Quando em 2006 realizamos pela primeira vez trabalho de campo na Festa de Nossa Senhora do Rosário de Tróia podemos afirmar que se não fossem as pulseiras fluorescentes terem efervescido as emoções dos romeiros, não existiam grandes indícios, para o olho destreinado, da recente aquisição do território pela SONAE Turismo. Existiam estruturas que protegiam as ruínas romanas, uma tímida vedação que quase não se fazia notar, e estamos em crer que não seria em todo o território das ruínas, e um telhado antigo sobre a basílica paleocristã. Nos anos seguintes, culminando no ano que decorre, o aumento do controlo sobre a Festa tem vindo a aumentar fazendo-se notar sobretudo, ao nível da construção de estruturas novas e nos esforços proteccionistas sobre as ruínas romanas, ao nível humano e de infra- estruturas. A inauguração em 2011 do Centro de Interpretação das Ruínas Romanas de Tróia e a constituição de uma equipa de arqueologia da própria empresa concluiu um dos projectos já desenhados para o local da Caldeira pela empresa detentora do local. Não poderemos ignorar que este facto imprime na Festa de Tróia um outro ritmo, uma acrescida preocupação para os seus organizadores bem como um aumento exponencial da vigilância no local. Pelo que podemos aferir, a criação de infra- estruturas para este curto espaço de acampamento, não termina na (re)criação, preservação e exploração do percurso das ruínas romanas, que se impunha como medida de salvaguarda de um património declarado, mas sim, com a (re)edificação do Palácio Sottomayor e anexos, bem como com a criação de um Centro Desportivo e Área de Serviços. O documento tem por nome Estudo de Impacto ambiental do Estudo Prévio da Ocupação Turística da UNOP 4 de Tróia e esteve em consulta pública entre os dias 7-11-2008 e 15-12-2008.
O resumo não técnico (RNT), documento que temos em mãos, sintetiza a
informação contida no “Estudo de impacte ambiental do Estudo Prévio da Ocupação Turística da UNOP4 de Tróia. Como podemos ler na parte introdutória deste estudo, a necessidade da sua elaboração decorre do Estudo de Impacte Ambiental (EIA) devido ao Plano de Urbanização (PU) de Tróia, datado de 9 de Maio de 2000, que define a obrigatoriedade de sujeição a Avaliação de Impacte Ambiental (AIA) dos “Projectos de natureza turística localizados na UNO 4 (Unidade Operativa de Planeamento e Gestão) – Parque cientifico e cultural, devendo ser, no âmbito da AIA, enquadrada
toda a unidade operativa de planeamento e gestão. O Estudo foi elaborado pelo IMAR, Instituto do mar, entre os anos de 2000 e 2008, por encomenda do proponente, Sociedade S.I.I. – Soberana . Investimentos Imobiliários, S.A. A entidade que licencia o projecto é a Câmara Municipal de Grândola, no entanto será necessária a intervenção de outras entidades, nomeadamente, o Turismo de Portugal. A CCDR Alentejo (Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo) é a autoridade da Avaliação de Impacte Ambiental.
