2. CLASSIFICACIÓ I COMENTARI DELS ESTUDIS SOBRE FOLKLORE
2.2. VOLUM IV DE LA HISTORIA DE IBIZA (1967)
2.2.2. Espíritus familiares
Setúbal tem, ainda nos dias que correm, duas comunidades piscatórias residentes em duas freguesias93 opostas (uma a Norte e outra a Sul), uma fixada na freguesia de São Sebastião (Bairro das Fontainhas), e outra na freguesia da Nossa Senhora da Anunciada, (Bairro do Tróino). O crescimento destas comunidades deu-se de formas separadas, pelo tipo de pesca que praticavam, pela devoção religiosa a santos diferentes e pela origem ancestral. A comunidade sobre a qual incide este trabalho, de São Sebastião, é marcada por uma forte presença de gente varina, originários da zona da ria de Aveiro, sobretudo da Murtosa. De acordo com Pinho (1990) estes indivíduos trocaram a vida pobre da ria por uma menos pobre em Setúbal que na altura da emigração, finais de séc. XIX, via crescer exponencialmente a industria conserveira tendo tido o seu apogeu nos anos 20 com 120 fábricas em plena laboração. Caracterizados como nómadas, no primeiros anos da sua emigração, começam a radicar-se no bairro das Fontainhas, Vila Maria e posteriormente, já na década de 30, no Bairro Santos Nicolau. Marcada por uma pobreza vincada, esta comunidade continua, entre 1910 e 1930, a receber familiares, que seriam acolhidos e inseridos nas famílias já radicadas. A rivalidade com o Tróino persiste, sobretudo no universo masculino dado que as mulheres e crianças, rapidamente se misturavam nas fábricas de conservas onde as relações sociais estabelecidas primavam pela
solidariedade na pobreza94. Domingos, de origem murtoseira, relembramos, sintetiza
93 Ambas criadas em 1553, por desmembramento das freguesias de São Julião e de Santa Maria da Graça (Pinho, 1990: 83)
94
Já realizamos, no decorrer da nossa actividade profissional, recentemente suspensa, mais de duas dezenas de histórias de vida com conserveiras, não contando com entrevistas pontuais de finalidade mais especifica. Afirmamo-lo sem qualquer sombra de ligeireza poética mas sim com a certeza que o conhecimento emprestado nos trouxe. A nivelação no seio da industria conserveira era feita por baixo, todos os trabalhadores comuns, operários de baixa categoria, eram pobres e passavam sérias dificuldades. A solidariedade descrita aquando da realização das histórias de vida tinha como pano de fundo essa mesma pobreza na qual se criaram sólidas redes de apoio. Frases como um dia não tenho eu, amanha não tem a quem eu peço hoje, repetiam-se nos testemunhos destas mulheres, hoje todas com uma idade considerável. A existência de filhos aumentava os níveis de entreajuda nas mulheres, vizinha arranja-me sopa para os meninos ou um bocadinho de pão e peixe marcam quotidianos difíceis, vividos na incerteza diária de ter trabalho, no horário que praticariam, onde deixavam as crianças, e no cuidado da casa. A exploração e trabalho infantil foram propiciados pela situação retratada. Quando as avós ainda trabalhavam e as vizinhas tinham a fabrica em que estavam a meter peixe, as crianças eram levadas para o universo fabril, iniciando tenramente a aprendizagem do oficio com as mães e avós. Devido a esta nivelação de condições e quotidianos semelhantes, as redes e amizades estabelecidas eram também mais fortes e consistentes daí que, em todos os casos, os tempos
80 no testemunho que nos concedeu grande parte do enquadramento feito. Afirma que uma das primeiras casas do Bairro Santos Nicolau, que como já vimos foi o ultimo da comunidade varina a ser construído, foi a do seu pai e por isso assistido ao principio do bairro “(...) aquilo ali há três bairros, é o bairro santos Nicolau, o Bairro Barreto, e o Bairro Rendeiro, há quem diga que aquilo é tudo Bairro Santos Nicolau, mas não.” Assume que a rivalidade entre Tróino e Fontainhas era tal que “(...)não havia ordem de passar do quartel para as Fontainhas, os de baixo, e os das Fontainhas não tinham ordem de passar para ali. Mas afinal mais tarde casaram homens lá de baixo com as raparigas aqui das Fontainhas, e vice-versa”. Em 