Antes de iniciar este subcapítulo, é pertinente delinear a razão de a análise do «carro» sumério estar a ser feita fora do âmbito tradicional dos restantes carros de guerra, os quais polvilharam os campos de batalha do mundo pré-clássico. A opção em tratar o «carro» sumério, e dos seus congéneres (veículos acádicos e neo-sumérios), à parte, prende-se essencialmente com as características que aproximam estes veículos mais das carroças do que dos carros que revolucionaram a forma de fazer a guerra entre estas sociedades246. Importa ainda referir que
neste subcapítulo serão apenas analisados os veículos com rodas que foram utilizados na guerra até ao crepúsculo do carro de guerra ligeiro na primeira metade do segundo milénio a. C.
244 HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 130.
245 A utilização de embarcações para transportar bens, exércitos, entre outros, é, normalmente, a opção mais rápida, segura e menos dispendiosa; cf. QUESADA SANZ, «Carro en el Antiguo Mediterráneo: De los Orígenes a Roma», Historia del Carruaje en España, p. 18.
Tudo indica que inicialmente (antes de c. 2700 a. C.), os «carros» eram usados como elementos rituais e religiosos, mais com o objectivo de transportar imagens de deuses em procissões, e seriam traccionados por bovinos, não por equídeos. As primeiras evidências de veículos com uso militar datam de c. 2700 a. C., havendo investigadores que tendem a sugerir datações ligeiramente mais antigas. Este terá sido um período de incerteza, e também de
desenvolvimento e de experiência no que concerne ao «carro» sumério. Só c. 2500 a. C. é que o «carro» sumério surge com algum nível de desenvolvimento. William Hamblin defende que inicialmente o «carro» seria utilizado apenas pelo monarca como meio de transporte para a batalha, mas com o tempo este e os seus oficiais aperceberam-se do potencial que o uso de um veículo na guerra tinha, assim passaram a utilizá-lo no combate. Consequentemente, outros membros da aristocracia suméria foram influenciados, dando origem aos esquadrões de «carros de guerra»247.
Em termos iconográficos, a análise do «carro de guerra» sumério pode focar-se, essencialmente, em dois artefactos: o Estandarte de Ur (c. 2500 a. C.)248 (Imagem 8) e a Estela
247 HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 134.
248O Estandarte de Ur foi descoberto nas sepulturas reais da cidade que lhe dá o nome. É uma caixa rectangular que terá servido como caixa de som para um instrumento de cordas e a base da decoração era feita em lápis-lazúli; cf. NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 32. Também oriunda de Ur, e datável de c. 2500 a. C., foi descoberta uma estela danificada onde também se pode observar um «carro»; cf. COTTERELL, Chariot. The Astounding Rise and Fall of the World´s First War Machine, p. 42. Este veículo de duas todas está, muito provavelmente, representado num contexto de parada militar, pois não há qualquer combatente sobre o carro; William Hamblin defende que o objecto deve ser lido de baixo para cima, começando pelo registo inferior; cf. HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 49; BERTMAN, Handbook to Life in Ancient Mesopotamia, p. 227. Foi descoberto um selo cilíndrico em Uruk com a representação de um veículo com quatro rodas, que possui uma datação muito ampla (c. 2900-2300 a. C.); cf. HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, pp. 132- 136.
Imagem 8 - Estandarte de Ur, oriundo da cidade de Ur (c. 2500 a. C.) [retirado de https://en.wikipedia.org/wiki/Standard_of_Ur#/media/File:Standard_of_Ur_-_War.jpg].
dos Abutres (c. 2600-2350 a. C.)249 (Imagem 9). Ambos apresentam tipologias de veículos
diferentes, mas cronologicamente similares250, de tipologia pesada251, sendo a maior distinção
o número de rodas que os «carros» possuem. Enquanto no primeiro exemplo os veículos possuem quatro rodas com um eixo rotativo ou fixo em ambas as extremidades da plataforma252,
na Estela dos Abutres está representado um «carro de guerra» com apenas duas rodas253 com o
eixo destas no centro da plataforma254. Ambas as representações apresentam rodas de tipologia
maciça tripartida255. Outra diferença entre estas é a plataforma do veículo, na tipologia de quatro
rodas a plataforma do «carro» será estreita e rectangular256, o que não permitiria aos militares
estarem lado a lado no veículo, algo que não se verifica com o homónimo de duas rodas, embora pareça que apenas tem representado um militar no «carro». Se observarmos as rédeas, estas não estão a ser agarradas pelo soldado que maneja o dardo, mas sim por um auriga257, que por opção,
ou por impossibilidade artística, não pôde ser incluído na cena. Ainda sobre a fisionomia da
249 Esta estela fragmentada foi erguida em honra da vitória de Eanatum, rei de Lagach, sobre Enakale, rei de Umma; cf. HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 55; FRANKFORT, Kingship and the Gods, p. 8. Datáveis do mesmo período existem mais quatro representações, três de Mari (no Médio Eufrates), e uma de Kich. Todas estas representam «carros» com quatro rodas; cf. HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 134.
250 Ibidem.
251 A tecnologia associada ao fabrico e ao uso de «carros» durante o terceiro milénio a. C. terá chegado até Susa, pois aí foram encontrados vestígios de veículos tipologicamente próximos aos existentes na Suméria. A isto deveu- se a soberania que deverá ter existido de Lagach sobre o Elam, c. 2500 a. C.; cf. Idem, p. 72.
252 KEEGAN, Uma História da Guerra, p. 214; LITTAUER e CROUWEL, Wheeled Vehicles and Ridden Animals in the Ancient Near East, p. 16.
253 GABRIEL, The Great Armies of Antiquity, pp. 51-52; XAVIER HERNÀNDEZ e RUBIO, Guerra Antigua y Medieval, p. 22; FINK, «Battle-Description in Mesopotamia Sources I: Presargonic and Sargonic Period», The Religious Aspects of War in the Ancient Near East , Greece and Rome, p. 55.
254 Oriundo de Tell Agrab, e datável do Dinástico Inicial II (c. 2750-2600 a. C.), existe um modelo em cobre onde está representado um «carro» com duas rodas maciças, puxado por quatro equídeos. Apesar de possuir características próximas ao veículo presente na Estela dos Abutres, aqui é clara a presença de apenas um «militar», com a parte frontal do «carro» elevada. Assim sendo, este veículo será de uma tipologia diferente da presente? Tanto para o Estandarte de Ur, como para a Estela dos Abutres, há que referir ainda que este veículo não teria qualquer aplicação no campo de batalha, pois não seria possível utilizar um carro de guerra com apenas um efectivo, dado que este não conseguiria lutar e conduzir ao mesmo tempo. A par desta impossibilidade, este tipo de «carro» podia ter uma função de transmissão de informações entre exércitos e cidades; cf. FERREIRA e VARANDAS, «Os carros de guerra da Antiguidade», Hapi, 4, pp. 140-141; POSTGATE, Early Mesopotamia, p. 22; NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 30. Alguns investigadores defendem que o auriga representado no modelo de Tell Agrab está sentado sobre a barra, ou em pé, com cada membro nos lados da barra que liga o veículo ao jugo. Segundo alguns autores, este método ajudaria a dar equilíbrio e estabilidade ao veículo e ao auriga; cf. LITTAUER e CROUWEL, «The Vulture Stela and an Early Type of Two-Wheeled Vehicle», Selected Writings on Chariots, other Early Vehicles, Riding and Harness, pp. 38-39; e também VILLARD, «Charrerie», DCM, p. 177.
255 QUESADA SANZ, «Carro en el Antiguo Mediterráneo: De los Orígenes a Roma», Historia del Carruaje en España, pp. 18-20; FERRIL, The Origins of War, p. 40.
256 NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 33; LITTAUER e CROUWEL, Wheeled Vehicles and Ridden Animals in the Ancient Near East, p. 16.
