A análise tipológica dos veículos com fins bélicos utilizados pelas sociedades do Corredor siro-palestino695 será neste subcapítulo dividida em três regiões: Canaã, Palestina e
Síria. Assim, com base nos dados a que foi possível aceder sobre estas três zonas, tentar-se-á dar uma imagem o mais completa possível de como seriam os carros de guerra nestes espaços: as suas tipologias e os factores que os distinguem entre si.
Durante o final do terceiro milénio a. C., o Corredor siro-palestino nunca foi uma região696 culturalmente unificada: era um aglomerado de culturas interligadas, mas ao mesmo
693 Há, naturalmente, excepções como é o caso dos seguintes textos: EA N.º 270, EA N.º 271 e RA XIX; cf. PRITCHARD, ANET, pp. 486-487.
694 «Tu não subiste ao monte de Chawe, descalço, a tua mão colocada sobre o [teu arco], o teu carro amarrado com cordas, o teu cavalo a reboque. Ora, [deixa-me teu] [...] Tu estás consternado [em] subir e atravessar a sua corrente acima. [Assim] vês o gosto de ser um mahir, com o teu carro colocado sobre teu [ombro] e teu [assistente] cansado. [...]»; cf. PRITCHARD, ANET, p. 477 [trad. nossa]; O mahir, que outros designam como maher, segundo James Pritchard significa alguém hábil, e um termo muito utilizado para os funcionários que tinham a função de entregar correspondência entre cidades; cf. Ibidem.
695 Nos vários estudos relacionados com os carros de guerra a presença desta arma no Corredor siro-palestino não foi a mais analisada e trabalhada, como de resto Juan-Pablo Vita bem demonstra; cf. VITA, «Le Char de Guerre en Syrie et Palestine au Bronze Récent», Les Armées du Proche-Orient Ancien III-I Mill. AV. J.-C., pp. 57-58. 696 COOGAN, The Oxford History of the Biblical World, pp. 4-8.
tempo bastante diferentes e até rivais697. As cidades do Norte da Síria estavam mais próximas
culturalmente do Norte da Mesopotâmia e era-lhes, naturalmente, mais vantajoso ter estreitas relações com esta região do que com os reinos e sistemas tribais do Sul698. A aproximação das
cidades da Síria às culturas e aos modelos políticos da Mesopotâmia é explicada pela circunstância de o Norte do Corredor ser uma zona de passagem e de acesso a outros territórios, sendo aqui de salientar os casos do Levante e da Anatólia699.
Era das bacias hidrográficas do Eufrates e do Tigre que chegavam muitos dos bens essenciais para estas populações: é o caso da pedra e da madeira para a construção. Ao contrário do Norte da Síria, as sociedades do Sul, genericamente referidas como levantinas, devido ao seu local de fixação sempre foram muito mais próximas do Egipto700. O Levante estava
localizado ao longo da costa do Mediterrâneo e era único ponto de passagem para se atingir ambas as regiões (Mesopotâmia e Egipto), facto que dava riqueza a esse espaço, mas, também, origem a consecutivas guerras pela soberania do mesmo território. Dentro do Levante, havia outras zonas, sendo aqui de salientar Canaã e a Palestina; e embora esta última possuísse algum potencial em termos de comércio, a capacidade agrícola era fraca e as populações desta região nunca se conseguiram expandir para territórios com melhores condições701.
Com a passagem do milénio (do terceiro para o segundo a. C.), a Síria adquire alguma importância no contexto do Médio Oriente. Veja-se desde logo a existência de nomes reais numa língua proveniente desta região, como é o caso do amorita. Nas fontes, evidenciam-se as que foram encontradas em Mari702, e que, de certa forma, confirmam esta realidade. A
«invasão» amorita deverá ter sido intensa e devastadora, pois, no seguimento da instalação deste povo na Mesopotâmia e no Norte da Síria, as cidades que anteriormente tinham tido um importante papel regional foram substituídas por outras703.
As tabuinhas encontradas em Mari fornecem importantes informações sobre geoestratégia e geopolítica, tanto da Mesopotâmia como do Norte da Síria. Nos inícios do segundo milénio a. C., Larsa foi muito importante no contexto mesopotâmico, em especial sob
697 VAN DE MIEROOP, A History of the Ancient Near East, p. 174.
698 PITARD, «Before Israel: Syria-Palestine in the Bronze Age», in The Oxford History of the Biblical World, pp. 39-40.
699 Também a intervenção de potências mesopotâmicas, como o império Acádico, deve ter tido influência sobre as cidades sírias.
