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“Bem-vindo às ruínas romanas de Tróia, povoado romano especializado na produção de conservas e molhos de peixe, ocupado desde o século I até ao século IV.” Recebe- nos desta maneira o catálogo sobre as ruínas romanas, realizado pela equipa de arqueólogas do Tróia Resort e editado pelos próprios. Adquirimos este catálogo quando visitámos as ruínas romanas em Janeiro do corrente ano. Dirigimo-nos a Tróia para conhecer a equipa de arqueólogas, interlocutoras no terreno pela parte da SONAE, a convite das mesmas. O propósito desta aproximação seria um encontro promovido pela SONAE para Março deste ano sobre as “Memórias de Tróia”.

Este encontro visou a reunião de saberes e descobertas das mais variadas áreas do conhecimento, que ao longo do tempo têm tido influência na construção e/ou alteração do território, desde a época romana até ao momento presente. Reuniram-se contributos da arqueologia terrestre e subaquática, dos festeiros de Tróia, da história, da fotografia, da geologia e arquitectura. Fomos convidados a participar no encontro na posição em que nos encontramos actualmente, enquanto investigadores que têm como objecto as Festas de Tróia. O convite foi, ainda assim, endereçado ao Museu do Trabalho Michel Giacometti cuja chefia no-lo remeteu de imediato com o objectivo de darmos resposta e acompanhamento ao solicitado. Já nos tínhamos cruzado com a chefia desta equipa de arqueólogas, três no total, por diversas vezes (anos) no terreno, ainda assim e só no corrente ano, pela necessidade a que o encontro obrigava, chegámos à fala. Fomos recebidos em Tróia por uma das arqueólogas com a qual tomámos um café à chegada. Falámos sobre as condições em que desenvolviam o seu trabalho, o gosto pelo mesmo, as excelentes condições paisagísticas que tinham para o desenvolver, os seus avanços e recuos, mas também sobre o nosso trabalho, sobretudo sobre a ligação entre o museu e a festa e o facto de esta parecer, aos olhos de quem não está por dentro, uma amizade improvável. Afinal, o que é os museus têm a ver

com sistemas vivos(?) Depois de nos apresentarmos e quebrarmos a formalidade do encontro, com idades próximas e posturas bastante similares seria inevitável, dirigimo-nos ao carro de serviço onde aguardavam as duas restantes arqueólogas que nos conduziriam até à caldeira de Tróia, o lugar da Festa e das ruínas, que visitaríamos agora noutro contexto, em pleno mês de Fevereiro, com frio e desertificado. A última vez que tínhamos visto o desenvolvimento dos trabalhos nas ruínas romanas de Tróia, cuja entrada para o inicio do percurso é pertíssimo do “largo” de encontro da festa, tinha sido em 2010. Em 2011, a nossa “falta de comparência” proporcionou uma redonda onomatopeia de espanto quando vimos o percurso turístico completamente acabado e pronto a consumir. Passámos pelo mesmo vários anos mas foi como se o tivéssemos acabado de conhecer. Entrámos numa casa de madeira, antes da entrada para o percurso, que se impõe do meio das dunas e vegetação, imprimindo solenidade ao espaço que estamos prestes a visitar e curiosidade a quem está de fora. Pousámos as malas e documentos, retirámos a máquina fotográfica e iniciámos a visita com as arqueólogas responsáveis.

O novo percurso de visita que se instalou nas ruínas de Tróia, por ocasião da comemoração do centenário de classificação das mesmas como Monumento Nacional, em 1910 pelo decreto de 16 de Junho, compreende duas das maiores oficinas de salga conhecidas no sítio arqueológico, as termas, o mausoléu e a necrópole adjacente, e o núcleo residencial da Rua da Princesa, que nos foi apresentado durante a visita como o ex-líbris do complexo, pela curiosidade que o caracteriza. Segundo o que nos foi dito aquando da visita, e que podemos revisitar no catálogo pormenorizado editado pelo gabinete, “este núcleo deve o seu nome à rainha D. Maria I que, ainda princesa, no século XVIII aqui realizou a primeira escavação de que há noticia em Tróia.” Aproveitamos o recuo no tempo introduzido pela primeira escavação realizada em Tróia para também o fazer, revisitando a bibliografia que consideramos ter maior interesse para o presente capitulo, e à qual tivemos acesso120, pondo em evidência questões que evidenciam trechos da história do










