ao necessário recorte para a escrita da tese. A atividade social “Produzir um Jornal” na escola prevaleceu durante todo o ano de 2014, com algumas modificações. Em 201424, a sala foco de pesquisa escreveu somente os AO, enquanto as demais salas da escola, orientadas por seus respectivos professores de Português e sem minha participação direta, produziram notícias.
Ressalto que, conquanto o recorte para esta tese tenha sido o segundo semestre de 2013, é importante dizer que a continuidade da pesquisa de campo resultou, naturalmente, em avanços que desejo compartilhar aqui. Justifico essa decisão com um motivo simples: as transformações foram “deliciosamente” surpreendentes. Para que possam acompanhá-las, apresento trechos da última produção escrita dos estudantes e excertos do nosso último encontro, quando discutimos o encaminhamento que seria dado ao jornal O Estudantil.
Os trechos selecionados dos AO produzidos em 17 de outubro de 2014, um ano e dois meses após o início da pesquisa, revelam o quanto os alunos apropriaram-se das capacidades de linguagem relacionadas a esse gênero. A SD para produção do último AO contou com a escolha do tema pelos alunos – Cantina na escola –, leituras sobre o tema, dramatizações, debate e parcerias em duplas para revisão dos próprios textos e o dos colegas. Por esse breve relato é possível perceber a mudança nos modos de agir meus e dos alunos.
23 Pergunta elaborada pelo aluno Adriano, em uma das minhas visitas à escola no dia 26 de março de 2015. 24 O planejamento dessas aulas também consta no Anexo I.
exotopia que faz de cada texto uma criação única.
Quadro 40: Trechos extraídos do AO produzido pelos alunos em 17 de outubro de 2014.
(...) Primeiramente, defendo que se tivesse uma cantina na escola, muitas pessoas iriam gostar. Mas por outro lado, algumas crianças não têm dinheiro para comprar as coisas da cantina e, por isso, elas podem reclamar com os pais e até ficar doentes. Para que isso não aconteça, as crianças podem dividir para que as outras não fiquem com vontade (...) (Iara)
(...) Eu defendo que deve ter cantina, mas com níveis controlados de doces e gorduras, como por exemplo: podemos fazer que cada pessoa compre um chocolate, não dois ou três.
Além disso, na cantina, pode ter vitaminas, que são saudáveis e muito gostosas. Finalmente, a cantina pode dar mais variações no cardápio. (...) (Grazi)
(...) A questão ter ou não uma cantina na escola é complexa, pois envolve o fato de que alguns alunos não têm o dinheiro disponível para comprar o alimento, porém, a merenda escolar é oferecida gratuitamente(...)
Portanto, concluo que a cantina deveria ser aberta uma vez por semana, possibilitando que os alunos optem por comer o lanche desejado, praticando o hábito do alimentar-se bem, com frutas, verduras e legumes, e o ato de dividir com os colegas necessitados. Assim, gerando renda para APM, com o dinheiro voltado a melhorias para a escola. (Sara)
(...) Nas cantinas podem vender algumas guloseimas como chocolate, salgadinho, refrigerante, entre outros, mas só vender esses alimentos 2 vezes por semana e vender todos os dias alimentos saudáveis, como lanches e sucos naturais, frutas, vitaminas, etc.
Para a escola ter um controle sobre o que os alunos consomem, ter uma lista com os nomes dos alunos e anotarem tudo o que compram, mas não pode ter mais que 10 alimentos gordurosos ou coisas assim.
Quem tiver se alimentando muito bem, comendo só coisas saudáveis, poderia concorrer a um sorteio mensal. Com isso, os alunos se interessariam em comer alimentos que fazem bem à saúde (...). (Joana)
(...) Na cantina podem ter muitos alimentos gostosos e sem açúcar e gordura (...). Poderíamos também trazer nosso próprio lanche de casa. (...)A cantina não precisa funcionar todos os dias, mas sim uma ou duas vezes por semana, assim evitamos comer chocolate, doce e salgados, pois isso pode levar a obesidade, colesterol, pressão alta, etc. (Lia)
(...) o lado bom é que há alunos que não comem a merenda e então comeriam na cantina.
Também nas cantinas haveria mais variedade para comer.
Acredito que seria bom, mesmo com os alimentos gordurosos, pode haver alimentos saudáveis como sucos naturais, frutas e lanches naturais (...).
