6 Country case: Lebanon
6.2 Key challenges facing youth in Lebanon
Vimos que o desenvolvimento patriarcal e a conseqüente repressão do Feminino, tiveram muitas implicações para a pós-modernidade. Atualmente estamos vivenciando a gradual queda do patriarcado e, a tentação para destruir e depreciar tudo o que a ele está relacionado, nos é muito forte. No entanto, é importante refletirmos que, apesar das conseqüências desagradáveis, essa etapa foi muito importante para a evolução humana, nesse sentido, tal dinamismo compreende tanto o aspecto positivo quanto o negativo.
Conforme vimos, foi necessário o afastamento do ego de sua nascente matriarcal para o desenvolvimento da consciência; “(...) Conquanto possa ter sido uma atitude
lamentável e até mesmo destrutiva, parece ter sido necessária ao desenvolvimento da
própria consciência do ego” (Whitmont, 1991, p.144), por outro lado, as conseqüências
negativas dessa repressão nos assombram até hoje.
No aspecto positivo, o patriarcado construiu a nossa sociedade civilizada devido ao pensamento lógico e à ética implícitas nesse padrão de funcionamento, em que os impulsos inconscientes, carnais e sombrios, maciçamente presentes no matriarcado, puderam ser em parte controlados. Isto proporcionou o surgimento de leis, regras, organizações, deveres e obrigações, o que possibilitou a convivência coletiva e a construção da cultura.
Por outro lado o patriarcado cindiu completamente com elementos da estrutura anterior, como o contato “com o mundo do feminino, da natureza, da sexualidade e dos
vínculos” (Faria, 2003, p.55), que por sua vez, foram negados e reprimidos por muitos
séculos.
No mundo relacional, criou um grande distanciamento entre o eu e o Outro e uma discriminação rígida do que é masculino e do que é feminino: isto fez com que os papéis sexuais fossem vistos de forma estereotipada confundindo princípio com gênero,
ou seja, a mulher passou a ser identificada unicamente com o princípio Feminino e o homem com o Masculino.
Ao nos afastarmos do Feminino, tanto homens como mulheres negaram um aspecto de sua totalidade, esse distanciamento gerou o sentimento de perda do elo de ligação com o cosmos, trazendo a sensação de incompletude, de vazio, de um mundo sem sentido, o qual tornou-nos cada vez mais individualistas e com a ilusão de um mundo belo, regido apenas pela persona.
“Coube ao homem do patriarcado reprimir seus conteúdos
matriarcais e projetá-los na figura da mulher, seja para persegui-los, seja para protegê-los, justificando assim uma atitude paternalista e assumindo o poder sobre o grupo feminino. A cultura incorporou e
promoveu o fenômeno tendendo a torná-lo irreversível” (Muszkat,
1987, p.14).
Ao longo dos capítulos, ficou claro que a fase correspondente ao patriarcado constituiu um período muito difícil para as mulheres, que receberam diversas projeções e acabaram servindo de bode expiatório para o grupo; lembremo-nos dos quatro séculos de extermínio conhecido como a caça as bruxas, além de outras matanças generalizadas. Apesar disso, as mulheres foram conquistando espaço e conseguiram dar um passo muito importante: a entrada no domínio público. O movimento feminista foi crucial para esta reviravolta feminina, possibilitando à mulher que participasse mais ativamente do meio social e cultural, conquistando seu espaço no mundo patriarcal. No entanto, percebemos que esse movimento trouxe, na forma de sombra, os valores machistas desta cultura no sentido em que, segundo Muszkat (1987), as feministas aceitaram e expuseram a inferioridade feminina quando reivindicaram por direitos “iguais”, pois somente exige-se igualdade entre os sexos quando um deles é considerado inferior ao outro.
Nesse sentido o movimento feminista assumiu um papel machista sobre sua própria condição. A batalha foi vencida e aqui estamos nós, “iguais” aos homens, lutando agora para resgatar a nossa essência perdida. Galiás afirma que a luta pela igualdade trouxe uma sensação de sobrecarga para as mulheres, que somaram suas obrigações: “(...) a mulher foi a luta e venceu, por assim dizer, somou suas obrigações.
Além de cuidar do que cuidava, conquistou o direito de ter mais obrigações, dividindo
com o homem as áreas que a ele cabiam. (...) Será que fizemos um bom negócio?”
(2001, p.63).