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Brevíssima referência à dificuldade de acesso ao serviço público prestado pela biblioteca do Museu Nacional de Arqueologia. No inicio do corrente ano contactámos por email a referida biblioteca solicitando consulta ao dossiê Tróia e fomos informados que esta só se poderia realizar um dia por semana e a sala apenas poderia ter quatro pessoas de cada vez, pelo que teríamos que efectuar marcação prévia. Colocámos mais uma questão ao técnico, se no dossiê das escavações arqueológicas constava a propriedade de terreno, e ficámos sem resposta. A pergunta não invalidava o nosso continuo interesse na pesquisa, no entanto, parece ter sido entendido como tal dado que não chegámos a obter resposta, nem sobre a questão colocada, nem sobre o dia para visitação do dossiê. Como a informação


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 território no qual decorre a celebração sobre a qual nos debruçamos, fundindo-se com a mesma em determinadas alturas, através das referências à ermida ou à festa dos moradores de Setúbal.

De uma forma geral importa ressalvar que Tróia, desde a sua primeira escavação, até aos dias de hoje, tem sido frequentemente abandonada e retomada com novo fulgor, até que este ciclo se inicia novamente. Os livros, textos, artigos e notas consultadas evidenciam sobretudo as controvérsias que as escavações, tão espaçadas no tempo, foram levantando, resumindo-se sobranceiramente à contradição das suposições feitas nas publicações anteriores. Existem obviamente consensos, nas tipologias das descobertas, na nomenclatura utilizada, na relevância que a estação assume para o estudo do mundo romano. No entanto, questões como a localização de Cetóbriga e os motivos para a ocupação e abandono do território, afiguraram-se como perguntas para as quais não havia resposta, bem como as denominações avançadas para Tróia, tendo sido extensamente debatidas pelos arqueólogos ao longo dos tempos. O momento presente parece-nos reunir consensos, concentradamente apresentados no catálogo definitivo do Centro de Interpretação das ruínas. Consideramos que este facto se relaciona sobretudo com a existência de uma equipa que nos dias de hoje se ocupa das ruínas titulo permanente. O avanço de hipóteses passíveis de refutação também é algo que, pelo que percebemos, a equipa se pretende afastar. Com um conhecimento profundo da história que sentenciou o estado actual das ruínas a equipa deixa as questões que poderão suscitar duvidas em aberto121, avançando apenas com a segurança que a probabilidade lhes confere. As ruínas romanas de Tróia e a sua relação com a Festa actual deverá ser, para nós, objecto de estudo. Este facto introduz a razão para a abordagem que faremos nesta secção. Se até à década de 60 do século passado a existência destas ruínas não tinha qualquer tipo de influência na realização da festa, a partir desta altura houve uma crescente consciencialização da sua importância e consequente necessidade de salvaguarda, que 








continuámos, pacificamente a aguardar a resposta. Há um mês atrás voltámos a insistir neste contacto. Apresentámo-nos devidamente por email, novamente, explicando quem éramos e o porquê do interesse no dossiê. A resposta demorou duas semanas a chegar explicando que o técnico e biblioteca se encontravam “encerrados”. Pediram-nos que, para a consulta do referido dossiê, elaborássemos um email ao Director do Museu, recheado de pormenores sobre o motivo da consulta, e que só depois da autorização deveríamos voltar a contactar o técnico responsável pelos serviços da biblioteca. Até ao momento não obtivemos resposta.

121 A titulo de exemplo, as razões que levaram ao abandono do povoado não são tidas como certezas mas sim como uma sucessão de hipóteses, bem como o nome de Ácala para designar a Tróia romana, é apresentado com um ponto de interrogação no catálogo ainda que noutros textos seja dado como certo.

se efectivaram praticamente no terreno, através de (re)escavações de cariz mais sistemático até à implementação do centro de interpretação das ruínas, propriedade da Sonae Turismo. A alteração do percurso da procissão pela praia foi, a nosso ver, o inicio do processo de afastamento entre os usuários do território por ocasião das festas. Nos dias que correm, esse afastamento passou a interdição.

