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Para Streck (2006), a educação popular tem como uma de suas marcas acompanhar o movimento de classes, grupos e setores da sociedade que entendem que o seu lugar na história não corresponde aos níveis de dignidade a que teriam direito. Isso pode significar a reivindicação de espaço na estrutura existente, mas pode também representar o engajamento na luta por rupturas e pela busca de novas possibilidades de organização da vida comum. O elemento definidor, neste caso, não é tanto o projeto final, mas a disponibilidade para sair do lugar, o mover-se em direção a um horizonte que apenas deixa entrever sinais do que Paulo Freire em Pedagogia do Oprimido (1987) chamou de inéditos viáveis. Quer definamos a educação popular com base nos objetivos, no método, no conteúdo, no contexto ou nos sujeitos, sempre haverá dúvidas sobre o que ela é de fato.

A história da educação popular geralmente é contada a partir da década de 1960, que no Brasil coincide com uma forte mobilização popular na qual se encontrava inserida a educação, em especial a alfabetização de adultos. Para o

9 Disponível em: http://www.spm.gov.br/4a-conferencia-nacional-de-politicas-para-as-mulheres/4a- cnpm-texto-base-versao-integral.pdf.

mesmo autor, a referência mais marcante desse movimento pedagógico-político- cultural é o projeto de Paulo Freire em Angicos, no Rio Grande do Norte, em 1963.

Dentre os movimentos implantados no Nordeste, todos no início da década de 1960, podem ser citados o Movimento de Cultura Popular (MCP), criado na Prefeitura de Recife; a campanha “De pé no chão também se aprende a ler”, instituída pela Prefeitura de Natal (RN); e o Movimento de Educação de Base (MEB), criado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil em convênio com o governo federal.

Para Carmen da Silva (2013), educadora e feminista histórica do SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia10 as organizações e movimentos feministas, em sua grande maioria, têm como parte substancial da sua ação cotidiana o trabalho educativo. Isso indica que educação é um elemento constitutivo fundamental da auto-organização das mulheres, mas também que as organizações que impulsionam o feminismo veem na práxis educativa uma forma de relação com as mulheres que ainda não estão participando do movimento, com outros movimentos sociais e com a sociedade como um todo.

Esta organização da sociedade civil, autônoma, sem fins lucrativos, fundada em 1981, com sede na cidade do Recife (PE), na região Nordeste do Brasil, é emblemática na formação e organização do movimento feminista brasileiro. Tem como proposta contribuir para a democratização da sociedade brasileira por meio da promoção da igualdade de gênero com justiça socioambiental. Sua ação tem como fundamento a ideia de que os movimentos de mulheres, como movimentos sociais organizados que lutam pela transformação social, são sujeitos políticos que provocam mudanças nas condições de vida das mulheres em geral. A luta contra a pobreza, o racismo e a homofobia são dimensões fundamentais do feminismo da transformação social para o enfrentamento do sistema capitalista e patriarcal, produtor de desigualdades e sofrimento humano.

Para a autora, o movimento feminista é um movimento social de mulheres por sua liberdade e autonomia e pela libertação da humanidade da opressão e exploração (SILVA, 2013). Neste sentido, o feminismo tem um caráter civilizatório, pois questiona os princípios estruturantes deste modo de civilização em curso no

atual estágio da sociedade. É um movimento composto por diferentes tipos de organização – grupos populares locais, organizações profissionais da sociedade civil de caráter auto gestionário (também chamadas ONGs), grupos acadêmicos, grupos de mulheres de movimentos sociais, sindicatos e partidos - e redes nacionais voltadas para ação política que são capazes de congregar a diversidade de grupos existentes e que admitem também inserção individual.

A resistência cotidiana das mulheres às formas de dominação às quais estão submetidas é o manancial de onde o movimento feminista retira sua força.

O feminismo é um apoio à dimensão individual da emancipação, a auto constituição como sujeito de sua própria vida, e, ao mesmo tempo, um instrumento para o enfrentamento coletivo da opressão e exploração das mulheres (SILVA, 2013, p.32).