O projecto é descrito como uma peça fundamental do projecto de investimento turístico para a península de Tróia que o Estado Português reconheceu adequar-se aos objectivos da politica de turismo, contribuindo para a melhoria da competitividade do sector turístico nacional, celebrado no contrato de investimento feito a 16 de Maio de 2000, com o grupo SONAE, nos termos aprovados pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 22/2000, de 8 Maio. Tem como principal objectivo a concretização no terreno, dos três parâmetros fundamentais do Projecto de Urbanização de Tróia, sendo estes: A salvaguarda dos recursos naturais e valorização natural e cultural; Qualificação e diversificação da oferta turística em Tróia; a funcionalidade do conjunto do Troiaresort, que constitui a base de identidade da imagem da península de Tróia. A área de intervenção do Estudo é a UNOP 4 de Tróia que o Projecto de Urbanização define como Parque cientifico e cultural, destinado à fruição turística da zona das ruínas romanas de Tróia e da zona da Caldeira e sua envolvente, com dois tipos de ocupação previstos, sendo estes, uma área de comércio e serviços e um aldeamento turístico, com 435 camas, calor ajustável dentro do limite definido pelo máximo de camas turísticas das UNOP 1, 2 e 4. De acordo com o estudo , a intervenção proposta para o Hotel Palácio Sottomayor e Anexos tem como objectivo recuperar as construções existentes, incluindo o edifício principal e anexos e instalar uma pequena unidade hoteleira de charme, com uma capacidade de trinta quartos (60 camas). Por razões patrimoniais, segundo o estudo, terá que ser utilizado o sistema construtivo tradicional, com um estaleiro, ainda que de pequena dimensão, no local. A ocupação média anual prevista para o hotel é de 50% para os quartos e de 40% para as camas. Na área do hotel, junto ao mesmo, vai-se localizar o Centro de Interpretação Arqueológico e Ambiental, uma pequena construção de dois pisos, no terreno do edifício actualmente em ruína. Este centro terá como principal função o apoio cultural aos visitantes das ruínas. Relativamente ao acesso ao hotel, o estudo indica que este será primeiramente feito pela via de acesso às instalações militares de Tróia e, a partir
112 daí, por uma via com dois sentidos, que será construída sobre o traçado do trilho existente. O acesso ao Centro de Interpretação Arqueológico e Ambiental, bem como às ruínas romanas, será o mesmo do Hotel Palácio Sottomayor e será condicionado aos clientes do hotel e aos visitantes da estação.
Como já havia referido anteriormente, o Museu do Trabalho Michel Giacometti, personificado em nós e na Mestre Isabel Victor, na altura directora do museu, enquadrou três estagiários, dois de antropologia e um de museologia, que realizaram estudos associados à Festa de Nossa Senhora do Rosário de Tróia. A estagiária de museologia, Purificação, teve como objectivo de estágio com vista à
obtenção do grau de mestre em Museologia pela Universidade de Évora128, o estudo
da Festa enquanto manifestação de Património Imaterial. O estágio já tinha terminado, estava em fase de escrita do relatório, quando recebo um telefonema da Purificação, à noite. Informou-me que havia encontrado o documento sobre o qual nos debruçamos nesta secção pondo-me ao corrente das suas preocupações, por nós partilhadas.
A construção de um hotel de charme no território foi o que, na altura, mais nos inquietou, pois obrigaria a uma (re)significação de toda a zona envolvente, onde se situa o acampamento piscatório da Festa. Combinámos que redigiria, na qualidade de finalista do Mestrado em Museologia, enquadrada pelo MTMG, e com um trabalho final que incidiria sobre o estudo da manifestação enquanto património imaterial, uma carta, manifestando as preocupações óbvias acerca desta construção. O objectivo seria também dar a conhecer a existência desta festa pois não havia menção à mesma no RNT, com excepção da alínea, nos objectivos do projecto, em que se pode ler A salvaguarda dos recursos naturais e valorização do património natural e cultural. Na carta redigida e dirigida à Sra. Presidente da Comissão de Coordenação e desenvolvimento Regional do Alentejo, a 15 de Dezembro de 2008, podemos ler que É precisamente na área envolvente deste antigo edifício, denominado Palácio, que se realiza a festa centenária da Nossa Senhora do Rosário de Tróia, organizada por uma comunidade piscatória sedeada no Bairro das Fontainhas em Setúbal (...) realiza-se durante o mês de Agosto e é tradição, desde sempre, os pescadores acamparem nesta zona durante os três dias em que a mesma se desenrola (...) Fazendo esta festa parte da identidade de uma população que te uma veneração profunda pela Nossa Senhora do Rosário de Tróia, como poderá, esta vir a conjugar-
se com um hotel de charme e a sua envolvente que, certamente, passará a ser restrita para os seus clientes.
A Declaração de Impacte Ambiental129 acerca da Ocupação Turística da
UNOP4 de Tróia, data de 26 de Fevereiro de 2009 e a decisão é favorável condicionada. No ponto 9 das condicionantes ao projecto, encontramos a Garantia da realização da festa centenária de Nossa Senhora do Rosário de Tróia, que se realiza durante o mês de Agosto e que é tradição dos pescadores acamparem nesta zona, durante os três dias em que a mesma se desenrola. Presente na declaração de impacte ambiental, documento demasiado extenso para que nos possamos debruçar sobre todas as suas componentes, vem ainda a resposta à carta enviada pela Purificação, dizendo exactamente que a situação referida encontra-se acautelada na condicionante 9. No entanto, e ao lermos atentamente a declaração e a enormidade de alterações que a zona sofrerá, inclusivamente na alteração de acesso à capela130 facilmente percebemos que o acautelamento acerca da Festa de Nossa Senhora do Rosário apenas teve expressão naquele breve parágrafo. Encontra-se, presente na maioria do documento, a preocupação com a preservação das condições de vida, reprodução e manutenção da fauna e flora da caldeira, com os atributos de especial e rara, bem como com o sitio arqueológico, manutenção da qualidade da água e controlo de ruído.
Construir-se-ão passadiços para percursos pedonais e equestres, implantar-se-ão observatórios numa rede de percursos de interpretação e descoberta da natureza em ambas as margens da caldeira, evitar-se-ão trilhos em toda a orla da Caldeira, preservando as áreas de maior sensibilidade como refugio para aves, entre tantos outros. O território será revolvido sob o epíteto da requalificação e preservação do ambiente. Resta saber onde se colocarão as tendas desalinhadas e desemparelhadas das centenas de pescadores durante os festejos, bem como os barcos e embarcações,
129 Ver anexo
130 “Hotel Palácio Sottomayor 1. Realizar na área do Hotel Palácio Sottomayor, pátio interior e anexos, trabalhos de escavação arqueológica integral prévia nos locais que se prevê virem a ser intervencionados pelas obras de recuperação do edifício e de construção de projectos complementares, tais como piscina, rede de infra-estruturas, estacionamento e equipamentos de apoio. 2. Remoção das estruturas em betão (reservatórios e placas partidas) a sudeste da basílica e do palácio e escavação arqueológica dessa zona até uma cota próxima do pavimento interior da basílica. 3. Substituição do actual acesso pedonal à Capela de Nossa senhora de Tróia por uma passagem sobrelevada depois da escavação integral dessa área, o que permitirá pôr a descoberto a continuação da necrópole de sepulturas de mesa existente a nordeste.” (Declaração de Impacte Ambiental, pp2)
114 os comes e bebes, a musica constante e os festejos religiosos, num enquadramento que, a nosso ver, não os enquadra.
Quando a SONAE recebeu a DIA, um dos seus técnicos, responsável pela parte de gestão ambiental, em tom amistoso, comentou com o Armando que afinal havia muita gente interessada na Festa de Tróia.
Considerações presentes : inquietações futuras
Tróia Resort: Um novo conceito. É numa paisagem diversificada, moldada ao longo do tempo e actualmente sujeita a rigorosas directivas de protecção ambiental, numa área de 486 hectares. Aqui pode encontrar apartamentos de luxo, townhouses, lotes para moradias unifamiliares e hotéis inspirados no estilo de vida de praia, comuns a outros destinos de férias de luxo. Os benefícios de um moderno resort, perfeitamente inserido numa paisagem de excepção, tornam o troiaresort num local singular quer pelo conceito quer pela classe.131
O inicio das nossas considerações finais com este Parágrafo que encontramos na página de apresentação do empreendimento turístico, vizinho deste projecto, gera em nós uma súbita vontade de ficar por aqui, pois está tudo dito. Esta súmula elitista que caracteriza os desejos da Sonae para o território de Tróia elucida, da forma mais premente possível, o paradigma em que se situa a celebração por nós estudada. Esta vontade, é ainda agudizada pela janela pop-up da página que convida famílias endinheiradas a vivenciarem um lugar puro e perfeito apenas a 60 km de Lisboa, sem qualquer referência à capital de distrito mais próxima de si, Setúbal. Este distanciamento em nada nos surpreende. Antevira-se quando em declarações a um jornal de Setúbal, o próprio dono do grupo Sonae, se referiu à cidade que tem à frente,