As ruínas romanas de Tróia são conhecidas desde o século XVI, tendo figurado desde logo nos escritos do humanista André de Resende122. Desde então, como poderão observar as quatro páginas que André de Resende dedica às ruínas de Tróia intitulam-se “Liber Quartus de Cetobriga”, que Tróia tem sido confundida com cidade de Cetóbriga, actual cidade de Setúbal. Desde cedo cativaram o interesse da Casa Real bem como a atracção de numerosos estudiosos, curiosos, investigadores e coleccionadores. José Leite de Vasconcelos, no Archeologo Português de 1897 em um pequeno texto intitulado “Escavações Reais em Tróia” dirige-se ao próprio El-Rei D. Carlos manifestando algumas das inquietudes abordadas até ao presente, podendo ler-se: “Lê-se n-O Século de 16 de Novembro de 1987, que tendo Sua Magestade El- Rei o Senhor D. Carlos manifestado ao Sr. Morgado Francisco Cabral, dono das ruínas da Tróia, desejo de obter alguns dos muitos objectos que estão alli soterrados, o Sr. Cabral mandara immediatamente seis trabalhadores que começaram a afazer excavações no sítio do chafariz da Hortinha, sob a inspecção de El-Rei (...) Continua hoje o Senhor D. Carlos nas suas explorações na Tróia. Por emquanto nada de notável se tem encontrado, a não serem umas quatro moedas antigas, grandes que elle guardou”. Depois d’isto nada mais li sobre o assumpto. Crei que as excavações não continuaram , porque El-Rei se retirou para a sua capital. Visto o interesse que Sua Magestade mostra pela archeologia, tomava eu a liberdade de tornar a lembrar a grande conveniência que haveria em mandar proceder em Tróia a explorações methodicas e extensas. Quem sabe quantos thesouros scientificos não estarão escondidos sob a areia? E talvez pelo estudo d’elles se pudesse por uma vez para sempre decidir onde foi Cetobriga!” (Vasconcellos, 1987: 265). Sobre a questão da nomeação das ruínas José Leite de Vasconcellos realiza nova reflexão apoiando-se em Borges de Figueiredo, segundo o qual Cetobriga sofreu uma natural alteração transformando-se em Cetobra ou Cetorbe que posteriormente se transformou em Setúbal, e ainda em Alberto Pimentel, que afirma que da palavra Cetobriga saíram


