Mito, meia-verdade ou realidade? Esta regra originou-se da primeira teoria da expertise, elaborada por Chase e Simon (1973). Goleman (2014, p. 158) é um autor contemporâneo que considera esta regra “apenas uma meia-verdade”. Para ele, ilustrando com o exemplo de um jogador de golfe que repete erros idênticos toda vez que se arrisca a determinada tacada, não seriam em 10 mil horas de treino, refletindo e corrigindo esse erro, que o desempenho dele no jogo se tornaria melhor. E afirma: ele permanecerá “péssimo no golfe, ainda que mais velho” (GOLEMAN, 2014, p. 159).
Citando Ericsson, Goleman (2014, p. 159) faz-nos lembrar de uma das afirmações dele, registrada em entrevista realizada pelo próprio Goleman: “ninguém se beneficia da repetição mecânica, mas, sim, de ajustar a sua execução várias vezes, até chegar mais próximo do seu objeto”. Acerca disto, podemos questionar: realizar quantos ajustes for necessário para eliminação dos erros, não seria um procedimento óbvio a ser adotado como finalidade do treino em qualquer situação? Não caberia esse tipo de procedimento somente aos campos de especialidades que requerem exatamente o uso mecânico dos sentidos e/ou recursos que pressupõem repetição, sobretudo de movimentos, como a área musical, esportiva, de tarefas laborais repetitivas?
Mas, Ericsson esclarece, segundo Goleman (2014, p. 159), que “qualquer um” é capaz de atingir “os mais altos níveis de desempenho se praticado de forma inteligente”, argumentando que a diferença está na exigência de que o treino seja “deliberado”. Nesse tipo de treino o indivíduo é conduzido por um treinador especialista que se apoia em um planejamento bem estruturado aplicado ao longo de meses ou anos, com a condição de manter-se em estado de “concentração total”, aspecto que supera o efeito da quantidade de
horas (GOLEMAN, 2014). A forma inteligente a que Ericsson se refere é explicada por ele, a Goleman, como sendo um treino incorporado de um “esquema de feedback”, por meio do qual se reconhece erros e se consegue corrigi-los.
Apesar da usual apologia ao tempo de experiência para todas as profissões e serviços, fundamentada na suposta segurança a que remete, e, ainda, que estudos demonstrem a eficiência da memória de especialistas, algumas exceções como o “efeito intermediário” 9
colocam em dúvida o valor da experiência acumulada no desempenho expert (ERICSSON, 2005). Tais situações deram origem a teorias alternativas como a Expert Performance Approach, formulada por Ericsson e Smith (1991), a partir da qual os autores definem três fases para se alcançar um desempenho excepcional: (1) início da prática; (2) evolução para o envolvimento em full-time e (3) a procura da excelência para alcançar o nível de eminência no domínio em questão. Nesse contexto, ainda predomina a exigência da prática deliberada, por cerca de 10 anos, como o fator crucial para se atingir esse nível (ERICSSON; LEHMANN, 1996). Para estes autores, a regra constitui-se como realidade e não um mito ou meia-verdade. Goleman (2014, p. 157), ao caracterizar a regra como mito, ilustra o seu argumento com o caso de Susan Butcher, técnica em veterinária, que se tornou eminente com uma “inovação arriscada”, implantada, por ela, na “IDITAROD”, considerada a “corrida mais cansativa do mundo”. A inovação envolve mudanças expressivas na regra fixada para o treino dos cães que participavam da corrida e que, apesar da polêmica criada naquele domínio, levou a treinadora à vitória por quatro vezes contrariando todas as críticas e expectativas. Fazendo uma análise de todos os fatores que contribuíram para isto, Goleman destaca que o foco mantido por um período “altamente excessivo” e o impressionante autocontrole no treinamento, foram características que predominaram como fator decisivo no regime de treinamento criado por Susan Butcher. O autor afirma reconhecer que “horas e horas de treino são necessárias para um excelente desempenho, mas não são suficientes”, pois “o modo como especialistas de qualquer área usam a atenção durante o treino faz uma diferença fundamental”, o que independe da quantidade de tempo.
A esse respeito, Gardner (1999b) contesta ilustrando com a trajetória de Darwin. Darwin precisou de um período de muitos anos para conseguir desenvolver um arcabouço de
9 A Teoria do Efeito Intermediário define que peritos com tempo de experiência intermediário evocam mais
situações diferenciadas que os peritos experientes ou os próprios novatos. Também chamado de “efeito mais próximo”, Bitencourt (2006) explica como o caso de um crime praticado no tempo e local em que a ação do agente alcança a vítima. Em outras palavras, é um efeito de contingência que, trazendo para o contexto da expertise, independe da experiência, porém é evocado mais por profissionais de tempo médio do que os mais experientes ou os iniciantes.
conhecimentos e habilidades, antes de se tornar conhecido pelas teorias inovadoras. Além disso, a precocidade também não pareceu constituir um fator predominante para que ele atingisse um alto nível de criatividade na vida adulta. Apesar de Darwin não ter sido uma criança prodígio, ele evidenciou que o sucesso alcançado nada teve de misterioso (HOWE, 2008), pois se deu em ritmo muito lento e gradual. Gardner (1999b) explica esse fenômeno, argumentando que um prodígio que atingiu a idade adulta não se diferencia dos pares que não foram prodígios na infância exatamente por essa característica. O esforço e o treinamento costumam ser os fatores que os tornaram destaque na idade adulta, levando-os a atingir níveis de maestria nos respectivos domínios.