Em muitos casos, poderia também ajudar aquelas pessoas “cheinha” a emagrecer. (...) (Naiara)
(...) Acredito que as cantinas escolares deveriam funcionar três vezes por semana, para que os alunos possam variar o cardápio com alimentos saudáveis. Além disso, o dinheiro da cantina pode ser revertido para a APM e utilizado para melhorar a escola. (...) (Valdir)
(...) tendo uma cantina com alimentos saudáveis e ao mesmo tempo gostosos será muito bom.
(Continua na próxima página)
alimentando bem, a escola ganha um dinheiro.(Alice)
(...)Acredito que deveria ter cantina pelo fato de muitas pessoas não comerem na escola. Na cantina deveria ter comida saudável e, às vezes, ter algumas guloseimas.(...) (Jenifer)
(...) Concluo que seria melhor se cada aluno trouxesse seu próprio lanche de casa, pois traria o que gosta e ninguém passaria vontade. (Vivi)
(...) Se tivesse uma cantina, seria uma boa ideia, pois tem gente que não gosta da comida da escola.(...) (Daniela)
(...) Defendo a cantina, se houver alunos que não podem comprar, continuaria a servir merenda, mas teria que perguntar quem iria comer ou quem iria comprar na cantina para não sobrar merenda (...). (Vanessa, aluna matriculada em 2014)
(...) A cantina tem muitos lanches gordurosos, poderíamos trazer nossos próprios lanches de casa (...) (Robson, aluno matriculada em 2014)
(...) Ter merenda na escola vale a pena porque os alunos podem comer algo diferente e saudável. (...) (Gustavo, aluno matriculada em 2014)
Fonte: Elaborado pela autora, a partir de textos produzidos por alunos.
Após a aula do dia 17 de outubro, na qual os alunos produziram os AO, realizamos, em 21 de outubro, o último encontro do ano, com o objetivo de que a turma decidisse o que seria feito do jornal, como revela meu dizer na abertura da reunião: PP 2: Hoje nós vamos discutir... O assunto vai ser o futuro do jornal O Estudantil.
Os alunos, ao longo do segundo semestre de 2014, tinham dado mostras de cansaço em relação às tarefas que realizavam há um ano e meio e eu estava preparada para que a resposta da turma fosse um pedido de encerramento da AS. Porém, nesse dia, diferentemente do que eu esperava, os alunos fizeram uma nova proposta, construída ao longo da negociação de pontos de vista e de pedidos de explicação e de esclarecimentos: eles propuseram firmar uma parceria com um jornal municipal para publicar suas produções. Além da parceria, apresentaram uma nova forma de trabalho: se organizariam em grupos para desenvolverem as atividades de produção de texto em outras salas, juntamente com os docentes de Português e/ou Leitura, de modo que os grupos seriam os “formadores” que atuariam com professores e outras turmas discentes.
Para iniciar essa conversa, pedi aos alunos que se sentassem em círculo e dei-lhes um barbante: quem quisesse dizer algo, levantaria a mão e o portador do barbante o jogaria no centro da roda, a fim de formar uma teia. O intento era que, ao final da tarefa, os alunos relacionassem a teia à construção de um consenso por meio de diferentes ideias. Os alunos esqueciam-se de jogar o barbante, mas a regra “levantar a mão” foi suficiente para que todos participassem.
padrão mediacional dos alunos e das professoras. Em relação à PP, é possível notar que as perguntas por ela elaboradas, antes, na maioria das vezes, semirretóricas ou retóricas, passaram a ser organizadas de forma mais modalizada, como em PP 3: Então, como eu já disse, vocês finalizaram com sucesso o artigo de opinião do jornal e agora eu preciso saber
de vocês que encaminhamento nós vamos dar para o jornal O Estudantil. Repara-se também, pelo mecanismo de distribuição de vozes, que PP pede um posicionamento dos alunos, mas, ao mesmo tempo, coloca-se como parceira deles.
Foi possível registrar, nas colocações dos alunos, com maior frequência do que até então observado, a presença de pontos de vista já seguidos de sustentação, como revela Sara 3: Eu acho que a gente podia crescer, a gente poderia fazer uma parceria com um jornal grande, tipo a “A Comarca26” porque aí o nosso jornal ia ser divulgado pra outras pessoas também, assim a gente ia melhorando.
