A vantagem do GF é reunir grande quantidade de informação num curto espaço de tempo. Além disso, permite que o moderador explore assuntos não contemplados previamente no roteiro, mas relacionados aos objetivos da pesquisa, quando emergem durante a sessão do grupo focal. Como restrição, a qualidade dos dados fornecidos depende das habilidades do moderador, que, se não tiver experiência e treinamento suficientes, pode deixar que poucas
pessoas controlem a discussão ou que a direção do grupo afaste-se dos objetivos determinados (MOURA e FERREIRA, 2005).
Segundo De Antoni et al. (2001), uma das vantagens da utilização do Grupo Focal está na eficiência na etapa de levantamento de dados. Além disso, o GF promove o entendimento entre os participantes que se dão conta das opiniões e atitudes presentes em seus comportamentos e nos dos demais. Compreendem o que pensam e aprenderam na vida, por meio da troca de experiências e opiniões entre os participantes. Outra vantagem do GF é que a dinâmica do grupo pode ser um fator sinergético22 no fornecimento de informações (BERG, 1995; CAREY, 1994; MORGAN, 1997 apud DE ANTONI et al., 2001). Portanto, as informações trazidas pelo participante podem ser identificadas como dados do grupo.
Como desvantagem na utilização do GF, segundo Morgan (1997 apud DE ANTONI, et al., 2001), pode-se citar as tendências dos grupos que podem levar um estado de ‘conformidade’ ou de ‘polarização’. A conformidade acontece quando alguns dos participantes não fornecem informações ao grupo, que, possivelmente, apareceriam em uma entrevista individual. A polarização acontece quando os participantes expressam mais informações na situação de grupo do que em uma situação individual. Portanto, cabe ao pesquisador considerar estes aspectos quanto estiver definindo o projeto da pesquisa.
4.3.4 Plano da Pesquisa
Na etapa de planejamento, definiu-se, basicamente, os tópicos de discussão, os critérios de seleção para o grupo focal e sua dinâmica de funcionamento. Decidiu-se por um grupo focal (MORGAN, 1997 apud DE ANTONI, 2001), entre dez a quinze pessoas, que atendesse aos seguintes critérios:
a) Formação acadêmica mínima: pós-graduação lato sensu;
b) Experiência profissional relacionada aos temas Gestão de Projetos ou GTI, com, no mínimo, três anos;
c) Coletivamente, o grupo deverá reunir, no mínimo, as seguintes experiências individuais: profissionais de gestão de projetos de TI (atual ou anteriormente), profissionais que utilizam práticas de GTI (atual ou anteriormente) e profissionais com experiência em gestão de pessoas (atual ou anteriormente).
22 - O termo sinergia é usado para descrever o fenômeno que ocorre na união de duas ou mais forças que produzem um efeito maior do que a soma dos efeitos individuais. (BRONFENBRENNER, 1989 apud DE ANTONI et al., 2001).
d) Ter ao menos uma pessoa que tenha participado ativamente da implantação e no uso das práticas de GTI em alguma instituição da APF;
e) Ter ao menos um representante da área acadêmica, preferencialmente que desenvolva pesquisas na área de GTI;
f) Nenhum membro do grupo focal poderá ter qualquer relação de parentesco ou subordinação hierárquica com o autor do estudo, que será o mediador do encontro.
Os critérios visam formar um grupo de perfil homogêneo, com interesses e características similares, mas com experiências diversificadas, o que tenderá a resultar em discussões mais produtivas (MOURA e FERREIRA, 2005). O mediador conduzirá o processo de forma a evitar a ‘conformidade’ ou a ‘polarização’, mencionada por Morgan (1997 apud DE ANTONI, et al., 2001). Quase trinta possíveis candidatos, à luz dos requisitos definidos, foram contatados pelo autor, primeiramente por telefone e, em seguida, por e-mail.
Neste contato prévio, o autor desta pesquisa salientava que o convidado faria parte de um grupo restrito de pessoas criteriosamente selecionadas para discutir assuntos de GTI com base em suas experiências profissionais. Seriam debatidos os problemas da GTI na APF sob a ótica da teoria da complexidade, e que o trabalho visaria considerar o uso das práticas de GTI na APF, caracterizadas pela complexidade dos problemas, identificando suas perversidades (wickedness), e que a pesquisa, futuramente, possibilitaria que o gestor, ao lidar com esse tipo de problema, usasse abordagens adequadas para enfrentá-los.
O autor do estudo enviou aos participantes, por e-mail, com pelo menos seis dias de antecedência, um material introdutório com informações básicas sobre a dinâmica e as expectativas do encontro. Além disso, também antecipou os tópicos, o formulário e conceitos importantes que seriam discutidos na reunião do GF. Esses introdutórios foram enviados a todos os convidados, conforme descrito nos Apêndices A, B e C.
4.3.5 Realização do encontro e utilização dos registros
Dos vinte e dois participantes selecionados por suas qualificações e experiências profissionais, apenas dezessete compareceram a reunião. O autor considerou a possível ausência de 30% dos convidados selecionados, o que não se comprovou nesta pesquisa, pois as ausências ficaram em torno de 20%. O comparecimento dos participantes ultrapassou o limite máximo de quinze integrantes estipulados no planejamento da pesquisa, superando em dois participantes.
