Da análise dos discursos dos PCE das escolas investigadas, sobressai a ideia de que uma primeira candidatura ao Conselho Executivo, mais precisamente ao cargo de PCE enquanto cabeças de lista, não encontra justificação explícita no simples de facto de existir um perfil para tal e/ou de o candidato julgar que reúne determinadas condições, nomeadamente o tão valorizado conhecimento da organização escolar. De facto, os dados revelam que uma primeira candidatura a este órgão de gestão implica, mais do que factores de natureza intrínseca, encontrar e explicitar, de forma evidente, factores de natureza extrínseca que legitimam essa candidatura perante a comunidade escolar. Nenhum dos PCE entrevistados aponta como razão principal à sua candidatura o facto de, por exemplo, de estar cansado de dar aulas, de querer experimentar um cargo diferente, de ter uma apetência especial para um órgão de poder, mas sobretudo devido a factores de contexto organizacional, considerado pelos próprios como caótico no momento em que se decidem candidatar pela primeira vez. Efectivamente, o factor mais apontado pelos diferentes PCE, e que podemos mesmo afirmar ser transversal a todos, tem que ver com questões de instabilidade na organização escolar, não existindo, no momento da referida candidatura, um bom clima de escola. É na insatisfação da comunidade escolar que se encontra o factor por excelência que justifica a candidatura de uma nova equipa, enquanto garantia de uma mudança para um contexto de estabilidade. Neste sentido, a primeira candidatura da nova equipa surge frequentemente associada a uma ruptura com a gestão do Conselho Directivo/Executivo anterior pois,
122 de modo mais directo ou mais velado, o clima de instabilidade é associada à forma como a escola é gerida: 39
“ […] a ideia inicial do grupo de pessoas, quando aqui pegámos é que esta escola tinha batido no fundo, a todos os níveis. Do ponto de vista financeiro, já nem havia dinheiro para comprar papel… do ponto de vista da disciplina, os alunos tinham sempre razão, os professores não tinham […] e havia depois um conjunto de duas ou três pessoas, e nós começámos a olhar… Ó pá… vamos tomar conta disto…” (PCE escola A).
“Vim encontrar uma escola, do meu ponto de vista, praticamente desorganizada… era uma escola relativamente recente, com alguma instabilidade, os Conselhos Directivos eram formados por nomeações…” (PCE escola E).
Se por um lado, é claramente um factor de contexto organizacional que preside à legitimação para se assumir uma candidatura totalmente nova perante a comunidade escolar, esse factor por si só implica outro, este de natureza pessoal, que surge indissociável do primeiro e que permite concretizar a candidatura num clima de escola desfavorável – o “espírito de sacrifício” dos candidatos. Note-se que, num clima de instabilidade no qual urge uma mudança na gestão, a legitimidade só é plena, segundo o discurso dos entrevistados, unicamente por eles, ao contrário de outros, estarem dispostos a alguns sacrifícios, particularmente ao nível da sua vida familiar, ao assumirem-se como candidatos para um cargo de Conselho Executivo, cargo esse que implica exigências não fáceis de suportar.40
39
Outros exemplos: “A professora B0 criou todo um clima de instabilidade e eu em 92, num primeiro mandato, vim apaziguar esse clima […] No meu caso como eu já trazia experiência da escola G e da escola C... vim sempre em tempos de crise… havia aquele litígio com a B0 e portanto quando começaram a tentar formar uma lista apareceu o meu nome”. (PCE escola B); “Apresentámos determinadas medidas que iríamos tomar por oposição às que estavam a ser tomadas pela anterior equipa. Portanto, não entrámos em confronto directo mas havia de facto algum conflito” (PCE escola C);“As situações a resolver eram muitas, a escola não estava a conseguir atingir os objectivos nem da política de educação, nem das linhas orientadoras da escola, nem do projecto educativo e a partir dai tem de haver uma ruptura porque para entrarmos na continuidade, continuávamos com o mesmo tipo Havia muito descontentamento porque as decisões eram um bocadinho tomadas ao sabor do momento, e não havia critérios. (PCE escola D); “ […] não se podia considerar um ambiente mau [mas] comparativamente com anos anteriores já tinha sido muito melhor.” (PCE escola F);“ [Estávamos em] ruptura porque de facto a professora G16 [actual presidente] tem uma visão de escola bastante diferente da minha colega G12 [anterior presidente] ”. (VPCE escola G)
40
Outros exemplos: “ […] por outro lado, o espírito de sacrifício – podemos fazer, queremos fazer, vamos avançar, apesar de haver prejuízo noutros aspectos da nossa vida.” (PCE escola G); “Mas eu vou candidatar-me para quê? Eu gosto tanto de dar aulas, eu considero-me no sentido profissional uma boa professora, tenho muito boas relações com os alunos […] ia-me meter nisto para quê? Para me aborrecer? Pondera-se muito porque não há aqui um incentivo…” (PCE escola D)
123
“É complicado as pessoas disponibilizarem-se para exercer um cargo que não é a tempo inteiro é a duplo tempo inteiro. Não são 24 horas, são 48 horas por dia e eu… Felizmente ou infelizmente não sei… ainda vou conseguindo ter essa capacidade […] às vezes também à custa da minha vida familiar e da minha vida pessoal mas ainda consigo…” (PCE escola C).
