• No results found

ISIDOR MACABICH: APROXIMACIÓ BIOGRÀFICA I OBRA

1. INTRODUCCIÓ

1.2. ISIDOR MACABICH: APROXIMACIÓ BIOGRÀFICA I OBRA

É frequente ouvirmos no terreno, quando falamos com os responsáveis pela organização da Festa, a frase “Quando acaba um ano começamos logo a preparar o seguinte”. Como o Armando tanta vezes nos repetiu, é um trabalho esgotante, cansativo e para o qual não há preparação possível. Os tempos mudam e muda-se as suas vontades. Preparar as Festas de Nossa Senhora do Rosário de Tróia nos dias que correm não tem muito a ver com o seu passado recente. A nova propriedade do terreno, com contornos semelhantes aos ordenados pela Torralta, exige o cumprimento de uma série de requisitos para que o festejo aconteça, entendido por aqueles que o fazem como uma dificultação do processo. Lembramos o nosso primeiro ano de trabalho de terreno, 2006, onde uma, entre as muitas pessoas com quem conversámos, nos dizia com algum pesar “filha, hoje tudo é muito difícil, fazer isto é com uma grande dificuldade que fazemos” apontando para a pulseira plástica vermelha que tinha no braço.

Armando Oliveira, descendente de varinos88 do Bairro Santos Nicolau, é o actual Presidente da Comissão de Festas. Desde o seu primeiro ano enquanto tesoureiro, até ao actual, enquanto Presidente, já se passaram vinte e um anos de organização. É um homem relativamente novo, que como diz, começou nisto muito cedo. Educado e de uma extrema amabilidade move-se no tecido social como poucas pessoas fazem. Daquilo que conhecemos sobre a Festa facilmente percebemos o porquê de ser, consensualmente, o seu organizador. O Armando personifica a ponte equilibrada entre dois mundos. Pertence à comunidade piscatória e frequenta a festa desde que se entende89, muito embora não seja pescador de profissão a sua origem familiar e conhecimento da prática legitimam-no, por outro, é letrado, comunicativo e a sua maneira de ser e de estar conferem-lhe uma capacidade inata para o apaziguamento e resolução de conflitos. Outro dos factores que abona a seu favor é o facto de possuir uma forte rede de amigos ou conhecidos. em posições sociais ou










88 Termo identitário, categoria de origem popular, utilizado para definir pessoas cuja ascendência remonte ao norte de Portugal, nomeadamente às regiões da Murtosa, Ovar, São Jacinto e Aveiro, que em finais do séc. XIX / princípios séc. XX, migraram para Sul em busca de melhores condições de vida e oportunidades de trabalho.

89 Expressão vulgarmente utilizada no terreno quando perguntamos “Há quanto tempo vem à Festa?” Perdemos a conta ao número de respostas “Eu? Desde que me entendo...” Redundantemente significa “desde sempre”.

laborais, extremamente convenientes90. É visto pelos seus pares com respeito e admiração quer pelo trabalho que desenvolve nas festas quer enquanto pessoa. Ouvimos por várias vezes referir que só uma pessoa como o Armando poderia ter paciência para o nível de responsabilidade a que a Festa obriga. Conta-nos, numa das nossas conversas gravadas, em 2009, que sempre ajudou as outras Comissões, trabalhava numa fábrica de electrodomésticos e arranjava objectos que seriam leiloadas na festa, um fogão, uma arca, um frigorifico, o que calhasse e fosse possível na altura. Recorda um episódio, com visível satisfação, por ter conseguido um frigorifico e uma arca91 para leilão, oferta do director-geral da empresa onde trabalhava. Nessa altura, ainda não pertencia à Comissão de Festas mas mentiu, dizendo que pertencia, para que o processo fosse facilitado. Fala-nos sobre o episódio que ditou a sua entrada para a Comissão de Festas. Na época, finais da década de 80, conheceu por intermédio de um trabalhador da Torralta, um dos Presidentes do Conselho de Administração. Caracterizado pelo próprio como alguém que via com alguma relutância a realização destas festas, foi acolhido pelo Armando e restantes Festeiros nos três dias de Festa. Entre refeições e conversas, reza-nos esta história que ficou maravilhado com o que viu, convidando quem o acolheu a almoçar com ele na Torralta. Durante esse almoço terá pressionado o Armando a entrar na Comissão, com a promessa de que se o fizesse as relações seriam facilitadas e a ajuda incrementada; “Foi nessa altura que ele disse, olhe, se você entrar para a Comissão eu ajudo-o a desenvolver mais isto e tal, e eu pensei duas vezes até, e depois também foi quando alguém mais velho da Comissão, que é mais velho do que eu também, que disse epá tu tens que entrar para a Comissão, e depois olhe, tanto me chateou que