Silva (2013) avança sua discussão neste texto, afirmando que o sentido do trabalho educativo no movimento feminista é contribuir para a formação das mulheres para ação política feminista transformadora. Esta compreensão inclui a aquisição de conhecimentos já sistematizados e a perspectiva de fortalecimento do sujeito individual, e vai um pouco além: exige a geração de condições de fortalecimento do feminismo como sujeito político coletivo.

Como a autora, vemos que a partir do diálogo entre a educação realizada por grupos de mulheres feministas e a concepção pedagógica de educação popular freireana, desenvolve-se um conjunto de elementos que podem ser sistematizados para uma perspectiva educacional dialógica de fato.

Se tomarmos alguns elementos que os grupos de mulheres no Brasil têm tentado pôr em prática: a dialogicidade e o ato político-educativo de ouvir as mulheres, em uma escuta sensível e solidária, como um dos fundamentos da construção do conhecimento na prática educativa a partir das experiências cotidianas; a visão de mulheres, como sujeitos do conhecimento e da ação política transformadora de suas vidas e do mundo; o necessário impulso, para isso, da auto- organização das mulheres como movimento feminista autônomo, ou seja, constituído por mulheres e em torno da causa das mulheres; a perspectiva crítica permanente frente ao mundo, as teorias que o explicam e até mesmo frente a este próprio movimento social (SILVA, 2013).

Na compreensão desta autora, estas premissas podem nortear a práxis educacional do movimento feminista. No interior desta práxis, estes elementos contribuem para pensar a formação como processo permanente de reflexão sobre sua própria experiência cotidiana e sobre a ação feminista coletiva.

Ao vermos este sentido na ação educativa do movimento social feminista – formar para ação política transformadora de si mesmas e do mundo – reafirmamos que, entre outros elementos, esta concepção de transformação social enuncia que as mulheres devem ser ouvidas no ato educativo sobre sua experiência de ser mulher e sobre sua interpretação sobre “as mulheres”. Com isso queremos contribuir para a formação da pessoa, em seu processo de crescimento próprio, e para fortalecer o pertencimento ao movimento e a sua ação política (SILVA, 2013, p.13).

Esta ação coletiva tem acontecido em vários espaços: nas ruas, nas marchas, nos meios de comunicação tradicionais e na internet. Segundo o blog do movimento feminista que se intitula Marcha Mundial das Mulheres11, em 2012, o

Ciberativismo tem se mostrado como uma das mais importantes e dinâmicas ferramentas de mobilização do novo século, realizando o conceito do it yourself (faça você mesmo/a). A internet desenvolveu um meio de comunicação de difícil controle, através da qual a militância divulga suas propagandas ideológicas e políticas.

Sem a internet, segundo o site, e a interatividade democrática que a internet permite, seriam muito mais difíceis as reflexões acerca da sociedade, as ações de repúdio e as mobilizações que têm tomado cada vez mais amplitude, como A Marcha das Vadias e a Marcha das Margaridas. Nessas mobilizações, a internet tem papel fundamental.

A internet, segundo a mesma postagem da Marcha, a internet auxilia no combate ao machismo da mídia, explicitada em propagandas de televisão, sites e programas:

Nada passa batido, pois vários blogs e páginas feministas produzem e propagam um “contra conteúdo”, ou um contraponto fundamental às ações machistas dos velhos conteúdos midiáticos. Toda essa movimentação só é possível a partir da internet como um espaço livre de ideias, contudo, esse espaço está ameaçado no Brasil.12

11 Endereço eletrônico: https://marchamulheres.wordpress.com/2012/11/19/feminismo-2-0-a- contribuicao-do-ciberativismo-para-o-movimento-de-mulheres-e-a-importancia-do-marco-civil-da- internet/). Acessado em: 13 fev. 2016.

12 Disponível em: https://marchamulheres.wordpress.com/2012/11/19/feminismo-2-0-a-contribuicao- do-ciberativismo-para-o-movimento-de-mulheres-e-a-importancia-do-marco-civil-da-internet/).

Dessa forma temos claro que o ciberespaço deu um novo impulso aos movimentos de mulheres, e o sentimento de pertencimento dessa ferramenta tem cada vez se tornado expressivo e definitivo entre as mulheres no presente século.

CAPÍTULO 2.2 A TRAMA DE FIOS TEÓRICOS E OLHARES PARA