Mesmo diante de turnos mais elaborados como o de Sara 3, PP buscou, durante toda a interação, aprofundar a discussão com perguntas que pediam explicação, como em PP 8: (...) Explica pra mim como seria essa parceria, e por meio de pedido de entrelaçamento de vozes, em PP 9: O que vocês acham da ideia da Sara?; de concordância e/ou discordância, em PP 10: Quem gostaria de falar o sobre o que acha? Se concorda ou se não concorda?; e de sustentação de pontos de vista, em PP 11: (...)? Por que vocês concordam com a ideia da Sara?
Essas perguntas e pedidos propiciaram uma organização da linguagem de forma mais argumentativa. Corrobora essa observação a concordância de Naiara 3 e 4 sobre a sugestão de Sara 3 (Naiara 3: Eu acho que seria uma boa, porque a escola ia ter mais gente conhecendo a escola e (inc.); Naiara 4: É, e ia ter mais assunto sobre a cidade também, sobre a escola). O uso do verbo de opinião (acho), a conjunção introdutória de justificativa (porque) e os operadores que somam argumentos em direção a uma conclusão (e, também) são marcas linguísticas típicas da argumentação.
Os pedidos de explicação possibilitaram, ainda, a expansão da ideia inicial apresentada pelos alunos, como revela o excerto a seguir, em que PP, diante da sugestão dos alunos de firmarem uma parceria com o jornal municipal e formarem grupos para desenvolverem os textos com as outras salas, pede uma explicação:
Maria 2: Cada sala faz o seu texto. Não em grupos, todas as salas fazem. PP 19: Explica melhor, Maria, todas salas fazem...
Maria 3: É, tipo, a gente faz em grupos e ao invés da gente fazer os grupos, cada sala é
um (cada grupo trabalharia numa sala). (...)
Joana 8: Eu acho que podia juntar todo mundo, a professora de Português e a
professora de Leitura e aquela lá, aquela professora que vocês falaram... Qual o nome daquela professora lá?
PP 33: Heloísa.
Joana 9: Heloísa, então, podia juntar todo mundo junto e os alunos...
Joana 10: Aí junta todo mundo e os alunos ajudam as professoras pra divulgar pra
escola. (...)
PP 35: E quem podia ser esse grupo?
(...)
Naiara 5: Eu acho que deveria fazer um grupo para cada sala e cada um vai em uma
sala.
PP passa a empregar, também, perguntas que sintetizem a discussão, como a questão elaborada antes do fechamento da aula: PP 41: Ô pessoal, a minha pergunta é a seguinte, quem poderia então resumir tudo o que a gente conversou aqui (...)? Essa questão possibilita, de acordo com Ninin (2013), a recuperação de ideias importantes levantadas em uma discussão.
Quanto a papéis, nota-se que PP procura, distintamente do que ocorria no início da pesquisa, deixar que os alunos tomem decisões para resolver a proposta que fizeram, de forma a favorecer a descentralização docente em prol do protagonismo discente. Isso pode ser verificado no trecho em que PP pergunta aos alunos como entrariam em contato com o jornal A Comarca e o que falariam para a pessoa responsável:
PP 54: (...) Como que a gente vai pensar pra entrar em contato com o jornal A
Comarca?
Joana 14: Mandar e-mail.
(...)
Naiara 7: A gente pode combinar um dia pra ir lá.
PP 57: Combinar um dia pra ir lá... E o que vocês falariam? A pessoa responsável lá é a Luana, o que vocês falariam?
(...)
Maria 8: Que a gente queria colocar algumas coisas sobre a escola no jornal deles. PT 9: Mas aí assim, o projetinho, como você acha que seria? Elaborar um projeto e
levar pra eles? Como seria isso?
Maria 9: A gente faz alguns textos sobre a escola, o que acontece e levava até lá, aí
eles, sei lá, davam uma olhada. Porque a gente já tem, a gente pode mostrar pra eles o que a gente já fez.
(...)
Joana 20: Vai(sic) duas pessoas.
pelos alunos, desencadeou um agir mais consciente e a possibilidade de antecipar e planejar situações, como revela a pergunta de Maria na sequência da discussão de planejar como seria a conversa com Luana, a responsável pelo jornal municipal:
Maria 14: Pera (espera), mas e se ela (Luana) não aceitar isso? O que a gente vai fazer com o jornal?
(...).
Após mostrar esses indícios de transformações, seja na apropriação das capacidades de linguagem relacionadas à producão do AO observadas nos textos discentes ou nos modos crítico-colaborativos de agir entre os participantes da pesquisa, acredito que consegui compartilhar a deliciosa surpresa que foi, para mim, observar esse agir mais consciente e emancipado dos participantes.