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Authier-Revuz (2004) articula à noção de dialogismo bakhtiniano a de heterogeneidade constitutiva da linguagem. Para a autora, por trás de uma aparente linearidade, da emissão ilusória de uma só voz, outras vozes falam. O sujeito é constitutivamente heterogêneo, na medida em que é atravessado por sua própria divisão, pelo social, pelo discurso de outrem, pelas numerosas formas de exterioridade. Há, nesse sentido, formas marcadas, mais ou menos explícitas, passíveis de apreensão na materialidade linguística do texto, que vão constituir o processo denominado pela linguista de ―heterogeneid de mostr d ‖ o qu l deve ser compreendido como formas linguísticas de representação de diferentes modos de negociação do sujeito falante com a heterogeneidade constitutiva do seu discurso.

A pesquisadora demonstra o interesse reflexivo por elementos linguísticos que expressam, de certo modo, a inscrição do outro (em termos de aspectos exteriores à língua no próprio sistema linguístico), o que só poderia se dar por meio da língua. Assim, ela afirma que:

[...] todo discurso se mostr constitutiv mente tr vess do pelos ‗outros discursos‘ e pelo ‗discurso do Outro‘. O outro não é um objeto exterior do qu l se f l m s uma condição (constitutiva, para que se fale) do discurso de um sujeito falante que não é fonte-primeira desse discurso (AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 69).

Afirmar a dialogização interna do discurso, segundo Authier-Revuz (1990, p. 26), signific sustent r que s p l vr s são sempre e inevit velmente ― s p l vr s dos outros‖. ―Nenhum p l vr é ‗neutr ‘ m s inevit velmente ‗c rreg d ‘ ‗ocup d ‘ ‗h bit d ‘ ‗ tr vess d ‘ pelos discursos nos qu is viveu su exist nci soci lmente sustent d ‖ op. cit. p. 27). Desse modo, podemos afirmar que nossa palavra sempre traz o discurso já-dito, outra voz. Nenhum discurso seria esse primeiro, o discurso do Adão mítico (uma primeira fala em um mundo ainda não posto em questão), como afirma Bakhtin (2000). Essas palavras de B khtin evidenci m pois compreensão de que o discurso se orient por um ―já-dito‖ p r os discursos de outrem que lhe antecederam, sendo, portanto, uma propriedade natural a qualquer discurso vivo.

Isso significa que existe um diálogo entre os muitos discursos da cultura, que se instalam no interior de cada discurso e o define. Esses outros discursos, são então, segundo Authier-Revuz 1990 p. 27 ―como um ‗centro‘ exterior constitutivo quele do já dito com o que se tece inevit velmente tr m mesm do discurso‖.

Outra contribuição para o desenvolvimento da noção de heterogeneidade foi o conceito de sujeito da psicanálise. São, especialmente, as considerações em torno do inconsciente, apoiadas na leitura lacaniana de Freud e na linguística saussuriana que produz a dupla concepção de uma fala fundamentalmente heterogênea e de um sujeito dividido. Authier-Revuz 1990 firm que ―sempre sob s p l vr s ‗outr s p l vr s‘ são dit s. Desse modo, é a estrutura material da língua que permite que, na linearidade de uma cadeia, se faça escutar a polifonia não intencional de todo discurso‖ p. 28 . Noss s p l vr s são sempre atravessadas pelo discurso do outro.

Dessa forma, a palavra do outro é a condição de todo e de qualquer discurso; o que nos leva a interpretar, segundo as palavras da autora, que, constitutivamente no sujeito e no seu discurso está o Outro. Por ser dividido entre o consciente e o inconsciente, o sujeito não é uma entidade homogênea exterior a linguagem, mas o resultado de uma estrutura complexa, efeito da linguagem: sujeito descentrado, dividido, clivado, barrado (AUTHIER-REVUZ, 1990). Há, portanto o descentramento do sujeito, porque segundo Freud, o sujeito perde a sua centralidade, e seu discurso é atravessado pelo inconsciente e pelos outros discursos, desta form ―não há centro p r o sujeito for d ilusão e do f nt sm górico‖ (p. 28). Esse outro do inconsciente é diferente do outro de Bakhtin, esse corresponde ao outro na interação verbal, e o outro, da concepção psicanalítica, trata do sujeito do inconsciente, do falante que é habitado por diferentes vozes enquanto indivíduo historicamente constituído.