700 PITARD, «Before Israel: Syria-Palestine in the Bronze Age», in The Oxford History of the Biblical World, p. 40; e VAN DE MIEROOP, A History of the Ancient Near East, p. 174.
701 GICHON e HERZOG, As Batalhas da Bíblia, pp. 32-34; MARTINS, Até aos Pilares do Céu, p. 30. 702 VAN DE MIEROOP, A History of the Ancient Near East, p. 109.
o reinado de Rimsin I (c. 1822-1763 a. C.)704. Mais a norte, cerca de 1760 a. C., a cidade da
Babilónia rapidamente adquire importância política durante o reinado de Hammurabi, bem como a cidade de Echnunna. Sob o governo de Yahdunlim, a cidade de Mari adquire especial preponderância na região, mas, depois da morte deste rei, o poder passa para as mãos de Chamchiadad I705, rei de origem amorita. Com Zimrilim, Mari volta a tornar-se independente,
embora esta liberdade termine com a conquista definitiva pelos exércitos da Babilónia706.
Devido à localização privilegiada dos territórios do mundo bíblico, estes foram sempre um lugar de conquistas e de sobreposições de poder, onde as potências adjacentes à região lutavam entre si pela supremacia da zona. Vejamos, por exemplo, as guerras entre o Egipto e o Hatti707, que culminariam na batalha de Kadech. O relato bíblico, em termos de narrativas
bélicas, descreve exactamente esta realidade, onde a presença de conflitos é recorrente, seja entre os povos locais ou com intervenções externas. Observemos os dois excertos708:
«[...] Os filhos de José, porém, responderam: «Mesmo a montanha não nos basta; todos os cananeus que habitam a planície têm carros de ferro, tanto os de Betchan e suas cidades dependentes como os que vivem no vale de Jezrael.»
Então, Josué disse à casa de José, de Efraim e de Manassés: «Tu és um povo numeroso, e a tua força é muita: não vais ter só uma parte, mas toda a montanha, cuja floresta desbravares, e os seus limites serão para ti; hás-de expulsar os cananeus, apesar dos seus carros de ferro e de toda a sua força.»
[...]
Os babilónios e todos os caldeus, de Pecod, Choa e Coa, e com eles todos os filhos da Assíria, jovens atraentes, todos governadores e magistrados, dignitários e personagens ilustres, todos montados nos seus cavalos. Avançarão do Norte contra ti, com seus carros e galeras e uma multidão de gente, armados contra ti de escudos, capacetes e couraças. Encarreguei-os do teu julgamento e eles te julgarão segundo seu direito. [...]»
Em ambos os excertos é possível verificar conflitos armados tanto entre as populações da região, como contra potências exteriores. No primeiro caso, retirado do Livro de Josué, está relatada uma guerra entre os israelitas e os cananeus, situação recorrente na narrativa bíblica, pois os interesses de ambas as partes estavam frequentemente em choque. No segundo excerto, oriundo do Livro de Ezequiel, conta-se que o rei assírio, aliado aos babilónios e aos caldeus,
704 SERI, Local Power in Old Babylonian Mesopotamia, pp. 36-37; VAN DE MIEROOP, A History of the Ancient Near East ca. 3000-323 BC, p. 350.
705 Chamchiadad I fixou a sua capital em Chubat-Enlil, nas margens do rio Habur. Muitos investigadores referem- se a ele como o primeiro grande rei da Assíria, devido à sua provável origem amorita. Por outro lado, há quem defenda que este não deve ser visto como um rei assírio, embora para estes Chamchiadad I seja um símbolo de poder e muito associado à ideologia real da Assíria durante muito tempo; cf. PITARD, «Before Israel: Syria- Palestine in the Bronze Age», The Oxford History of the Biblical World, p. 48; veja-se também VAN DE MIEROOP, A History of the Ancient Near East, pp. 115-118.
706 PITARD, «Before Israel: Syria-Palestine in the Bronze Age», The Oxford History of the Biblical World, pp. 48-49. Durante o reinado de Zimrilim, terão existido relações entre Mari e a Babilónia; cf. MALAMAT, Mari and the Early Israelite Experience, p. 11.
707 A divisão do território entre as duas potências foi estável até à subida ao poder de Seti I; cf. VAN DE MIEROOP, A History of the Ancient Near East, p. 175.
iria atacar com um exército que era constituído por carros de guerra, cavalaria e forças de infantaria.
A região de Canaã era, na sua maioria, habitada por povos semitas, embora houvesse uma complexa variedade de populações no seu interior; dentro dos grupos semitas, distinguiam- se os Hebreus no Sul, os Arameus no interior e, por fim, os Fenícios na costa mediterrânica; Canaã era um espaço de movimentação e de transmissão de ideias, desde logo patente nos modelos políticos709. Entre 1550 e 1200 a. C., florescem no Médio Oriente novas potências com
realce para o Mitanni, o Hatti e o Egipto, ao qual, sob o comando dos reis da XVIII dinastia, irá conquistar e agregar à sua esfera de influência a Palestina e grande parte dos territórios sírios. Assim, é natural a ocorrência de um elevado número de conflitos bélicos entre estas três forças, com o Corredor siro-palestino como principal teatro de guerra710.
Na última metade do segundo milénio a. C., surgem os Israelitas711. A primeira
referência, além da Bíblia, relativa a este povo chega-nos de uma estela mandada erigir por Merenptah (c. 1224-1204 a. C.712), onde este refere os inimigos do Egipto colocando Israel
numa posição distinta. De uma forma geral, os conflitos foram sempre favoráveis ao Egipto, pois na estela é dito: «Israel foi aniquilado, de modo que a sua semente já não existe.»713 Na
primeira metade do século XII a. C., as populações israelitas faziam parte de Canaã, onde estavam também egípcios, cananeus e os «Povos do Mar»714, integrando estes os Filisteus que
eram os mais proeminentes715.
Antes de iniciar a análise propriamente dita da presença de carro de guerra nestas geografias, há que referir que grande parte da observação incidirá já sobre o final do segundo milénio a. C., devido, essencialmente, à falta de referências para os períodos anteriores. Apesar
709 RAMOS, «Canaã», DAE, p. 172. Muitos investigadores admitem que a primeira campanha militar aconteceu nesta região e foi levada a cabo por Uni, um general do faraó Pepi I (VI dinastia), que se vangloriou por ter derrotado a «terra dos habitantes da areia»; cf. GICHON e HERZOG, As Batalhas da Bíblia, p. 31.
710 PITARD, «Before Israel: Syria-Palestine in the Bronze Age», The Oxford History of the Biblical World, pp. 58-59. Depois de o Egipto expulsar os Hicsos, este levou a cabo um processo de campanhas militares e de conquistas nas regiões do Levante. Mais tarde, irá travar-se a batalha de Meguido, entre Tutmés III e uma coligação de «reis» locais, liderados pelo rei de Kadech, e que acabaria, depois de um longo cerco, na capitulação da cidade e na derrota dos rebeldes. Com Canaã definitivamente sob o controlo egípcio, Tutmés III começou a ter ambições de trazer para a sua esfera de influência a Síria; cf. Idem, pp. 60-61.
711 STAGER, «Forging an Identity. The Emergence of Ancient Israel», The Oxford History of the Biblical World, p. 124.
712 ARAÚJO, «Merenptah», DAE, p. 562. 713 RAMOS, «Israel», DAE, p. 453.
714 Sobre os «Povos do Mar» veja-se ARAÚJO, «A Luta pela sobrevivência do Egipto: A expulsão dos “Povos do Mar”», A Guerra na Antiguidade, III, pp. 100-108. A queda de Hattucha poderá também estar relacionada com a interferência destas populações na Anatólia; cf. BRYCE, The World of the Neo-Hittite Kingdoms, p. 13.
715 STAGER, «Forging an Identity. The Emergence of Ancient Israel», The Oxford History of the Biblical World, pp. 123-124.
das parcas informações, Yigael Yadin refere que, durante a segunda metade do segundo milénio a. C., a guerra no Corredor siro-palestino foi fortemente marcada pelos carros de guerra716.
Seguindo a ordem de apresentação, é acerca do carro cananeu que as informações são mais escassas, tanto em termos de fontes escritas como iconográficas, ainda que a probabilidade de este apresentar uma morfologia bastante idêntica aos veículos egípcios seja elevada717. Veja-
se o seguinte excerto do reinado de Tutmés III718:
«[...] Ele seguiu em frente, sem igual, matando os bárbaros, golpeando Retenu, trazendo os seus príncipes como prisioneiros, os seus carros de guerra forjados com ouro, compelidos pelos seus cavalos. [...]»
Como parte integrante do relato da primeira campanha militar de Tutmés III no Levante (ano 23 do seu reinado), observamos aqui a referência a carros com ouro nos espólios de guerra do faraó. A alusão à presença do ouro parece retirar alguma probabilidade de estes veículos alguma vez terem sido utilizados em combate, mas, por outro lado, o contexto em que estes carros foram adquiridos parece apontar para uma utilização em batalha. Seria, assim, a menção ao ouro uma forma retórica usada pelos escribas egípcios para exaltarem os objectos que o monarca conseguira levar para o Egipto? Se bem que pareça improvável que os veículos utilizados na guerra tivessem este tipo de característica, a verdade é que, segundo o excerto, foram capturados vários carros aos príncipes inimigos.
«[...] Os tributos dos príncipes de Retenu, [...] 19 carros de guerra, forjados com prata; os equipamentos e as suas armas de guerra; [...]»
Os carros forjados com ouro ou prata parecem mais plausíveis quando adquiridos por via de tributos, como se pode observar no excerto acima apresentado719. Aqui, os líderes dos
vários aglomerados populacionais do Retenu ofereceram a Tutmés III um tributo de dezanove carros de guerra forjados com prata, bem como toda a panóplia de armas e de equipamentos que lhes estavam associados. Neste excerto observa-se também a importância que o carro de guerra tinha no Corredor siro-palestino, pois é evidente a associação dos dezanove veículos aos equipamentos e às armas que os príncipes «ofereceram» ao faraó, patenteando assim a estreita relação do carro com a guerra. Embora seja importante referir, mais uma vez, que veículos com estas características não seriam utilizados em combate, este factor não implica, necessariamente, que não fossem usados pelos líderes do Retenu, nomeadamente para se
716 YADIN, The Art of Warfare in Biblical Lands, p. 75. Apesar de o autor não referir, grande parte desta guerra operada com carros de guerra era feita por forças externas como o Egipto, o Mitanni e o Hatti.
717 YADIN, The Art of Warfare in Biblical Lands, p. 86.
718 BREASTED, ARE. Volume II. The Eighteenth Dynasty, p. 178 [trad. nossa]. 719 Idem, p. 199 [trad. nossa].
deslocarem para o local da batalha, bem como para exercerem o comando das forças a partir daqueles720.
«[...] O tributo dos chefes de Retenu neste ano. [...] cavalos; [...] [carros de guerra], forjados com prata e ouro, e pintados; [...] 3 carros de guerra de madeira tjagu, madeira de alfarrobeira, [troncos] de todo o tipo de madeira do território. [...]»
Contextualmente inserido na nona campanha de Tutmés III721, neste excerto surgem
referências a carros de guerra feitos de madeira722, o material de construção mais apropriado
para veículos com fins bélicos, pois tornava o carro mais leve e flexível. Por conseguinte, a ausência de ouro e de prata retira aos veículos a sua componente simbólica e ritual e faculta a estes maiores valências militares. Assim, no Retenu observamos a presença de vários tipos de veículos; em termos de fontes, os «não militares» surgem com mais frequência, muito provavelmente pela sua importância em termos políticos.
Qual a tipologia do carro cananeu? O maior número de provas iconográficas provém do reinado de Seti I723, onde se observam efectivos destes veículos com elmos emplumados724 em
fuga perante o faraó. Tipologicamente, os veículos que se vêem ao longo destas iconografias aparentam ser bastante idênticos ao paradigma artístico, frequentemente utilizado para representar o carro egípcio. Observa-se, pois, um carro com rodas de seis raios725 (também
presente na XIX dinastia), com o eixo das mesmas na retaguarda da plataforma, bem como um formato estrutural ligeiramente arqueado presente também em alguns carros egípcios, embora não pareça que as partes laterais fossem completamente preenchidas, deixando assim uma circunferência na parte superior destas. O carro em questão era traccionado por dois cavalos (vêem-se na imagem as suas caudas) e era tripulado por dois soldados726, um auriga que
aparenta segurar na sua mão direita um escudo rectangular727, e um combatente, apesar de ser
difícil identificar o armamento que está a utilizar, exibindo um arco compósito728, por fim, na
ala esquerda do carro, verifica-se a existência de uma aljava, que podia albergar setas ou dardos.
720 É pouco provável que estes príncipes participassem no conflito, tal como o próprio faraó. 721 BREASTED, ARE. Volume II. The Eighteenth Dynasty, p. 206 [trad. nossa].
722 O estudo dos materiais de construção irá ser apresentado posteriormente.
723 ZORN, «Reconsidering Goliath: An Iron Age I Philistine Chariot Warrior», BASOR, 360, pp. 3-4. 724 Idem, p. 4.
725 AMADASI, L´iconografía del carro da guerra in Siria e Palestina, pp. 9-29.
726 ZORN, «Reconsidering Goliath: An Iron Age I Philistine Chariot Warrior», BASOR, 360, p. 17.
727 Segundo Jeffrey Zorn, esta seria uma tipologia de escudo muito característica de Canaã; cf. Idem, p. 7. A presença de um escudo no auriga pode ser algo problemática no que concerne à condução do carro. Parece pouco plausível que a mão que está a segurar o escudo também segurasse uma rédea, pois o manuseamento deste podia complicar o controlo dos equídeos. Será possível conduzir o carro com apenas uma mão? Não há resposta para esta questão.
728 ZORN, «Reconsidering Goliath: An Iron Age I Philistine Chariot Warrior», BASOR, 360, p. 11. A possibilidade da presença do dardo não pode ser descartada.
Daquilo que é possível apreender da iconografia egípcia, os carros presentes nos esquadrões cananeus aparentavam ser bastante semelhantes aos que foram utilizados nos exércitos faraónicos. Esta realidade, tendo em conta a introdução do carro por parte dos Hicsos e, posteriormente, pela influência exercida pelo Egipto sobre as várias regiões do Corredor siro- palestino, não surpreende. Infelizmente, os dados iconográficos não nos fornecem informações mais concretas, como por exemplo as medidas dos vários componentes destes veículos, logo é difícil de confirmar se estes carros seriam maiores ou menores, mais leves ou pesados que os egípcios; para Anthony Spalinger, os carros presentes nas regiões levantinas eram, em geral, de menores dimensões729.
Para além dos textos e murais egípcios, outra importante fonte é a Bíblia, mais concretamente o Antigo Testamento: aqui, numa narrativa que é muito centrada em Israel, conseguimos identificar os povos que rodeavam os Isrealitas, e com quem, por vezes, entraram em conflito; e se no caso das fontes egípcias os carros da região de Canaã surgem tipologicamente próximos do egípcio, a Bíblia oferece outras interpretações. O carro de guerra está amplamente referido no «livro sagrado», o que mostra a enorme importância que esta arma tinha, não só em termos militares, mas também em aspectos político-sociais. Esta relevância deverá ter tido a sua origem nas valências bélicas desta arma, pois a relação do carro de guerra com o simbolismo associado ao prestígio e ao poder só se explica pela sua importância na guerra. Veja-se o seguinte excerto730:
«[...] Então, os filhos de Israel clamaram ao Senhor, pois Sísera possuía novecentos carros de ferro, e os oprimira violentamente durante vinte anos. [...]»
Segundo o Livro dos Juízes, os cananeus possuíam «carros de ferro», uma tipologia que parece ter sido utilizada pelas forças do Mitanni e que surge mencionada na fonte como modelo presente nas forças de Sísera; o uso da palavra «ferro» advém da armadura feita com placas de metal (sariam) que os revestia731. É importante referir que, a existir tal tipologia de carro de
guerra, esta seria rara732, apesar da quantificação apresentada no excerto: as placas de metal
tornariam o carro muito pesado, pouco manobrável e muito dispendioso.
De uma forma geral, o intenso contacto cultural que as sociedades do Corredor siro- palestino apresentavam terá tornado a presença desta arma na região tipologicamente muito
729 SPALINGER, War in the Ancient Egypt, p. 123. 730 Jz 4.3 apud ALVES (coord.), Bíblia Sagrada, p. 346. 731 SPALINGER, War in the Ancient Egypt, pp. 88-90.
732 Registos oriundos de um arsenal mitânico mencionam cem carros de guerra com estas protecções metálicas. Pensa-se que o carro pesaria cerca de oitenta quilos a mais por ter esta armadura de metal; cf. GABRIEL, The Great Armies of Antiquity, p. 90.
heterogénea e de difícil catalogação, mas de extrema importância para a sobrevivência destes povos. Segundo as narrativas bíblicas, durante, pelo menos, a última metade do segundo