como a margem pobre e malcheirosa do Sado132, facto motivado, segundo o próprio,
pelas indústrias que operam na cidade. O estudo presente desta festa, mostra-nos um desvio em movimento oposto às tendências extensivamente exploradas por Paula Godinho(2010) sobre as apropriações da cultura popular que renegoceiam determinadas fracções festivas com apoio nos espectros que produzem, em si e para si, os conceitos de tradição e autenticidade, assentes em produtos mercantilizáveis. Esta figuração do passado local através do qual se perpetua uma identidade e se mostram patrimónios, necessita de agentes que produzam para fora essa mesma imagem, conferindo-lhe centripticidade nas rotas do turismo (Godinho, 2010: 81). Pelo que percebemos, a projecção deste passado que convida turistas está confinada à exploração e divulgação das Ruínas Romanas de Tróia, arredando da esfera publica
dos seus instrumentos de divulgação turística133, qualquer tipo de menção à Festa dos
131 http://www.troiaresort.pt/index.php
132 in Setúbal na rede, noticia de 31 de Maio de 2010. 133
116 Pescadores de Setúbal, resultando num silêncio mediático sobre a ligação entre a Festa e a Sonae. Por estes motivos, a convivialidade das esferas do domínio publico e do registo escondido (Scott, 1992), é sabiamente doseada por ambas as partes de forma a não inquietar os seus presentes, distantes no espaço, no tempo, e sobretudo nas suas intencionalidades. Como demonstrámos anteriormente, estas relações conheceram momentos de crispação, numa fase embrionária, que foram silenciosamente entendidos por ambas as partes como desfavoráveis às suas intenções presentes. Se o empreendimento necessita de se demarcar de uma imagem negativa ou pouco tolerante para com as tradições locais, por outro, essas mesmas tradições reconhecem a necessidade da manutenção de uma certa pacificidade com os proprietários. Subentende-se nos domínios destes registos que qualquer acção de limitação ou condicionamento à realização da Festa surgirá de forma espontânea e será naturalizada pela exploração turística do local. Diz-nos Pierre Bourdieu (1993) sobre o espaço físico e social, que o seu consumo, mais ou menos ostensivo, é uma das formas por excelência de ostentação do poder. As oposições sociais objectivadas no espaço físico tendem a reproduzir-se em princípios de visão e de divisão, em categorias de percepção e apreciação de estruturações mentais dicotómicas, através das quais se conotam os indivíduos, alertando-nos ainda para o facto destas lutas pela apropriação dos espaços dependerem significativamente do capital social detido (Bourdieu, 1993: 147-148). Neste sentido, e porque a apropriação contemporânea do local se relaciona intimamente com o seu desenvolvimento turístico, encontramos uma projecção do mesmo para os de fora, convidativa e, ao mesmo tempo condicionante. Está-lhe implícita uma certa tipologia de turistas. O turismo no seu sentido lato, afigura-se como um sistema social altamente diferenciado e, consequentemente, diferenciador. Por tal, as escolhas efectuadas pelos turistas sobre os destinos do seu tempo de lazer são concebidas neste sistema como veículos privilegiados de comunicação sobre os seus próprios status sociais (Dicks, 2004:49). A ostentação do poder no local efectivar-se-á na prática através da construção de estruturas, e formas de exploração turística, diametralmente opostas ao capital social,
e económico, desta comunidade134, mas que convidam outros, através de processos de
identificação com o display (Dicks, 2004) especifico projectado. Associado a este
134 “Sous peine de s’y sentir déplacés, ceux qui pénètrant dans un espace doivent remplir les condition qu’il exige tacitement de ses occupants. Ce peut être la possession d’un certain capitel culturel, dont l’absence peut interdire l’appropriation réelle des biens dits publics ou l’intention même de se les approprier” (Bourdieu, 1993: 150)
display surge a noção idílica de um ambiente selvagem, natural e legalmente protegido. Se este factor constituiu e constitui um ponto de discórdia acerca do usufruto do local, assume-se na actualidade, como a marca de distinção do empreendimento. Grande parte da contestação sobre a apropriação turística do local, a que nos referimos anteriormente, tem por base as questões ambientais, reivindicando para si a chamada de atenção acerca da fragilidade que um usufruto continuo lhes poderá trazer. Estas questões revestem-se de uma dupla ambiguidade, em parte porque os conceitos sobre a destruição ambiental mudam, consoante os tempos e os grupos que os perspectivam (Urry, 1995:174), e por outro, porque se associa a este desenvolvimento turístico a sustentabilidade do próprio ambiente, incrementado pelo capital injectado para o efeito. Esta construção da imagem de um ambiente sustentado constitui o critério predominante de afirmação do desenvolvimento turístico da zona da Caldeira. Distancia-se do restante empreendimento com base na satisfação das condicionantes de preservação do ambiente e na garantia de vivência de um local impar em condições naturais. Estes processos duplos, de propaganda de um local com características ambientais únicas que (re)utiliza o turismo enquanto motor da protecção do ambiente estão na base do conceito romantic tourist gaze (Urry, 1995) bem como do acesso a locais inacessíveis e por tal duplamente apetecíveis (Macannell, 1973). Por muito paradoxal que nos possa parecer, esta viragem recoloca os romeiros de Tróia, até à data usuários privilegiados do território ermo, como os seus potenciais destruidores. As preocupações demonstradas com a situação campal tiveram, na grande maioria das vezes, o pano de fundo ambiental. Assumiram duas posições críticas, a pesca, hoje em dia ilegal no sitio da caldeira, e o ruído, ameaçador da avifauna, motivado pela situação do baile ou simples coexistência no habitat. Também as ruínas romanas estiveram ameaçadas neste quadro. Reza a história que alguns dos romeiros encontraram no templo romano o local ideal para comportamentos indesejáveis, no ano de 2010. Consequentemente, os organizadores sofreram chamadas de atenção inquietantes, que ainda hoje questionam a sua justificação, tendo aumentado significativamente a vigilância e o afastamento definitivo do circuito das ruínas do circuito festivo. Temos vindo a assistir, gradualmente, a um processo lento e difuso de conotações do local que o distanciam significativamente do lugar de memória (Nora, 1986) que os pescadores elegem como seu. As cambiantes intencionalidades do território, o fosso entre o que é projectado como desejável para a ocupação do mesmo e a partilha com a realidade campal, bem
118 ambiental e arqueológica, surgem como estratégias que poderão sentenciar os desígnios futuros da festa. A realização da mesma sob outros moldes é garantida, a requalificação do território assim o obriga e a propriedade recente já o admitiu. Resta, portanto, saber como se efectivarão, que traços abolirão e quais manterão nesta futura objectificação (Handler, 1988:14)? Somos tentados, pelo estudo do seu presente, a avançar com as hipóteses de um futuro próximo, no qual conseguimos perspectivar uma festa sem acampamento, resumida às cerimónias de carácter litúrgico, bonitas, pacificas e fugazes, aprazíveis ao olhar (Urry, 1995), e que ainda assim conseguiriam devolver, em medida doseada, aos seus espectadores, um certo sentido de autenticidade (Macannell, 1999). Como resposta a estas inquietações encontramos uma comunidade que utiliza o seu passado enquanto artefacto do presente (Lowenthal, 1978), assumindo-o como o legitimador sobranceiro do usufruto do território. Este é, no entanto, um processo relativamente pacifico no seu presente dada a inserção da manutenção da festividade enquanto cláusula de exploração do território. Esta ocasião proporcionou aos que estão por dentro das negociações, a calma que necessitavam para lidar com um presente que sentiam fugir, por imposições que lhes são externas e com as quais sabemos que teriam sérias dificuldades em lidar. Pacificado o exterior viram-se para si próprios e encontram no seio da sua organização social os motivos que ameaçam o seu futuro. Perdemos a conta ao número de vezes que ouvimos, de há três anos a esta parte, a festa de Tróia