Acredito que sim; fizemos um bom negócio. Embora tenhamos partido de um pólo para o outro de maneira muito abrupta, tal mudança foi necessária para o desenvolvimento social, caso contrário estaríamos, ainda, sendo arrastadas pelos cabelos. Atualmente lutamos não mais pelo pólo oposto, mas, sim pelo meio termo, no qual podemos nos valer de nossos atributos femininos e masculinos, porém não se trata de uma tarefa fácil, pois teremos que lutar contra aquela que nos pareceu nossa maior inimiga: nossa própria sombra. Fazendo referência ao movimento feminista, Muszkat afirma que resultaram em alterações sociais a nível da persona, pois:
“(...) não tem comprovado mudanças significativas correspondentes a
nível de consciência individual ou grupal, já que a unilateralidade continua presente. Pode-se argumentar que o movimento empreendido não tenha resultado numa integração, mas numa identificação com conteúdos anímicos (de Animus), provocando, em vez de uma consciência mais integrada, a exacerbação do enrijecimento e a exaltação do princípio masculino (...) Mesmo assim, a possibilidade do livre exercício de condutas “masculinas”, com suas características próprias de aquisição de poder, livre competição e status social, tem se mostrado ineficaz no resgate da identidade feminina. Tampouco tem contribuído para uma nova consciência universal, menos
unilateral” (1987, p.21).
Ao romper com a dicotomia homem-público, mulher-privado, esperava-se uma transformação da estrutura psíquica tanto dos homens quanto das mulheres: uma integração dos elementos Feminino e Masculino em ambos os sexos. Mas não foi o que ocorreu, tampouco vem ocorrendo, pois para conseguir tais vitórias a mulher teve que entrar muito mais em contato com seus conteúdos anímicos e assumir uma postura que diz respeito mais ao mundo masculino do que ao feminino; mas apesar de ter conquistado seu espaço ela não incorporou essas “novas” características à sua essência feminina, no sentido em que seu ego encontra-se altamente identificado com a persona patriarcal, masculina. Com isso, a mulher acabou se desvalendo do feminino, da sua essência primordial.
O Feminino não encontrando espaço de expressão, acabou adquirindo caráter sombrio em grande parte das mulheres pós-modernas. Apesar de ter encontrado seu “lugar ao Sol”, assumindo hoje, mais do que nunca, atributos anímicos como a agressividade, a lógica do pensamento, a realização sexual e a participação ativa na cultura, o que vemos atualmente é uma profunda insatisfação feminina. O momento atual denuncia a necessidade da integração do Feminino perdido; no entanto ainda lutamos contra esse fato, buscando “receitas de persona” que prometem o corpo perfeito, os seios avantajados, o rosto jovial, o orgasmo, o relacionamento perfeito: no entanto estas receitas não nutrem nossa necessidade principal, nossa fome nunca será suprida enquanto não encontrarmos o alimento que nos nutrirá o mistério do Feminino (Woodman, 1980). Perera (1985) destaca que:
“O problema é que nós mulheres muito feridas na relação com o
feminino, quase sempre temos uma persona muito eficiente, uma boa imagem pública. Crescemos como filhas dóceis do patriarcado, freqüentemente intelectuais e dotadas daquilo que denominei “egos- animus”. Lutamos por defender as virtudes e ideais estéticos a nós apresentados pelo superego patriarcal. Mas enchemo-nos de auto- rejeição e de uma sensação profunda de feiúra e fracasso quando não conseguimos satisfazer nem aliviar as exigências de perfeição do
superego” (p.20).
Cavalcanti (1993) comenta o fato de que, no mito original, Lilith foi substituída por Eva, segundo ela, tal fato indica a forma patriarcal de leitura desse mito. A autora coloca que Lilith não aceitava passivamente as exigências de Adão, mostrando-se contrária à preferência sexual dele pela posição tradicional e expressando sua preferência pela posição na qual a mulher fica por cima do homem, portanto no controle do ato sexual. Adão reage abruptamente e Lilith, então, deixa o Paraíso, abandonando o parceiro. O mito retrata que Adão sentiu-se muito solitário com a saída de Lilith, então, Deus, a partir da costela de Adão, cria Eva, figura que se enquadraria mais aos ideiais patriarcais religiosos e sociais.
Interessante pensarmos que nossa cultura ocidental optou por Eva, ao invés de Lilith, mostrando quais os padrões estavam sendo valorizados na época. Em um segundo momento, Eva deixa de se enquadrar nesses valores, assumindo a posição de portadora de um corpo digno de vergonha, corpo este que levou Adão (ingenuamente) a
cometer o pecado, e que por isso deveria ser castigada. Essa é uma leitura patriarcal do mito, poderíamos tê-la pensando de outra forma: Eva sendo a responsável pela saída do paraíso, portanto, da saída da inconsciência; figura que possibilitou o desenvolvimento social. Porquê esses valores do feminino monstravam-se tão ameaçadores e contrários ao nosso desenvolvimento?
Fato é que optamos pela razão, pelo progresso e pela ordem, fazendo com que dentre os diversos atributos femininos, ficássemos com os de mãe e esposa dedicada: “(...) A livre manifestação da instintividade feminina teve que ser refreada e reduzida,
submetida aos propósitos patriarcais de procriação” (Whitmont, 1991, p.155).
A sociedade clama por uma integração do elemento Feminino; contudo, as mulheres, que seriam as principais portadoras desses valores à cultura também estão muito carente dos mesmos. Galiás (2001) aponta para a necessidade de conscientização da mulher de sua sombra matriarcal, para que se torne possível a conscientização ética com relação à Grande Mãe, ética esta fundamental para o desenvolvimento individual e coletivo, feminino e masculino. Para isso é preciso que abra mão do poder que esta sombra exerce: o poder da matriarca. A autora também afirma que existe uma expectativa social para que, passada a juventude em que a mulher pôde desenvolver mais seu lado masculino, na maturidade: “(...) ela cuide “do que lhe cabe”, do mundo
da Grande Mãe” (p.68). É nesse sentido em que expõe que o papel da mulher no
resgate matriarcal da cultura, é perceber o valor do arquétipo da Grande Mãe: “(...)
perceber de que preciosidade ela tem sido a guardiã” (p.69).
É nesse mesmo sentido que Corbett (1990) ressalta que os atributos da Deusa só poderão ser reestabelecidos para o coletivo através de ações individuais, nas quais temos a responsabilidade de alargar nossa percepção, até então masculina a respeito do Feminino. Segundo ela:
“(...) As mulheres podem ser portadoras desse aspecto vital da
natureza feminina para o mundo. Os homens podem mais uma vez abrir-se para o aspecto dinâmico do feminino e assim facilitar as modificações que se fazem necessárias nas estruturas política, social,
Jung em uma conferência ocorrida no ano de 1928 (publicada em sua obra Civilização e Transição, 1954) já apontava a importância da confrontação com a sombra e integração de alguns elementos, que Whitmont (1991) define como a integração dos elementos femininos-dionisíacos. Passaram-se 80 anos e cá estamos, no mesmo patamar apontado por Jung: afinal o que espera o homem pós-moderno?
Tal batalha não é fácil, no entanto, o processo fica ainda mais dificuldado quando não conseguimos eleger o armamento correto para este confronto. Estamos tentando, patriarcalmente, combater o patriarcado; ora não é de se surpreender que não saímos do lugar. Não adianta querer banir tudo o que pertence ao mundo patriarcal, com isso estaríamos apenas alterando a situação e dando um passo para trás no processo de individuação. Não é escondendo os valores patriarcais na sombra que conseguiremos resgatar o Feminino; trata-se de uma integração entre essas duas esferas e não de uma substituição. Para Muszkat:
“À desmoralização milenar do feminino, nós mulheres hoje temos
procurado reagir heróicamente sem, entretanto, percebermos o quanto estávamos identificadas com essa desvalorização. Pobres de recursos provenientes de experiências relativas à nossa própria natureza, admiradas e seduzidas pelo poder de um masculino patriarcal, empreendemos a luta anímica já enfraquecidas e caímos num novo tipo de repressão que constela um quadro antes característico do homem da nossa cultura: embotamento da afetividade, desvalorização das funções maternais e domésticas, com
supervalorização da realização intelectual e econômica” (1987, p.29).
Precisamos dar o próximo passo rumo ao desenvolvimento da consciência. Embora o patriarcado esteja declinando, ainda não conseguimos entrar, de fato no dinamismo seguinte. Podemos comparar esta fase a que estamos vivendo, com o período da adolescência: inevitavelmente demos o primeiro passo rumo à Alteridade, agora, não podemos mais voltar; temos que prosseguir, pois a partir do momento em que iniciamos nossa jornada no processo de individuação, não temos como retornar ao início, mesmo porque representaria um grande retrocesso.
A principal tarefa no dinamismo da Alteridade é a confrontação com a sombra, com tudo aquilo que, um dia, não “quisermos” enfrentar no nosso mundo consciente.
Esta confrontação com a sombra é importante para que possamos reintegrar os opostos masculino-feminino em nossa consciência. Não se trata, portanto, de uma tarefa fácil. Para Byington, no ciclo da alteridade “a inter-relação do desenvolvimento individual e
coletivo é obrigatoriamente complementar e inseparável” (1983, p.74). Segundo o
autor:
“(...) o Eu caminha para atingir seu potencial pleno de
relacionamento com o Outro e também da sua própria individualidade. Com isso, a psique extrai o máximo do potencial simbólico e a polaridade Eu-Outro busca ocupar o centro da consciência, exercendo uma interação de mutualidade dialética criativa junto com as demais polaridades, inclusive a polaridade consciente-inconsciente. (...) O ciclo de alteridade propicia a busca do desenvolvimento simbólico pleno da consciência em direção ao apogeu da criatividade artística, científica, religiosa e política do ser-
humano” (Byington, 1983, p.68).
Para Whitmont, tornou-se insustentável arcarmos com a unilateralidade e esteriotipia psicológica da admissão apenas das virtudes, da identificação do ego somente com a persona (1991). Ele critica a ilusão patriarcal de que o mundo é constituído apenas por uma parte boa e agradável, afirmando que é a escuridão que possibilita a renovação. Justifica que através da integração do Feminino é que poderemos vivenciar nossa totalidade.
O autor destaca que a humanidade só conseguirá reverter essa atual crise, e sua conseqüente destruição, como a destruição humana da natureza por exemplo, quando conseguir, verdadeiramente, resgatar os valores do feminino reprimido: para isso é necessário se defrontar com tudo aquilo que um dia deixamos de olhar e que ficaram depositados nas profundezas do inconsciente. Sendo assim, é imprescindível que homens e mulheres se abram para a integração de tais elementos na consciência, o que lhes permitirá uma forma de estar no mundo mais plena. Esse é o grande desafio para a nossa consciência atual.
Sabemos que esta luta é especialmente dura para as mulheres, pois terão que sair da posição de “filhas do patriarcado” e enfrentar a própria repressão do Feminino, fruto de sua identificação com os valores patriarcais:
“Sendo assim, a mulher, que esteve tanto tempo submetida a essa
enorme força do patriarcado, terá a árdua tarefa de travar uma luta interna diária em busca do desenvolvimento de sua personalidade. Como o homem passou séculos massacrando o feminino, ela foi internalizando um masculino destrutivo, opressor e castrador, uma vez internalizados esses conceitos, ela mesma assume a tarefa de se
autodesvalorizar” (Ferreira, 2006, p.32).
Depois destas apresentações é natural que nos perguntemos: “Afinal, como resgatar o Feminino?” Não se trata de uma receita pronta, nem de uma fórmula matemática, mas de um profundo contato individual com todas as facetas do princípio Feminino. Este trabalho expõe uma possibilidade, mas não invalida a existência de outras.
Vimos no capítulo três, referente aos princípios, que tanto o Feminino quanto o Masculino são arquétipos quaternários. A meu ver, integrar o Feminino seria resgatar este arquétipo em sua completude: Eva, Helena, Maria e Sophia. Importante lembrarmos que à Eva atribui-se também Lilith, ou seja, antes de tudo é preciso que consigamos integrar Lilith à Eva, para assim darmos sequência: “Para ser um mulher,
ou se conhecer uma mulher, há que haver o (re)encontro psíquico tanto com Lilith quanto com Eva” (Koltuv, 1986, p.36). Para isso é preciso a integração da liberdade, com o movimento e instintividade de Lilith, de modo que a mulher se torne consciente de seu próprio poder sedutor (Engelhard, 1999, p.36).
A partir da integração de todas essas faces do Feminino, “(...) é que a
individuação pode ocorrer na mulher, uma vez que aí estará seguindo uma verdadeira
essência e não se subjugando ao controle da lei patriarcal repressora” (Engelhard
1999, p.37).
Somente a partir do resgate individual é que a mulher poderá dividir os valores de solidariedade e partilha com a coletividade. Nesse sentido, elas têm a responsabilidade de ao resgatar tais valores e integrar valores tradicionalmente masculinos aos femininos, em homens e mulheres, salvar a humanidade do processo de destruição a que se encontra.
O próximo capítulo retrata a dança e a Dança do Ventre, bem como seu potencial arquetípico e a forma como esta se torna uma grande aliada no resgate do Feminino.
A DANÇA.
“A dança é então um modo total de viver o mundo: é a um só tempo, conhecimento, arte e religião.”
(Garaudy, 1980, p.16).
Segundo Garaudy (1980), a dança sempre foi e continua sendo considerada como um meio de comunicação e expressão, que se materializa através dos movimentos do corpo organizados em sequências significativas; a experiência da dança transcede o poder das palavras e da mímica. Por estar relacionada à magia, religião, trabalho, festividades, amor e morte trata-se, portanto, não somente de uma arte mas de um modo de existência. “(...) Os homens dançaram todos os momentos solenes de sua existência:
a guerra e paz, o casamento e os funerais, a semeadura e a colheita”, o autor também
afirma que “Dançar é, antes de tudo, estabelecer uma relação ativa entre o homem e a
natureza, é participar do movimento cósmico e do domínio sobre ele” (pp.13-14). O
autor afirma que a dança surgiu da necessidade humana de estabelecer uma comunicação com o transcendental, de conhecer o desconhecido, de estar em relação com o outro; destaca que a dança dá sustentação, força e sentido aos pronunciamentos verbais e posições do corpo e do espaço e é uma das raras atividades humanas em que o homem se encontra engajado por completo; é a união do corpo, do espírito e da emoção. Garaudy acredita que dançar é colocar-se no centro vital das coisas, no ponto em que começa a brotar o futuro, é participar da invenção deste futuro e da própria liberdade. Ele faz referência a este tema utilizando-se de uma frase que ficou amplamente conhecida: “Que aconteceria se, em vez de apenas construírmos nossa vida, tivéssemos
a loucura ou a sabedoria de dançá-la?” (1980, p.13).
Ioshimoto em sua dissertação de mestrado (2000), procurou compreender o fascínio exercido pela dança identificando que esta leva o bailarino e os espectadores a uma esfera outra de vivência, religando-nos com a dimensão sagrada da existência. Em suas palavras:
“(...) a experiência promovida pela dança sugere não se tratar apenas
linguagem, mas da busca de uma completude onde, juntos, corpo e alma atuam com um único objetivo: a totalidade. (...) o senso de completude, muitas vezes encontrado no âmago da experiência religiosa, transcende os limites da consciência racional, pois põe o indivíduo em contato com aquelas forças elementais que o ligam às
características universais da humanidade” (2000, p.58).
Ao comparar a dança com a religião a autora afirma que a primeira revela a visão de um mundo totalmente significante, no qual a existência individual adquire um sentido pois, ao dançar o homem estabelece uma relação com a natureza, participa do movimento cósmico, liga-se a outros homens, a si mesmo, ao mistério e à essência da própria vida. A partir dessa colocação, a autora afirma que a dança representa uma possibilidade de transformação da qualidade de vida. Ela compartilha da visão de Garaudy ao afirmar que: “(...) Dançar é sentir-se participante no mistério da existência.
Não só vivenciar no corpo a sua finitude mas, através dele, alcançar a liberdade, a sensação de se estar além de si mesmo, o abrir-se para uma multiplicidade de
possibilidades” (2000, p.89). Ioshimoto também destaca que a dança sempre serviu
como um elemento de ligação do homem com um poder que encontra-se além dele, como a natureza, o divino, reis e princípes, etc.
Afirma que é por intermédio da dança que o homem alcança um estado de consciência impossível de ser descrito por palavras, pois não se trata apenas da execução de sequência de movimentos nos quais o corpo se comprime, expande, abaixa, levanta, mas a dança nos remete a algo mais amplo, com dimensões indefiníveis. “(...) É
como se o homem fosse transportado para fora da realidade cotidiana, transformado
numa besta ou num deus” (p.25).
Em outro momento, Ioshimoto esclarece que a experiência da dança parece ocorrer além da dimensão consciente da psique; seria portanto, o encontro da consciência com determinados dinamismos inconscientes (arquétipos) carregados de considerável carga energética. Como os arquétipos encontram expressão nos afetos,