90

Não queremos com isto dizer que os conhecimentos que trava são propositados, não poderemos no entanto deixar de ressalvar que são certeiros e mantidos com elevada diplomacia. Um dos exemplos a que assistimos todos os anos é o desfilar de figuras ilustres da sociedade setubalense que marcam presença no almoço de Domingo, no terreiro da caldeira. Esta aproximação da elite à Festa é um sinal dos tempos que se vivem, refiro-me ao recente apadrinhamento da Festa enquanto marca religiosa de Setúbal, assunto que é retomado em diversos momentos neste projecto, e que resulta de um trabalho profundo, entre convites e insistências, por parte desta figura da comissão.

91

“Um dos patrocinadores da festa oferecia um frigorifico e uma arca para rifas e o dinheiro que se angariava era para a festa. E o meu marido disse assim: “Se me saísse a arca beijava os pés da Santa!” Mas ele só tinha 80 escudos e a rifa custava 100 escudos, então foi pedir a um irmão meu para lhe emprestar 20 escudo. Comprou a rifa, acabou o baile, viemos embora para a tenda. O sorteio foi feito e nós não estávamos lá, porque eu tinha os miúdos pequenos e no outro dia de manhã o meu irmão veio a correr dizer que ele tinha ganho a arca. Fomos, fui, buscar a arca e eu disse-lhe: “Agora vais beijar os pés à santa! Não foi isso que prometeste?” Lá fomos, como ele não chegava aos pés da imagem beijou a mão e depois começou a chorar porque por mais que a gente queira explicar às pessoas, a gente não


 76 pronto acabei por ir e até hoje”. Esteve durante dois anos como secretário da Festa passando a Presidente, em 1993.

Actualmente a comissão de festas é composta por um presidente, um secretário, um tesoureiro e dois vogais, respectivamente; Armando Oliveira, Inês Oliveira, José Afonso Lopes (Zé da Gaia), Orlindo Rendeiro e Aníbal Caboz. A Inês Oliveira, filha de Armando, recentemente incorporada para estas lides, é a primeira representante do sexo feminino a estar na comissão de festas, os cargos foram sempre destinados a homens, desde a data da sua criação em 1962. Quando questionado sobre o porquê da escolha das pessoas para a comissão responde-nos, com a naturalidade que lhe é característica, que teve por base as suas relações de amizade e familiaridade. Esta equipa faz-se rodear de um conjunto de pessoas amigas que ajudam a montar e desmontar e a tratar das coisas da festa. São, segundo Armando Oliveira, entre oito ou dez pessoas. Refere duas delas por quem tem imenso apreço, o Electricista (Guedes) e o homem do som (Graciano – rádio Pinhal Novo), que fazem tudo de borla quase há dezoito anos. A Comissão de Festas tem a função principal de organizar todo o calendário festivo. Para que tal aconteça deve, em consonância com o corpo eclesiástico determinar as horas e constituição das cerimónias religiosas, bem como as restantes actividades que decorrem no espaço da caldeira. Esta organização prende-se com as actividades, religiosas e de recreio, que ocorrem nos três dias de festa92, no entanto, o seu trabalho, como seria de prever, ultrapassa estes três dias implicando meses de preparação. Têm como obrigação contactar todos os órgãos de soberania, por intermédio de cartas. São pedidas autorizações diversas às Câmaras de Setúbal e Grândola, ao Governo Civil, à PSP Setúbal, à SONAE, à APSS (Autoridade










92

O cartaz da Festa de 2012 é o primeiro cartaz a que tivemos acesso cuja fotografia utilizada não é uma obvia imagem da Santa. Está bastante escuro pois a imagem escolhida foi tirada durante a Procissão de velas, à noite, tendo a santa fracamente iluminada, bem como os participantes. A realização deste ritual no Sábado à noite é uma revitalização recente, 2007, de um ritual antigo e não constante na Festa. No programa podemos ler: 15, 16 e 17 de Agosto (Quarta a Sexta) 21.30: Tríduo em honra de Nossa Senhora do Rosário de Tróia na Igreja de São Sebastião. 18 de Agosto (Sábado) 08.00 Alvorada em Setúbal; 15.00 Santa Missa por alma dos marítimos seguida de Procissão para Tróia, acompanhada pela Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Setúbal e pela Banda Musical Charranga; 21.30 Procissão de velas pela praia; 22.00 Baile a Arraial em Tróia, com João Carlos. 19 de Agosto (Domingo) 08.00 Alvorada em Tróia; 10.30 Santa Missa; 11.30 Procissão pela praia acompanhada pela Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Setúbal e pelo Grupo Musical Charranga de Sarilhos Grandes; 16.00 Divertimentos na praia (caça ao pato, construções na areia, corridas de sacos, pau ensebado, jogo da corda, entre muitos outros); 17.00 Concurso de Barcos Engalanados; 22.00 Baile a Arraial em Tróia com André Patrão; 24.00 Fogo de artificio. 20 de Agosto (Segunda) 10.30 Santa Missa por alma dos marítimos falecidos e seus familiares; 11.00 Divertimentos na praia (caça ao pato, construções na areia, corridas de sacos, pau ensebado, jogo da corda, entre muitos outros); 11.30 Distribuição de prémios Barcos Engalanados; 17.00 Círio fluvial para Setúbal.