2006, numa conversa de grupo no terreno, o tema volta a ser abordado com Álvaro, também ele de origem murtoseira e estando hoje perto dos 70 anos, e outros dois familiares, um dos quais afirma vigorosamente ter sido o primeiro a casar com uma varina, e como isso foi um problema para o conseguir; “Antigamente haviam rivalidades, era a festa da Tróia e a da Arrábida, uma rivalidade que não imagina! Quem deitava mais fogo, quais eram os barcos que iam mais engalanados(...) era de uma maneira que quem passasse da linha do comboio95 para cima já não passava! E para lá era a mesma coisa!” Este testemunho foi dado como contraponto à situação que se vive nos dias de hoje, onde a festa é da grande família do mar de Setúbal. A distância entre estas duas comunidades, até meio do século passado potenciada pela ausência de meios de transporte, as diferentes proveniências, Norte e Sul de Portugal, que curiosamente se radicaram na cidade os de Norte a Norte e vice-versa, e, de acordo com Domingos, os diferentes tipos de pesca realizados alimentaram, para além dos já nomeados, esta diferenciação por oposição entre as mesmas. No entanto, pela via do namoro e encurtamento das distâncias, a aproximação entre ambas inicia um processo lento que não terminará96, mas permite hoje convívio, sociabilidade e amizade.
95 A linha do comboio, contigua ao quartel referido por Domingos, assume a função de fronteira social no seio da cidade. De acordo com Barth (1969) a manutenção de uma identidade que compreende a interacção entre membros de diferentes grupos será o critério determinante para a compreensão da pertença assim como da exclusão. A expressão e validação dos diversos grupos não assentará, desta forma, na simples ocupação de territórios exclusivos mas sim na contínua expressão e validação dos grupos através da manutenção das fronteiras sociais. Estas possuem per se uma complexa organização do comportamento e relações sociais através da partilha de critérios comuns entre os seus membros. 96 Ainda sobre o distanciamento entre Fontainhas e Troino; “(...)acho que por capricho. Ainda hoje há sempre uma rivalidadezinha. Diziam os comerciantes, cheguei a ouvir pela boca de alguns, que o varino governa-se sempre melhor do que aquela gente lá de baixo, pela razão de que o varino ía sempre ao mar todos os dias que trabalhava por conta deles. E ali era à base de sacadas e era à base de vapores que havia naquele tempo (...) Aqui era trabalhar com a rede aberta, branqueira ou salmonete, ou cação, era as artes que a gente trabalhava aqui no rio com os saveiros.” (Domingos,
No decorrer da entrevista com Domingos, o mais velho dos nossos entrevistados e um dos primeiros festeiros de Tróia (1947), este fala-nos sobre as famílias, numerosas nos membros e no numero de relações familiares que mantinham, que compunham este quadro social. Com nomes que se confundem com apelidos, estes antigos tinham as ligações familiares, que ainda hoje mantêm, com as figuras à data presente, mais velhas da Festa. Confirma-se na oralidade97 esta ligação varina aos primórdios da festa de Tróia, ritual como a conhecemos nos dias de hoje. De notar que as famílias referenciadas mantinham entre si também relações familiares, já mais distanciadas, como primos, padrinhos, cunhados (aplicável também no género feminino). Esta família alargada dos descendentes da Murtosa repercute-se ainda hoje no terreno e na comissão de festas, sendo que todos os seus componentes são descendentes de famílias com esta origem. Pela forte ligação e devoção a Nossa Senhora de Tróia, geracionalmente transmitida, ainda se responsabilizam pela realização da Festa, incrementando-a. Mas não eram só da Murtosa as famílias que compunham este quadro antigo da Festa. Se ao varinos coube a realização dos festejos e o cunho de pertença dada a sua antiguidade98, e aos seus descendentes a continuação dos mesmos, os pescadores de Setúbal, sem ligações directas à Murtosa, bem como os do Faralhão, Praias do Sado e Carrasqueira marcam presença nesta festa desde sempre99 e têm-na como sua.
