Concentro-me no texto de Mellino, porque ele assume a crítica de Arif Dirlik – um estudioso da China – e de algumas outras pessoas como Aijaz Ahmad, Samir Amin, Ella Shohat, Anne McClintock, R. Radhakrishnan, e Benita Parry. A diferença dos autores descoloniais que criticam o ‘pós-colonial’, e cujos textos, de modo geral, são
recorrentes em citar fundamentalmente a eles mesmos (quase todos os artigos possuem referências ao mesmo grupo de pessoas: todos citam a Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Enrique Dussel, três intelectuais bastante diferentes em seus projetos teóricos, e depois, se citam a si mesmos numa espécie de núcleo central: Ramón Grosfoguel, Nelson Maldonado-Torrez, Santiago Castro-Gómez, Catherine Walsh, Edgardo Lander, Arturo Escobar, Fernando Coronil... sempre os mesmos), Mellino lê evidentemente a Spivak, Said, Bhabha e Stuart Hall, e outros. (Difícil é saber se é a estes mesmos autores a quem decide apelidar como “o mainstream da teoria pós-colonial”)
Infelizmente, contrariando ao próprio Hall, Mellino parece dar mais ouvido ao próprio Dirlik, que aos próprios pós-coloniais. No seu artigo “Onde Foi o Pós-colonial. Pensando no limite”, Hall realiza uma densa e elucidativa argumentação sobre a significação híbrida e instável do “pós-colonial” - como conceito, como vontade/desejo, como metodologia, como espaço/momento, etc., e destaca duas críticas ao final. A primeira diz respeito à ausência de uma consideração do relacionamento entre o pós- colonialismo e o capitalismo global nos textos dos intelectuais pós-coloniais. Ele assume esta crítica, dizendo que os discursos dos “pós” abandonaram um economismo determinista (marxista), porém sem ter procurado “formas alternativas de pensar as relações econômicas e seus efeitos enquanto condições de existência para outras práticas, inseridas de forma ‘descentrada’ ou deslocadas em nossos paradigmas explanatórios (...)”. Ou seja, descobrir que o econômico não “determina” o movimento concreto da história da forma que se pensava não pode fazer crer que o econômico não exista!110. Há uma falha de teorização, diz Hall; como se houvesse alguma
incompatibilidade conceitual entre um certo tipo de teoria pós-fundacional e a investigação dessas complexas articulações (a economia no caso). Entretanto, ele continua, isso não deve ser impedimento, pois tais articulações podem de fato estar funcionando em silêncio, nos pressupostos subjacentes do trabalho crítico pós-colonial.
Como vimos, Spivak (1999), mais do que Bhabha ou Said, destaca em sua análise o aspecto econômico através da formulação de conceitos como a “financiarização planetária”, e as mulheres do terceiro mundo como sujeitos de “sedução creditícia” e endividamento bancário, tudo funcionando com o pano de fundo da ideia de uma alfabetização transnacional. Além disso, ela se preocupa em insistir na categoria marxista da exploração e não na categoria de Foucault-Deleuze dominação,
como já foi dito, referindo a globalidade do sistema econômico contemporâneo. Podemos supor que assim como neste trabalho de Spivak, estas revisões do papel da economia na análise crítica estejam sendo retomadas por outros/as intelectuais que trabalham desde o discurso do pós-colonial. Afinal, segundo Robert Young, o marxismo (na sua compreensão revisada no terceiro mundo) é que fornece o pano de fundo teórico para o pós-colonial.
A segunda crítica que Hall destaca é a de que o pós-colonial estaria “em sintonia” com as questões do capitalismo global, servindo aos seus requisitos culturais; seria, segundo Dirlik, uma categoria cúmplice da “consagração da hegemonia” (96-96); “os críticos pós-coloniais seriam, na verdade, porta-vozes inconscientes da nova ordem capitalista global”111. Hall considera esta última acusação reducionista, em suas
palavras, “de um funcionalismo que ninguém acreditaria mais existir no debate acadêmico”; e associa esta crítica e algumas outras que ele abordou ao longo do seu texto, a uma reação previsível diante de um projeto (o pós-colonialismo) que visa o desmantelamento do paradigma colonial. Mellino, contrariando esta avalição crítica de Hall, leva a sério a crítica de Dirlik, e vai adiante. Isto, já dizia o Hall, é sintomático.
Hall não se ocupa da crítica. Penso que uma tese de doutorado como essa, que propõe o discurso pós-colonial “na América Latina” precisa, ao menos, explorar analiticamente o que está acontecendo. Sobretudo pela gravidade da acusação: um discurso que se considera radicalmente crítico é acusado de ser, na verdade, tudo o contrário: cúmplice do sistema de opressões e dominações! O caminho será, portanto, a argumentação. Mellino comete dois erros de interpretação a respeito do pós-colonial: (i) con/fusão do pós-colonial no pós-moderno, e (ii) alguns essencialismos (em vários sentidos que passo a explicitar). Além desses dois pontos, creio que uma leitura demasiadamente rápida (para não dizer desatenta ou inclusive desonesta) a respeito de Said, Spivak, Bhabha, Young e Hall, o conduzem a outros equívocos importantes.
Uma das coisas que mais parece incomodar aos “latinoamericanos” da opção descolonial é o uso amplo e destemido que os pós-coloniais fazem dos “autores europeus”, ou do “pensamento ocidental”. Se lembramos o que Bhabha afirma sobre a performatividade da significação, e a ambivalência contingente ao local de enunciação de qualquer significante, não podemos senão estranhar o essencialismo das designações entre aspas. Com efeito, os pós-coloniais leem a Foucault, Derrida, Lacan, Escola de
Frankfurt, etc., entretanto, em uma leitura contrapontual leem também a Fanon, a Guilhermo Gómez-Peña, a um Wilson Harris, Tomás Ibarra Frausto, entre acadêmicos e artistas, etc. Ora, por meio de qual processo imediato é que uma leitura de algum autor como Rolland Barthes, Derridá ou Lacan torna a própria leitura algo pós-moderno, ou pós-estruturalista?
É preciso insistir, indo além: como é que o pós-estruturalismo (como todo local de cultura, ambíguo no vértice da sua enunciação) pode livrar-se da sua ambiguidade e, de repente, e de forma imediata, se tornar eurocêntrico, colonial, consagrador da hegemonia? Não é uma discussão de pouca importância. É preciso ler com cuidado a Spivak para perceber como ela responsabiliza a Fredric Jameson por esta rápida assimilação entre pós-estruturalismo e pós-modernismo: uma confusão que teve o efeito de neutralizar o poder crítico e anti-eurocêntrico do projeto derridiano da desconstrução.112 Nesse sentido, é descuidado desvalorizar, como faz Mellino, os
aspectos biográficos de Derridá, ou do próprio Foucault, quem se viu significativamente influenciado pela sua relação com o ambiente político pós-colonial da Tunisia113. A
rigor, se Young estiver certo ao afirmar maio de 1968 como um ponto de reinscrição ao interior da Europa das lutas anticoloniais dos três continentes, será cada vez mais difícil afirmar a unicidade e univocidade do próprio pensamento europeu; a sua própria existência unitária fica questionada.
O que dizer das teorias feministas elaboradas nos Estados Unidos, em sua ampla manifestação como negra, hispana e queer? Não está África, América Latina e a diáspora LGBT perturbadoramente reinscrita no coração do império justamente através desta proliferação de práticas teóricas? A quem estaria beneficiando esta (re)pressão para desdenhar dos aspectos críticos e potencialmente descoloniais do pensamento pós- moderno “euro-norteo-americano”? Ora, esta confusão entre o pós-moderno e o pós- colonial contem uma consequência ainda mais grave e desnorteadora: faz com que o pós-colonial apareça como um produto do pós-moderno114, e não, como Young (2001)
argumenta convincentemente, das lutas tricontinentais anti-coloniais, e do acesso crescente dos subalternos à fala/poder. Insisto em afirmar, como mencionei no ponto 1, que a origem teórico discursiva do ‘pós-colonial’ é a percepção de uma falha, a respeito dessas lutas, e dos cenários políticos em transformação contínua.
112 G. Spivak, (1999), op.cit., no início do capítulo IV, “Cultura”. 113 Veja R. Young (2001), op.cit., “Foucault in Tunisia”, p. 395-6 114 Mellino, op.cit, 40-45
Dessa forma, para Mellino, ao colonial se corresponde o moderno, e ao pós- colonial o pós-moderno! Esta má interpretação se desvenda no uso quase linear- cronológico do termo, e faz com que Mellino afirme, por exemplo, que Spivak supõe vivermos em uma nova fase histórica livre de relações colonialistas!115 (A referência de
Mellino é Spivak, 1990, 166116. A única referência que encontrei nesse lugar foi esta
afirmação: “vivemos em um mundo pós-colonial neo-colonizado...”. Creio que é totalmente o contrário ao que Mellino interpreta). O pós-colonial, como expõem Bhabha e Hall, é o avesso da modernidade, não simplesmente como colonialidade, mas como uma temporalidade estruturalmente diferente, como interrupção.
Temos então dois argumentos: (i) a respeito do essencialismo: por um lado, a leitura de autores “europeus” não é imediatamente uma leitura “europeia”; por outro, o que quer dizer autores europeus? Estão esses autores isentos das influências anticoloniais e anti-imperialistas, tanto internas quanto externas à Europa? É a Europa um lugar unificado? (ii) a respeito do transfundo histórico: Mellino acredita que “os pós-coloniais” negam a historicidade das suas premissas. Com “historicidade” ele refere o cenário global de hibridismos, diásporas, migrações, instabilidade e fragmentação. Consequentemente, se existe uma “teoria” que focaliza hibridismos, diásporas, e fragmentação, essa teoria não pode mais senão ser um mero reflexo acrítico da sua historicidade.
Este rápido e acrítico funcionalismo, decorrente de assumir a suspeita de Dirlik, só pode funcionar desconhecendo e negligenciando todo um transfundo histórico que produziu a articulação discursiva e crítica das lutas anti-coloniais e da reação ao neo- colonialismo da era pós-colonial. Cabe afirmar que este tipo de relação de correspondência é muito distante da complexa articulação que aponta Said para mediar a relação entre Cultura e Imperialismo, quando fala sobre estruturas de atitudes e referência, uma categoria que não deixa de considerar a autonomia relativa das produções culturais (o saber acadêmico incluso), e que insiste firmemente no caráter não determinista dessa articulação. A importância de não desconsiderar o transfundo histórico aponta para o emaranhado de problemas reais que enfrentam os teóricos. Mellino desconsidera a gravidade da “falha”! E não suspeita que os “pós-modernos” tenham percebido perspicazmente essa falha, embora a sua abordagem pareça
115 Ibid, p.53
116 Trata-se do livro da Gayatri Spivak, The Post-colonial Critic: Interviews, Strategies, Dialogues, editado por Sarah Harasym, (New York: Routledge, 1990).
acrescentar criativamente pouco em termos de resistência e empoderamento. Daí que os pós-coloniais mergulhem à vontade e usem todas as ferramentas possíveis para pensar crítica e originalmente em resistência e empoderamento.
Vejamos dois elementos dessa falha: a questão das mulheres e a questão da economia. Por um lado, as mulheres, depois de terem participado ativamente nos movimentos anticoloniais, nacionalistas, comunistas e socialistas, experimentaram de modo geral uma decepção a respeito das suas reivindicações como mulheres nos novos regimes após as independências. As próprias conquistas das mulheres na sociedade burguesa representaram a mesma falha em relação às mulheres racializadas na sociedade para as quais tais conquistas não representavam um horizonte igualmente significativo. A fragmentação do sujeito no feminismo, decorrente dessa análise, poderia ser caracterizada como algo “pós-moderno”, porém, isso desconsideraria o fato de que as vozes das mulheres negras estiveram presentes desde a própria época do movimento sufragista117, e que sua articulação mais recente na academia faz parte do
mesmo processo de luta e empoderamento dos sujeitos em um paradigma que lhes nega constantemente a palavra.
Vou relacionar a “falha” a respeito da economia em relação com a cultura e a dimensão subjetiva da dominação. É comum que diante de perspectivas que focalizam os aspectos culturais das relações sociais insista-se teimosamente na economia e na exploração.
“A pergunta ressoa insistentemente em alguns setores da teoria social. Autores marxistas como Terry Eagleton, Aijaz Ahmad o Arif Dirlik acusaram com frequência aos estudos pós-coloniais, muitas vezes com razão, de falar demasiado da diferença cultural e demasiado pouco da exploração econômica e do imperialismo.” (Mellino, 192)
Necessariamente cria-se de novo uma dicotomia, entre o que é cultural e o econômico, e perde-se justamente a imbricação entre ambos os fenômenos. Perde-se também a possibilidade de focalizar o que está acontecendo na especificidade retórica do que se pretende “econômico” e o que se pretende “cultural”. Por exemplo, Mellino diz haver um culturalismo excesivo em Bhabha e Spivak que levaria a considerar a mimicry como revolução, as novelas de Salman Rushdie ou escutar hip-hop como verdadeiras práticas de resistência anti-imperiliastas118. O desdém com que são
117 Uma das vozes mais citadas é a de Soujurner Truth (1979-1883), uma mulher afroamericana que fugiu da escravidão e se tornou ativista política no movimento sufragista nos Estados Unidos.
assumidas estas práticas não permite enxergar justamente o seu potencial híbrido (de valores contingentes), nem enxergar a dimensão subjetiva que sustenta as realidades e práticas “econômicas” na sociedade, ou mais ainda, dentro da dimensão subjetiva, os processos de empoderamento das pessoas marginalizadas pelas elites econômico- culturais.
É preciso reconhecer que a valorização da dimensão cultural para além de uma mera “super-estrutura”, como diz Said, requer uma articulação teórica conceitual de um nível diferenciado. E um dos elementos principais é a lógica do amadorismo intelectual, que cruza campos de saber, e conecta instâncias aparentemente desconectadas do saber. O conceito de Spivak, “transnational literacy” carrega essa mesma intuição. É por isso que deve-se evitar a noção de que existem autores “pós-coloniais”, porque nesse mesmo momento cria-se a existência de um campo disciplinado de saber. Tanto Said quanto Spivak foram insistentes em denunciar a retórica das ‘disciplinas’. Essa retórica foi denunciada, por exemplo, em cada capítulo do livro de Spivak, sobre tudo nos primeiros três: Filosofia, Literatura, História.
Muitas das objeções de Mellino ao pós-colonial nascem justamente da “lógica disciplinar” do saber acadêmico. Ele defende a etnoantropologia, e a teoria social, “no seu campo”, e aponta a “intromissão” dos estudos pós-coloniais nesse “seu campo”; daí que afirme que “o encontro entre a crítica pós-colonial e a sociologia ainda aguarda uma base crível”119. Da mesma forma, espera um diálogo mais fluido entre o marxismo e os
estudos pós-coloniais120. Não deixa de ser sintomático que um cientista social como ele
sinta esse mal estar diante da noção de Spivak de “irrepresentabilidade da subalterna”
121, e que lhe pareça ridículo que o pós-estruturalismo seja “a filosofia da
descolonização por excelência”122. Não é por acaso que o pós-estruturalismo
(alegadamente pós-moderno/europeu!) parece bloquear as totalizações da sua teoria social, alegadamente mais engajada com “os setores da crítica cultural, das ciências políticas, da antropologia e da sociologia maiormente ocupados tanto na análise dos processos e dos conflitos socioeconômicos contemporâneos, como a investigação de campo ou a etnografia”123. 119 Ibid,, p.146 120 Ibid., p.43 121 Ibid., p.83 122 Ibid.,p,52 123 Ibid., p.40
1.3.4 O FEMINISMO TRICONTINENTAL NA AMÉRICA LATINA, E A