Isto não representou problema ao desenvolvimento da pesquisa, uma vez que a utilização de um formulário de perguntas semiestruturadas serviu como um roteiro preliminar ao debate, e não um trilho. Apesar do grande número de participantes, o facilitador manteve o foco nos temas propostos e evitou a dispersão dos integrantes da reunião. Os participantes foram relacionados no Apêndice F, que contém nome, função, empresa em que trabalha, formação acadêmica e tempo de experiência em relação aos temas abordados. Os e-mails e telefones dos integrantes do Grupo Focal foram omitidos neste apêndice por questão de privacidade.
O encontro ocorreu na Universidade Católica de Brasília, no endereço: Campus II - SGAN Quadra 916, Módulo ‘B’, W5 Norte, Asa Norte, Brasília/DF e foi realizado no dia 01/10/2012, segunda feira, das 19h15 às 20h45, na sala B-204. Permitiu-se uma tolerância de 15 minutos no início e no final do encontro para comportar eventuais imprevistos ou alongamento das discussões.
Todos os participantes presentes foram motivados, na abertura da reunião, a tecer algumas considerações iniciais sobre o estudo. O objetivo foi deixá-los mais à vontade e desinibidos no grupo. O mediador solicitou autorização para gravar os comentários, no sentido de permitir manter total atenção nos entrevistados e em suas participações.
Na apresentação, os vinte primeiros minutos foram dedicados a uma breve apresentação dos conceitos de GTI, dos problemas Tame e Wicked, complexidades sociais nos projetos, panorama da GTI na APF e os problemas perversos na GTI. A partir daí, foi apresentado e detalhado o formulário (Apêndice B) com dez problemas de GTI, avaliados em relação às características dos problemas complexos. Ao final das apresentações mencionadas, foi arguido sobre possíveis dúvidas e/ou comentários a respeito do tema.
A dinâmica de preenchimento do formulário, abordada pelo facilitador, foi explorar cada problema de GTI por vez, avaliando-o em relação às dez características dos problemas complexos. A adoção da técnica de Grupo Focal mostrou-se acertada e constituiu-se em importante ferramenta para a dinâmica de preenchimento do formulário, uma matriz 10 x 10 (Apêndice B), que demandou um maior esforço do facilitador para expor a dinâmica a ser adotada e a sequência de leitura das questões. A presença das pessoas e a oportunidade de manifestação de todos foram cruciais para o sucesso na interpretação do relacionamento proposto entre os problemas de GTI e as características dos problemas complexos.
Ato contínuo, o facilitador respeitando a velocidade de preenchimento e o nível de discernimento dos integrantes, passou por todos os problemas, um a um, até esgotarem-se os
dez problemas propostos no formulário. À medida que cada participante encerrava o preenchimento do formulário, o mediador perguntava se havia algo a acrescentar, comentários ou opiniões, para complementação do formulário. Durante o encontro, foi mantido o foco nos tópicos previstos e todos eles foram abordados, explicados e discutidos. Ao final do encontro, o mediador se comprometeu enviar a versão final da dissertação aos presentes.
As respostas às perguntas do formulário foram analisadas e tabuladas e as respectivas notas deram a potencial dimensão da complexidade dos problemas de GTI (Apêndice E), caracterizados no espectro da perversidade (wickedness) dos problemas, proposto nesta pesquisa, que serão detalhados no capítulo 5.
4.3.6 Limitações do método do GF
Embora plenamente possível de ser utilizada, a técnica de grupo focal possui algumas limitações que merecem destaque. O Quadro 4.3 os traz, acompanhados das medidas que podem ser adotadas para mitigá-los.
Quadro 4.3 – Limitações de grupos focais e medidas mitigadoras.
Limitação/desvantagem Ação mitigadora / justificativa
Possível dificuldade de expressar ou articular opiniões e ideias
(entrevistador e/ou entrevistado). Elevou-se o nível de qualificação exigido dos integrantes para participação do grupo focal. GF pode ter experiências ou níveis de
qualificação muito desnivelados. Grupo focal pode não se preparar adequadamente para contribuir com o tema.
Um material introdutório será enviado ao grupo focal com no mínimo seis dias de antecedência. Além disso, os minutos iniciais do encontro serão utilizados para esclarecimentos de dúvidas ou informações adicionais.
Entrevistador influenciar deliberadamente a entrevista e direcionar as opiniões emitidas.
Além de haver uma restrição para participação de parentes e pessoas ligadas hierarquicamente, o mediador deixará claro, desde o
primeiro contato com todos do grupo focal, de que sua participação seria meramente instigadora e não persuasiva.
Entrevistado pode se sentir inibido. Discussão inicial envolverá temas mais simples e generalistas, de forma a formar um ambiente propício para discussão. Dificuldade em registrar os
comentários e manter a atenção nos entrevistados.
Alocação de uma pessoa exclusiva para registrar e gravar a reunião. Adicionalmente, será solicitada autorização para gravação.
Tendência de conformidade do grupo O mediador incentivará aos respondentes a fornecem todas as informações ao grupo, inclusive aquelas que, possivelmente, só apareceriam em uma entrevista individual.
Tendência de polarização do grupo
O mediador controlará o nível da informação dada de modo que os participantes não expressem mais informações na situação de grupo do que em uma situação individual.
Permitir que poucas pessoas
controlem a discussão O moderador deverá demonstrar suas habilidades e experiência suficientes, para garantir a qualidade dos dados fornecidos. O orientador terá papel importante no apoio à moderação Permitir que a direção do grupo