2006) Sobre esta questão, Jorge, de 37 anos conta-nos o que sentia quando era pequeno “Era, a bem dizer, faz de conta que havia aqui em Setúbal, dois mundos. O mundo lá de baixo e o mundo cá de cima (...) sentia que havia por exemplo aqui o pessoal das Fontainhas e do Bairro Santos Nicolau dos pescadores daqui, e lá em baixo. Eles a bem dizer não se conheciam, notava-se perfeitamente isso. Tirando meia dúzia não se conheciam, havia aquela coisa...” (2007)
97 Trabalho realizado durante o estágio de Marta Ferreira incidiu sobre a recolha das história de vida de cinco mulheres descendentes de varinos, acedendo por esta via às suas genealogias. O trabalho que resultou, museologicamente, em uma exposição intitulada Varinos, nós? trouxe à ribalta novamente as questões de origem dos habitantes das Fontainhas. Anexa-se a este projecto o filme que estava patente na exposição, realizado por nós, acerca dos objectos escolhidos pelos egos através dos quais contam a sua história.
98
Na noticia do jornal Elmano de 1898, a propósito da bênção da capela de Nossa Senhora de Tróia encontramos referencia à grande quantidade de pescadores que assistem à mesma, provenientes da comunidade o varina de Setúbal.
99
Sobretudo desde a reconquista da Festa pelos sacristães de Setúbal. Ao tempo que antecede esta data, finais do séc. XIX, não conseguimos, pela via do testemunho oral, aferir a sua presença sistemática no terreno. A abertura a esta comunidades foi sendo iniciada com a realização regular da festa, tendo assumido uma grande expressão a partir da década de 50.
82 Sandra e Graça100, de diferentes famílias e na faixa dos 50 anos, e ainda Jorgina101, já com 72 anos, acampam, renovadamente, todos os anos na Caldeira. Nascidas e criadas no Faralhão assumem esta festa como sua e garantem não ter faltado, desde pequenas, pois já vinham com os seus pais, no caso de Sandra e Graça102. Esta situação é também abordada por Pinho (1990) quando afirma que relativamente aos pescadores destas zonas e sem ligação à Murtosa, a atitude por parte da organização era de aceitação relacionando-se com o facto de todos fazerem pesca no rio, e por tal, a camaradagem da profissão e a partilha do quotidiano, ultrapassaria as questões de origem. Nos dias que correm, como nos contava Álvaro em 2006, a Festa engloba toda a gente da família do mar. No entanto, entre o antigamente e o presente decorrem mais de 100 anos. Marcados fortemente por uma
100
Filha de um pescador e uma conserveira, que trabalhava ocasionalmente por altura do defeso da sardinha, à semelhança de tantas outras, na apanha da ostra, perto da zona da Caldeira de Tróia. Comparece anualmente à Festa de Tróia, com os seus familiares. Assume-se como não crente, mas gosta da Santa de Tróia, porque está habituada à mesma desde pequena. É a única, entre os nossos entrevistados, que assume a descrença. Afirma no entanto que respeita e que gosta de ver colocando-se à entrada da tenda em todos os momentos solenes da Festa.
