É importante referir que analisar uma arma com as características técnicas de um carro de guerra a partir de uma epopeia que terá sido redigida cerca de cinco séculos depois dos eventos que narra pode pôr alguns problemas de veracidade historiográfica845. Factor que
poderá estar patenteado nas problemáticas que a presença e uso dos carros de guerra no mundo aqueu levantou ao longo do tempo dentro da comunidade científica: desde a teoria de que os carros micénicos eram utilizados para o choque directo entre forças utilizando uma lança, defendida por Paul Greenhalgh, ou a ideia generalizada de que esta tipologia de carros apenas era utilizada como meio de transporte e que posteriormente, chegado ao local do confronto, o militar desceria do veículo e combateria apeado846. Estas problemáticas não irão ser
aprofundadas neste subcapítulo, pois a análise do modus operandi dos carros de guerra irá ser feita no capítulo IV.
A presença do carro de guerra neste contexto pode ser divida em dois grandes períodos cronológicos: o primeiro datável de c. 1550 a 1300 a. C., onde o carro micénico tinha a forma de uma caixa; e o segundo momento de c. 1300 a 1200 a. C., onde surge o carro «tipo parapeito»847. Robert Drews
identificou pela primeira vez vestígios da existência de carros de guerra (Imagem 28) em território «grego» nas «Shaft Graves» de Micenas (entre os séculos XVII e XVI a. C.), ligando estas provas à chegada de populações indo-europeias; asserção refutada por Mary Littauer e Joost Crouwel, que referem a já anterior presença de
veículos com rodas (inclusive, carros de quatro rodas puxados por bovinos) e elementos que o compõem, como eixos ou jugos. Para estes autores, o carro micénico teve a sua origem no Médio Oriente, no local onde esta arma foi preponderante na guerra, tendo chegado, segundo
845 Para mais informações relacionadas com a «Questão Homérica», bem como com a produção da Ilíada e da Odisseia, veja-se CARLIER, Homero, 2008; CHAMOUX, A Civilização Grega, 2003; FOWLER, «The Homeric question», The Cambridge Companion to Homer, pp. 220-234; e PEREIRA, Estudos de História da Cultura Clássica, vol. 1 – Cultura Grega, 2012.
846 LITTAUER e CROUWEL, «Chariots in Late Bronze Age Greece», Selected Writings on Chariots, other Early Vehicles, Riding and Harness, p. 53.
847 FIELDS, Bronze Age War Chariot, p. 22.
Imagem 28 - Cena de combate com um carro datável do Heládico Tardio, baixo- relevo descoberto num túmulo real em Micenas [retirado de http://www.salimbeti.com/micenei/chariots.htm].
estes, num período cronologicamente idêntico ao Segundo Período Intermediário no Egipto, pondo ainda em causa a própria migração indo-europeia feita a partir do Cáucaso, passando pela Anatólia, pelo estreito do Bósforo e por fim pela Tessália. Para Robert Drews, existem bastantes problemas de ordem logística e política para que cerca de setenta e cinco mil indivíduos (homens, mulheres e crianças) conseguissem percorrer tanto território e chegar ao Egeu848. Admitindo a teoria apresentada por Littauer e Crouwel, então como chegou o carro a
Micenas? Segundo estes, os primeiros veículos deverão ter chegado à «Grécia» por via de Creta, que por sua vez terá adquirido carros para uma dimensão simbólica e de prestígio, sendo depois transpostos para Micenas, onde acabariam por se tornar novamente um objecto bélico849.
Também não se pode descartar a possibilidade de esta arma ter chegado ao mundo aqueu pela Anatólia, principalmente por influências hititas.
O carro micénico estava dividido em três tipologias bem organizadas e bem definidas cronologicamente. Aproximadamente entre 1550 e 1450 a. C., os Micénios utilizaram o carro «tipo caixa»; posteriormente, c. 1450-1200 a. C., aparece o carro «tipo duplo» e uma variante chamada «tipo quadrante»850; por fim, entre 1250 e 1150 a. C., emerge o último tipo de carro
micénico: o «tipo quadro»851. A partir das datações, é possível acompanhar a evolução
tipológica e tecnológica do carro de guerra da região. O desenvolvimento desta arma parece, de certa forma, ir-se progressivamente afastando das tipologias originais, pois o primeiro tipo assemelha-se ao carro hitita.
