4. Findings
4.3 Child marriage is a deeply entrenched tradition in Kassala State
2.2.1 A consciência e o processo de configuração
No esforço de desvelar a construção do psiquismo, Rosa e Andriani (2002) discorrem sobre a categoria consciência e afirmam que esta é um construto hipotético que procura explicitar uma zona da realidade (a organização do pensar, sentir e agir de um indivíduo) e que é apreendida via mediações como, no caso, a fala – que seria o seu melhor acesso. Como já mencionado anteriormente, para Vigotski pensamento e palavra não podem ser entendidos separadamente, o pensamento é expresso em palavras e só passa a existir por meio delas.
Neves (1997) pontua o caráter social e histórico da consciência tendo a sua origem a partir da relação do homem com a realidade, ligado ao trabalho e à linguagem. Também emprega a esta categoria uma noção de processualidade, pois está em permanente construção. Uma construção social que se dá através das significações produzidas pelos homens, que traduzem as condições de funcionamento da sociedade, suas estruturas de relação e suas práticas sociais. Porém, esta autora afirma a consciência como uma instância que abriga o sistema psíquico, que possui suas leis específicas.
Ainda para Neves (1997) a consciência abriga o psicológico (o social transformado em psicológico), lugar onde é possível a reconstrução do mundo objetivo de forma interna. Vigotski (1998), salientava que todas as funções no desenvolvimento do ser humano apareciam duas vezes. Primeiramente no nível social, entre pessoas (interpsicológico) e mais tarde, no nível individual (intrapsicológico). Dessa forma, o autor assegurava que todas as funções psicológicas superiores tinham sua origem social, da realidade vivida entre indivíduos, isto é, o social como produtor de sentidos.
Rosa e Andriani (2002) explicitam que a realidade deve ser concebida como matéria, ou seja, cada parte da realidade (cada fenômeno) constitui-se numa formação material que expressa uma totalidade. Aguiar (2001a) frisa que a realidade independe de um homem em particular, ela preexiste, mas não é constituída na consciência como mera reprodução fotográfica. Essa condição de realidade objetiva passa a ser, para um indivíduo, uma realidade subjetiva. Há de se considerar, como afirma Neves (1997), a possibilidade subjetiva de produção e transformação a partir da relação do homem com a realidade social na qual se insere.
A partir da realidade objetiva e da história particular de cada indivíduo é que o homem produz sentidos e significados pessoais e os atribui aos fenômenos, o que podemos denominar de sentidos subjetivos. Eles podem ser considerados como a somatória de eventos psicológicos evocados num indivíduo ao se deparar com algo, podendo assim, construir-se, transformar-se e agir na realidade agregando algo novo à ela.
Assim, a realidade é modificada num processo de conversão ou configuração e transformada em produção simbólica e, portanto, em construções singulares. Isto é, cada indivíduo, a partir da sua história particular, apreende e produz sentidos e significados da realidade vivida, denotando um sentido subjetivo às suas experiências num processo denominado configuração. González Rey (2003) afirma que a categoria conversão ou configuração serve como um elemento de sentido dentro do comportamento atual de um indivíduo. Esta categoria não se define por conteúdos universais e nem por processos únicos de caráter universal. O processo de configuração se constitui num núcleo dinâmico de organização que se nutre de sentidos subjetivos a partir das experiências individuais e sociais dos homens.
Assim, cada indivíduo, no seu constante contato com o mundo configura e significa a realidade, as suas experiências, de maneira singular e esta pode ser contrária às significações atribuídas socialmente. González Rey (2003) propõe que esta condição de integração e ruptura das configurações individuais e das sociais seja um processo característico do desenvolvimento humano, pois gera transformações. Elas podem romper com os limites sociais imediatos, modificando e gerando novas opções dentro da trama social na qual o indivíduo está inserido. Logo, não só a realidade pode ser transformada como o homem também se transforma a partir dessas mudanças e das novas configurações.
Neves (1997) sinaliza uma outra situação em que o indivíduo, mesmo alterando aspectos de sua configuração, nem sempre consegue imprimir um novo modo de agir. Do ponto de vista da autora, este indivíduo vivencia uma cisão entre o pensar, sentir e agir que se origina de uma nova configuração que marca uma tensão entre a possibilidade do novo e a permanência (onde já se está). Esta situação, dependendo das condições objetivas e subjetivas do indivíduo, pode caminhar para uma superação, uma transformação, como apontou González Rey previamente. Porém, também pode determinar uma paralisia, um equilíbrio do já conhecido, traçando, assim, um caminho inverso ao surgimento do novo.
Podemos concluir que as configurações se originam do social, mas, como aponta Neves (1997), superam a dicotomia objetividade-subjetividade, porque passam a ser vistas numa relação de mediação, na qual o conceito de configuração só pode ser entendido através da realidade objetiva (material) e através da realidade subjetiva do indivíduo, onde um é através do outro, sem se diluírem nem perderem sua identidade.
2.2.2 O lugar das emoções
Considera-se que a atividade significativa do homem não é simplesmente intelectual e cognitiva. Neves (1997) afirma que há uma dimensão emocional que deve ser analisada como
parte constituinte da consciência, ao lado da linguagem e do pensamento. Consequentemente, se o pensamento é emocional, a linguagem também será sempre emocionada, expressando uma forma de avaliação do indivíduo.
O pensamento não pode ser compreendido apenas no seu enfoque cognitivo, mas também como processo de sentido que atua por meio de situações que implicam a emoção de uma pessoa. Assim, a linguagem também aparece em nível individual com sentidos subjetivos que traduzem as emoções. González Rey (2003) relata que o processo de configuração simbólica (mediada pela linguagem) possui a emoção em lugar essencial, pois o contato do homem com a realidade não se expressa a partir de um caráter externo apenas, mas se integra em um registro diferente: o das emoções, a qual também vai constituir os sentidos subjetivos. Para o autor, a unidade entre o simbólico e o emocional definiria o sentido subjetivo.
Ele ressalta que as emoções surgem como mobilizadoras subjetivas para que uma pessoa desenvolva uma atividade, ou melhor, a emoção determina a disponibilidade de recursos subjetivos do indivíduo para atuar. Nesta mesma linha, Aguiar e Ozella (mímio) acreditam que o afeto é um caminho para explicação das causas do pensamento que passam necessariamente pelas necessidades e motivos dos indivíduos. Os autores entendem a necessidade como um estado de carência de um indivíduo (gerador de desejo, tensão e experiências afetivas) e como ponto de partida que o leva a se movimentar em direção a satisfação da mesma. Estes estudiosos entendem também a necessidade como um tipo de registro cognitivo e emocional que pode se constituir de maneira não intencional, isto é, os indivíduos a constituem sem que elas sejam obrigatoriamente significadas. Porém, a necessidade em si mesma não é um processo que determina por completo a ação nem o comportamento de um sujeito, porque ela não conhece seu objeto de satisfação. Os autores mostram que:
“A ação do sujeito no mundo a partir das suas necessidades, só vai se completar quando o sujeito significar algo do mundo social como possível de satisfazer suas necessidades. Aí sim, este objeto/fato/pessoa vai ser vivido como algo que impulsiona/direciona que motiva o sujeito para a ação na direção da satisfação das suas necessidades.” (Aguiar e Ozella, mímio, p.08)
Por essa razão, as necessidades num movimento de configuração se transformam em motivos e aí sim a ação se constrói. Os autores sublinham que os motivos só se constituem no momento em que o sujeito, a partir da sua realidade, configura possibilidades de satisfazer suas necessidades. Percebem, como Vigotski (2000), que a análise do processo entre pensamento e emoção faz-se aproximar da apreensão do que é atividade para um indivíduo. “Permite-nos
seguir a trajetória que vai das necessidades e impulsos de uma pessoa até a direção específica tomada por seus pensamentos, e o caminho inverso, a partir de seus pensamentos até o comportamento e a sua atividade.” (Vigotski,2000, p. 09).
