Pilocarpina é um modelo de epilepsia de lobo temporal, gerando crises tipicamente límbicas que recrutam estruturas de lobo temporal como amígdala, hipocampo e córtex entorrinal. Raramente a atividade epileptiforme neste modelo se propaga para estruturas extra-temporais ou se generalizam (Sanabria & Cavalheiro 2000).
A análise dos vídeos das crises corrobora essa idéia, uma vez que os animais apresentam apenas uma fase de comportamentos: aqueles estereotipados típicos de crises límbicas e nunca comportamentos generalizados como MG ou CTCG.
Essa fase única da expressão motora da crise se reflete nos parâmetros analisados, a começar pelas curvas de energia e autocorrelação, que mostram uma única deflexão positiva significativa após o início eletrográfico. No espectro de potência, os comportamentos convulsivos também estão associados com um único padrão uniforme de elevação das amplitudes no espectro de potência de forma generalizada das bandas alfa, beta e gama. A explicação aqui é similar à da segunda fase dos parâmetros no modelo de PTZ: o espalhamento por todo espectro de potência é devido, principalmente, ao formato de onda da espícula, que pode ser modelada por uma função impulso, cuja transformada de Fourier abrange todo o espectro.
Paralelamente, há uma atividade eletrodecremental que precede o início eletrográfico, está refletida por valores significativamente inferiores de energia e de potência em freqüência, nas análises lineares no domínio do tempo e da freqüência, mas não é acompanhada de nenhum comportamento epiléptico distinguível. Há de se considerar o significado fisiológico disso, confrontando o caráter preditor do achado com possibilidade de que ele já representa a crise. Mais abaixo faremos essa discussão.
Assim como no experimento anterior, a curva de correlação cruzada entre córtices apresenta uma deflexão positiva após o início da crise, sempre com atraso zero. Em se tratando de um modelo cuja atividade epileptiforme se restringe preferencialmente a estruturas de lobo temporal, esse padrão pode ser explicado pelo envolvimento bilateral e hipersincrônico de circuitos epileptogênicos profundos (Imamura et al. 2001b), provavelmente com a participação de amígdala e hipocampo (Bertram et al. 1998), cuja atividade é transmitida para os níveis corticais e de estruturas prosencefálicas.
Ainda que sem significância estatística, o formato de onda da dimensão fractal é intrigante. Primeiramente, o valor do parâmetro aumenta, ao invés de diminuir, o que era de se esperar para um sistema cujos osciladores se acoplam, perdendo graus de liberdade. Possivelmente, assim como sugerido no experimento anterior, é necessário que o acoplamento de osciladores neurais seja mais extenso e abrangente, como durante a generalização da atividade epileptiforme, inexistente nas crises desse modelo, para que isso seja refletido por uma diminuição significativa da dimensão fractal medida a partir do EEG em nível cortical. O aumento poderia, de outra forma, ser explicado por uma desconexão da atividade em nível cortical com os níveis mais profundos, já envolvidos no processo disfuncional da ictogênese, contando, portanto, com maior nível de independência de seu funcionamento. O segundo aspecto interessante da curva de dimensão fractal é a deflexão ocorrendo antes do início eletrográfico. Poder-se-ia sugerir que tal indica alguma relação com o período eletrodecremental, por estarem ligados temporalmente. Entretanto, se assim fosse, essa deflexão deveria se extinguir logo após o início eletrográfico, momento no qual a atividade ganha energia e o período eletrodecremental também se extingue. Outra possível explicação é que o processo de
desconexão córtex – níveis profundos, mecanismo sugerido para explicar o padrão da curva de dimensão fractal, ocorra, de fato, antes do início eletrográfico.
A similaridade dinâmica se altera de forma sutil, mas significativamente, logo após o início eletrográfico, refletindo a neurodinâmica reconhecidamente diferenciada do período ictal. A sutileza da deflexão pode ser explicada pelo mascaramento oriundo da escolha do trecho basal com atividade inter-ictal bastante intensa, repleto de espículas isoladas. A segunda deflexão significativa, mais tardia, não se correlaciona, a priori, com qualquer aspecto mais óbvio do EEG. É possível que esta alteração no padrão do parâmetro reflita algum processo endógeno de contenção da crise cuja dinâmica seria bastante diferente dos períodos basais.
Quanto à capacidade de predição e detecção dos parâmetros observados, algumas conclusões podem ser feitas. O aumento dos valores de energia e de correlação aparece em todas as crises de todos os ratos, sugerindo um possível detector adequado. Por outro lado, tal padrão não está bi-univocamente ligado ao surgimento das crises, sendo inerente também a processos fisiológicos como o sono ou de atividade inter-ictal mais intensa, ainda que não epileptiforme (dados não mostrados). Isso acarretaria, caso o parâmetro fosse usado como alarme, em um número elevado de falsos positivos.
A possível predição dada pelas deflexões dos parâmetros correlacionados com o período eletrodecremental deve ser colocada em perspectiva. Primeiramente porque o fenômeno não ocorreu para todos os ratos estudados, não servindo como um preditor geral. Segundo, a capacidade preditiva tem como referência o instante de tempo em que começam a aparecer, de forma sustentada, espículas no EEG (início eletrográfico). Ainda que essa deflexão seja anterior a este marcador consagrado para delimitar o início da crise, nesse instante de tempo o processo de ictogênese pode já ter se desenvolvido a
tal ponto (Babb et al. 1987) a fazer com que o alarme perca o seu objetivo: a tomada de contra-medidas eficazes em proteger o encéfalo e o indivíduo do evento epiléptico.
As deflexões anteriores ao início eletrográfico das curvas de dimensão fractal, apesar da tendência, nunca demonstraram significância estatística.
A similaridade dinâmica só teve deflexões significativas durante os períodos ictais, não sendo, portanto capaz de predizer crises, ao menos nesse modelo com a dinâmica neural representada em níveis corticais por eletrodos superficiais.
Mais ainda, há deflexões durante períodos inter-ictais, provavelmente correlacionados com episódios de sono com neurodinâmica bastante distinta.
Os substratos neurais subjacentes às crises límbicas têm sido largamente explorados e vários deles foram identificados. Amígdala, hipocampo e córtex entorrinal são núcleos importantes (Avoli et al. 2002; McCormick & Contreras 2001), recebendo influência sincronizadora do tálamo. Portanto, há, na verdade, diversas redes reverberantes no sistema límbico que se acoplam e se sincronizam para o desenvolvimento da crise. Uma possível explicação para a incapacidade de predição de crises das metodologias aqui usadas pode advir exatamente da localização anatômica das crises límbicas em modelos animais. Apesar de abrangerem estruturas de prosencéfalo, a atividade ictogênica do período pré-ictal parece não estar representada no córtex parietal, local de posicionamento dos eletrodos neste experimento. Portanto, torna-se importante investigar o modelo, reavaliando as técnicas, a partir de registros profundos, com eletrodos localizados no sistema límbico.