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Kap. 1410 Miljøvernforsking og miljøovervaking

Estando eu na UnB, uma universidade ainda não tão popular, Sentado em uma calçada pus-me a pensar, Observei certas coisas que não poderia imaginar. Enquanto me sentei no estacionamento esperando o ônibus chegar, Me veio no imaginário a transformação daquele lugar. Observando ali sentado, vi um cenário tão vulgar, Pessoas na fila em silêncio,

poucos dialetos a usar. Vi também um grupo de jovens, cuja idade não sei falar, Um deles distanciou-se da fila e começou a fumar. Era tabaco? Maconha? Cocaína? Outro fumo qualquer? Sei lá... só sei que gargalhavam de alegria ao seu vício saciar.

Era fumaça para cima, fumaça para baixo. Fumaça para um lado e para o outro. Fumaça para todo lugar. Passou-se uma meia hora, eu ali sentado, calado a observar. Depois de todo esse tempo comecei a me perguntar. Porque nunca criamos ainda o vício de nós nos conversarmos. Se fosse na minha Terra, uma coisa eu iria falar, se não tivéssemos outros assuntos mais, sobre a plantação iríamos conversar. O senhor plantou arroz? E a mandioca, como está? Tem farinha pra vender? Quando o senhor vai relar? Algo desse tipo o causo iria iniciar...

Mas não. Ali na fila do ônibus, uma diversidade de olhares, cada um no seu mundo, ninguém a se comunicar. Certamente todos tinham um motivo para silenciar.

36 Não sei. Sei que essa relação de causalidade começou a me inquietar, já passara mais de uma hora, as mesmas pessoas no mesmo lugar, o silêncio era medonho e eu estava lá.

Minha família, a escola, o mestrado, tudo isso eu tinha para poder pensar, mas não fugia da cabeça aquela cena vulgar. O estacionamento, lugar de encontro, reencontro popular, mas o silêncio separava o espaço, punha cada qual no seu lugar. Meu lugar de mestrando aluno que sonha em chegar, nem sabia o que era o mestrado, mas insistiu em lutar.

Fui parte daquele estacionamento, das outras pessoas que estavam lá. Fui uma parte de mim mesmo buscando a outra parte formar. (Adão Fernandes da Cunha. Brasília, junho de 2016).

O que é o Mestrado? Para mim foi o Mestrado Profissional em Sustentabilidade Junto a Povos e Terras Tradicionais (MESPT), um programa institucional dentro da UnB Campus Darcy Ribeiro que visa o atendimento das particularidades da vida de diferentes grupos étnicos. É uma política pública nova, em ação dentro da maior universidade do Distrito Federal, mas que atua nas periferias desse campo, na busca pelo combate às formas de exclusão da vida humana dentro dos programas acadêmicos, tendo como base a sustentabilidade dessa vida.

O programa atende a comunidades tradicionais em geral, articulando diferentes povos e formando uma rede com diferentes saberes. Visa à formação do sujeito na sua totalidade e sua atuação nos campos de onde vêm, para que os mesmos possam promover articulações que garantam a materialização de suas identidades culturais e sociais numa perspectiva sustentável2.

37 Encontrar o MESPT acalenta e ao mesmo tempo é um desafio, que marca a vida de todos nós, povos de comunidades tradicionais. Foi nessa perspectiva de vencer esse desafio que o encontrei e encarei a seleção para a composição da terceira turma, vislumbrando o fortalecimento da luta pela transformação. No frescor da graduação, surge o edital de um mestrado e me desafio a participar da seleção. No limite do prazo, no esgotar de uma sessão, eu fiz minha inscrição. Na calada da noite, últimos momentos de organização, já eram quatro horas da manhã e eu sentado escrevendo minhas intenções. No acordar da cidade, à cinco da manhã o despertador chama minha atenção, é hoje o último dia e ainda falta documentação. Levantando da cama que não me deitei, fui tomar uma lotação, arriscar a minha vida em busca de uma declaração. Na cidade de Campos Belos Goiás, na Secretaria de Educação, lá estava minha última esperança, nas mãos da Direção.

Documentos ajeitados ao meio dia, hora de almoçar, o Correio ainda estava aberto, documentos sem enviar. Lá estava eu na fila, sem endereço para a postagem, pedindo ajuda aos amigos e nada de endereço chegar. Um negro a paisana, óculos escuros, mochila nas costas, documentos nas mãos, Correio quase fechando, esperança caindo em vão. Eram os últimos minutos para concorrer a seleção, ainda estava na espera do endereço que me levaria a um outro lugar. Esse tempo de espera provocou desconfiança desse negro cidadão, que passou a noite em claro escrevendo suas intenções. Um negro a paisana gera desconforto para a população, já que está na cabeça da sociedade que negro parado é suspeito e correndo é ladrão. De fato, aqui tiro minhas conclusões, porque fui abordado nesse momento pela polícia como se eu fosse o antigo e famoso bandido, apelidado de “Pezão”. Nessa hora eu pensei, fui vítima de uma confusão, me confundiram com os bandidos, não voltarei mais para o Vão. Foi um susto sufocante, já ia fechar o Correio, os policiais só fizeram uma abordagem de verificação. Certificaram da minha inocência e me exigiram explicação. Depois de tudo explicado me liberaram sem mais ações. Ainda postei meus documentos, e nesse momento eu senti que Deus sempre esteve seguro em minhas mãos, então pedi para que Ele cuidasse e guiasse minhas intenções também dali para a frente.

Saindo desta fase de sufoco, meus dias de espera dos resultados da seleção antes da prova oral me pareciam conturbados, não acreditava nas minhas propostas nem em bons resultados. Os resultados deste desafio é o que me dá motivação, saber que tudo posso, basta muita dedicação. No resultado final, cheguei a uma conclusão: ser kalungueiro e preto é um compromisso que tenho com a minha nação. Cada degrau conquistado é de se

38 assumir uma nova e maior missão, é uma fase de construir, desconstruir e reconstruir. Estar no mestrado não é diferente, devo isso às memórias antigas, às futuras memórias e às memórias do presente que buscam emancipação.

O meu desafio maior, hoje vejo que não foi a seleção. Foi assumir esse compromisso de transformação, respeitando e valorizando as diferenças e semelhanças de diferentes populações. Aqui é onde está a chave do segredo, das lutas de boas energias, não é fácil abrir estas portas, isso eu digo sem melancolia, mas não desista negro, não desista, segue na luta a noite e o dia pois só assim serei capaz de ser poeta e ao mesmo tempo, ser uma poesia.

Vivo agora em um momento até difícil de dizer, não sei se o meu lírico poético é poesia para você, leitor. Também não sei se a minha vida terá sentido se minha cultura eu esquecer, pois por ela fui educado, isso aqui eu posso dizer, uma educação que perpassa a escola do A, B, C. Educação informal, práticas de sobreviver, sobrevivência que hoje eu sei, foi na escola do Viver. Saber escolher um local e sua roça fazer, saber fazer a roça e cultivar o seu di cumê. Isso me dá sustento, para Kalunga eu ser, saber que é dali que brotam as boas e más lembranças de um negro marcado para viver.

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