257 HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 57; Idem, pp. 139-140; GABRIEL, The Great Armies of Antiquity, p. 52. No Estandarte de Ur, pelo menos, um dos aurigas parece possuir um machado, que seria utilizado em caso de emergência de um ataque ao «carro», ou de haver a necessidade de descer do veículo para combater apeado; cf. HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 138.
plataforma de ambos os «carros», vê-se que a parte frontal é bastante diferente entre ambos, pois os veículos presentes no Estandarte de Ur surgem com uma vanguarda bastante mais elevada quando comparada com os lados do mesmo veículo, servindo tal elevação para melhorar a protecção dos militares que nele estavam258. Já no exemplar presente na Estela dos
Abutres não há qualquer elevação de nenhum lado do próprio «carro». Segundo William Hamblin, este veículo possuía uma aljava para os dardos259, com capacidade para oito dardos,
e também um machado260. Há ainda que referir a presença de quatro equídeos (asnos, onagros
ou híbridos) como força de tracção deste tipo de veículo261. No Estandarte de Ur verifica-se
ainda algum tipo de protecção ou adorno que era colocado no peito dos equídeos.
Será a tipologia presente na Estela dos Abutres um precedente directo do carro de guerra ligeiro? Com a excepção das rodas, que aqui são maciças, e da parte frontal da plataforma, que não apresenta nenhuma elevação considerável, a plataforma do veículo revela algumas semelhanças com os carros de guerra do segundo milénio a. C. A presença de dois tripulantes lado a lado nesta
tipologia de duas rodas prova que a plataforma é suficientemente larga para poder albergar dois efectivos naquela posição, algo que é evidente nos carros posteriores.
No primeiro artefacto observa-se um total de cinco
veículos262, e um deles, na secção superior, aparenta estar representado num contexto de parada
militar; já os restantes quatro, na divisão inferior, surgem numa conjuntura bélica. Verifica-se, inclusive, uma tentativa de recriar vários estágios de processo militar, pois o veículo mais à
258 HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 137.
259 Segundo Nic Fields, um combatente experiente poderia atirar cerca de trinta dardos por minuto a uma distância de sessenta metros, com o veículo a movimentar-se entre catorze a dezassete quilómetros por hora; cf. FIELDS, Bronze Age War Chariots, p. 12.
260 NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 31; HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 57. 261 FERREIRA e VARANDAS, «Os carros de guerra da Antiguidade», Hapi, 4, p. 140; HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 49.
262 HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, pp. 137-138.
Imagem 9 - Estela dos Abutres, reinado de Eannatum de Lagach [retirado de http://arthistorypart1.blogspot.com/2011/01/sumerian-art-stele-of-vultures.html].
esquerda não aparenta estar em combate. Esta iconografia pode ser interpretada de duas formas: a cena do registo inferior representaria a progressão das várias fases da batalha e, também, a fase que a precede; ou o veículo exibido à esquerda poderia mostrar um comandante militar, o qual se mantém na retaguarda para melhor dirigir as suas forças. Ambas as possibilidades parecem plausíveis, seja este «carro» a ideia generalizada de uma coluna de marcha263, ou um
oficial no comando nominal do exército sumério264. Como reforço a esta ideia, o auriga presente
no «carro» mais à esquerda parece estar sentado265. Os restantes três «carros de guerra» estão,
claramente, em combate. Verifica-se que os soldados combatentes estão a manejar uma arma de arremesso (dardo com ponta de cobre) numa posição de ataque266, vendo-se também
soldados inimigos neutralizados a preencherem o chão do registo, e os próprios equídeos267
aparentam estar em movimento268. William Hamblin sugere ainda que a secção inferior seja a
representação de uma linha de batalha de «carros de guerra»269.
