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Quando estabelecemos como objetivo desta pesquisa compreender as crenças dos alunos do curso de Pedagogia da FACED/UFC sobre o bom professor, fazendo as relações possíveis com a formação inicial docente, inicialmente, optamos como método para análise dos dados, pela Análise do Discurso75 (BAKHTIN, 2016; MAINGUENEAU, 2015). Quando de posse dos dados, entretanto, e iniciando o processo de análise e compreensão das falas dos sujeitos participantes para a elaboração das categorias, percebemos que o trabalho que estávamos realizando, não se restringia apenas à Análise do Discurso, mas também, recorrentemente, se assemelhava ao que se faz quando se opta pela Análise de Conteúdo. Com facilidade, esses dois métodos são percebidos como semelhantes, porém, se diferenciam em alguns aspectos. Por exemplo, a Análise do Discurso associa-se apenas a pesquisas qualitativas, enquanto a Análise de Conteúdo transita bem entre pesquisas quantitativas e qualitativas.

O que, no entanto, esses dois métodos parecem ter em comum é que, “ao tomar como objeto o discurso, partilham de ‘uma rejeição da noção realista de que a linguagem é simplesmente um meio neutro de refletir, ou descrever o mundo, e uma convicção da importância central do discurso na construção da vida social. ’” (GIL, 2002, p. 244 apud CAREGNATO E MUTTI, 2006, p. 682). Após essa explicitação, dissertamos também sobre como foi possível trabalhar com os dois métodos de modo conjunto ou, como pode ser passível, para o leitor, percebê-los mediante o trabalho que realizamos com as entrevistas, no capítulo que segue. Comecemos, assim, pela Análise do Discurso.

75 Lembremos que no texto defendido na qualificação do projeto de dissertação havíamos exibido como método

de análise e compreensão dos dados, apenas a Análise do Discurso; contudo, durante a pesquisa, e no confronto com o que as falas nos remetiam, foi possível agregar os dois métodos aos quais damos destaque neste tópico.

Bom professor Crenças Formação Inicial Práticas de Ensino Didática Saberes Docentes

Na França, em meados dos anos de 1960, o Estruturalismo, tão difundido por Claude Levi-Strauss, teve seus momentos de prestígio. Na busca por conferir cientificidade aos estudos antropológicos, Strauss apropriou-se do estruturalismo como método, para atribuir às Ciências Humanas, em especial ao campo da Antropologia, rigor e caráter científico. Grosso modo, podemos dizer que o Estruturalismo é a busca, de colocar em evidência as estruturas dos mais variados aspectos de uma sociedade, estas sendo compreendidas como produtoras de significado. Concomitante ao desenvolvimento e ascensão do Estruturalismo, temos o auge também da Análise do Discurso (AD), em meados de 1969 (MAINGUENEAU, 2015).

Inicialmente, a Análise do Discurso surgiu como um instrumento político capaz de intervir no que não era evidente nos textos, desmascarando as suas estratégias de manipulações ocultas. Minayo (2010, p. 301) ao fazer exposição das modalidades de análise em uso frequente nas pesquisas qualitativas, reporta-se à Análise do Discurso como um método “[...] concebido para trabalhar com a fala e seu contexto, sendo utilizada como alternativa às práticas de análise de conteúdos tradicionais. ” Essa autora também traz as contribuições do filósofo francês Michel Pêcheux, tendo sido este o criador deste método. Faz-se notório destacar o fato de que

O objetivo básico da Análise do Discurso, segundo Pêcheux, é realizar uma reflexão geral sobre as condições de produção e apreensão da significação de textos produzidos nos mais diferentes campos: das relações primárias, religioso, filosófico, jurídico e sociopolítico, visando a compreender o modo de funcionamento, os princípios de organização e as formas de produção de seus sentidos. Os pressupostos básicos da teoria de análise do discurso podem resumir-se em dois princípios, segundo Pêcheux: (1) o sentido de uma palavra, de uma expressão ou de uma proposição não existe em si mesmo. Ao contrário, expressa posições ideológicas em jogo no processo sócio histórico no qual as formas de relação são produzidas; (2) toda formação discursiva dissimula, pela pretensão de transparência, sua dependência das formas ideológicas. (MINAYO, 2010, p. 319).

Por considerar texto e contexto indissociáveis, rejeita a óptica meramente descritiva. Desse modo, percebe os sujeitos como seres históricos, depreendendo que a fala de cada sujeito estudado faz parte de um contexto histórico. Assim, é mostrado como um meio capaz de estudar os significados sociais, as ideologias e os sentidos embutidos nas falas e textos (corpus ou corpora)76 dos sujeitos histórico-sociais, percebendo a impossibilidade de dar caráter de neutralidade a essas falas e produções escritas (MAINGUENEAU, 2015).