Inclusive, unindo esses argumentos, Gardner (1999b, p. 22) acaba contribuindo com um conceito de expertise, parecendo apenas expressar-se em outros termos. Esta diferença é identificada, aqui, como sendo um enfoque menos cognitivo, que é o perfil de Ericsson, e outro mais relacionado à personalidade, de cunho holístico. Para Gardner, o que leva um indivíduo a adquirir um desempenho extraordinário é o modo como ele se relaciona com três ambientes: o domínio, o self e as outras pessoas. É o que ele chama de um “espírito comunitário, que, de fato, une todos os seres humanos independente do meio em que vivem”. Porém, há características que os diferem. Esta diferença se intensifica na medida em que os indivíduos começam a enfatizar visivelmente um ou mais desses relacionamentos.
Nesta acepção, Gardner justifica o nível elevado de desempenho caracterizando os que se tornaram extraordinários como aqueles cujo nível de relacionamento os distanciou radicalmente uns dos outros e de indivíduos comuns. Significa que alguns passaram a se concentrar com uma ênfase admirável em um determinado relacionamento, o que poderia ser traduzido, para encontrar-se com Ericsson (2003), como resultado da dedicação a uma área de especialização ou área específica. Notemos que o enfoque de Gardner (1999b), neste caso, não menciona exigência de um quantum de tempo, mas parece fixar-se nas diferenças individuais de personalidade.
Há críticas lançadas sobre a regra dos 10 anos que se desviam para outras perspectivas, as quais também se mantêm, na literatura, como casos intrigantes. É o caso dos prodígios, ou seja, aqueles que alcançam um desempenho muito elevado em idades que sequer se aproximam desta exigência formal da expertise. Aqui, podemos exemplificar com os eminentes jogadores de xadrez, Bobby Fischer e Susan Polgár. Ambos atingiram o nível de
maestria que os levou ao título de Grande Mestre (GM)10, em torno dos quinze anos de idade. Esta poderia ser considerada uma diferença intrigante, se comparada aos que alcançam níveis semelhantes, somente após se dedicarem por uma década à prática e treino deliberado.
Porém, de acordo com Feldman (2008), resultados de uma análise mais criteriosa das trajetórias desses mesmos jogadores de xadrez, mais uma vez levou a confirmar a regra dos dez anos proposta por Chase e Simon (1973), e chamada por Goleman (2014, p. 158) de “uma verdade sacrossanta”, porque parece inviolável. Esse aspecto foi constatar que ambos iniciaram a prática no jogo de xadrez por volta dos cinco anos de idade. Eminentes aos quinze anos, sendo ou não uma mera coincidência, somam-se os 10 anos mais tarde. Feldman (2008) afirma, ainda que, ao contrário do que dissemina o senso comum, quanto mais extremo o caso do prodígio, mais se descobre a excelência da preparação prévia que ele recebeu. Apesar de Feldman tratar deste assunto num contexto em que ele está relacionando altas habilidades à criatividade, no momento em que se refere à regra dos 10 anos, ele também implica a teoria da expertise. Assim, reforça a tese de que são temas, incluindo-se entre eles talento e inteligência, que merecem ser explorados em perspectivas integradas.
Gardner (199b) ilustra de modo particular esse contexto. Ele nos apresenta o testemunho pessoal de Alfred Brendel, pianista avaliado como um dos mais extraordinários da época em curso. O modo como este exímio pianista se expressou foi qualificado por Gardner (1999b, p. 146) como “divertido” e um “erro de foco nas características externas da extraordinariedade”:
Não sou oriundo de uma família musical ou intelectual. Não sou um europeu oriental. Não sou, até onde eu saiba, judeu. Não fui um menino prodígio. Não possuo memória fotográfica, nem toco mais rápido que outras pessoas. Não sou um bom leitor à primeira vista. Necessito de oito horas de sono. Não cancelo concertos por princípio, só quando estou realmente doente. Minha carreira foi tão lenta e gradual que sinto que, ou há alguma coisa errada comigo, ou com quase todos na profissão. [...] Literatura – ler e
escrever – bem como olhar para uma obra de arte tomam um bocado do meu
tempo. Quando e como aprendi todas essas peças que toco, assim como ser um marido e pai imperfeito, eu não sei como explicar (ALVAREZ, 1996 apud GARDNER, 1999b, p. 146-147).
Fazendo uma breve interpretação sobre a descrição do pianista, parece que Alfred Brendel, ao descrever o que ele julga que não contribuiu para a exímia expertise musical que o destacou expressivamente nesse domínio, contraria três teorias: a predominância do ambiente, a influência genética e a das altas habilidades/superdotação. O pianista contraria
10 Grande Mestre (GM) é o título vitalício de mais alto nível concedido a jogadores que cumprirem normas
específicas, superando de modo estável a casa dos 2.500 pontos ELO de rating, pela Federação Internacional de Xadrez (FIDE).
também alguns aspectos da expertise, quando diz não possuir memória fotográfica, nem tocar mais rápido que outras pessoas, visto que estes são componentes citados na expertise por remeter à ideia de desempenho.
O que fica aparentemente implícito no depoimento dele é que: descarta a precocidade, que, algumas vezes, se aproxima das altas habilidades; a preparação pelo estudo intenso e deliberado, da expertise (“não sou bom leitor à primeira vista”); a perspicácia da inteligência acima da média (“carreira tão lenta e gradual”); o aporte cultural de uma família dedicada à mesma área (“não sou oriundo de uma família musical”). Contudo, parece revelar um potencial criativo latente, o qual foi se desenvolvendo no ritmo em que enfrentava os obstáculos. Há, portanto, pelo menos um dado na „autoavaliação não intencional‟ de Alfred Brendel que o remete ao contexto da criatividade: o senso de humor aguçado e a sensibilidade para o belo, expressa no trecho em que ele se revela paralisar diante de uma obra de arte ou literária, apesar de assumir nem ser bom leitor.