A disciplina Didática foi por nós concebida como critério para esta pesquisa, por consideramos que os estudos e discussões que provoca constituem-se como momento importante para a formação docente, pelo fato de possibilitar ao professor em formação, situar- se diante de múltiplas modos e conceitos educacionais, refletindo sobre estes e, mais ainda, compreender a Educação Escolar com suporte em novas “janelas”, não apenas como portadora de um ensino fadado à reprodução, mas sim como um meio pelo qual podemos agir na contramão do que está posto, cultivando princípios e valores como solidariedade, coletividade, justiça, respeito, heterogeneidade, entre outros aspectos, culminando, assim, na elaboração de uma fazer pedagógico capaz de contribuir com um ensino e aprendizagem que venham se dar de modo democrático, crítico e transformador.
Essa perspectiva mostra-se, claramente, contrária àquela que compareceu durante longo período na nossa história educacional. Como dissemos no capítulo anterior, no Brasil, o ensino de Didática seguiu uma vertente puramente prescritiva e instrumental, alicerçada no ensino do método, para tornar os professores aptos para o ensino (FARIAS et al, 2014). No período em que vigorava a pedagogia tradicional, fortemente influenciada pelas ideias herbartianas, a Didática era compreendida “(...), como um conjunto de regras visando assegurar aos futuros professores as orientações necessárias ao trabalho docente. ” (VEIGA, 1992, p. 44) Com Comenius, a ideia bastante difundida era a de “ensinar a ensinar”; o que nos leva a compreender que a ideia de “ensinar a dar aulas” estava intimamente ligada ao ensino da Didática.
Assim, em decorrência desse caráter prescritivo, vários estudiosos chegaram a concluir que, costumeiramente, as questões relacionadas com o estudo da Didática se confundem com o estudo da Metodologia do ensino, ou da Pedagogia, de modo geral. Develay (1997, apud Franco 2008), chega a afirmar que Comenius, “ao instituir no século XVII a Didática Magna, estava, na verdade, instituindo uma metodologia e não uma didática”.
Essa vertente da qual temos falado, que compreende a Didática como sendo o ensino puramente de técnicas, segundo Pimenta (2008), apresenta-se apenas como “consumidora do ensino”, sem relação alguma com a prática da sala de aula. Isto repercute, fundamentalmente,
na prática docente, que, segundo Damis (1992), se configura fundamentada em receitas, muito mais conservadora do que crítica e transformadora.
Foi somente nos anos de 1980, que surgiu uma nova concepção da Didática com fundamentos nas teorias critico-reprodutivistas da Educação, visando à superação da perspectiva tecnicista. Essa nova concepção da Didática propunha a negação de muitas práticas até então validadas, afirmando, no lugar disso, o lado político e crítico da Educação. Foi o que Candau (1983) denominou de “antididática”. Nessa nova perspectiva, o foco não mais estaria em capacitar o professor com modos, instrumentos, falas ou posturas, mas sim, os olhares investigativos se voltariam para o “por que” e “para que” fazer. Diante dessa nova concepção, os alunos seriam compreendidos como sujeitos ativos do processo de ensino e aprendizagem e não mais como meros receptores.
Nesse sentido, compreender a Didática desde esse período é percebê-la como contrária à lógica do “saber-fazer”, pelo fato de relacionar-se, agora, a um entendimento de Educação ampla e politicamente situada, não sendo mais “consumidora do ensino”, como afirmou Pimenta (2008), mas sim um modo de “aquisição original do conhecimento sobre o ensino” (PIMENTA, p. 611, 2008). Por isso, afirma-se que a Didática, com base nas compreensões críticas da Educação, debruça-se sobre o ensino e suas problemáticas, não mais se restringindo ao repasse de receitas. Seu objeto de estudo passa a ser o ensino-aprendizagem (PIMENTA, 2012). É importante salientar também que, nessa nova perspectiva, o professor não mais é técnico executor, além do que a Didática passa a ter uma dimensão mais prática (PIMENTA, 2000), estando aliada aos processos e interações que acontecem em sala de aula, para desenvolver pesquisas que se dediquem ao estudo das necessidades e dilemas referentes à prática pedagógica e social, por exemplo.
Pimenta (2008) faz notórias duas funções para a Didática. São elas: “(...), tomar o ensino como prática social e compreender seu funcionamento como tal, sua função social, suas implicações estruturais. Em segundo lugar, realizar uma ação auto reflexiva de olhar a si mesma como componente do fenômeno que estuda. ”. Placco (2008), por sua vez, pontua que a intencionalidade da Didática é “colocar o outro em processo de aprendizagem. ” Nessa nova configuração, a disciplina de Didática
[...], promove o trabalho comum de professores e especialistas. Busca formas para aumentar a permanência das crianças na escola. Discute a questão do currículo em sua interação com a população, rompendo com uma prática profissional individualista. (PIMENTA, 2012, p. 126).