Apesar destas representações, onde o «carro de guerra» é, indiscutivelmente, exibido a combater, as características deste (veículo de quatro rodas), parecem sugerir o oposto, pois aparenta ser pesado e instável, com pouca mobilidade, e não seria especialmente rápido270. De
uma forma geral, os «carros de guerra» na Suméria são carroças adaptadas à guerra271, com
pouca capacidade militar. Também a presença de quatro equídeos como sistema de tracção do «carro» seria uma fonte de problemas. Deveria ser difícil para os militares responsáveis por este aspecto agrupar quatro equídeos, que tinham de ser compatíveis em termos de altura (devido ao jugo), peso, temperamento e género. Estes dois últimos aspectos deveriam ser especialmente importantes, pois no caso do género, por razões de acasalamento, os grupos deveriam ser compostos ou por machos, ou por fêmeas. O temperamento seria importante devido aos ritmos e vontades dos animais em questão. Veja-se, ainda, que nenhum dos equídeos utilizados nestes veículos seria à partida tão receptivo ao controlo como o cavalo. De facto,
263 Ou seja, o veículo representaria a fase da ida do exército para o campo de batalha.
264 Apesar da presença de veículos nas forças sumérias, é na infantaria que reside a capacidade militar dos reis e chefes militares. Sabe-se que haveria a manutenção algumas centenas de soldados profissionais e que o método de combate seria em «falange» com oito homens na linha da frente e com seis de profundidade; DOUGHERTY, The Ancient Warrior 3000 BC-AD 500, pp. 17-18.
265 Duncan Noble refere que este tipo de representação não é único na Suméria; cf. NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 31.
266 POSTGATE, Early Mesopotamia, p. 246. A única excepção será o militar presente no «carro» intermédio, o qual possui um machado, e que, à partida, não parece estar a ser utilizado de uma forma agressiva.
267 A problemática dos equídeos presentes nestes veículos será abordada no subcapítulo seguinte.
268 Parece haver nos equídeos um movimento contínuo, em o que está mais à direita se encontra numa posição de maior movimentação que os restantes.
269 HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 138.
270 GABRIEL, The Great Armies of Antiquity, p. 52; HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 137.
tanto o asno, como o onagro, bem como o híbrido, seriam mais difíceis de controlar, devido à sua teimosia e resistência à dor272.
Como era utilizado o «carro de guerra» sumério? Embora a morfologia destes veículos e o armamento que neles seria utilizado, pareçam colocar de parte a possibilidade de uma utilização para o choque directo contra as linhas inimigas, não se pode de todo descartar a possibilidade de uma utilização do dardo como arma de confronto directo, onde o combatente sumério perfurava os inimigos com a ponta da arma. Mas, por outro lado, a presença de aljavas nestes veículos parece dar força a uma utilização do «carro» como arma de ataque à distância. Assim, os «carros» sumérios seriam utilizados como elemento móvel de tiro à distância273, fosse
este utilizado no início da batalha, durante o combate de infantaria, ou no final (perseguição). Tacticamente, e também muito relacionado com o momento de utilização dos veículos em batalha, estes «carros» podiam ser dispostos na vanguarda, nas alas ou na retaguarda. Não existem dados que permitam concluir quais seriam as formas de os utilizar, obrigando a que esta problemática tenha de ficar em aberto. Mas a morfologia ambígua274 pode evidenciar que
o «carro de guerra» da época fosse utilizado em todas as fases do combate, embora fosse pouco eficiente. Seria mais eficaz no caso de uma perseguição dos inimigos em fuga275, situação onde
a mobilidade não seria tão necessária, e onde a velocidade do veículo deveria ser suficiente. Inclusive, é admissível interpretar que o «carro» mais à direita na secção inferior do Estandarte de Ur possa ser a representação de um veículo que esteja a perseguir, atropelar e espezinhar os opositores em debandada.
Para o caso do veículo de duas rodas presente na Estela dos Abutres, este teria mais mobilidade devido ao menor comprimento da plataforma, e pelo facto de possuir apenas duas rodas, diminuindo o atrito. No painel onde está representado este «carro», com o rei a manejar um dardo276, está também evidenciado um contingente de infantaria ligeira (sem escudo) e com
lanças curtas e machados que, provavelmente, serviria como suporte apeado dos «carros de guerra» sumérios. Estas unidades tinham a função de proteger o «carro» de ataques inimigos feitos em zonas mortas, onde o soldado combatente não podia actuar. A presença do rei na vanguarda será uma representação idílica e propagandística, pois este estaria na retaguarda a organizar tacticamente as suas forças. Resta saber se na sua base esta é uma representação de
272 KEEGAN, Uma História da Guerra, p. 214; FIELDS, Bronze Age War Chariots, p. 10. 273 HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 50.