101 Jorgina é das figuras mais castiças com quem travámos conhecimento. O nosso primeiro encontro data de 2008, no terreno da Festa, mas foi renovado por diversas vezes, quer na Festa, quer em sua casa, no Faralhão. Começou a frequentar a festa por intermédio do marido, pescador e devoto de Nossa Senhora de Tróia. Jorgina veio do Alentejo e casou com 17 anos. Foi, durante toda sua vida, camarada do seu marido na vida piscatória. A sua primeira embarcação, Deus que te veja ir, era um saveiro, que após alguns anos deu lugar a uma barca de nome Padroeira de Santo Ovidio. Deu à luz dez filhos que orgulhosamente conta que fez nascer, sozinha em casa. Sobre a vida do mar retrata-a como feliz e que desde sempre lhe possibilitou providenciar sustento a si própria ao marido e aos filhos. As crianças eram levadas na embarcação, atadas à sua cintura com uma corda, não fossem cair ao rio. Fala-nos sobre o episódio em que o seu filho mais velho caiu no rio enquanto se debruçava no barco para ver os pais lançarem as redes ao rio. A corda permitiu-lhe puxar a criança e mal nenhum aconteceu. Devota de Nossa Senhora de Tróia confessa-nos que por diversas vezes fez promessas e versos à Santa para ultrapassar as dificuldades do seu dia-a-dia. A última que realizou relacionou-se com uma operação recente na qual prometeu que se se safasse faria de tudo para reunir os seus filhos no terreiro da Festa no ano seguinte. Foi neste ano que a conhecemos, e o acampamento contava com a presença desta família alargada. A grande maioria dos seus descendentes são também pescadores. Pediu-nos, durante a entrevista filmada, se poderia cantar uns versos que fez à Santa quando uma das suas filhas foi para o hospital dar à luz. Assentimos. Agradeceu-nos dizendo que não gostaria de morrer sem os cantar. Reencontrámo-nos com Jorgina por mais duas vezes em sua casa. As paredes estão repletas de santos, onde figura igualmente a Santa de Tróia, que ladeiam as inúmeras fotografias da sua extensa família. Hoje em dia é curandeira, faz mezinhas e trata males de diferentes origens. Entre rezas e conversas que permitem acrescer algum à sua miserável reforma, apresenta-se como uma mulher de força que tem na fé a sua maior aliada. Por sabermos que gostaria, transcreveremos a sua homenagem à Santa de Tróia: Adeus ó Santa da Tróia; Que és uma Santa abençoada; Eu logo vi os foguetes; Às seis da madrugada. Às seis da madrugada; Mas não ouvi os tambores; Peçam todos à Santa; Boa pesca aos pescadores. Boa pesca aos pescadores; e também muita alegria; Para que fique na lembrança; O que se pede neste dia. Somos todos a rezar; o Pai Nosso e a Ave Maria; Mas vamos todos em carneira; e viva os barcos pequeninos; e também suas traineiras. Com isto não digo mais nada; é comer e é beber; e a sua sardinha assada.
102 Graça conta-nos que não nasceu na Caldeira, porque não calhou. A sua mãe tinha uma barraquita ali mesmo ao lado porque andava na ostra, e portanto quando chegou o momento de a ter foi uma sorte ter chegado a Setúbal a tempo.
presença varina desde o seu principio até a actualidade, espelhada pelos netos e bisnetos, a relação com outros grupos piscatórios foi-se mantendo, à excepção do Tróino, cujas relações só se começam a alterar após a primeira metade do século passado e cuja fonte de devoção era outra, também diametralmente oposta, a Nossa Senhora da Arrábida103.
Nos dias de hoje não se discute a varinagem. Está presente, quando é necessária, à la carte, puxam os seus galões mas, de uma maneira geral, é a actividade piscatória que dita a legitimidade de pertença. Não nos podemos esquecer que, presentemente, a geração de meia idade da festa, cujo passado nesta lide já é considerável e eles próprios já possuem, na grande maioria, duas gerações de descendentes consigo, é já a 2ª geração de descendentes de varinos nascida em Setúbal. A sua identificação surge, num primeiro nível, com Setúbal. Se já no tempo dos seus pais assim o era, descendentes de varinos orgulhosos do seu passado familiar mas setubalenses de nascimento e criação, no caso desta segunda geração a questão de varinagem já faz parte de uma história na qual eles são o presente104.
