4. Findings
4.6 Efforts to end child marriage in Kassala State face an uphill battle
Berry (2004) acredita que nos estudos de relações étnicas há sempre que se considerar um componente psicológico que é a percepção das diferenças entre os grupos envolvidos, isto é, os estereótipos. Para Amanda a percepção de que os nikkeis são todos iguais está vinculada com esses estereótipos que são construídos socialmente junto com a sua própria e nova experiência, em São Paulo, de estudar num colégio em que a maioria é descendente de japonês. É a partir do convívio com esses adolescentes e na comparação com a sua vida anterior (no Rio de Janeiro), que Amanda vai construindo a forma de enxergar os seus “iguais”. “Porque o pessoal daqui é
tudo igual. O pessoal me chama pra sair e fala que vai me apresentar para outras pessoas mas todos eles são parecidos com o que tem na escola, sabe.” A maneira como Amanda constrói subjetivamente os seus “semelhantes” é importante para a compreensão dela mesma, no seu processo de distanciamento de identificação com estes.
Para Amanda, os adolescentes nikkeis vivem num “mundinho fechado” porque fazem sempre as mesmas coisas, vão aos mesmos lugares, não conhecem pessoas novas, o jeito de se vestir, maneira de pensar e o relacionamento entre meninos e meninas (que considera falso sem envolvimento e distantes) são estranhos a ela. Os grupos denominados pelos próprios adolescentes nikkeis como “colônias”10 são o ponto de referência que Amanda traz para falar destes nipo-brasileiros.
Esta denominação soa estranho porque antigamente, ao se referir à colônia, queria-se dizer à comunidade japonesa no Brasil como um todo. Porém, atualmente, e principalmente entre os adolescentes nikkeis, esta é uma maneira de distinção entre eles mesmos. Em suma, são chamados de “colônias” aqueles adolescentes que carregam de certa maneira as características elencadas anteriormente. Há diversos grupos e alguns possuem até nome próprio por conta dos grupos de dança. Amanda coloca como se não conseguisse entendê-los, pois há “richas” entre os grupos, sendo que no seu entendimento são todos orientais, gostam das mesmas coisas e representariam uma mesma colônia. Para ela, eles são “cabeça pequena” e todos iguais.
Os garotos japoneses são para Amanda, “um tipo que não me impressiona”. Destaca o aspecto físico como “raquíticos” e compara com os garotos de Niterói (ocidentais), como corpos que eram de homens. Fala que nunca achou meninos orientais bonitos e que no máximo, pode achar um mestiço que tenha traços ocidentais mais evidenciados atraente. Explica este
10 Para maiores esclarecimentos, “os colônias” são adolescentes nikkeis que se relacionam
majoritariamente com os seus “iguais”. Eles têm seus próprios pontos de encontro, festas japonesas, uma maneira própria de se vestir e de acordo com Amanda, o que os une é a dança, o “street”, que treinam para fazer apresentações nas festas que participam.
aspecto pelo fato de não ter convivido muito com nikkeis, e que não se acostuma mais. Quanto às meninas nikkeis, ressalta a pouca vaidade no modo delas se vestirem e se produzirem, julgando- as pouco femininas.
“Pô, as meninas não se arrumam, não colocam uma ‘sainha’, tentar ser mais feminina. Eu vejo as meninas e falo: ‘Pô, quem vai se interessar por uma menina dessas?’ Que só usa calça jeans, uma mochila cobrindo a bunda, lá em baixo, de camiseta e não sei quê. Eu não vejo uma coisa de menina nas meninas mesmo.”
Pondera o aspecto físico das meninas no mesmo plano que os meninos mas há um diferencial no jeito de ser delas que as colocam em evidência. Para ela as garotas japonesas não são femininas no modo de se vestirem, mas o são no modo de se apresentarem às pessoas. Fala do jeito “meio submissa”,” tímida”,” agradável”, “meiga”,” delicada” que as fazem chamar mais atenção que os meninos.
É curioso notar que Amanda sempre se refere a estes adolescentes como sendo “eles”, em nenhum momento se inclui, apesar do convívio cotidiano e da ancestralidade. Ela os estranha e os coloca como “outros” que são todos iguais. Relata, inconformada, a preferência deles em se relacionarem com seus “semelhantes” e se pergunta: “Pô, o que um viu no outro? Parece meio
sem graça, meio igual a todo mundo, vai lá, igual todo sábado dançar a dancinha deles lá, sabe
assim. (...)”
Observa-se nesse núcleo de significação que o aspecto corporal (o corpo) em si mesmo não é relevante. Verifica-se que ele ganha importância quando visto em interação com outras significações subjetivas que Amanda vai compondo sobre os japoneses. Assim, os adolescentes nikkeis são vistos por ela como sendo iguais (no aspecto físico, modo de se comportar, pensar e se vestir), fechados e sérios. Esses são alguns dos estereótipos produzidos em relação aos nikkeis no Brasil e que Amanda acaba reproduzindo sem se dar conta, tornando- os seus próprios sentidos subjetivos.