Portuária de Setúbal e Sesimbra), Capitania do Porto de Setúbal, GNR de Tróia e Grândola. As autorizações solicitadas em Grândola prendem-se com as licenças e vistorias para acampamento, baile e fogo-de-artifício. Previamente, é agendada uma reunião com a SONAE para emissão da declaração que autoriza, pela parte da SONAE, o acampamento, baile e bar. Essa declaração é posteriormente entregue em Grândola para que as autorizações oficiais por parte da Câmara sejam dadas. Os restantes pedidos prendem-se com o fecho do trânsito em Setúbal para passagem da procissão (Avenida Luísa Todi), o acompanhamento policial da mesma e a travessia do rio até à margem da Caldeira. Têm como obrigação, e necessidade, a realização do peditório pelas zona das Fontainhas, Bairro Santos Nicolau e São Sebastião. É deste peditório que resulta a maioria do dinheiro da festa, as verbas necessárias à sua realização são um problema constante e os subsídios que as Câmaras de Setúbal e Grândola lhes concedem são absolutamente irrisórios face às despesas. Os particulares e as casas comerciais do bairro são os seus verdadeiros patrocinadores. Segundo o Armando todo o processo demora muito tempo. Afirma que quando uma festa acaba começam logo a pensar na festa do ano seguinte, a memoria está fresca, os erros são facilmente identificáveis bem como as situações que clamam melhorias ao seu alcance, ainda assim lamentam que cai tudo sobre os nossos ombros para organizarmos a festa. O dinheiro recolhido nas capelinhas paga o fogo, o artista do baile, a Charranga de Sarilhos e o gerador alugado que alimenta a electricidade do recinto da Caldeira. À fanfarra dos bombeiros oferecem a comida e os transportes e reservam ainda uma verba para o almoço de Domingo, reservado às entidades oficiais e convidados da festa. A sua realização custa anualmente cerca de 30.000euros.

Para além destas componentes burocrática e de gestão das economias existem outras acções que colocam a comissão em confronto directo com os festeiros. Referimo-nos às tomadas de decisão sobre o transporte da santa e santos, que segundo o Armando são sempre motivos de conflito; “(...)escolher os barcos também é muito complicado, às vezes os pescadores também não ficam contentes, não é? Há muitos que afirmam que este ou aquele é que devia levar, mas pronto, nós dizemos sempre “pronto tem razão, para o ano será diferente”, há que dar muito a mão a palmatória como se costuma dizer não é?” (2009) bem como as atribuições de credenciais de campismo, recentemente limitadas em número pela SONAE. Para a distribuição das credenciais são agendados dias, em frente à estátua do Padre Vieira, no Bairro Santos Nicolau, onde se encontra presente ou o Armando ou um outro membro da comissão. Sabemos


 78 que o telefone do Armando no mês que antecede a Festa não pára, o próprio espanta- se onde é que todas as pessoas vão arranjar o seu numero. Pessoas estas que o próprio, por vezes, não conhece ou não está ver quem é, familiares deste e daquele e do outro. Hoje é muita gente. São seleccionadas pelo próprio mediante a sua ligação ao mar, diz-nos com a autoridade que a própria função lhe fornece, que se vir que são pessoas que não têm nada a ver com a festa, refere-se ao mundo piscatório ou religioso, desculpa-se com o facto de não possuir mais credenciais. Essas ocasiões antecedem os festejos na caldeira dado que a entrada no local, recentemente controlada e vigiada de forma permanente, só é permitida mediante a apresentação da mesma. As medidas são, de uma forma geral, encaradas como necessárias nos tempos modernos, muito embora considerem que por outro lado dificultam em demasia a realização, podendo vir a assumir um carácter desencorajador.