As proveniências, nos dias de hoje, não controlam o local do acampamento, tudo está misturado. Em cada tenda encontramos uma família que se faz representar na maior quantidade de pessoas possível. Nas famílias alargadas, e cuja presença seja assídua, as tendas são colocadas lado a lado formando um U, deixando a descoberto um pátio coberto com um material semelhante à serapilheira, ou com outros materiais. Ao centro encontram-se mesas, e para uso de todos, os utensílios de cozinha e casa de
103
Noticia o Setubalense 12 de Julho 1930: “O Círio - Lá foi hoje para o santuário d’Arrabida o círio de Setubal. Pendões, bandeiras ao vento, virgens, homens de opa, o andor, a musica, emfim, um cortejo em miniatura onde nem faltava o homem do amendoim e fava torradinha. E tudo embarcou e tudo seguiu em demanda do portinho, por entre os ensurdecedores apitos dos vapores e o estralejar dos foguetes. O nosso povo gosta d’estas cousas. Péla-se por uma pândega no alto da serra, entre cómes e bébes. E’ agora o mez das romarias, mas Agosto leva-lhe a palma. Lá vem a Atalaia, o Senhora da Serra, a Senhora de Santana, uma enfiada de santos e santas que servem á maravilha, para o povo se divertir á doida e gozar á maluca. Portugal é considerado lá fora, o paiz da musica e dos foguetes. Houve um tempo que os inglezes admiravam a ingenuidade com que celebrávamos estas passeatas. Eles compareciam também, tiravam fotografias e por ultimo enviavam-nas á família com a legenda seguinte: “Povo feliz. Trabalha, canta e dança”. Vimos algumas que depois seguiram para Inglaterra. De facto, se queremos ver os nossos, satisfeitos, é dar-lhe musica, foguetes…e caracoes cosidos”. Cirio da Arrábida denominado como Cirio de Setúbal, assumia na altura na imprensa local um maior destaque.
104 O caso do Jorge, família dos Pateiros, elucida esta questão. Os seus avós, provenientes da Murtosa já cá tiveram o seu pai, Álvaro. Jorge identifica-se como Setubalense pescador do Bairro Santos Nicolau. Considera a varinagem um sentimento que acaba por se confundir também com uma certa forma de experienciar o bairro, ou os bairros contíguos (caso das Fontainhas e Santos Nicolau) Elogia a união entre eles e critica os tempos de hoje como sendo de grande afastamento entre os pescadores
84 banho. Uns colocam à porta alguidares ou baldes com água para se lavar os pés antes de entrar e não encher o espaço comum de areia. Pais que já não vivem com filhos, primos que já não se vêm há algum tempo, irmãos e irmãs, cunhados, genros, maridos, mulheres, sogras, tudo junto numa panóplia de parentescos de possível dosagem e convivência dado o tempo que se vive. Muitas outras famílias preferem manter-se perto uns dos outros mas sem o tecto que os torna comuns, ou até mesmo, reservando alguma distância. Pela proximidade ou afastamento destas tendas, alteração de lugar, ou ausência surgem questões que com o tempo se descodificam. Chatearam-se, está doente e não pode vir, está a trabalhar no estrangeiro, só consegue aparecer amanhã, vem só à missa, são as justificações mais ouvidas a quem pergunta pela falta do outro. A proximidade da zona central da Festa ou o afastamento desta nada tem a ver com o tempo de prática da Festa. É entendido pelos próprios como a vontade de estar mais sossegado, afastando-se do terreno central ou até mesmo cruzando o rio até à outra margem, na baixa--maré. Relacionámo-nos com famílias que ocupavam estes diferentes espaços e quando os questionámos pela escolha do local para o acampamento justificações como sempre foi assim, gosto de estar mais sossegado, ou, por oposição, gosto de estar perto dos acontecimentos (junto à tenda da comissão e cabine de som) eram dadas sem hesitar. Nas nossas viagens de autocarro, de manhã, para o terreno, observámos de igual modo esta situação. Quem empreende viagens diárias procura as famílias a quem se junta nos sítios específicos. Em 2008 duas amigas, ou familiares, conversavam sobre o sitio onde estariam acampados os seus familiares e enquanto uma procurava no inicio do espaço de concessão do acampamento a tenda da família, a outra retorquia-lhe que ainda não era ali, pois eles ficavam sempre lá mais para a frente. Neste percurso de cerca de cinco minutos iam reconhecendo quem já estava acampado, a alguns acenavam, enquanto que outros apenas lhes mereciam comentários em surdina.
Já nos habituamos a revisitar estas famílias nos sítios habituais. Sabemos que à chegada encontraremos como primeira tenda a dos Lucas que dispõem de um enorme pendão onde se lê “Família Lucas”. É das famílias mais numerosas da festa. Todos, sem excepção, envergam t-shirts durante os três dias com a imagem da Santa e família Lucas por baixo, tendo ainda o ano em que se encontram. Começa a percorrer- se o terreno e segue-se a tenda da comissão de Festas, sobrelevada, sem estar assente na areia, formando um género de palco onde existe uma grande mesa disposta em U