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Introduction

In document SUDAN REPORT (sider 7-12)

Berry (2004) define como aculturação as mudanças que ocorrem como resultado do contato entre dois grupos ou mais. Tais transformações, ditas culturais, ocorrem em nível de sociedades inteiras (entre nações), em grupos culturais étnicos que moram conjuntamente em sociedades pluriculturais e até nos indivíduos membros das culturas em contato - que experimentam várias mudanças psicológicas. A transformação na esfera individual pode ser conceituada como aculturação psicológica e se caracteriza pelas atitudes da pessoa para com este processo: seu comportamento no sentido de continuidade ou mudança e os sentimentos quanto às identidades étnica e nacional.

“O ritmo e a extensão da mudança individual estão claramente ligados ao grau de manutenção cultural em seu próprio grupo, o qual por sua vez está relacionado com

a situação demográfica, econômica e política dos grupos de contato.(...)” (Berry, 2004, p.36)

O autor acredita que no âmbito das mudanças individuais, as atitudes de aculturação possuem relação quanto aos sentimentos e identificação do indivíduo com a identidade étnica e nacional. Nesse sentido, ele relaciona 4 estratégias: Marginalização, quando o indivíduo não se apega a nenhuma dessas identidades. Separação, quando o indivíduo dá maior ênfase a sua identidade étnica. Assimilação, quando o indivíduo dá maior ênfase a identidade nacional. Integração, quando ambas as identidades são afirmadas.

A relação intercultural entre sociedades ou grupos tem parâmetros parecidos nos aspectos descritos acima. Nos grupos em contato, existem processos mútuos que envolvem atitudes e comportamentos que são expostos por Berry (2004). Quanto ao lado não dominante (geralmente o grupo minoritário), o autor também verifica 4 processos. Um deles é a marginalização que se caracteriza quando há pouca possibilidade ou pouco interesse desse grupo não dominante na sua própria manutenção cultural. Berry (2004) acredita que esse processo se dá, geralmente, por motivos de exclusão ou discriminação pelo lado majoritário. Por outro lado, na Separação, o grupo minoritário evita a interação com a outra cultura e atribui valor a manutenção da cultura de origem. Na Assimilação há uma interação com a cultura dominante e uma negação da ancestral, isto é, não desejam a manutenção da cultura de origem. Finalmente, a Integração, que se assinala pela procura de uma integridade da manutenção cultural de origem, ao mesmo tempo em que se busca participar integralmente da sociedade majoritária.

Já pelo lado dominante (grupo majoritário), os aspectos encontrados pelo autor foram: Exclusão, quando este grupo dominante impõe a marginalização de outros grupos, Segregação, quando demandam e impõem a separação entre grupos, Cadinho, como a assimilação buscada pelos grupos dominantes e a Integração, a diversidade cultural é um objetivo da sociedade como um todo, representando o multiculturalismo.

Berry (2004) explica que a aculturação bem sucedida, tanto no nível individual quanto em grupos, é a integração. A Integração é tida como processo e resultado da relação intercultural que requer mudanças, continuidades, negociações, reciprocidade e acomodação mútuas. Nela envolve-se a aceitação por parte de ambos os grupos, dominantes e não dominantes, o direito de todos viverem como povos culturalmente distintos dentro de uma mesma sociedade. Para o autor, o nível grupal que integram fatores sociais, culturais, históricos, econômicos e políticos, forma o contexto para as transformações individuais ou psicológicas.

As formas de aculturação que foram expostas aparecem em seus estados puros e acredita-se que dificilmente os grupos e indivíduos possam representar de maneira explícita e integral tais classificações. Num panorama mais amplo, vemos na história da imigração japonesa para o Brasil os aspectos aqui demonstrados no início do século XX - uma certa segregação e/ou marginalização partindo dos dois lados dos grupos sociais. Já as décadas de 60 e 70 pronunciavam atitudes de assimilação e/ou integração. Atualmente se é bastante comum afirmar que as novas gerações de descendentes japoneses, os adolescentes, estão integrados à sociedade brasileira. Porém, colocar como algo pronto e definitivo processos que parecem tão complexos é incorrer no perigo de não compreendê-los em sua totalidade.

Berry (2004) acredita que há algumas características comuns aos indivíduos que passam pelo processo de aculturação, mas que há variações na maneira como ela ocorre, que dependem das características individuais do sujeito, as condições sociais, culturais e políticas dos grupos e países envolvidos. Os estudos de Carignato (1999), Kawamura (1999), Ishimori (1999), Mori (2004) e a reportagem de Bastos (2003) pontuam essa realidade que se apresenta de forma diversa e complexa, tornando difícil conceituar os adolescentes nikkeis em um ou outro processo de aculturação.