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 duas corrupções com pronuncias diferentes, Cetobra primeiro e posteriormente, por erro grosseiro do povo ignorante, Tróia, nome actual das ruínas de Cetobriga, ao mesmo tempo que se corrompia Cetrobriga em Cetobala, e de Cetobala em Setuval e, por ultimo em Setúbal (Vasconcellos, 1985: 60). Para o autor, e demonstrando a preocupação necessária enquanto investigador, no que respeita a dificuldade de legitimamente tratar a questão no campo linguistico, “(...) Tróia nada mais será do que uma designação litteraria dada anteriormente ao século XVI ás ruínas; para affirmar isto, fundo-me em que não são estas ruínas a que se dá o mesmo nome de Tróia. Verosimilmente, ao adoptarem-se estes nomes, tinha-se no espírito a ideia da Tróia asiática, que, segundo a lenda, foi arruinada pelos Gregos. A designação de Tróia dada ás ruínas fronteiras a Setúbal será acaso contemporânea da sagração do antigo templo da Virgem Maria, que ahi se levantava ainda em dias de André de Resende.” (Vasconcellos, 1985: 60). Refere ainda a dificuldade para identificação de Cetobriga com Tróia, assente no elemento -briga da composição da palavra Cetobriga que significa, na opinião dos celtistas, um lugar elevado, colina, que contrasta com a configuração plana de Tróia, onde se localizam as ruínas, identificando-a desta forma com a configuração morfológica da cidade de Setúbal. De acordo com Joaquina Soares (1980), quando em 1957 se abriram valas para o saneamento da cidade de Setúbal e António Inácio Marques da Costa observou e recolheu um abundante espólio romano, o problema da localização de Cetobriga reacendeu-se. Tal como Leite de Vasconcellos, entre outros, a autora refere a existência do sufixo –briga, de origem celta, afirmando que o significado etimológico da palavra não se ajusta à morfologia de Tróia, e que a margem direita do Sado possui maior potencialidade para albergar a “(...) tão discutida Cetóbriga, quer pela morfologia quer pelas admissíveis raízes proto-históricas”, avançando com a designação de Achale para Tróia referida na Orla Marítima de Avieno, um poema que data de 520 a.C. As escavações realizadas pelo Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal, sob a direcção de Carlos Tavares da Silva, revelaram a existência de um importante e extenso centro urbano da época romana, que à semelhança de Tróia, tinha como principal actividade a salga de peixe. À luz destas descobertas repensa-se a localização de Cetóbriga avançado com a hipótese de que Tróia seria um prolongamento da Setúbal Romana, pois dependeria em bens essenciais como produtos alimentares, de construção, olaria e sal, da margem direita do Sado” (Soares, 1980: 9 a11). Nos dias que correm esta inquietação parece ter adquirido alguma tranquilidade, como nos indica o guia de visita oficial das ruínas romanas,

onde podemos ler que “o povoado implantou-se numa formação de areia que na época poderia ser uma ilha, talvez a ilha de Ácala, referida pelo escritor latino Avieno na sua obra Orla Marítima, e era banhado pelo oceano. Situava-se na província romana da Lusitânia, no território da cidade de Salacia (Alcácer do Sal) e diante da cidade de Cetóbriga (Setúbal), do outro lado do rio, com a qual devia manter laços estreitos.”

Victor dos Santos Gonçalves, no seu livro “Arronches Junqueiro e Tróia de Setúbal” de 1965, elabora uma “sintetíssima resenha” histórica que nos dá conta das múltiplas abordagens que o terreno das ruínas romanas tem tido ao longo dos séculos. Considera que desde que Gaspar Barreiros e André de Resende lhe dedicaram uma análise mais ou menos atenta, “toda uma multidão de notáveis investigadores se debruçou sobre a estação” (Gonçalves, 1965: 5). Identifica o ano de 1700 como tendo sido o ano do encontro de um “templo gentílico” em Tróia123. Considera inexplicável, em nota de rodapé, o desaparecimento deste templo, fazendo nota das referências ao mesmo nos diversos estudos sobre o local, e “apesar destas serem peremptórias, não deixa de ser estranho não ter surgido, nas recentes campanhas, o menor vestígio da sua existência” (Gonçalves, 1965:5). Em 1764 relata-nos as escavações que D. Maria manda fazer no terreno, das quais resultaram numerosos achados, referindo que esta campanha levada a cabo pela ainda princesa deixa a descoberto um agrupamento de casas alinhadas ao qual se deu o nome de Rua da Princesa, situação já referida anteriormente. Em 1849 funda-se a Sociedade Archaeologica Lusitana que dá proporciona um forte impulso na prossecução escavações. As peças recolhidas por esta sociedade foram depositadas na Academia de Belas Artes tendo transitado posteriormente para o Museu Etnológico Dr. José Leite de Vasconcellos, nos dias de hoje Museu Nacional de Arqueologia. Refere o 