Authier-Revuz (1990), ao entender o discurso como algo heterogêneo, apresenta dois planos distintos, mas complementares de heterogeneidade discursiva: a mostrada e a constitutiva. Segundo a autora, a manifestação discursiva envolve a heterogeneidade mostrada (as formas se inscrevem no discurso) e a heterogeneidade constitutiva (que é do discurso). A primeira pode ser descrita com o auxílio de elementos indicadores da presença dos outros sobreditos, seja por formas marcadas, seja por formas recuperáveis, que se inscrevem diretamente na linearidade do dizer – discurso direto, discurso indireto, aspas, glosas, etc. – delimit ndo o ―c ráter explícito cessível à nálise linguístic ‖ AUTHIER- REVUZ, 2004, p. 16).

Assim, as diversas formas marcadas da heterogeneidade mostrada conferem ao fragmento marcando um estatuto outro em relação ao resto do dizer, para quem a alteridade

toma valores específicos. Diante disso, é possível precisar que a heterogeneidade mostrada permite pôr, no campo da enunciação, a marca dos fatos de língua, que as indicam como tal, pelo seu caráter heterogêneo. Já a heterogeneidade constitutiva refere-se a uma abordagem não linguístic do ―jogo com o outro‖ pois o processo de lterid de está li diluído por uma espécie de ―horizonte fora do alcance do linguístico‖ AUTHIER-REVUZ, 2004, p. 21).

Por fim, destacamos que, se todo discurso é atravessado por outros discursos e o sentido vai estar diretamente relacionado ao entrecruzamento das vozes ali presentes, será possível, através do dialogismo e da heterogeneidade, verificar nos Livros Didáticos de Português o delineamento da voz do autor do LD no conteúdo do livro, a sua adequação da concepção de língua e linguagem que vigora no momento para atender as diretrizes dos documentos oficiais, as orientações direcionadas ao aluno nas propostas de escrita desse material e ao trabalho do professor, usuário do livro, na Escola Básica.

O documento oficial destaca que ―um texto escrito é sempre produzido p rtir de determin do lug r m rc do por su s condições de produção‖ BRASIL 2001 p. 40 . Portanto, para formar alunos produtores de textos, sua ideologia, sua cultura, sua história devem ser valoradas para que se possa assumir sua palavra e produzir textos em diferentes situações sociais. Assim, relação sujeito, história e mundo permite o encontro com outros textos, outras vozes, outros lugares.

Desse modo, a orientação dialógica de que trata Bakhtin (2009, p. 150) associa-se, ainda, com discursos de outrem, ao compreender que:

aquilo de que nós falamos é apenas o conteúdo do discurso, [...] mas o discurso de outrem constitui mais do que o tema do discurso; ele pode entrar no discurso e na sua construção sintática, por assim dizer, em pessoa, como uma unidade integral de construção.

Nesse sentido, seja pelo documento oficial, seja pelo discurso escrito do autor do LDP, o dizer do professor integra-se com o dizer de outrem, em sua prática na sala de aula. Como qualquer outro, o professor é um sujeito heterogeneamente constitutivo.

Se todo discurso se insere em um já-dito (vozes alheias), apresentaremos na sequência, o conceito de trabalho de escrita, proposto por Riolfi (2003) e, por meio do qual, poderemos discutir como o aluno pode revelar-se, na construção de um texto, como um sujeito-autor que defende seu posicionamento, ao gerenciar, de forma bem articulada, a inserção de vozes alheias.

CAPÍTULO 4 – PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS: