O processo de domesticação do cavalo (equus caballus)355 terá sido iniciado no quinto,
ou no quarto milénio a. C.356, nas estepes da Eurásia357 (Mapa 2). Esta é uma problemática
vasta, mas como não é o objectivo principal desta tese serão aqui apenas mencionados alguns aspectos relevantes. A partir do final do quinto milénio, começam a surgir nos espólios arqueológicos oriundos da Eurásia quantidades elevadas de restos de cavalo em povoados locais: veja-se o exemplo de Repin Khutor com 80%358, e Dereivka359 que apresenta 61% de
354 Neste caso concreto, os híbridos representados seriam o resultado do acasalamento de um asno e de um cavalo; cf. CLUTTON-BROCK, Horse Power, pp. 85-86.
355 Existe uma estreita relação entre os Indo-Europeus e a domesticação do cavalo, inclusive a vantagem de possuir um animal deste tipo domesticado é uma das possíveis razões para a extraordinária expansão destas populações pela Europa, Médio Oriente e subcontinente indiano. A utilização do cavalo terá permitido a estes povos viajar mais rapidamente e forneceu a estes uma maior vantagem nos campos de batalha, trazendo consigo um novo animal de tiro, que acabou por ser adoptado por outras sociedades, como é o caso dos Semitas e Egípcios; cf. RAULWING, Horses, Chariots and Indo-Europeans, pp. 27-29. Alguns investigadores defendem que a domesticação do cavalo foi feita por populações estabelecidas entre os rios Dniepre e Ural, que já possuíam animais domesticados, como ovelhas e cabras. Os cavalos domesticados seriam, em primeiro lugar, para consumo alimentar. Só depois começaram a ser utilizados como meio de transporte; cf. ANTHONY e BROWN, «The Secundary Products Revolution, Horse-Riding and Mounted Warfare», Journal of World History, 24, p. 137. 356 A arqueologia forneceu um vasto leque de possibilidades no que concerne à possível localização da domesticação. Por vezes, estes dados não são coerentes entre si, pois movimentam cronologicamente a época da domesticação do cavalo.
357 WILLEKES, From the Steppe to the Stable: Horses and Horsemanship in the Ancient World, p. 66. 358 NOVOZHENOV, Communications and the Earliest Wheeled Transport of Eurasia, p. 184.
359 Dereivka fica a quatrocentos quilómetros a sudeste de Kiev; cf. NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 6. Escavações realizadas em povoados inseridos no mesmo meio cultural, apresentam no seu espólio vestígios em quantidades idênticas de restos faunísticos de cavalos; cf. DREWS, Early Riders, p. 13. Em Dereivka, foram também encontradas hastes de veado, que alguns investigadores interpretaram como sendo cabeçadas. Outros investigadores, como é o caso de Robert Drews, refutam a teoria que defende que os artefactos em haste de veado eram utilizados como cabeçadas para os cavalos, ao dizer que este tipo de material era usado amplamente para outro tipo de utensílios. Este autor refere ainda que não há nenhuma referência iconográfica ao cavalo a ser montado até c. 2000 a. C.; cf. KELEKNA, «The politico-cconomic impact of the horse on Old World Cultures», Sino-Platonic Papers, pp. 5-7.
ossos de cavalo360. Este espólio era composto por um total de cinquenta e dois cavalos, sendo
que dezassete crânios estavam num bom estado de conservação, possibilitando a identificação do seu género: duas fêmeas e quinze jovens machos361. O povoado de Botai362, situado no vale
do rio Ichim, no actual Cazaquistão, apresenta, igualmente, uma elevada percentagem de ossadas de cavalo, cerca de 90% a
99,9%363. Aqui foi descoberto o
que aparenta ser uma prova forte da domesticação do cavalo, pois verificou-se a presença de resíduos de leite de égua num recipiente cerâmico. Assim, Botai teria uma população de cavalos já domesticados cerca de 3500 a. C., pois não é possível ordenhar uma égua em estado selvagem364.
A introdução do cavalo domesticado nas comunidades humanas veio revolucionar a
forma como estas sociedades se organizavam. Esta inovação transformou não só a forma de subsistência365, mas também alterou a forma de transportar materiais, bem como a própria
movimentação de populações366. Veja-se, a título de exemplo, que um cavalo montado pode
percorrer, em média, cerca de cem quilómetros por dia, enquanto se este estiver a transportar
360 KELEKNA, «The politico-economic impact of the horse on Old World Cultures», Sino-Platonic Papers, pp. 4-5.
361 CLUTTON-BROCK, Horse Power, pp. 54-55. Estes jovens machos seriam utilizados como fonte de alimento; cf. WILLEKES, From the Steppe to the Stable: Horses and Horsemanship in the Ancient World, p. 69. Unicamente, a presença de ossadas de cavalo neste habitat não prova que este era um centro de produção controlada deste mesmo animal, pois, e como é defendido por alguns investigadores, esta percentagem pode ser fruto da caça feita a estes equídeos; cf. Idem, p. 67; veja-se também DREWS, Early Riders, p. 10-11.
362 A cultura presente em Botai ter-se-á desenvolvido entre c. 3500 a 2700 a. C. Este povoado apresenta, pelo menos, quatro fases de ocupação; cf. BROWN e ANTHONY, «Bit Wear, Horseback Riding and the Botai Site in Kazakstan», Journal of Archaeological Science, 25, pp. 343-344.
363 ANTHONY, «Horses, Ancient Near East and Pharaonic Egypt», The Encyclopedia of Ancient History, p. 3311; NOVOZHENOV, Communications and the Earliest Wheeled Transport of Eurasia, p. 184; BROWN e ANTHONY, «Bit Wear, Horseback Riding and the Botai Site in Kazakstan», Journal of Archaeological Science, 25, p. 344.
364 KELEKNA, «The politico-economic impact of the horse on Old World Cultures», Sino-Platonic Papers, p. 5. 365 O uso dos cavalos permitia aos caçadores percorrerem uma maior distância e perseguirem uma determinada presa com maior eficácia.
366 Para mais informações sobre a preponderância do cavalo no transporte de bens e nas próprias movimentações populacionais veja-se KELEKNA, «The Politico-Economic Impact of the Horse on Old World Cultures», Sino- Platonic Papers, p. 9.
alguma mercadoria367 a distância percorrida será de vinte e oito quilómetros. Quando
comparado com o que um humano pode fazer, o cavalo permitiu às populações viajar cerca de cinco vezes mais rápido. Por fim, este animal veio alterar profundamente a forma de fazer a guerra entre as sociedades da Antiguidade. A rápida dispersão do cavalo como animal de tiro só é explicada pela eficiência que este adicionou ao acto de fazer a guerra, tornando-o um factor essencial para qualquer exército. Um ponto de viragem entre a derrota e a vitória. A importância368 deste equídeo na guerra acabaria por se reflectir também na sua associação com
as classes mais altas das sociedades pré-clássicas369.
A introdução do cavalo domesticado no Médio Oriente é um tema complexo e que levanta um importante e vasto questionário. Quando chegou o cavalo ao Médio Oriente? Quem o trouxe? De que forma chegou? Quais as rotas de difusão? Uma das maiores dificuldades no que concerne à análise dos dados relativos ao aparecimento do cavalo no Médio Oriente são as fontes existentes: as textuais, as iconográficas370 e as arqueológicas. Segundo Robert Drews, as
evidências da presença do cavalo domesticado no Médio Oriente surgem pela primeira vez na planície de Altinova (Anatólia) e na região do Alto Eufrates no final do quarto milénio (c. 3000 a. C.)371. Por outro lado, uma das evidências textuais mais antigas da presença do cavalo na
Mesopotâmia advém de uma série de textos sumérios de Ur III, datáveis do reinado de Chulgui (c. 2092-2045 a. C.372), onde se pode ler o termo ANŠE.ZI.ZI373, que deriva do nome acádico
para cavalo, sīsû. O termo ANŠE.ZI.ZI, que significa em sumério «asno da montanha»374, é
367 Para Robin Archer, tanto o boi como o asno eram animais mais preparados para o transporte de bens do que o cavalo, defendendo que o cavalo nos inícios da domesticação era utilizado apenas como fonte de alimento; cf. ARCHER, «Development in Near-Eastern chariotry and chariot warfare in the early first millennium BCE and their contribution to the rise of cavalry», NPAW, p. 68.
368 A importância do cavalo nas sociedades da Eurásia reflecte-se também na aplicação do cavalo nos rituais funerários destas culturas; cf. KELEKNA, «The politico-economic impact of the horse on Old World Cultures», Sino-Platonic Papers, p. 7.
369 SHARMA, «The Aryan Problem and the Horse», Social Scientist, pp. 12-13; WILLEKES, From the Steppe to the Stable: Horses and Horsemanship in the Ancient World, p. 196.
370 A prévia presença de outros equídeos na região, como é o caso dos asnos e onagros, torna, por vezes, difícil fazer uma distinção iconográfica entre estes animais; veja-se o exemplo da placa II oriunda de Larsa e actualmente do Ashmolean Museum em Oxford, Inglaterra, que mostra um equídeo a ser montado, mas que devido ao estado de degradação do artefacto não é possível identificar qual o tipo de animal lá representado; cf. MOOREY, «Pictural Evidence for the History of Horse-Riding in Iraq before the Kassite Period», Iraq, 32, 1, p. 39.
371 ZARINS, «The Domesticated Equidae of Third Millennium B.C. Mesopotamia», Journal of Cuneiform Studies, 30, 1, p. 4. A mesma situação verifica-se para este nos vales dos rios Kura e Araxes, embora os dados arqueológicos sejam ligeiramente mais tardios; cf. Idem, p. 12. Alguns investigadores associam a introdução do cavalo no Médio Oriente directamente com as populações hurritas; cf. PINHEIRO, The Origin and Spread of the War Chariot, p. 53. Como iremos observar no capítulo seguinte, existe uma corrente teórica que atribuí aos Hurritas o desenvolvimento do carro de guerra; cf. SIDNELL, Warhorse. Cavalry in Ancient Warfare, p. 5.
372 VAN DE MIEROOP, A History of the Ancient Near East ca. 3000-323 BC, p. 349. 373 Mais tarde, o termo ANŠE.ZI.ZI irá dar origem à palavra ANŠE.KUR.RA; cf. Idem, p. 49.
374 Idem, pp. 48-49. Este termo é utilizado, por exemplo, na «Maldição de Agade»; cf. WILLEKES, From the Steppe to the Stable: Horses and Horsemanship in the Ancient World, p. 196.
normalmente associado ao nome que esta civilização dava ao cavalo375. Na Anatólia e no Norte
da Síria, as primeiras referências a cavalos datam de c. 2000 a. C., e são oriundas dos textos de Kültepe (a antiga Kanech). Nesta fonte, a utilização do termo ina si-sa-im sugere que estes animais eram utilizados como força de tracção para o transporte de mercadorias, sendo neste caso concreto o estanho376.
No que concerne às representações iconográficas, por vezes estas podem ser algo ambíguas na representação de equídeos, sendo o cavalo um caso evidente. A primeira fonte iconográfica a representar, de uma forma clara, um cavalo, surge num selo pertencente a Abbakalla de Ur, um escriba do rei Chusin (c. 2035-2027 a. C.)377. Uma observação atenta do
equídeo presente na cena iconográfica do selo em questão mostra grandes semelhanças com a fisionomia de um cavalo378.
Um artefacto encontrado em Tell es-Sweyhat (Norte da actual Síria), e datável de c. 2300 a. C., representa também um destes animais379, sendo um objecto
importante no elo e ligação entre o Norte e o Sul, na difusão do cavalo no Médio Oriente380.
375 Existem, no total, quatro palavras diferentes para descrever o cavalo, sendo que estes termos estão bastante bem definidos cronologicamente. Datável do Dinástico Inicial (c. 3000-2350 a. C.), o termo normalmente associado ao cavalo é ANŠE-ŠUL-GI, e já no período acádico era utilizada a palavra ANŠE.LIBIR; como já foi referido, para o período de Ur III o termo era ANŠE.ZI.ZI. Por fim, durante o primeiro milénio anše.kur.ra era o termo utilizado na Mesopotâmia; cf. ZARINS, «The Domesticated Equidae of Third Millennium B.C. Mesopotamia», Journal of Cuneiform Studies, 30, 1, pp. 5-6; Para a cronologia utilizou-se POSTGATE, Early Mesopotamia, p. 22.
376 PINHEIRO, The Origin and Spread of the War Chariot, p. 51.
377 DREWS, Early Riders, pp. 31-32; VAN DE MIEROOP, A History of the Ancient Near East ca. 3000-323 BC, p. 349.
378 A presença de uma crina consideravelmente longa, as orelhas pequenas e a cauda, sugerem a representação de um cavalo; cf. PINHEIRO, The Origin and Spread of the War Chariot, p. 49; DREWS, Early Riders, p. 32. 379 Idem, pp. 36-37.
380 Oriundo de Kanech (c. 2100-2000 a. C.), chegou-nos um selo que mostra o que aparenta ser um cavalo (embora a cauda apresenta algumas semelhanças com a de um asno ou onagro), a ser montado e dirigido a partir de um anel nasal; cf. Idem, p. 43.
Mapa 3 - Mapa das evidências (arqueológicas, textuais e iconográficas) da presença do cavalo no Médio Oriente e na Anatólia durante o terceiro milénio a. C.
O planalto iraniano e a região da Báctria desenvolveram desde muito cedo um intenso fluxo de trocas comerciais com as sociedades das estepes da Eurásia. Não existem muitas informações no que respeita à introdução do cavalo nestas regiões, apenas há que mencionar a descoberta de um complexo funerário situado a sul do deserto de Kyzl Kum, datável de c. 2100- 2000 a. C. As escavações deste complexo forneceram as provas mais antigas que se conhecem da presença do cavalo nos territórios iranianos381.
Em suma (Mapa 3), parece claro que no Norte o cavalo foi introduzido, embora ainda com pouca relevância quantitativa, cerca 3000 a. C. No Sul, se admitirmos a difusão no sentido norte-sul, terá chegado por volta de 2900 a. C.382 Por outro lado, se a difusão foi feita pelo
actual Irão, então a datação remonta à fase final do terceiro milénio. Naturalmente, não se pode descartar a possibilidade de uma difusão dupla do cavalo383, uma pela margem oeste do mar
Cáspio e outra pela margem este.
O cavalo, em egípcio sesemet, chegou às Duas Terras com as progressivas «invasões» hicsas384 do século XVII a. C.385, e embora esta seja uma realidade amplamente aceite pela
egiptologia386, ela não é alheia a algumas problemáticas. Como é que apenas no século XVII a.
C. o cavalo chegou ao Egipto? Parece difícil de explicar a inexistência deste tipo de equídeo no Egipto até ao Segundo Período Intermediário, tendo em conta os intensos contactos comerciais que existiam entre o Egipto e o Corredor siro-palestino, pois a Síria já conhecia o cavalo pelo menos desde c. 2300 a. C.387 Durante o processo de escavação de emergência da fortaleza de
Buhen, devido à construção da barragem de Assuão e à consequente subida das águas do lago Nasser, foi descoberto por Walter Emery, em 1958, um esqueleto de cavalo entre a terceira e quarta torre da muralha orientada a oeste, num extrato referente a uma rampa da fase final do Império Médio (c. 1650 a. C.)388. Aceitando esta data como correcta, então esta descoberta é o
vestígio mais antigo de um cavalo no Egipto389, e prova que este equídeo já existia nas Duas
381 PINHEIRO, The Origin and Spread of the War Chariot, p. 50. 382 Esta datação é discutível, devido ao termo ANŠE-ŠUL-GI. 383 PINHEIRO, The Origin and Spread of the War Chariot, p. 53.
384 Os Hicsos, oriundos dos territórios hurritas do Alto Eufrates, foram um grupo heterogéneo constituído por hurritas, indo-europeus e semitas; cf. GICHON e HERZOG, As Batalhas da Bíblia, pp. 38-39.
385 ARAÚJO, «O cavalo no Egito faraónico: uma avalizadora semiótica do poder», The Horse and the Bull in Prehistory and in History, pp. 188-189.
386 SALES, «Cavalo», DAE, p. 190.
387 Datada do reinado de Amenemhat III (c. 1843-1797 a. C.), existe uma representação iconográfica de um governante cananaico a montar um equídeo enquanto segurava num machado; cf. HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 131.
388 ARAÚJO, «O cavalo no Egito faraónico: uma avalizadora semiótica do poder», The Horse and the Bull in Prehistory and in History, p. 188; Idem, Grandes Faraós, p. 24; e RAULWING e CLUTTON-BROCK, «The Buhen Horse», JEH, pp. 4-6.
Terras ainda antes de o Delta ser ocupado pelos Hicsos390. Certamente que estes «invasores»
foram quem realmente introduziu em grande escala o cavalo no Egipto, mas antes desse evento o cavalo já tinha chegado às Duas Terras, muito provavelmente pela via do comércio, ou levado pelas populações asiáticas que foram penetrando no Egipto em finais do Império Médio391. Terá
este cavalo sido utilizado na guerra? Os pré-molares deste equídeo apresentavam vestígios do uso de algum tipo de freio, o qual os investigadores sugeriram ser feito de osso ou de bronze. Admitindo esta possibilidade, então esta poderá ser uma prova de que este cavalo foi montado392.
