Nosso primeiro passo foi elaborar um requerimento (APÊNDICE C) para a Secretaria Municipal de Educação solicitando autorização para realizar a pesquisa na pré-escola. Do mesmo modo, solicitamos autorização da gestora da pré-escola, mediante requerimento (APÊNDICE D) e apresentação da autorização da SEMED. Após receber autorização da Secretaria de Educação e da gestora da pré-escola, passamos a convidar as professoras, uma a uma, para a pesquisa, nos apresentando, explicando os objetivos, como seria sua participação e a metodologia da pesquisa, lendo juntamente com elas o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (APÊNDICE E).
No processo de conquista, nos apresentamos como estudante de mestrado da Universidade Federal do Ceará, embora tivéssemos tomado posse recentemente em um concurso público na prefeitura da cidade, cuja lotação deu-se para compor a equipe técnica da Educação Infantil da Secretaria de Educação. Escolhemos não informar de início nosso vínculo com a SEMED no intuito de não causar constrangimento às professoras no sentido de aceitarem participar, mesmo não desejando, apenas por questões hierárquicas. Além disso, num primeiro momento, a pesquisadora não teria qualquer tipo de vínculo via SEMED com as professoras da pesquisa, no sentido de formações ou acompanhamento pedagógico, fato que, para nós, garantia certo distanciamento.
Preferimos tentar conquistar para a pesquisa o maior número de professoras do turno vespertino, já que 2 do turno matutino haviam participado da pesquisa exploratória no ano anterior. Caso conseguíssemos 5 professoras à tarde, seria necessário convidar apenas uma professora da manhã, o que tornaria todo o processo, especialmente dos grupos focais, mais rápido.
No entanto, no turno vespertino, duas professoras não concordaram em participar. Uma delas pediu o TCLE para ler em casa com calma e que no dia seguinte daria a resposta. Ao retornar para saber sua resposta, a professora disse que não gostaria de participar da pesquisa, porque, em geral, as pesquisas atrapalham a rotina da sala e as crianças ficam mal comportadas. A segunda professora, diga-se, tratou-nos em tom ríspido. Ao cumprimentá-la, não respondeu, nem manteve qualquer contato visual. Ao lançar o convite, respondeu: “E o jeito?”16. Explicamos que, na verdade, a escolha ou não de participar era tão somente dela e que, se não desejasse receber a pesquisadora em sua sala, respeitaríamos isso. Prestes a me retirar, agradeci sua atenção e ela justificou que não gosta “desses estágios” porque “as crianças ficam querendo aparecer” e “não tem quem as segure”. Disse, ainda, que as professoras perdem o controle da turma quando vêm “esses estagiários”, já que tem umas duas ou três crianças muito “danadas”.
Pudemos sentir, desde o momento do convite, a resistência de algumas professoras e de como para elas é difícil ter pessoas estranhas em suas salas – o
16 E o jeito?” é uma expressão comumente usada em nossa região que corresponde a “Tenho outra
saída?”. É empregada quando a pessoa não tem alternativa diante de uma circunstância ou é obrigada a submeter-se a alguma situação.
que é natural, pois não há como a dinâmica das atividades permanecer a mesma. Nossa experiência e contato com professoras de creches e pré-escolas ao longo da formação em pedagogia e posteriormente no trabalho, nos mostra que há uma preocupação muito grande em manter as crianças “comportadas”, isto é, sentadas e caladas, especialmente quando recebem “visitas”. As professoras se sentem inseguras se as crianças estão em pé, correndo, brincando ou conversando. Para elas, isso pode por em xeque o seu “domínio de sala”.
Uma das professoras que recusou participar da pesquisa, tempos depois, ao constatar nosso vínculo com a SEMED chamou-nos à parte e disse que se quiséssemos tentar realizar a pesquisa em sua sala, que ficássemos à vontade. Esse fato reafirmou para nós o quanto a hierarquia dentro da rede de ensino local poderia influenciar nos resultados da pesquisa. Consideramos que não informar tal vínculo na apresentação, foi uma decisão acertada.
Apesar das duas recusas, fomos bem recebidas pelas outras três professoras. Passamos, então, a convidar mais três professoras da manhã, de modo que completássemos 3 professoras de 1º período e 3 de 2º período, conforme elegemos nos critérios descritos nos procedimentos metodológicos.
As professoras que participaram da pesquisa, portanto, ficaram cientes dos objetivos e de quantos encontros teríamos de forma coletiva e individual. Concordaram também em nos receber por um período de 4 a 5 dias em suas turmas para observações diárias. Algumas delas, inclusive, mencionaram o fato de colegas às vezes não concordarem em auxiliar estagiários e pesquisadores. Segundo elas, as pesquisas são bem vindas, especialmente quando levam novidades e auxílio aos professores. Lembraram também que todas elas já precisaram realizar estágio e sabem as dificuldades encontradas ao longo do processo.
6 “O CRAVO TEVE UM DESMAIO E A ROSA PÔS-SE A CHORAR!”: AS INTERAÇÕES DAS PROFESSORAS COM AS CRIANÇAS NA PRÉ-ESCOLA CIRANDA DAS FLORES
“[...] a nossa função diante das crianças pequenas é essa: entender as necessidades delas e atendê-
las, isto é, ser sensível e solícita” (Heloysa Dantas) O principal objetivo dessa
pesquisa consiste em compreender as interações das professoras com as crianças de uma pré-escola do município de Roseiral- MA. Como temos visto ao longo do texto, existe uma estreita relação entre as interações que estabelecemos com as pessoas à nossa volta e o nosso desenvolvimento. Assim, pretendemos ver
como ocorre esta interação entre as professoras e as crianças da pré-escola “Ciranda das Flores” 17.
É no âmbito das interações que a criança estabelece com o Outro, que aspectos importantes de sua personalidade, auto-estima e identidade vão se erigindo, num complexo processo de avanços e rupturas. Na pré-escola, a professora é um “Outro” importante na constituição do Eu infantil.
O papel do outro na construção da pessoa é indiscutível. O indivíduo se constitui enquanto tal, principalmente, através das interações que estabelece com o outro. Transpondo essa reflexão para a instituição de Educação Infantil, pode-se inferir que as interações da criança com o professor e com as outras crianças tornam-se condição para a construção não só de conhecimentos, mas da sua personalidade como um todo. Assim, cabe ao professor não apenas permitir, mas também promover situações de interação no cotidiano das instituições. (COSTA, 2011, p. 49).
Tomamos como fundamento de nossas análises o principal objetivo da Educação Infantil que é oferecida em creches e pré-escolas: o desenvolvimento
17 O nome da pré-escola é fictício, como um modo de preservar a identidade dos sujeitos que lá
trabalham. A escolha deste nome deveu-se por conta dos nomes fictícios atribuídos às professoras, nomes de flores.
integral da criança. Desenvolver-se integralmente envolve as dimensões cognitivas, sociais, físicas e afetivas, num todo indissociável: a pessoa.