Importa agora falar um pouco de cada tipo, observando ao mesmo tempo a iconografia disponível e tentando sempre, na medida do possível, apresentar excertos da Ilíada. A primeira tipologia apresenta um «corpo» quadrangular, aberto atrás, com rodas de quatro raios, ficando o eixo no centro da plataforma. O «corpo» do carro estava unido ao jugo por uma barra de madeira presa à frente do veículo; esta barra, por sua vez, tinha um suporte adicional, uma vara que vinha do topo do carro até ao jugo852, como de resto se pode ver num selo encontrado num
túmulo em Kazarma (Imagem 29), datável do Heládico Tardio, onde está representado um carro com dois cavalos e onde é perceptível essa vara, que oferecia mais resistência ao carro. Enquanto este veículo aparentava estar bastante bem equipado para entrar em batalha, em outras tipologias futuras o mesmo não parece suceder: inclusive este facto pode-nos aproximar da
848 LITTAUER e CROUWEL, «Robert Drews and the Role of Chariotry in Bronze Age Greece», Selected Writings on Chariots, other Early Vehicles, Riding and Harness, pp. 66-69.
849 Idem, p. 70.
850 Pensa-se que este veículo era um protótipo e que foi utilizado por um período muito reduzido de tempo; cf. NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 110.
851 Idem, pp. 109-110; FIELDS, Bronze Age War Chariot, pp. 23-24. 852 NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 109.
descrição de Homero, em que os soldados desciam dos carros para combater853. Haveria um
tipo de carro para combate e uma outra tipologia que apenas servia para transporte? A segunda tipologia apresenta na
parte de trás do carro dois painéis semicirculares, que ainda não se sabe ao certo que função teriam: estes extras podiam servir para ajudar a subir para o veículo ou como protecção dos tripulantes contra pedras que podiam saltar conforme o carro se deslocava. Para além desta adição, o carro micénico desta tipologia era circular à
frente854; existem inúmeras representações iconográficas deste modelo, sendo uma das mais
interessantes oriunda de um fresco do palácio de Tirinto, onde se observa o que aparenta ser uma protecção lateral contra pedras ou até mesmo ataques de inimigos apeados contra os membros inferiores dos tripulantes.
Por fim, o último tipo de carro de guerra era o mais ligeiro, pois era construído com materiais leves, como era o caso da cana. Este veículo teria também o eixo das rodas na parte traseira do carro855 e, a partir daquilo que é possível entender, seria uma arma frágil. Parece,
assim, menos plausível que este veículo fosse utilizado na guerra, sendo mais provável que servisse para transmissão de informações entre cidades ou exércitos.
Os carros de guerra micénicos apresentam geralmente rodas raiadas, sendo o número mais comum o de quatro raios por roda856. Na Ilíada, encontra-se uma descrição de um carro
com oito raios, mas, como no caso concreto o veículo pertence a um deus, essa poderá ser a razão para o aumento de raios no carro857:
«[...]
«Assim falou; e não lhe desobedeceu a deusa, Atena de olhos garços. Afadigou-se ao arnesar os cavalos arreados de ouro
Hera, deusa soberana, filha do grande Crono. Depressa equipou Hebe o carro com rodas recurvas, brônzeas e de oito raios, em volta do eixo de ferro. [...]»
853 BARBOSA, «O carro de guerra na Antiguidade», in Guerra na Antiguidade III, p. 292. 854 NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 110.
855 Ibidem.
856 CHADWICK, The Mycenaean World, p. 164. SNODGRASS, Early Greek Armour and Weapons, p. 159. 857 Il. 5.719-723 apud LOURENÇO, Ilíada, p. 126.
Imagem 29 - Imagem de um carro de guerra num selo cilíndrico oriundo
de Kazarma [retirado de
Sobre os equídeos utilizados para puxar estes carros, há que dizer que a Ilíada tanto fala de machos como de éguas, sendo aqui de realçar o caso das éguas do filho de Feres referidas no canto II. Escavações arqueológicas deram a conhecer criações de cavalos na Grécia Antiga, mais concretamente na ilha de Skyros no mar Egeu. Estes equídeos eram bastante pequenos, o que podia torná-los inúteis para a guerra, mas se a força de um destes cavalos fosse multiplicada pela adição de um segundo, muito provavelmente conseguiriam puxar um carro de guerra858.
Tanto na literatura como na iconografia, a lança é a arma ofensiva mais representada em contexto de guerra em cima de um carro; todavia, esta utilização apresenta problemas, que irão ser expostos mais adiante: se a lança for utilizada para atingir o inimigo corpo a corpo, esta terá de ser longa e pesada, o que implica que o soldado a maneje com as duas mãos859. No canto
IV, é referido de uma forma clara que os soldados combatiam com lanças em cima dos carros. Esta arma seria bastante eficiente para neutralizar soldados apeados, mas no que diz respeito à sua utilização contra outros militares sobre outros carros, a questão é bastante mais problemática860. Seriam estas lanças utilizadas como dardos? Se as lanças servissem para atacar
à distância, os problemas práticos relacionados com o seu uso estariam resolvidos, mas a própria iconografia existente onde estes carros são representados em nenhum caso aparenta haver aljavas que poderiam guardar as restantes munições, tal como se verifica nos carros sumérios861 e egípcios.
Inicialmente, devido à falta de provas materiais e a uma historiografia muito presa apenas às descrições das epopeias de Homero, a comunidade científica pensou que os Micénios não utilizavam e que mal conheciam o arco compósito, defendendo que esta arma era apenas uma realidade oriental.
Existem várias provas que parecem contradizer esta teoria, como a origem indo- europeia do povo micénico, a estreita proximidade em relação a Creta e ao Médio Oriente e a inventariação deste tipo de arcos no linear B. Actualmente, sabe-se que o arco compósito era muito utilizado e fabricado pelos Micénios, e que seria umas das armas mais utilizadas nos carros de guerra862. No trecho seguinte, é possível ver a utilização do arco e flecha por parte de
um aqueu863:
858 CHADWICK, The Mycenaean World, p. 164. 859 NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 110. 860 DREWS, The End of the Bronze Age, pp. 115-116. 861 NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 107.
862 Em Cnossos foram encontradas tabuinhas que tinham registadas cerca de 8640 setas, sendo algumas delas de bronze; cf. DREWS, The End of the Bronze Age, pp. 122-124; NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 108. 863 Il. 15.445-455 apud LOURENÇO, Ilíada, p. 311.
«[...]
Atingiu Clito, filho glorioso de Pisenor, que segurava as rédeas nas mãos, afadigando-se com os cavalos. Pois para lá os conduzia, onde maior número de falanges eram desbaratadas, para agradar a Heitor e aos Troianos. [...]
por muito que o quisessem. A seta de muitos gemidos atingiu-o no pescoço, atrás, e ele tombou do carro, ao que se desviaram os cavalos, fazendo chocalhar o carro vazio. Logo se apercebeu o soberano Polidamante, o primeiro a avançar para os cavalos, os quais ele deu a Astínoo, filho de Prociáon, recomendado [...]»
Neste excerto, é possível verificar que o arco era uma arma presente na panóplia do soldado aqueu, se bem que, no que concerne à utilização do arco no carro, Homero não faça qualquer referência, o que pode levar a crer que não seria utilizado. Porém, para Robert Drews, o arco foi a arma principal do carro durante a extensão cronológica em que este foi aplicado em combate, e a falta desta menção é um reflexo do próprio desconhecimento de Homero quando escreveu a Ilíada864.
Também a iconografia apresenta indícios da utilização do arco: embora não seja possível identificar a tipologia deste, existem imagens que parecem representar combates e outras representações com arco e flecha, que são claramente em contexto de caça865. Vejamos,
em primeiro lugar, uma iconografia oriunda de Chipre (Imagem 30), que mostra dois militares, um deles o auriga e outro o soldado combatente, a utilizar um arco contra o inimigo. Esta imagem sugere que o carro está a ser puxado por
apenas um cavalo, mas, ao observar que as rédeas têm um par de saídas, é-nos dado a entender que seriam dois animais de tiro.
Numa zona da Beócia, foi descoberto um selo bastante bem trabalhado e muito rico iconograficamente, em que são representados dois militares aparentando estar a combater com arcos e flechas. Os arcos exibidos parecem ter características que os aproximam do arco composto, embora se ponha o mesmo problema da existência de apenas um soldado no carro, o
864 DREWS, The End of the Bronze Age, p. 126. 865 NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 110.
Imagem 30 - Representação de um carro de guerra micénico; gravura oriunda da ilha de Chipre (XV-XIV a. C.) [retirado de http://www. Salimbeti.com/micenei/chariot.htm].
que tornava impossível o combate. A imagem parece ainda mostrar que o carro está parado, pois os cavalos não estão em posição de movimento.
As defesas corporais dos soldados que tripulavam os carros de guerra micénicos aparentam ser túnicas866, e o combatente usava uma couraça que lhe chegaria aos joelhos,
tipologicamente próxima da descoberta num túmulo em Dendra867; esta armadura protegia o
militar do arremesso de dardos ou de flechas868. O material de que estas couraças eram feitas
podia variar desde o bronze ao próprio couro, porém o couro seria, naturalmente, mais usual869,
pois era mais barato e abundante.
Uma outra protecção eram os elmos, que no caso micénico terão sido os típicos elmos de presas de javali870, que no seu interior deveriam ter um revestimento de madeira e outro
material suave para entrar em contacto com a cabeça do soldado. É provável que os Aqueus colocassem também armaduras nos seus cavalos, e inclusive havia, segundo alguns investigadores, dois ideogramas do linear B que se referiam especificamente a esta realidade. A utilização destas armaduras é problemática, porque, em primeiro lugar, deveriam ser bastante dispendiosas e não se sabe ao certo até que ponto eram eficientes em combate; é certo que iriam proteger mais o animal, mas esta protecção torná-lo-ia mais lento871.
No canto V da Ilíada, fala-se da existência de um soldado portador de escudo num carro de guerra micénico872:
«[...]
No teu peito eu coloquei a força de teu pai – a força
inquebrantável que tinha Tideu, cavaleiro portador de escudo. [...]»
Este excerto é muito interessante por ser o único caso em que o poeta faz referência a tal tipo de «cavaleiro». Sabe-se que no mundo hitita, onde os carros levavam três tripulantes, um destes era o portador de escudo, que serviria para proteger tanto o auriga como o soldado combatente873. No entanto, para o caso micénico, apenas há conhecimento da presença de dois
soldados por carro, logo, a existência de um soldado portador de escudo parece difícil de explicar, sendo que o único militar que poderia carregar esta arma defensiva seria o soldado
866 PINHEIRO, The Origin and Spread of the War Chariot, p. 21. 867 NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 110.
868 DREWS, The End of the Bronze Age, p. 124.
869 CHADWICK, The Mycenaean World, p. 160. As tabuinhas de Cnossos referem a distribuição de couraças pela tripulação do carro; cf. DREWS, The End of the Bronze Age, p. 111.
870 NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 109. 871 DREWS, The End of the Bronze Age, p. 111. 872 Il. 5.125-126 apud LOURENÇO, Ilíada, p. 108. 873 FIELDS, Bronze Age War Chariot, p. 20.
combatente, já que o auriga tinha de conduzir o carro874. Mesmo a posse de escudo pelo militar
que tinha a lança, dardo ou arco e flecha parece pouco plausível, embora a referência a tal função exista.
No que concerne ao carro troiano, e tal como para os carros micénicos, os problemas relacionados com a utilização de uma obra literária como a Ilíada, que foi criada séculos depois dos eventos, também aqui se aplicam, ainda que agora com a agravante de haver poucas informações sobre os carros de Tróia. Os dados são bastante escassos, especialmente no que diz respeito às fontes materiais, que poderiam dar importantes pistas sobre a utilização da arma no lado troiano. Esta análise será suportada pela própria narrativa da Ilíada e das passagens que se referem aos carros troianos, bem como pelas possibilidades relacionadas com origens e influências que estes veículos terão recebido para no final se tornarem os carros utilizados pelo exército de Heitor na Guerra de Tróia. A análise terá em conta duas possíveis influências e géneses: a hitita, muito relacionada com a própria migração e invasão dos povos indo-europeus, e a micénica, embora não se possa descartar uma recepção dupla de ambos os lados, pois Tróia ficava equidistante das duas partes.
A cidade de Ilíon é, em termos geográficos, uma cidade hitita, e certamente que teve contactos com esta civilização tendo estado sob o seu controlo durante algum período de tempo, como se pode verificar na já referida supressão de uma revolta em Uilusa pelo rei hitita Anitta (século XVIII a. C.)875, bem como no seguinte excerto876:
«[...] Mas se eu te escrever, Alaksandu: «Toma conta de infantaria e de carros de guerra. Envia- os em [meu] auxílio imediatamente», então [envia]-os para mim imediatamente. Mas se [eu escrever] para ti, Alaksandu, apenas: «Conduz para aqui sozinho», então conduz para aqui sozinho. [...] A tua administração do exército e dos carros de guerra deve ser estabelecida da seguinte forma: Se eu, minha majestade, for numa campanha daquela terra – tanto a partir da cidade de Karkisa, da cidade de Masa, da cidade de Lukka, ou da cidade de Uarsiyalla, então tu também deves ir em campanha juntamente comigo, com infantaria e carros de guerra. Ou se eu enviar algum nobre em campanha a partir dessa terra, então tu também deves ir com ele em campanha. [...]»
Tanto no governo de Anitta como no de Muwatalli II (c. 1295-1272 a. C.877), reinado
de que data este excerto, observamos que Uilusa (nome hitita para Ilíon) estava, de alguma forma, submetida ao poder hitita, sendo interessante reparar que esta realidade surge em
874 «Atrás deles combatia Automedonte, apesar do desgosto pelo amigo, voando com o carro como um abutre no meio de gansos: pois facilmente ele fugia dos gritos de guerra dos Troianos para facilmente atacar, arremetendo através da multidão. No entanto não matava ninguém, quando depressa perseguia, pois não lhe era possível, sozinho no carro sagrado, atacar com a lança e controlar os céleres corcéis.»; cf. Il. 17.459-465 apud LOURENÇO, Ilíada, p. 358.
875 BRYCE, The Trojans and Their Neighbours, p. 86. 876 BECKMAN, HDT, p. 89 [trad. nossa].
reinados tão díspares em termos cronológicos. A obrigatoriedade patenteada no trecho transcrito sugere uma «vassalagem» de Tróia em relação aos Hititas, sendo este factor visível na própria batalha de Kadech, onde se verifica a presença de contingentes troianos, cerca de quinhentos carros de guerra878. Será este um indício de que os carros presentes em Tróia eram
tipologicamente próximos dos hititas?
É plausível admitir que sim, embora a falta de provas obrigue a que a questão fique em aberto. Há que mencionar ainda a proximidade cronológica que a suposta Guerra de Tróia teve em relação à batalha de Kadech, sendo até muito provável que os carros troianos presentes em Kadech fossem bastante aproximados tipologicamente dos utilizados em Tróia. Durante o reinado de Anitta, Ilíon esteve politicamente e culturalmente sob influência do Hatti. Por outro lado, como se pode ver ao longo da Ilíada, Tróia é ajudada por alguns deuses gregos (Afrodite e, em certos momentos, por Zeus), do mesmo modo que esta mesma venera algumas destas divindades, como é o caso de Apolo879. Veja-se o seguinte exemplo880:
«[...]
«Ouve-me, senhor do arco de prata, deus tutelar de Crise e da sacratíssima Cila, que pela força reges Ténedo! Tal como antes deste ouvidos à minha prece, e para me honrares fustigaste a hoste dos Aqueus, também agora faz que se cumpra isto que te peço: afasta dos Dânaos a pestilência repugnante.» [...]»
Este trecho provém da narrativa em torno de Crises e Agamémnon, quando este vai ao