Carignato (1999) e Kawamura (1999) relatam que a terceira geração, e as posteriores, representariam a gama de descendentes mais “ocidentalizados”. Para Kawamura (1999), isto significa que eles acumulam maior proporção de características culturais da sociedade brasileira que da japonesa. As autoras não aprofundam essa análise porque o foco de seus estudos é centrado no movimento dekassegui. Mas a partir do meu Trabalho de Conclusão de Curso (Ishimori, 1999), pude verificar, através de entrevistas com a terceira geração de descendentes, que estes vivenciavam, dentro do âmbito familiar, aspectos da cultura japonesa bem arraigados, na forma da educação recebida: a estrutura hierárquica familiar, o controle das emoções e o senso das responsabilidades em detrimento dos desejos individuais. Estes sansseis diziam-se brasileiros, mais “ocidentalizados”, mas mostravam negar o que era aprendido no âmbito familiar, afastando os conflitos que o encontro entre duas culturas podiam lhes oferecer. Evidenciavam, portanto, um processo de aculturação que se assemelha ao da assimilação.

Porém, Bastos (2003), em matéria publicada para o jornal Estado de São Paulo, traz alguns dados que se mostram contrários aos referidos anteriormente. Apesar da jornalista considerar os jovens nikkeis “perfeitamente integrados à sociedade” brasileira (por eles se sentirem mais “abrasileirados” que seus pais e avós, por não falarem a língua japonesa e por possuírem gostos típicos aos jovens brasileiros) outros elementos da reportagem se mostraram reveladores apontando uma outra direção que não a da integração ou da assimilação. A maioria

dos adolescentes entrevistados diziam só se relacionar entre descendentes japoneses, pois avaliavam que “japonês nunca é um só, está sempre em grupo”.

Mori (2004), nesse mesmo sentido, também constata uma certa tendência entre os adolescentes japoneses de constituírem grupos de amizades entre seus “iguais”, grupos estes que freqüentam festas, associações e às vezes até escolas voltadas para a comunidade oriental. A partir de seu estudo, verifica-se que o fazer parte de um grupo entre seus semelhantes ganha sentidos de segurança nos modos de se comportar, proteção, hospitalidade, e acolhimento. Estes adolescentes diziam-se sentir desconfortáveis em se relacionar com os ocidentais mantendo apenas uma interação superficial com eles. Para a amizade e até mesmo nas relações amorosas, estes adolescentes em sua maioria, preferiam seus semelhantes.

Como visto, percebe-se atitudes de separação, assimilação e até mesmo de forma um pouco mais velada - pelos dados de Carignato (1999) e Kawamura (1999) - de integração nas terceiras gerações e nas posteriores. Kawamura (1999) já alertava para o fato de que definir uma maior ou menor manutenção da tradição cultural japonesa e, assim também, a maior ou menor integração à sociedade brasileira nos descendentes, são tarefas bastante árduas, já que se deve considerar a fase que ocorreu a migração para o Brasil, o local onde estes imigrantes se instalaram e o grau geracional dos descendentes. Evidencia-se também, além desta multiplicidade de fatores que a autora coloca, outros determinantes que ainda se vinculam a esta questão, que são os fatores históricos e subjetivos de cada descendente. Dessa forma, sugere-se considerar que dentre os adolescentes nikkeis há de se encontrar aqueles que se sentem e estão mais integrados à sociedade brasileira tal como aqueles que ainda se mantêm fechados na comunidade japonesa.

Os adolescentes que farão parte deste estudo serão aqueles descendentes da 3° ou 4° gerações, que se sentem insatisfeitos com os traços fisionômicos que carregam. Nesse sentido, as formas de aculturação também parecem estar intrinsecamente relacionadas com estes sentimentos de insatisfação porque as marcas fenotípicas orientais, nos adolescentes nikkeis, vão sendo construídas e significadas por eles não só a partir da cultura de origem, mas também na realidade social brasileira. A maneira como dão sentidos a essa interação entre cultura brasileira e japonesa pode ser um dos caminhos para desvelar tal insatisfação. Portanto, o objetivo dessa pesquisa é tentar adentrar no modo como estes adolescentes significam a biculturalidade, como vivenciam essas formas de aculturação e como isso se reflete no modo como enxergam a si e seus corpos.

In document SUDAN REPORT (sider 7-12)