Logo, são inegáveis as contribuições que esta disciplina, como componente curricular obrigatório para as licenciaturas, pode trazer para os professores em formação. Abre espaço para ricos questionamentos, reflexões e aproximações com a sala de aula, que por vezes, ansiosamente, desejamos habitar. É assim, portanto, que percebemos suas contribuições para o preparo do professor para “a atividade sistemática de ensinar em uma dada situação histórico- social. ” (PIMENTA, 2012). Acreditamos, ainda, que sua significância se mostra quando suscita perguntas aos estudantes, futuros professores, no sentido de que eles possam se questionar no que acreditam ser a Educação, quais suas possibilidades e finalidades, fornecendo os subsídios necessários para que possam trabalhar de modo crítico e autônomo. Em um sentido mais amplo, poderão indagar-se sobre que sociedade intentam contribuir para formar.
É, pois, partindo dessa perspectiva, que para nós, a disciplina de Didática, estaria completamente imbricada com as noções que os professores têm de mundo, sociedade, homem, escola, ensino e aprendizagem entre outros elementos. Por isso, podemos afirmar que concordamos com Veiga (1992) quando ela expõe o seguinte,
[...], a Didática tem uma importante contribuição a dar em função de clarificar o papel político da educação, da escola e, mais especificamente, do ensino. A partir daí a Didática vem sendo colocada em questão. Esse questionamento tem levado os professores à revisão de seus pressupostos e à busca de sua reconstrução, tendo em vista uma concepção crítica da educação. Assim, o enfoque da Didática, de acordo com os fundamentos da Pedagogia Crítica, deverá trabalhar no sentido de ir além dos métodos e técnicas, procurando associar escola-sociedade, teoria-prática, bem como desenvolver uma alternativa que supere a relação dicotômica entre a pedagogia e a política, dotadas de especificidade própria, porem inseparáveis por se constituírem em modalidades específicas de uma prática, a prática social. (p. 67).
Por isso, julgamos importante que os alunos do curso de Pedagogia da FACED/UFC, tenham conhecimento sólido sobre os percursos educacionais historicamente constituidos, podendo, mediante uma visão ampliada das questões pedagógico-didáticas, desenvolver ações coerentes com o contexto da sala de aula na qual atuam, pensando criticamente sobre a realidade, ambicionando transformá-la (práxis), conscientes dos aspectos políticos e sociais relacionados à Educação.
Assim, como inicialmente tornamos evidente, estabelecemos como um dos critérios que os alunos participantes já tivessem cursado a disciplina Didática, em virtude das suas ricas possibilidades formativas. Nesse breve histórico que descrevemos, partindo do enfoque prescritivo para o crítico, questionador e reflexivo, que estabelece diálogos entre a formação docente inicial e a prática social, acreditamos ter tornado evidente não só o nosso encanto por
esse momento formativo, bem como por suas possibilidades para a constituição de uma formação docente mais próxima da escola, de suas inquietudes e anseios. Mobilizada no sentido de provocar mudanças e transformações, pois, não se pode conceber, tampouco validar, uma formação que ainda se dê nos moldes daqueles dantes relatados, em que o cerne da questão residia em aprender a “dar aulas”.
Freitas (2003) chama a nossa atenção para esse ponto, quando assegura que a disciplina Didática não mais pode estar associada ao ensino do “o que e como ensinar”, mas, em vez disso, deve se preocupar com os fins da Educação e com as questões histórico-sociais que lhes são intrínsecas. Partindo desse ponto, a autora entende que poderíamos “(...) trazer à tona e recuperar, no âmbito das políticas educacionais, as concepções mais avançadas sobre a formação de professores e seu papel na condução das transformações necessárias à escola, ao ensino, à educação e à sociedade. ” (P. 1117).
Lembramos o que afirmamos em outro momento: o ensino envolve-se com questões e problemáticas muito mais complexas, pois vincula-se à sociedade. Por ser dinâmica e mutável, mas por “carregar” e reproduzir conceitos e ideologias, a sociedade e suas problemáticas, suas demandas e necessidades, quando relacionadas à instituição escolar, carecem de um profissional que dê conta de “atravessar as paredes da instituição para analisar todo tipo de interesses subjacentes à educação, à realidade social, com o objetivo concreto de obter a emancipação das pessoas. ” (IMBERNÓN, 2011, p. 42).
Para finalizar, ressaltamos que, ao eleger a disciplina Didática como partícipe de um dos critérios, não estamos a desconsiderar todas as outras que compõem o currículo do curso de Pedagogia. Ao contrário, o que buscamos ao assim procedermos é, na verdade, contribuir, mesmo que timidamente, com a desmistificação dessa disciplina, ainda hoje considerada pelos alunos como um momento no qual se aprenderá a “ministrar aulas”, encontrando, desse modo, dificuldades para que uma atitude mais crítica e transformadora se dê, efetivamente.