76 Para Maingueneau (2015), os textos que constituem o objeto de análise de uma pesquisa são o corpus, enquanto que muitos corpus compõem o corpora (plural de corpus - letra).

Para Flick (2009), as contribuições deste método residem no fato que ele evidencia realidades sociais por meio dos discursos. Nesse sentido, analisar e compreender o discurso dos entrevistados passa a ser ação percebida por via de um enfoque transdisciplinar e propõem-se realizar não apenas a leitura de textos, mas, na mesma medida, de contextos.

Caregnato e Mutti (2006) nos ajudam a expor um pouco mais como esse método nos foi benéfico para a compreensão das falas dos alunos participantes da pesquisa. Em algumas falas, não havia um apontamento explicito. Daí, precisamos, em alguns momentos, buscar um sentido. O que poderia ser percebido ali e que não havia sido dito com palavras tão claras e concisas? De acordo com as autoras, nesse momento, é preciso reconhecer que o “enunciado não diz tudo, devendo o analista buscar os efeitos dos sentidos e, para isso, precisa sair do enunciado e chegar ao enunciável através da interpretação. ” (CAREGNATO E MUTTI, 2006, p. 681). Outro ponto de enorme importância da AD para esta pesquisa foi que “Partindo do princípio que a AD trabalha com o sentido, sendo o discurso heterogêneo marcado pela história e ideologia, a AD entende que não irá descobrir nada novo, apenas fará uma nova interpretação ou uma re-leitura (...). ” (CAREGNATO E MUTTI, 2006, p. 681). Pois, como será passível de verificação no capitulo que segue, as crenças dos alunos se reportam a muitos aspectos discutidos por diversos autores e achados de outras pesquisas. Diferem, em grande maioria, dos contextos, dos modos de perceber práticas, e ações. Essas foram, portanto, preciosas contribuições da Análise do Discurso para esta pesquisa.

No tocante à Análise de Conteúdo, Caregnato e Mutti (2006) destacam que tal método surgiu nos Estados Unidos, no início do século XX. Seu uso estava relacionado à análise de material jornalístico. O período em que mais ganhou impulso e destaque foi de 1940 a 1950, “quando os cientistas começaram a se interessar pelos símbolos políticos” (CAREGNATO E MUTTI, 2006, p. 682). Bardin (2016) tece importantes contribuições para a compreensão do método, agora, em evidência, além do que, nos permite inferir como se deu a geração das categorias descritas no capítulo 6. Estas foram surgindo desde a recorrência da temática suscitada por via das falas dos alunos entrevistados. De acordo com Bardin (2016), “O tema é geralmente utilizado como unidade de registro para estudar motivações de opiniões, de atitudes, de valores, de crenças, de tendências etc.” (P. 135). Foi, então, analisando as temáticas que foram surgindo das falas, discursos, dos sujeitos entrevistados, que pôde ser feita a codificação dos dados, ou seja, ação que “ (...) corresponde a uma transformação – efetuada segundo regras precisas – dos dados brutos do texto, transformação esta que, por recorte, agregação e enumeração, permite atingir uma representação do conteúdo (...). ” (P. 133).

A escolha por termos agregado, como opção metodológica desta pesquisa, esses dois métodos, explica-se, também, devido ao fato de que algumas falas, por se mostrarem mais autoexplicativas, diretas, permitiram-nos fazer a Análise de Conteúdo, sem, necessariamente, buscar sentidos “ocultos”. Certamente que toda fala, todo discurso, é marcada por uma ideologia (PÊCHEUX, 2002), algumas, sendo passíveis de constatação sem a necessidade de investigação aprofundada. Então, durante as análises, foi-nos possível fazer relações e inferências com teorias já formuladas, na busca de compreender melhor as crenças.

Ante tais características, asseguramos que foi um ato de ousadia termos nos valido de ações para análise e compreensão dos dados que permeiam esses dois métodos. De fato, entretanto, ao findarmos a análise, sabendo que não esgotamos as suas possibilidades, mas que assim o fizemos pois precisávamos, como afirma Sadalla (1998, p. 103), “estacionar” para podermos “experimentar o gosto das descobertas”, reafirmamos a validade de termos utilizando princípios desses dois métodos. Salientamos, ainda, que se constituem como metodologias de profunda complexidade e que buscamos, em seus pressupostos, contribuições para melhor explicitação e organização dos dados. Os dois métodos, ao concederem lugar privilegiado à linguagem, em suas mais variadas expressões e, mais que isso, por dedicar-se à busca do significado, por vezes oculto, no que é verbalizado, forneceram subsídio metodológico imprescindível para a compreensão das crenças dos alunos do curso de Pedagogia da FACED/UFC acerca do bom professor; crenças essas que aparecem descritas no capítulo que segue.

6 LUZ ALÉM DAS CORTINAS: AS CRENÇAS DE ALUNOS DO CURSO DE