Os elementos que compõem o ser japonês fazem com que o aspecto corporal ganhe relevância, pois são nas características físicas irrefutáveis do japonês que os jogos de significações são realizados. Um corpo oriental ou japonês não passa despercebido num meio ocidental e, nesse sentido, os conceitos construídos sobre a etnia ganham um espaço maior na interação entre as pessoas. A imagem que se faz dos japoneses no Brasil, sendo ela positiva ou não, pode interferir nos modos de relacionamento, fazendo com que imagens e/ou rótulos estejam à frente antes mesmo de se conhecer um indivíduo. Pode-se dizer que no caso dos
descendentes japoneses e de algumas outras etnias, estes conceitos possuem solo mais fértil porque estampam, no corpo, suas ancestralidades.
No relato de Amanda percebe-se a construção de alguns conceitos em relação à sua própria etnia, que acabam interferindo no modo em como ela própria se enxerga, no contato com seus “iguais” e fazendo com que os vejam não mais como indivíduos, mas como uma massa homogênia: “japonês é tudo igual, bicho do mato”. Isto se torna um dificultador para que possa estreitar suas relações na escola e também abrir possibilidades de transformações pessoais. Amanda parece imprimir um rótulo logo que encontra um adolescente nikkei, rótulo este que foi construindo e que não a permite um contato próximo. Estes mesmos rótulos também a marcam, pois carrega a ancestralidade e aspectos físicos comuns, mas Amanda tenta se diferenciar. De alguma forma quer ser diferente deles.
A comparação da vida anterior em Niterói é inevitável para entender o processo de Amanda. Para ela, o Rio de Janeiro era o local onde se sentia com liberdade, podia se divertir, tinha um clima de menos seriedade, as pessoas eram mais alegres, lá as pessoas não vivem num
“mundinho fechado”, tinha amigos (todos ocidentais) enfim, um local que sentia como de pertencimento. Um dos intuitos de se mudar para São Paulo era que estudando num colégio de
nikkeis, poderia se aproximar e conhecer melhor as suas origens. Porém, até o momento da realização das entrevistas, São Paulo para Amanda significava exatamente o oposto do Rio de Janeiro. Um local em que não pode se sentir ela mesma principalmente quando no contato com seus semelhantes.
“(...) E eu que cresci nesse meio de brincar, falar um monte e não sei quê, quando eu vim pra cá, comecei a ficar meio quieta, assim sabe, fazendo cara de paisagem não sei quê, não pode brincar muito. Então eu me senti como se não fosse eu entendeu. Então, agora de um tempo assim eu vejo que me tornei mais quieta, sabe, de não sair. (...)”
“Então, foi difícil, o pessoal senta assim e parece que só vai falar no recreio, sabe. Todo mundo fica virado pra frente assim. Não sei, no Rio, eu falava e sabia a hora de parar entendeu. Mas aqui mesmo, quando pode parar pra falar um pouquinho, o pessoal fica quieto, sabe. (...)”
Amanda não consegue se identificar com o novo grupo, pois são como reflexos de sua própria ancestralidade que ela aceita e nega ao mesmo tempo. Este novo grupo também possui semelhanças físicas que Amanda tenta mudar nela mesma, refletem rótulos/conceitos que não a identificam (mas que ao mesmo tempo são dela também) e assim a convivência cotidiana com seus “iguais” é evitada. Ela se exclui e evoca sua vida anterior para mostrar diferenças
sentidas e como preferiria continuar se relacionando só com ocidentais. Nesse aspecto, as significações referentes aos adolescentes japoneses parecem ser tecidas nas experiências que Amanda configurou na sua vida anterior no Rio de Janeiro e agora em São Paulo.
A adolescente passa por um momento de adaptação que dura um pouco mais de um ano e meio, mas parece ainda estar presa ao que viveu sem poder estar aberta às novas experiências. Estas novas experiências são as relações sociais que Amanda poderia estabelecer com maior profundidade com os nikkeis. Contudo, ela parece viver a tensão entre a possibilidade do novo (São Paulo) e da permanência no velho (Rio de Janeiro). González Rey (2003) aponta que o processo característico do desenvolvimento humano é a condição de integração e ruptura das configurações individuais e das sociais. Isto geraria transformações não só na realidade em que um indivíduo está inserido mas também mudanças individuais. Porém, Amanda mostra um processo que no momento determina uma certa paralisia, um equilíbrio do conhecido, traçando um caminho inverso ao surgimento do novo.
González Rey (2003) assinala que cada subjetividade individual está atravessada de forma permanente pela subjetividade social e vice-versa. Assim, cada indivíduo constitui a subjetividade social ao mesmo tempo em que é constituído por ela. Nesse sentido, vale lembrar que cada sujeito configura de maneira particular as experiências vividas na realidade. Esse modo particular de configuração depende não só do pensamento e linguagem, mas principalmente das emoções que englobam tais significações individuais. Interessante que as emoções de Amanda em relação às significações do ser nikkei e possuir um corpo caracteristicamente japonês, englobam sentimentos de inadequação que geram principalmente angústia. Atualmente, estes sentimentos parecem empecilhos para que Amanda possa estabelecer um contato de maior proximidade com os seus “iguais” e assim abrir maior possibilidade para sua transformação, pois ela parece evitar o confronto com suas angústias e, portanto, tenta se aproximar dos ocidentais.