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A primeira gravura de um carro de guerra em contexto assírio data do reinado de Ninurtatukultiassur (c. 1133 a. C.894): era um veículo ligeiro, aberto na retaguarda e nos lados,

com duas pequenas rodas com seis raios cada e puxado por dois cavalos895; na plataforma

estavam dois militares896, um auriga e um soldado combatente. Posteriormente, no reinado de

Assurnasírpal I (c. 1049-1031 a. C.897), no «Obelisco Branco898», vêem-se várias imagens de

carros de guerra899 tipologicamente idênticos ao representado no selo cilíndrico de

Ninurtatukultiassur.

Neste monólito, estão gravados veículos com dois militares, com o combatente a segurar o arco e flecha; adjacente ao carro, verifica-se também a presença de aljavas para as flechas, um suporte para o estandarte e toda a parafernália que está, normalmente, associada a uma arma deste tipo, sendo aqui de notar o sistema de atrelagem900. A

informação iconográfica é bastante dispersa

no tempo, desde 1133 a. C. a 884 a. C., pois existem apenas três reinados assírios com murais de carros de guerra; este facto dificulta a interpretação evolutiva desta arma no Norte da Mesopotâmia durante a fase de transição do período Médio Assírio para o Império Neo-Assírio. A maior quantidade de informações (Imagem 31) provém do reinado de Assurnasírpal II (c. 884-859 a. C.901), onde estas gravuras são divididas em cinco categorias diferenciadas

894 FRAHM, «The List of Assyrian Kings», ACA, p. 615. 895 NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 45.

896 DEZSŐ, The Assyrian Army, p. 56.

897 FRAHM, «The List of Assyrian Kings», ACA, p. 615.

898 Este obelisco descoberto em 1853 é feito de pedra calcária branca; cf. PITTMAN, «The White Obelisk and the Problem of Historical Narrative in the Art of Assyria», The Art Bulletin, 78, 2, pp. 334-335; NOBLE, «Assyrian Chariotry and Cavalry», SAAB, IV/1, p. 63.

899 DEZSŐ, The Assyrian Army, p. 56; PITTMAN, «The White Obelisk and the Problem of Historical Narrative in the Art of Assyria», The Art Bulletin, 78, 2, pp. 336-338.

900 Com a excepção do número de cavalos, o carro de guerra assírio assemelha-se bastante ao que estava presente no Egipto.

901 FRAHM, «The List of Assyrian Kings», ACA, p. 615.

Imagem 31 - Carro de guerra do reinado de Assurnasírpal II [retirado de LITTAUER e CROUWEL, «Assyrian Trigas and Russian Dvoikas», Iraq, p. 97].

pelos seus contextos: as cenas de caça902; situações de cerco903; a travessia de rios904; em

contexto de parada ou de retorno com um espólio de guerra; e por fim em batalha905. Esta última

é, naturalmente, a situação que mais interessa explorar nesta análise e é, também, a temática mais representada na iconografia assíria, se bem que esteja muito centrada em imagética de perseguições a inimigos em fuga906.

Sabe-se que os primeiros modelos eram pequenos, as rodas teriam 61 cm de diâmetro, com seis raios cada uma, e o eixo estaria na retaguarda da plataforma do carro907. Apesar de só

haver fontes iconográficas de carros de guerra na Assíria a partir do século XII a. C., isto não implica que estes não existissem anteriormente. É inclusive muito provável que os monarcas anteriores a Ninurtatukultiassur possuíssem esquadrões de carros de guerra nos seus exércitos (Imagem 32), pois esta era uma arma largamente difundida pelo Médio Oriente durante todo o segundo milénio a. C. e seria também, muitas das vezes, um factor essencial para o triunfo no campo de batalha.

Na fase de transição do segundo para o primeiro milénio a. C., verifica-se uma alteração morfológica nos carros de guerra na Assíria, transformações que acompanham também o surgimento do Império Neo-Assírio (Mapa 9): os veículos deixam de ser ligeiros908 e passam a

demonstrar uma tipologia pesada aquando do reinado de Assurnasírpal II909. Esta nova arma

tem duas rodas robustas com seis raios cada, compostas por duas circunferências, uma

interior e outra exterior. Observa-se um «escudo» circular na retaguarda, as faces laterais já

902 Neste contexto, o rei assírio é representado em cima do seu carro a matar leões ou bois com o seu arco e flecha; cf. DEZSŐ, The Assyrian Army, p. 56.

903 Menos frequente nesta situação, o carro de guerra deve ter apenas uma função simbólica e de associação ao poder real, pois esta é uma arma pouco eficaz em caso de cerco; cf. Ibidem.

904 Numa cena estão representados três carros de guerra (um deles pertence ao monarca) a subir para um barco para transpor um rio (o autor sugere que o curso de água em questão é o Eufrates). No que concerne aos cavalos, estes surgem a nadar agarrados por cordas à popa da embarcação. Seria possível os cavalos atravessarem assim o curso de água? Porque não embarcá-los? Haveria certamente alguma relutância por parte destes equídeos em entrar para estas embarcações, levando os assírios a optar pela travessia do rio a nado; cf. Ibidem.

905 Idem, p. 57. 906 Ibidem.

907 NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, pp. 45-46; KEEGAN, War and Our World, p. 29. 908 Como foi referido, esta era uma tipologia característica do reinado de Ninurtatukultiassur. 909 NOBLE, «Assyrian Chariotry and Cavalry», SAAB, IV/1, p. 63.

Imagem 32 - Carro de guerra assírio do reinado de Ninurtatukultiassur, c. 1133-1132 a. C. [retirado de NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 66].

apresentam protecções910, garantindo assim a segurança dos militares. Conforme os carros se

foram tornando mais robustos, a sua vanguarda foi ficando cada vez mais circular, realidade explicada pela adição de mais um soldado à plataforma, o portador de escudo911. Em que altura

passa o carro de guerra assírio a levar três militares? O reinado de Assurnasírpal II parece ter sido o período onde houve, inicialmente, uma coexistência de dois modelos: com dois militares e com três soldados (um auriga e um soldado combatente; um auriga, um soldado combatente e o portador de escudo respectivamente)912.

O arco e flecha (o próprio carro preserva as aljavas já presentes na tipologia anterior) é a arma mais utilizada, mas também os dois machados junto ao carro sugerem que o combatente, em caso de necessidade, poderia entrar num combate corpo a corpo. Ainda sobre o armamento, o autor Tamás Dezső considera que a haste existente na retaguarda do carro era uma lança913,

e apesar de esta interpretação ser legítima, a posição da «arma» surge algo desconexa em relação ao militar. Naturalmente, este factor pode ser apenas uma técnica artística, mas não

910 DEZSŐ, The Assyrian Army, p. 56.

911 Segundo Fabrice De Backer, estes militares estavam na retaguarda do carro e a sua adição deveu-se ao melhoramento do índice de tiro ao arco; cf. DE BACKER, «Siege-Shield and Scale Armour. Reciprocal Predominance and Common Evolution», Historiae, 8, p. 7; FUCHS, «Assyria at War: Strategy and Conduct», The Oxford Handbook of Cuneiform Culture, p. 394.

912 O portador de escudo possuía, geralmente, um escudo redondo de bronze com espigões e decorado com motivos faunísticos; cf. DEZSŐ, The Assyrian Army, p. 57.

913 Idem, p. 56.

Imagem 33 - Detalhes das Portas de Balauat do reinado de Assurnasírpal II evocando as campanhas contra Bit-Adini (primeiro exemplo) e contra o Hatti (segundo exemplo) [retirado de CURTIS e TALLIS, The Balawat Gates of Ashurnasirpal II, p. 111].

poderá ser este objecto um estandarte? Seriam dardos914? Conhecemos a presença de

estandartes em outros contextos, realidade possível para os carros assírios.

Embora os carros de guerra assírios com dois ou três militares tenham coexistido cronologicamente, estes parecem ser de categorias diferentes dentro do próprio exército dos monarcas assírios. Nas faixas de bronze nas «Portas de Balauat» (Imagem 33) de Salmanasar III (c. 858-824 a. C.915), surgem três tipos distintos de carros de guerra: o carro real, o carro do

porta-estandarte e o carro de guerra dos esquadrões. Segundo o autor Tamás Dezső, numa cena onde estão as três categorias representadas, os carros de guerra dos esquadrões apenas transportavam dois soldados916. Então a presença de três militares seria exclusiva do carro real

e do carro do porta-

estandarte? A

iconografia sugere tal interpretação, embora a falta de mais dados concretos façam com que a questão tenha de ficar em aberto. Por que razão os Assírios sentiram a necessidade de modificar os seus carros de guerra? Esta evolução é verificada em todos os reinados dos quais temos

informações relativas a esta questão, sendo talvez a única excepção o rei Salmanasar III, que parece ter tido a preocupação de reduzir o peso e o tamanho dos seus carros de guerra. É-nos difícil responder com certezas sobre quais foram as razões para este progressivo aumento da proporção, mas uma possibilidade prender-se-á com a necessidade de aumentar a cadência de

914 Duncan Noble sugere que os carros de guerra assírios podiam incluir também dardos; cf. NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 48.

915 FRAHM, «The List of Assyrian Kings», ACA, p. 615.

916 DEZSŐ, The Assyrian Army, p. 58. Durante o reinado de Salmanasar III parece haver um retorno às tipologias anteriores, pois verifica-se que a equipa de cavalos passa de três animais para dois e o mesmo no que diz respeito aos militares no carro, embora continue a haver uma coexistência do modelo com três militares; com Salmanasar III, a tipologia de dois militares torna-se, novamente, mais preponderante; cf. NOBLE, «Assyrian Chariotry and Cavalry», SAAB, IV/1, p. 64.

tiro dos militares presentes nos carros de guerra; por outro lado, a necessidade de uma maior protecção dos efectivos, realidade colmatada, à partida, pela adição do portador de escudo. Estas novidades obrigaram, inevitavelmente, os Assírios a construir carros maiores, mais pesados, mais robustos e mais estáveis917.

No reinado de Sargão II, em representações onde o carro real se afigura estar em combate, é possível verificar o aparecimento de duas novas variações918:

1 – O rei, um auriga e dois portadores de escudo919.

2 – O rei, um auriga e um portador de escudo (sendo que este maneja dois escudos920).

No primeiro caso, a adição de mais um militar na plataforma do veículo e no segundo modelo o portador de escudo usar dois escudos, equivalendo, assim, ao primeiro modelo, mostram que durante o final do século VIII a. C. os oficiais do exército assírio sentiram a necessidade de aumentar os elementos defensivos existentes nos carros de guerra. No entanto, não há informações sobre se estes novos elementos foram também adicionados às restantes tipologias de carros de guerra assírios.

O sistema de tracção destes veículos era composto por cavalos921, ligados ao veículo

por um jugo. Segundo Duncan Noble, a maioria destes equídeos ia ser utilizada como animais de tiro nos carros de guerra, pois aquando do reinado de Assurnasírpal II ainda não havia estribos e selas na Assíria – uma tecnologia que tornava a cavalaria segura para o militar que estivesse a montar o cavalo922. A iconografia do reinado de Assurnasírpal II representa,

normalmente, três cavalos para cada carro de guerra, ainda que a presença de quatro rédeas

917 NOBLE, «Assyrian Chariotry and Cavalry», SAAB, IV/1, p. 64; MÜHL, «“Metal makes the wheel go around”: The Development and Diffusion of studded-tread wheels in the Ancient Near East and the Old World», AΘYPMATA: Critical Essays of the Archaeology of the Eastern Mediterranean in Honour of E. Susan Sherratt, p. 165.

918 DEZSŐ, The Assyrian Army, 66; FUCHS, «Assyria at War: Strategy and Conduct», The Oxford Handbook of Cuneiform Culture, p. 394.

919 Por vezes, um destes portadores de escudo podia arremessar dardos em detrimento do uso do escudo; cf. MÜHL, «“Metal makes the wheel go around”: The Development and Diffusion of studded-tread wheels in the Ancient Near East and the Old World», AΘYPMATA: Critical Essays of the Archaeology of the Eastern Mediterranean in Honour of E. Susan Sherratt, p. 165; PRITCHARD, ANET, pp. 284-285.

920 Os escudos podiam também ser decorados com motivos geométricos; cf. DEZSŐ, The Assyrian Army, p. 66. 921 Depois do reinado de Tukultininurta II, começou a surgir uma protecção para a cabeça do cavalo, pois este é bastante sensível a golpes na cabeça; cf. NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 46. Segundo Mary Aiken Littauer, no reinado de Assurnasírpal II o jugo utilizado era, essencialmente, idêntico ao presente nos carros de guerra egípcios durante o século XIV a. C., bem como noutros presentes no sul da Mesopotâmia e nos territórios elamitas. Morfologicamente este era fino e curvo; cf. LITTAUER, «New Light on the Assyrian Chariot», Selected Writings on Chariots, other Early Vehicles, Riding and Harness, p. 247.

sugira a presença de um animal extra923. Em situações onde surgem apenas três cavalos e duas

rédeas, Mary Aiken Littauer sugere que esta anomalia é um problema iconográfico, pois os artistas assírios tiveram dificuldade em desenvolver uma técnica de representação dos carros de guerra924. Há inúmeras referências a equídeos como forma de pagamento de tributos: sendo

o cavalo um elemento essencial no carro de guerra, é natural que fosse um factor tido em conta por parte dos reis assírios925. Vejam-se os seguintes excertos926:

«[...] Eu recebi cavalos como tributo deles, quebrados ao jugo. [...]»

«[...] Eu coloquei a terra toda sob o meu controlo, e um tributo de cavalos, e prata, e ouro, [...] eu coloquei sobre eles. [...]»

Estes excertos, o primeiro datável do reinado de Tiglatpileser I (c. 1114-1076 a. C.927)

e o segundo de Assurnasírpal I, mostram que esta era uma prática recorrente no final do segundo milénio a. C. e algo que se irá prolongar no primeiro milénio a. C.928 Receber cavalos, mas

também carros de guerra como tributo era, estrategicamente, essencial para a manutenção dos esquadrões de carros de guerra que compunham as linhas do exército assírio; estes tributos eram enviados, especialmente, para territórios onde era forte a criação de cavalos. Para além dos tributos, a Assíria conseguia capturar bastantes animais a partir dos espólios de guerra929, como

se pode ver na descrição feita durante o reinado de Salmanasar III930:

«[...] Eu derrotei em batalha 10 000 dos seus soldados mais experientes e assumi controlo dos seus carros de guerra, [...] Eu destruí os seus carros de guerra, [...] Eu retirei-lhe 1121 carros de guerra, [...] Eu lutei com ele e derrotei-o, retirando os carros de guerra do seu acampamento. [...]»

Há ainda que mencionar a própria criação interna destes animais931, se bem que esta não

fosse a fonte mais volumosa de fornecimento de cavalos, pois a quantidade de referências ao pagamento de tributos com estes animais e, também, a obtenção por parte dos espólios de guerra sugere que estas duas realidades seriam as mais proveitosas para a Assíria. Quando se observam

923 DEZSŐ, The Assyrian Army, p. 56. A mesma situação é verificada igualmente no caso do selo cilíndrico de Ninurtatukultiassur, onde está apenas representado um cavalo, embora certamente que existiriam dois; cf. NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 45.

924 LITTAUER, «New Light on the Assyrian Chariot», Selected Writings on Chariots, other Early Vehicles, Riding and Harness, p. 248.

925 DEZSŐ, The Assyrian Army, p. 62.

926 PRITCHARD, ANET, p. 275 [trad. nossa]; BUDGE, AKA, p. 310, [trad. nossa]. 927 FRAHM, «The List of Assyrian Kings», ACA, p. 615.

928 PRITCHARD, ANET, p. 282.

929 DEZSŐ, The Assyrian Army, pp. 62-63. 930 PRITCHARD, ANET, p. 280 [trad. nossa].

931 No seguinte excerto é feita referência a um criador de cavalos: «[...] 2. O criador de cavalos não deve vender (o animal) tanto por dinheiro (ou por) [...] sem perguntar ao seu dono; ele não deve [...] fora das suas mãos; o criador da criação e o receptor (do animal) [...] animal que ele vendeu [...] (visto que ele é um ladrão), eles devem mutilar a sua face; eles devem [...]»; cf. Idem, pp. 187-188 [trad. nossa].

as formas de aquisição dos carros de guerra, estas são bastante idênticas às mencionadas sobre os cavalos932. É importante referir apenas que aqui o carro também criou economias de escala,

o que fez que vários sectores do tecido produtivo da sociedade desenvolvessem artigos específicos para esta arma além de ofícios tal como, por exemplo, de carpinteiros933, de

metalurgistas, de criadores de cavalos, entre outras profissões e manufacturas934.

Pelo menos desde o reinado de Assurnasírpal II e dos seus sucessores que os cavalos935

utilizados nos carros de guerra são altamente couraçados. Este tipo de protecção está também representado em murais de Tutmés IV, onde este e os seus cavalos surgem armados, aquando de combates contra carros de guerra mitânicos, cujos equídeos surgem, igualmente, couraçados936; esta representação prova que este tipo de protecção estava presente no Médio

Oriente e no Egipto, pelo menos desde o século XIV a. C. Assim, é plausível admitir que este tipo de armadura possa preceder o reinado de Assurnasírpal II na Assíria. Seria a preocupação de armar defensivamente transversal a todos os elementos que compunham os esquadrões de carros de guerra do exército assírio? Ou seria um factor de riqueza e só os mais abastados podiam utilizar estas couraças nos seus animais?

Actualmente, é-nos desconhecido se haveria carros de origem privada na Assíria, pois os veículos que pertenciam à monarquia estão relativamente bem atestados. A presença de esquadrões de carros estrangeiros nas linhas de Sargão II mostra que, pelo menos, uma parte das forças seria «estatal» e guardada em arsenais reais937.

Durante o século VIII a. C., no reinado de Tiglatpileser III (c. 744-727 a. C.938), os carros

de guerra adquirem uma roda ainda mais robusta com oito raios939, e as circunferências tornam-

se desproporcionais, pois o círculo exterior ganha uma espessura bastante maior; surgem também quatro cunhas de metal colocadas nos dois pólos da roda. Qual a razão de anexar estes calços à roda? Provavelmente, o aumento do tamanho do objecto móvel e a desproporção que as duas circunferências apresentavam deverão ter tornado a roda instável; assim, esta terá sido

932 DEZSŐ, The Assyrian Army, p. 64.

933 Veja-se a seguinte inscrição: «[...] depois Kitti?-ili, o construtor de carros de guerra.»; cf. POSTGATE, The Governor’s Palace Archives, p. 119 [trad. nossa].

934 FERREIRA e VARANDAS, «Os carros de guerra na Antiguidade», Hapi, 4, p. 148.

935 A presença destas armaduras é, relativamente, transversal a todo o primeiro milénio a. C. assírio. A título de exemplo, de murais palacianos de Tiglatpileser III chegam-nos informações iconográficas de carros de guerra com cavalos couraçados; cf. DEZSŐ, The Assyrian Army, p. 65.

936 Estas armaduras eram reforçadas por medalhões colocados sobre as partes mais vulneráveis do animal, o pescoço e a retaguarda. Num mural egípcio datável do reinado de Tutmés IV, vêem-se os cavalos mitânicos couraçados a fugir com flechas presas à armadura na parte lateral. Esta representação pode evidenciar que estas eram as zonas onde a armadura do cavalo era mais frágil; cf. Idem, p. 58.

937 LEICHTY, The Royal Inscriptions of Esarhaddon, King of Assyria (680-669 BC), p. 33. 938 FRAHM, «The List of Assyrian Kings», ACA, p. 615.

uma das soluções encontradas para resolver este problema940. A «caixa» do veículo passou a

ter as aljavas na parte frontal da plataforma, sugerindo que esta mesma parte passou a ser mais rectilínea e não tanto de formato circular. Para Duncan Noble, estas modificações não trouxeram grandes melhorias aos carros de guerra assírios941.

É no momento de transição do século VIII a. C. para o século VII a. C. que se começa a observar um decréscimo da importância do carro de guerra na Assíria, e de uma forma geral por todo o Médio Oriente. A falta de representações iconográficas de carros de guerra em murais datáveis do reinado de Senaquerib (c. 704-681 a. C.942) sugere que terá sido nesta época

que a cavalaria943 se sobrepôs definitivamente à utilização de esquadrões de carros de guerra944;

contudo, isto não implica que o carro de guerra tenha desaparecido drasticamente dos campos de batalha onde os exércitos assírios se colocavam945.

Este terá sido um processo longo, onde a arma de cavalaria foi progressivamente provando as vantagens, naturalmente com o auxílio do surgimento de novas tecnologias, que tornavam o carro cada vez menos vantajoso em certos teatros de guerra946. O processo de

decadência do uso de veículos na guerra não foi unicamente devido ao menor custo e à maior mobilidade que a cavalaria apresentava947, foi também porque o carro de guerra assírio desta

fase, em consequência da presença de três a quatro militares, terá obrigado a despender mais efectivos e inevitavelmente tornou o carro mais pesado; todos estes factores terão contribuído para uma arma menos eficaz nos campos de batalha. A evolução foi sempre mais focada no processo defensivo do carro de guerra do que na projecção ofensiva desta mesma arma948.

Progressivamente, o carro de guerra terá passado a ter uma importância sobretudo simbólica (valência que já tinha anteriormente) e não tanto de cariz militar.

940 NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, pp. 50-51. 941 Idem, p. 51.

942 FRAHM, «The List of Assyrian Kings», ACA, p. 615.

943 Já presente e utilizada pelo Império Neo-Assírio desde o século IX a. C. na guerra, a arma de cavalaria era utilizada, essencialmente, como um elemento de escaramuça inicial contra os inimigos e como batedores; cf. DOUGHERTY, The Ancient Warrior 3000 BC-AD 500, p. 11.

944 Apesar das ausências iconográficas, existe pelo menos uma inscrição onde este rei refere que foi combater no