4. Findings
4.4 Child marriage harms children and communities
4.4.3 Educational costs
O padrão estético, “loira de olho azul” parece ser um ideal de beleza que Amanda procura incessantemente. Retomando Schwarcz (2000), a valorização do homem branco e europeu está incrustada na história brasileira. Possuir tais características corporais no Brasil ganha significações de status social, riqueza e beleza. No caso de Amanda, a necessidade desta conformação corporal se revela nos sentidos subjetivos construídos a partir de suas relações sociais e nas suas próprias experiências do que seja, a ela, ser japonesa. Nesse processo, Amanda parece fazer com que o padrão corporal europeu ganhe significações não só de beleza, mas também de aceitação social.
Amanda coloca como motivo único a vontade de ser “loira de olho azul”, como um desejo (necessidade) de ser atraente e bela frente aos garotos, por considerar que estes a julgavam pela aparência. “Então, eu sempre queria ser diferente do que eu era, assim sabe” e
“claro que eu queria ser loira de olho azul”.
“Acho que... não sei, acho que por eles falarem, sabe, falarem assim, não sei, como se assim agradasse mais, fosse ser mais legal daquele jeito, sabe. Assim, acho que foi por isso que queria ser diferente. Eu não sei, era ser tipo aquela modelo, um pouco mais alta, ser loira. Tem que ter essa cara? Tem tanta gente bonita e você tem que ser assim, sabe. Acho que é assim que eu pensava na época.”
Amanda coloca o desejo de possuir um padrão estético europeu com um sentido específico de uma beleza almejada para agradar os meninos. Observa-se no subtexto que este padrão desejado está intrinsecamente relacionado a vários outros sentidos que não se encerram apenas numa valoração estética. No caso de Amanda, o olhar do outro em relação a sua constituição física que lhe é tão peculiar por denunciá-la japonesa ganha contornos de relevada
importância. Kolyniak (2002) fala que o processo de constituição da imagem corporal num indivíduo se dá pela auto-imagem e a imagem que lhe é refletida pela sociedade (o olhar do outro), numa relação em que estes dois fatores se determinam reciprocamente. Para Amanda, o olhar do outro em relação a sua imagem corporal é configurado de maneira que sua aparência representa não apenas ser bela para alguém, mas também e, fundamentalmente, ser reconhecida e sentir-se aceita por um determinado alguém, os ocidentais - como veremos a seguir.
Amanda viveu a maior parte de sua vida entre ocidentais (em cidades que havia poucos orientais) e diz que desde a sua infância se percebe diferente por ser japonesa. Os costumes dentro de sua casa e principalmente seu aspecto físico eram ressaltados como diferentes e causava surpresa nas pessoas. A primeira lembrança desse sentir-se diferente foi em Recife, em um acontecimento dentro da escola, onde freqüentava o 1° ano do Ensino Fundamental. Nesse dia alguma pessoa se referiu a ela como “japonesinha” e nas próprias palavras de Amanda: “A ficha caiu”.Verbaliza que foi a partir desse evento que passou a se questionar: “Pô, sou diferente, né!” Começou a perceber também que se as pessoas não sabiam seu nome a chamavam sempre: “Oh! Japonesinha!” e que por isso “nem dava para disfarçar”. Para ela, chamá-la evidenciando sua etnia soa de modo pejorativo, sente como se fosse um preconceito em relação a ela porque a marcaria como sendo uma pessoa diferente. Como se falassem que o japonês em geral não é uma pessoa “legal”.
“Não sei tipo, aí é quando levam mais pro preconceito assim. Quando eu era menor em Niterói, porque se for falar daqui (escola), tipo é maioria e ia falar de todo
mundo e o pessoal já está acostumado. Mas em Niterói assim, às vezes, talvez não fosse por preconceito, mas acho que era uma forma de falar que você não era legal sabe, tipo assim.”
“Ah, tipo assim de chamar de japonês, uma coisa mais da raça oriental, assim como naquelas músicas do tipo ‘É o Tchan’ (grupo musical) que falava de oriental. Então
eu saía e o pessoal ficava olhando e falando e comentando. Eu lembro que uma vez eu saí e o pessoal achava que eu era a Sabrina do Pânico (programa de televisão),
sabe, e nada a ver entende, o pessoal zoando. Então acho que essa é uma diferença mais negativa que positiva.”
Estas vivências, para Amanda, vão marcando a forma como ela acredita que as pessoas a olham, como sendo uma pessoa diferente, principalmente por suas características físicas. Ser japonesa passa a ser um atributo que a exclui e a torna uma pessoa que não é
“legal”. Tsuda (2000) elucida que no Brasil a “raça” é a maior marca que diferencia os nikkeis como etnicamente japoneses. Afirma que a experiência de ser “racialmente” identificado como
japonês é corriqueiro no Brasil, porque o apelo étnico é baseado na fisionomia e não em diferenças culturais. Porém, para o autor, tal vivência não é sentida negativamente para a maioria dos descendentes, porque essa identificação teria o intuito apenas de evidenciar diferenças corporais e que as significações produzidas socialmente em relação aos nikkeis são, em geral, positivas.
Mas Amanda vivencia essa situação da realidade social de forma distinta para ela, a diferenciação centrada em seu corpo se revela com conotações negativas. Aguiar (1997) pontua que a forma de significação de um sujeito é, ao mesmo tempo, social e singular sendo que o plano individual não se constitui como mera transposição do social, pois o movimento de apropriação das experiências envolve a atividade do sujeito. Assim, percebe-se como Amanda converte o mundo externo em mundo interno, expressando o seu modo particular de significar a realidade e assim vai construindo sua subjetividade.
Portanto, essa adolescente vai construindo significações em relação ao seu corpo oriental que expressam a imagem de uma pessoa que não é “legal” e como uma característica de diferença/exclusão. Aliado a isso, a partir da convivência com os ocidentais, ela também vai construindo um sentimento de não pertencimento ao grupo dos ocidentais, de não possuir os mesmos direitos, de não estar à “altura de um ocidental” porque é japonesa e possui uma marca estampada em seu rosto.
“Sei lá, tem um grupo e eu não podia estar lá no meio porque eu não era brasileira? Não sei, tudo bem, eu me sentia a minoria na minha escola porque todo mundo lá é ocidental né. Às vezes eu me sentia como se eu não pudesse estar ali. Sabe assim, então, eu ficava brava mesmo mas acho que dava força pra mostrar que eu tinha a mesma qualidade que eles, como se eu não estivesse a altura? Sabe, tenho a mesma qualidade, só porque a cara é diferente?”
Amanda não dá exemplos concretos dessas experiências, não há indícios para se verificar se o grupo ao qual estava inserida a excluía por ser japonesa. Mas de qualquer forma, mostra seus sentimentos e emoções. É Amanda quem acredita não poder estar no meio de ocidentais e sente-se cobrada para mostrar que é igual. “Não pode ficar triste, tem que mostrar
que é igual, não tem dessas”. Ela revela a sua própria percepção do olhar alheio, Amanda se compara aos ocidentais e se apropria de um sentimento de inferioridade.
Assim, ter e ser um corpo caracteristicamente japonês alia-se a sentidos subjetivos de exclusão (nos comentários em relação a sua etnia), feiúra (no contato com os meninos), uma pessoa que não é “legal” (o ser japonês) e de inferioridade (percepção do olhar alheio). Este
corpo vai ganhando conotações que não se restringem ao sentido da beleza apenas, mas também adjetivos outros que Amanda vai incorporando no processo de construção de sua subjetividade.
Ao mesmo tempo que Amanda constrói sentidos e significados negativos ao seu corpo, observa-se um movimento interessante que se atrela a estes sentidos, mas, de forma contraditória, há também o sentimento de querer honrar a imagem do japonês. Amanda lembra que sua mãe sempre falava “que convivendo no meio de ocidentais, sempre vão reparar em quem
é diferente”. Assim, acredita que se fizer algo de errado ou tiver um deslize, as pessoas não vão falar que Amanda errou, mas que os japoneses, no geral, são assim. Amanda se esforça e se cobra para não manchar a honra de sua ancestralidade. Como se tivesse que preservar o nome de seus antepassados e, por isso, não cometer deslizes. Nesse momento resgata sua japonicidade e, nesse sentido, parece que o objetivo de Amanda é: “tentar mostrar, sei lá, que a gente pode ser
diferente, não só no aspecto físico assim, mas que a gente pode ser educado, mais inteligente como um ocidental, que você está a altura de um ocidental, assim sabe.”
Por tudo isso, Amanda passa a confessar que seu aspecto físico não a incomoda mais como antigamente. “Acho que o pessoal não olha aquela mulher diferente de todo mundo, mó
chata sabe. Acho que aprendi a ser mais simpática também e acho que o pessoal se aproxima mais”.
“Ah, acho que agora pra mim é festa, assim tipo, sou diferente em algum lado positivo e não, pô, aquela menina lá, tipo ser considerada feia só pela cara assim. Acho que antes não sei se era que as pessoas olhavam para a cara e tentavam te julgar de alguma forma, assim pela aparência. Assim, do tipo: ‘Ah, ela é japonesa, deixa ela pra lá.’ Tipo, não interessa, agora eu não sei, é porque eu também sou maldosa, eu me sinto vingada sabe. (...) Agora eu estou de igual para igual nessa questão de brasileira, sabe.”
Neste trecho, apesar da comparação em relação ao outro (sempre os ocidentais), passa a sensação de uma transformação, de uma conformação em relação a ser japonesa. Toda via, em seu relato, há ainda contradições em relação a esta aceitação, visto nos sentidos aqui relatados e também no seu desejo de fazer cirurgias plásticas e no modo como enxerga os descendentes japoneses. Essas contradições revelam a sua vivência, que de modo algum é linear e coerente a todo instante. Isso mostra o quanto é ambivalente seus sentimentos em ser e possuir um corpo caracteristicamente oriental.