123 “Pelo ano de 1700, um nobre morador de Setúbal e vereador da Câmara, em uma relação que deu a Frei Agostinho de Santa Maria (Santuário Mariano, 2ª pagina, 416) diz “A Tróia que hoje se vê, é cinza antiquíssima, de que foi Setuval, a antiga, ou Cetobriga, fundação de Tubal, e que os seus moradores se passaram para onde hoje se vê fundada Setuval. No tempo que nela se fundaram as casas e estalagens, achei muitas moedas de cobre, de cujas inscrições conheci serem dos Emperadores Romanos e serem muitas feitas ou lavradas mais de duzentos anos antes que Cristo viesse ao mundo. Achei sepultado, na areia, ou debaixo dela, hum templo gentílico com colunas e capiteis de que ainda hoje tenho um de notável fabrica. Achei muitas sepulturas com as ossadas de corpos humanos, outras só com as cinzas, outras com corpos pequenos metidos em vasos de barro. Muitas sepulturas feitas de adobes e outras de pedra vermelha muito fina, e muita quantidade de pregos e ferrolhos de bronze, sem haver entre eles cousa de ferro. Pássaros de vidro azul cercados de candieiros de barro e aos pés deles moedas de cobre ao modo de oferendas. Em diastancia de quasi huma legoa, está toda a Troya cheya de alicerces de casarias, que tudo são ruínas, das quais presumo se lhe derivou o nome de Tróia, a respeito da grande povoação que antes tinha sido; cuja grandeza na minha opinião


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 problema da localização de Cetóbriga mas por razões de tempo, espaço e intenção do artigo decide não se debruçar sobre ele, no entanto não deixa de criticar aqueles que cegamente estudaram o problema de Cetóbriga ao procederem à identificação da célebre urbe com Tróia, levando-nos a crer, que já nesta data, a inclinação cientifica seria a que observamos nos dias de hoje. Considera que compreender a arqueologia de Arronches Junqueiro é compreender uma geração de arqueólogos românticos cujo mérito se relaciona com a descoberta daquilo que à época da edição do livro, se estuda pois “A Tróia de Arronches Junqueiro não é a Tróia de cenáculo, Vasconcellos, A. I. Marques da Costa ou de Manuel Heleno. Todos a viram com olhos diferentes. Se os primeiros autores, ao se debruçarem sobre o “dossier” Tróia, o fizeram com mescla de erudição e lenda, A. I. Marques da Costa introduz os primórdios de uma investigação cientificamente dirigida” (Gonçalves, 1965:8). De acordo com Joaquina Soares (1980), o espólio exumado nas explorações ordenadas por D. Maria, em 1764, dispersou-se, tendo sido oferecidos uma coluna e um capitel coríntio que foram mais tarde reutilizados sobre a forma de pelourinho na Praça Marques do Pombal em Setúbal e as escavações da Sociedade Arqueológica Lusitana tiveram lugar nas casas da Rua da Princesa.

António Inácio Marques da Costa (1923, 1925, 1930) iniciou, com preocupações metodológicas, as escavações sistemáticas em Tróia. O seu interesse incidiu sobretudo em elementos de carácter religioso identificando duas estruturas que, entretanto, desapareceram. São estas o Baptistério e um monograma de Cristo, que desenhou nos seus escritos sobre a escavações, mas dos quais apenas restam apenas as suas figurações. Explorou extensamente a grande casa rectangular de paredes estucadas e pintadas a fresco com motivos geométricos, elementos vegetais, pombas, na qual afirma ter encontrado o monograma de Cristo. Esta casa a que nos referimos é a basílica paleocristã onde a continuação de uma intervenção cientifica personifica uma a segunda fase de (re)qualificação das ruínas romanas de Tróia (ver nota 126). Este seria o lugar de culto dos primeiros cristãos de Tróia cuja presença foi atestada com base noutras descobertas assentes em peças móveis. A religiosidade do local é incrementada com o aparecimento de um políptico esculpido cuja representação é atribuída ao culto mitraico, bem como por um fragmento de um sarcófago de mármore branco onde se encontra uma cena de transporte de um morto em carro de bois para um espaço limitado por uma rede, e defendido por um animal feroz (Soares, 1980:20). A descoberta deste baixo relevo de Tróia, tido como mitraico

por Vergílio Correia, Professor Catedrático em Coimbra, despertou o interesse de Franz Cumont, Professor e Conservador do Museu Real de Bruxelas, especialista no estudo do culto mitraico, que fez questão de ver, ao vivo e a cores, a pedra. Eugénio Jachay (1948), vice-presidente da Associação dos Arqueólogos Portugueses, escreve