2.2.3 Subjetividade individual e Subjetividade social
Até o momento, discorremos sobre categorias como consciência, linguagem, pensamento, emoções, configuração, etc., que nos ajudam a ampliar a compreensão do psiquismo humano. Cabe agora empreender a noção subjetividade pela concepção da Psicologia Sócio-Histórica. Molon (1999) coloca a subjetividade como fronteira entre o público e o privado e é nessa dimensão que se encontram a consciência, identidade, corporeidade, vontade, intenção, afetividade, pensamento, etc. Aqui, temos a subjetividade como fronteira e resultado de um processo longo onde há a transformação do social (universo interpessoal) em intrapessoal e intra- subjetivo.
Furtado (2001) salienta que a constituição da subjetividade individual é um processo singular que surge da dialética entre sujeito e meio atual. Esta constituição apresenta uma configuração objetiva e subjetiva definida pelas ações, pela história pessoal de um indivíduo e seu meio, que então formariam uma unidade: a subjetividade. Os planos subjetivo e objetivo estão em constante interação, sem que necessariamente se possa indicar de forma clara a fonte de determinação da realidade.
González Rey (2000) completa dizendo que é através das configurações que o homem constrói o sentido subjetivo e a sua subjetividade que também se reconstituem na realidade que o cerca. Nesse sentido, a subjetividade é considerada um sistema complexo e distante do equilíbrio, pois é:
“...um sistema que entra de forma permanente em novos estados que são irredutíveis aos anteriores e irreversíveis, mas que guardam uma relação com aqueles no tocante à sua atual definição. É por essa razão que definimos seu caráter histórico.” (González Rey, 2000, p.48)
Portanto, a subjetividade é tida como histórica, se compõe ao longo da vida de um indivíduo, não refletindo o imediato, pois cada um possui a sua história e é a partir dela que o homem também vai refletir a realidade dentro de si. O autor também destaca que os momentos interno-externo e individual-social são inseparáveis porque a subjetividade compõe-se de realidade distinta que não se situa de forma rígida entre interno- externo, individual-social.
González Rey (2003) considera e cria a categoria subjetividade social, que é concebida como os sentidos e significados gerados nos espaços sociais (realidade objetiva), como forma de aprofundar o entendimento da superação da dicotomia interno-externo. É uma categoria que, para o autor, caracteriza todos os cenários de constituição da vida social e que delimita e sustenta os espaços sociais em que o homem vive. Ela integra, conseqüentemente, os elementos de sentido pessoal que, produzidos nas diferentes zonas da vida social de uma pessoa, se fazem presentes e caracterizam qualquer grupo ou agência social no momento atual de seu funcionamento. Tanto as subjetividades individuais quanto a social se produzem de forma simultânea e possuem relações intrínsecas em dois espaços (individual e social) que se constituem reciprocamente.
“Excluir a dimensão individual da subjetividade social conduz-se a ignorar a própria história do social em sua expressão atual, que se expressa nos indivíduos. A negação do indivíduo como singularidade subjetivamente constituída, significa ignorar a complexidade da subjetividade, a qual se constitui de forma simultânea numa multiplicidade de níveis (...)” (Gonzáles Rey, 1999, p.42)
Dessa forma podemos dizer que a atuação dos indivíduos ocorre, simultaneamente, de forma individual e social. Cada subjetividade individual está atravessada de forma permanente pela subjetividade social e vice-versa, ou seja, o indivíduo constitui a subjetividade social ao mesmo tempo em que é constituído por ela. A relação entre o indivíduo e a sociedade é contraditória por natureza, mas é nessa contradição que se encontra a possibilidade de desenvolvimento tanto do indivíduo quanto da sociedade. Gonzáles Rey (2003) espera que assim resgatam-se os aspectos individuais e subjetivos que constituem o psiquismo human,o considerando também a relação intrínseca, contraditória e em constante movimento do homem com a realidade.
Aguiar (2001a) aponta como interesse da Psicologia Sócio-Histórica o estudo e compreensão do homem em sua singularidade, através das configurações e da expressão de sua condição histórica, social, ideológica, enfim, das relações vividas. Deste modo, é a partir da concepção deste homem que está em constante relação com a realidade, transformando-a ao mesmo tempo em que é transformado por ela, que o presente trabalho se norteia e empreende uma construção teórica e metodológica.