Embora o cavalo tenha várias funções numa sociedade, no caso concreto do Egipto este está fortemente associado ao carro de guerra ligeiro. A introdução dupla destes dois aspectos levou os Egípcios a utilizarem, quase exclusivamente, este animal de tiro como tracção para os carros de guerra393, sendo que, por sua vez, este veículo seria utilizado pela monarquia e altos
funcionários nos campos de batalha, na caça e em paradas. Com a introdução do cavalo, veio também para o Egipto toda uma indústria de escala, que tinha de produzir materiais para serem utilizados no possante equídeo, e também nos carros de guerra. Estão neste caso as focinheiras, as cabeçadas, as coleiras, as rédeas, os freios, as palas, bem como a própria atrelagem do cavalo (tehenet-heter), com a produção dos varais e das cangas. Naturalmente, estas manufacturas tinham de ser feitas com profissionalismo, e os materiais tinham de ser de alta qualidade, para garantirem a resistência e a manobrabilidade necessária nos campos de batalha394.
Ao contrário do que se verifica durante o terceiro milénio e início do segundo milénio a. C., onde o cavalo aparenta ser um bem raro, aquando da progressiva invasão hicsa, o cavalo já deveria ser um animal relativamente comum, embora caro no Médio Oriente395. Veja-se o
390 John Van Seters defende que o cavalo já era conhecido no Egipto desde o Império Médio; cf. Idem, p. 12. A. R. Schulman refuta a possibilidade de este cavalo ser datável do Império Médio, ao referir que poderá ter acontecido uma sobreposição de estratos e que este cavalo apareceu estratigraficamente no Império Médio, devido à reconstrução da fortaleza durante o Império Novo; cf. RAULWING e CLUTTON-BROCK, «The Buhen Horse», JEH, 14.
391 MARTINS, Daniela, «Até aos Pilares do Céu». Estratégias de domínio político-administrativo na Síria- Palestina no reinado de Tutmés III, pp. 38-39.
392 RAULWING e CLUTTON-BROCK, «The Buhen Horse», JEH, p. 6.
393 Importa salvaguardar que o cavalo também poderá ter sido utilizado como montada em funções relacionadas com a transmissão de informações e com patrulhas.
394 SALES, «Cavalo», DAE, p. 191.
395 Veja-se o exemplo do Império Novo, onde os cavalos eram considerados um bem nobre e importante. No Egipto, os cavalos eram mantidos e tratados em estábulos reais por altos funcionários, como é o exemplo do «mestre dos estábulos». Inclusive alguns filhos dos faraós adquiriam o título de «superintendente dos cavalos» (imirá sesemut), evidenciando, assim, a importância do cavalo e do carro no acto de fazer a guerra no Império Novo; cf. SALES, «Cavalo», DAE, pp. 190-191; POSTGATE, Early Mesopotamia, p. 166.
exemplo, ligeiramente mais tardio, do espólio de guerra que Tutmés III trouxe da batalha de Meguido referido nos anais deste rei396:
«[...]
Então os príncipes desta terra estrangeira chegaram e dobraram-se sobre o peito para beijar o chão devido ao poder de sua majestade, solicitando a respiração para as suas narinas, e devido à grandeza do poder de [...]
prisioneiros vivos: 340 mãos: 83 cavalos: 2041 potros: 191 garanhões: 6 [...]»
Após a batalha de Meguido (c. 1457 a. C.), o faraó Tutmés III trouxe como despojos de guerra dois mil e quarenta e um equídeos (machos e fêmeas) e novecentos e vinte e quatro carros de guerra397. A partir desta fonte, nota-se a forte presença deste animal em Meguido,
algo que se verificaria nos restantes aglomerados populacionais levantinos. Também das numerosas campanhas militares de Tutmés III chega-nos outra referência a cavalos, tendo ficado registado que este monarca recebeu como tributo cerca de trezentos e vinte e oito cavalos398. Esta fonte não é muito esclarecedora no que diz respeito à origem dos tributos, se
eram oriundos de apenas uma cidade, ou se eram referentes a toda a Síria (que então estava dominada pelo Egipto). Estas evidências mostram, principalmente, que o cavalo adquiriu uma enorme preponderância nestas sociedades, tanto em termos militares, como políticos e até sociais.
A introdução do cavalo no Médio Oriente foi um momento de alteração de paradigma no que diz respeito à forma de fazer a guerra entre as sociedades pré-clássicas. A adopção deste animal pelos exércitos adicionou ao combate entre forças simétricas mais rapidez, movimentação, versatilidade e melhor táctica, obrigando os exércitos que não possuíam esta vantagem nas suas linhas a optar por soluções que contornassem a presença destes equídeos nos campos de batalha. Será de destacar, por exemplo, a preocupação por parte de alguns