Esta alusão àquilo a que designamos como “espírito de sacrifício” e que poderá ser eventualmente interpretado como um verdadeiro altruísmo rege-se segundo uma lógica na qual aquilo que mobiliza as pessoas, independentemente do grau de prejuízo que isso possa representar é uma motivação intrínseca para a procura do bem comum. Ou seja, é um “espírito de sacrifício” que surge indissociável de um “sentido do dever”. Mas, e mais uma vez salientamos, esses factores de ordem intrínseca, para além de não serem generalizados, quando surgem isso acontece sempre, pelo menos segundo admitem os entrevistados, subordinadas a factores extrínsecos de destabilização e de perturbação do clima de escola.
[…] e foi vontade de fazer alguma coisa para que a escola mudasse, isso foi aquilo que me motivou” (PCE escola F).
[…] pensar que se tem capacidade para fazer algo, um projecto em comum, tendo uma ideia concreta do que é que se pode fazer, do que é que é útil para a escola[…] (VPCE
escola G).
A PCE da escola E estabelece na sua narrativa uma distinção claramente demarcada entre a valorização do sentido do dever e o tal espírito de sacrifício apontado por outros PCE. Efectivamente, esta PCE valoriza sobretudo o sentido do dever, entendendo o serviço prestado à escola enquanto PCE como uma obrigação cívica, não havendo portanto espaço de reflexão para considerações de natureza pessoal. Extraímos desta narrativa uma racionalidade que aponta para o dever de fazer funcionar bem a escola pública, não pela admissão de qualquer tipo de motivação intrínseca associada a alguma forma de altruísmo mas sim pelo simples facto de isso ser considerado uma circunstância inerente às suas obrigações profissionais.
124
“Não tenho qualquer problema em assumir as minha opções políticas e em entender a gestão escolar como serviço público e como uma obrigação que eu, enquanto profissional, tenho de fazer funcionar bem a escola pública Por isso é que estou aqui, com toda a clareza, sem quaisquer dúvidas sobre o que estou a fazer e as razões por que estou a fazer” (PCE escola E).
Sistematizando, os factores apontados para a emergência de uma primeira lista candidata ao órgão de gestão surgem sempre associados a um clima de escola desfavorável, havendo a percepção de que é necessário marcar uma ruptura com a equipa anterior equipa de gestão. Um “espírito de sacrifício”, mais colado ou mais distanciado em relação ao sentido de dever, aliado a esse contexto organizacional instável, propiciam então razões para uma primeira candidatura ao órgão de gestão.
Apenas em dois dos discursos analisados encontrámos a referência claramente assumida a uma apetência profissional para o exercício do cargo, mas que, de qualquer modo, não surgem nunca, pelo menos de forma explícita, como o factor que desencadeia a candidatura.
“Antes de vir para esta escola estive 10 anos como presidente de Conselho Directivo de outra escola. Já tinha desempenhado outros cargos dentro da escola […] mas o que mais me realizou profissionalmente em termos de cargo foi de facto estar num Conselho Directivo” (PCE escola C).
2.4.3. Legitimação Para a Continuidade na Gestão: Candidaturas a Mandatos