274 Pois não aparenta ser especialmente preparada para nenhum tipo de combate específico. 275 HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 50; Idem, p. 138.
276 William Hamblin refuta a possibilidade de a arma ser um dardo, e defende que se trata de uma lança. Mas a presença de uma aljava com doze dardos prova o contrário; cf. Idem, p. 139.
como eram utilizados os «carros», pois assim o mais plausível seria o uso na vanguarda ou nas alas, sendo dos primeiros elementos a ser utilizado no combate. A infantaria pesada lutaria numa muralha de escudos277, enquanto tinha o apoio dos «carros», que por sua vez eram
apoiados pela infantaria ligeira278. Importaria ainda saber, e não há aparente resposta, se os
«carros» de quatro rodas teriam as mesmas funções e tácticas dos veículos de duas rodas. Como já foi frisado, as características físicas dos «carros de guerra» deste período seriam pouco eficazes na guerra, fossem de quatro ou de duas rodas, embora seja evidente que este último tivesse mais potencialidades que o seu homónimo de quatro rodas. Este terá desaparecido dos campos de batalha durante os inícios do segundo milénio a. C., enquanto o modelo de duas rodas terá sido desenvolvido no sentido de se tornar um veículo mais leve, mais móvel e mais rápido. Possivelmente uma das grandes vantagens desta arma na guerra durante o terceiro milénio terá sido o peso psicológico que teria sobre a mentalidade e moral dos exércitos inimigos279, em especial os que não estavam familiarizados com tal aplicação bélica
de veículos com rodas, pois a visão de uma vaga de veículos pesados, com a poeira e o barulho que deveriam provocar aquando da sua deslocação, deveria ter um forte efeito dissuasor no exército inimigo. Naturalmente, apenas uma função de condicionamento psicológico não serve para explicar a aplicação e simbolismo que estes «carros» lograram atingir na Suméria. Essa preponderância deve advir de um uso prático (de combate) nos campos de batalha da segunda metade do terceiro milénio a. C.
Todos os veículos presentes no Estandarte de Ur patenteiam bem a importância simbólica que estes pesados objectos móveis conseguiram adquirir no contexto das cidades sumérias280. Admitindo a secção inferior como uma representação das várias fases de uma
batalha, então verifica-se aqui a preponderância que estes veículos tinham no seu contexto, tanto militar como político-social. No caso do veículo presente na secção superior, este podia ser o «carro» do monarca que surge destacado no centro da cena281. Ainda na Estela dos Abutres
observa-se um outro veículo, agora puxado por um felino alado, ou possivelmente um grifo. Esta é uma representação com contornos mitológicos, pois detecta-se na cena o estandarte militar de Anzu, que seria levado para o combate como confirmação da presença de Ninguirsu,
277 HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, pp. 56-58; Idem, pp. 137-139. 278 Idem, p. 58.
279 Idem, p. 137; FIELDS, Bronze Age War Chariots, p. 11; DOUGHERTY, The Ancient Warrior 3000 BC – AD 500, p. 17.
280 COTTERELL, Chariot. The Astounding Rise and Fall of the World´s First War Machine, p. 43.
281 NOBLE, Dawn of the Horse Warriors, p. 32; HAMBLIN, Warfare in the Ancient Near East to 1600 BC, p. 137.
deus da guerra e patrono de Lagach282. Entemena terá ainda construído um «carro» ao qual deu
o nome de «O carro de Ninguirsu [que acumula montes de enterros de inimigos mortos] derrotados nas terras estrangeiras». Este veículo terá sido um objecto cerimonial e de ritos283.
William Hamblin observa o nome deste «carro» numa perspectiva diferente, e refere que este simbolismo é resultado da sua preponderância nos campos de batalha, e a carga divina que esta arma acaba por possuir seria um factor de terror que era imposto aos seus inimigos. Apesar de ser tardio, quando relacionado com as cronologias tratadas neste subcapítulo, de c. 1760 a. C., chegou-nos de Mari um texto do reinado de Zimrilim, onde este é aconselhado do seguinte284: