Chapter 5 | Discussion
5.2 The balance of realized risks and resources, and how it impacts the outcome of the
5.2.1 Key findings
Todos os países considerados desenvolvidos atualmente fizeram reforma agrária. Em geral, por iniciativa das classes dominantes industriais, que perceberam que a distribuição de terras garantia renda aos camponeses pobres, que poderiam se transformar em consumidores de seus produtos. As primeiras reformas agrárias aconteceram nos Estados Unidos, a partir de 1862, e depois em toda a Europa ocidental, até a 1ª Guerra Mundial. No período entre guerras, foram realizadas reformas agrárias em todos os países da Europa oriental. Depois da 2ª Guerra Mundial, Coréia, Japão e as Filipinas também passaram por processos de democratização do acesso a terra. A reforma agrária distribuiu terra, renda e trabalho, o que formou um mercado nacional nesses países, criando condições para o salto do desenvolvimento. Para Martins, no Brasil a Reforma Agrária efetiva, ainda não sobreveio, devido a nossa formação político social e econômico, que não permitiu a formação de uma burguesia industrial capaz de romper com o Estado absolutista que perdura até os dias atuais. A Reforma Agrária distributiva, quando acorre é apenas para manter o pacto político da elite agrária.
Segundo Oliveira a Reforma Agrária é definida, nos países do mundo Ocidental capitalista, ou de capitalismo tardio, com orientação e características parecidas, porem respeitando suas próprias peculiaridades de combinações feitas através de seus governos ou doutrina legal.
A reforma agrária constitui-se, portanto, em um conjunto de ações governamentais realizadas pelos países capitalistas visando modificar a estrutura fundiária de uma região ou de um país todo. Ela é feita através de mudanças na distribuição da propriedade e ou posse da terra e da renda com vista a assegurar melhorias nos ganhos sociais, políticos, culturais, técnicos, econômicos (crescimento da produção agrícola) e de reordenação do território. Este conjunto de atos de governo deriva de ações coordenadas, resultantes de conjunto de decisões governamentais ou a doutrina de um texto legal. (OLIVEIRA, 2007, p. 68).
Com base em estudo de modelos de Reforma Agrária no mundo, Souza 130definiu cinco modelos de Reforma Agrária: Reforma agrária ou desenvolvimento agropecuário: é o Processo de modernização da agricultura e pecuária baseada na incorporação de novas técnicas de produção e numa generosa canalização dos recursos públicos sem provocar mudanças na 129MARTINS, José de Souza. A sociedade vista do abismo, novos estudos sobre exclusão, pobreza e classes sociais. Editora, Vozes. Petrópolis, 2002.
130 SOUZA, Marilsa Miranda. Capitalismo, questão agrária e meio ambiente em Rondônia. O caso de Jacinopolis. Dissertação de mestrado. Porto Velho, Unir 2006.
estrutura agrária. Reforma agrária tutelada: é o exercício de mudança em áreas limitadas e especificas, sob tutela do compartimento moderno. Reforma agrária modernizadora: é um conjunto de medidas modernizadoras da estrutura agrária inserida dentro de um projeto nacional de atualização histórica. Reforma agrária evolutiva: é o processo de mudança da estrutura agrária destinado a criar um contexto agrário flexível e acessível às inevitáveis transformações posteriores da sociedade global. Revolução Agrária: é a transformação qualitativa dos modos e relações de produção prevalecentes no agro, mediante a nacionalização dos recursos terra, capital e tecnologia. Os objetivos da revolução agrária são suprimir as contradições antagônicas que obstaculizam o desenvolvimento das forças produtivas, a eliminação progressiva, das contradições urbano-rural e a integração vertical (econômica, política e social) de todos os habitantes do País131. Os movimentos sociais do campo divergem sobre que reforma agrária defende para os produtores rurais brasileiros.
O MST é o movimento social brasileiro que traz um debate teórico mais definido á respeito da Reforma Agrária, não delibera sobre a forma como ela ocorrerá, entende que, o processo de correlações de força é desproporcional á implementação da verdadeira Reforma Agrária, mas declaram estar de acordo com a maioria da população do meio rural.
A proposta de mudanças no campo, aqui defendidas e almejadas pela imensa maioria da população do meio rural, representa um sonho. Uma utopia. Em busca da qual seguirá nossa luta permanente. A correlação de forças existentes atualmente em nossa sociedade não permite a sua implementação. As classes dominantes, que detém o governo e as leis, congregadas pelos interesses dos latifundiários, da burguesia e outros interesses estrangeiros, possuem ainda uma enorme força para manterem por muito tempo a atual situação. (MST, Programa de Reforma Agrária, 1995, p. 27).
A postura do MST, Para Martins132, é a mesma da CPT, e do MCC. Para ele os movimentos concordam com a Reforma Agrária evolutiva. Para Souza, a reforma agrária evolutiva não rompe com o capitalismo especulativo que se faz sobre a terra, no Brasil.
Primeiro, porque não elimina o monopólio da propriedade da terra, mas a colonização de terras inexploradas pertencentes ao Estado; segundo, porque beneficia os latifundiários parasitários que utilizam a terra apenas para especulação financeira com o pagamento de vultosas indenizações pelas terras desapropriadas. É a reforma agrária de mercado em que a terra é comprada pelo Estado, seguindo o exemplo instituído no Brasil desde 1850 com a Lei de Terras; terceiro, porque estimula o desenvolvimento do capitalismo no campo, conservando a grande propriedade arcaica e semi- feudal e as grandes propriedades de novo tipo voltadas a monocultura exportadora e controlada pelo capital estrangeiro e por ultimo, porque cria uma camada de camponeses ludibriados pelas promessas de prosperidade ao receber uma parcela de terra, contendo as idéias revolucionarias no campo. (SOUZA, 2006, p. 44 e 45).
Para Martins a Reforma Agrária no Brasil é “a abertura de possibilidades de acesso à propriedade da terra; fato histórico que acontece lentamente. Mas em seu constructo, ela
131 SOUZA, Marilsa Miranda. Capitalismo, questão agrária e meio ambiente em Rondônia. O caso de Jacinópolis. Dissertação de mestrado. Porto Velho, Unir 2006, p. 38-43.
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MARTINS, Marcio Marinho, Corumbia: Massacre ou Combate? A luta pela terra na fazenda Santa Elina e seus desdobramentos. Dissertação de mestrado. Universidade Federal de Rondônia. 2009, p.111.
72 acontece através de um processolento e histórico que ele chama de “sociologia dos processos agrários”, ou seja, a análise da renda da terra, sobre a perspectiva histórica dos conflitos de interesses. Ele acredita que “não é o numero de desapropriação ou de assentamentos em terras desapropriadas ou compradas que define o perfil da reforma agrária brasileira, sua justeza ou não” 133
. Por outro lado, não se pode negar que, essas conquistas, que foram desejadas pelos agricultores familiares, em um momento histórico, seja parte da construção do processo. Dessa forma, a área de regularização fundiária do Município de Chupinguaia, o assentamento Adriana e os assentamentos onde foram espalhados os sobreviventes do Massacre de Corumbiara, fazem parte da sociologia do processo agrário de Rondônia. Porem há de se trabalhar a analise de renda e a perspectiva de interesses. No município de Theobroma, o governo comprou três fazendas em 1995 e 1996 para assentar os sobreviventes do Massacre de Corumbiara, já em 2000, foi feito reforma agrária em terras devolutas, ou seja, os assentamentos anteriores a 2000 beneficiaram mais os fazendeiros do que os trabalhadores rurais.
Conforme o pensamento de Martins a Reforma Agrária, pode ter vários significados políticos e ideológicos; em alguns momentos da historia ela foi apenas à distribuição de terras; mesmo que o movimento social discorde, essa era a reivindicação dos trabalhadores rurais, não dá para mudar a historia. Para o MST134, no balanço do processo de construção da Reforma Agrária entre 1980 e 1985, verifica-se que ouve um aumento importante do número de posseiros, demonstrando a ineficiência da Reforma Agrária baseado apenas na distribuição de terras. Tal situação pode ser percebida no município de Theobroma; onde foram criados três assentamentos para os sobreviventes do massacre de Corumbiara, hoje 70% dos moradores já saíram desses assentamentos. O aumento no numero dos posseiros revelam que os camponeses são expropriados de suas terras se recusam a proletarizar-se.
O que essa realidade dos números pode nos revelar de mais profundo é que nem sempre o processo de expropriação atua em termos absolutos no campo. Senão vejamos: O aumento dos posseiros revela que uma parte do campesinato expropriado recusa a proletarização e procura abrir na posse da terra o espaço para a continuidade do trabalho camponês, familiar. (Stédile, 1994, p.63)135.
Conclui-se que a Reforma Agrária, como afirma Hobsbawn136, é apenas um slogan que pode ter significados: político ideológico, econômico. Porem é esperar demais que a simples
133O sociólogo José de Souza Martins foi criticado pelos Movimentos Sociais do campo, porque elogiou o governo de FHC, por ter realizado algumas praticas do processo de Reforma Agrária. Ele se defende alegando que a Reforma Agrária é um processo que não pode ser negado historicamente.
134A análise dos dados contidos na tabela 4 mostra-nos que entre 1970 e 1985 ocorreu uma ampliação do número de posseiros, com consequente ampliação percentual no conjunto dos vários tipos de produtores no Brasil, pois eles passaram de 16% para 19% no total, pois um crescimento nestes quinze anos de 30%. Estes dados tornam-se mais importantes se verificarmos que esse rápido crescimento se deu, sobretudo entre 1980 e 1985, quando os posseiros passaram de 898.184 para 1.054.542. (Stédile, 1994, p.63).
135Stédile, João Pedro. A questão agrária hoje. Edita da universidade federal do Rio Grande do Sul, 3ª edição. Porto Alegre, 1994.
distribuição de terra mude a vida dos camponeses tradicionais 137. O MCC defendeu politicamente a Reforma Agrária enquanto a LCP defende a Reforma agrária ideológica. Aos sobreviventes do Massacre de Corumbiara, foi distribuído terra; que devido á vários fatores apontados no diário de Dona Alzira, que será exposto no ultimo capitulo; impossibilitava a permanência desses trabalhadores rurais no campo. Tal situação demonstra necessidade urgente, no Brasil, de se construir um projeto de Reforma Agrária para a Nação. Apesar da urgência, existem impossibilidades reais que impedem a construção desse projeto. Martins aponta dois problemas a serem superados, um ele chama de “tomada de consciência tardia” da Reforma Agrária; fato que tornou a distribuição de terra sempre mediada pela classe média; e o outro é o fato de que ao longo da historia da construção do processo da Reforma Agrária no Brasil, seus sujeitos, sempre foram sujeitos de emergência e transitoriedade.