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7. CONCLUSIONS

7.2 Conclusions: Change in glacier area

Segundo Castells (1999), o mundo vive o início de uma nova era, a era informacional, e a sociedade dicotomicamente tanto influencia quanto é influenciada por essa nova era, afetando suas bases. Uma das maneiras de perceber as

influências e alterações na base da sociedade é observar a nova realidade através dos movimentos sociais.

2.2.1 Movimentos sociais

Assim como há complexidade em se conceituar jovem, também existe incompletude em definir o que é movimento social, tanto conceitual quanto juridicamente. Isso porque frequentemente os movimentos sociais, por sua personificação, não se constituem em pessoa jurídica ou possuem registro de associação.

Touraine (1997) e Gohn (2007) definem movimentos sociais como aqueles que decorrem de ações sociopolíticas, constituídas por atores coletivos pertencentes a diferentes classes sociais, em atos específicos, contrapondo-se à sociedade civil. Uma definição generalista dentro da qual podem ser incluídos diversos tipos de manifestações.

Entretanto, Touraine (1997) assevera que não se deve atribuir a qualquer manifestação ou ação coletiva o título de movimento social, pois pode-se incorrer em falácia e dificultar a percepção de sua real dimensão: “O movimento social é muito mais que um grupo de interesses ou um instrumento de pressão política; ele põe em causa o modo de utilização social de recursos e de modelos culturais” (TOURAINE, 1997, p. 128).

Montaño e Duriguetto (2014) alertam para a diferenciação que se deve fazer entre movimento social, que é caracterizado por ser uma organização com relativa formalidade e estabilidade, com uma mobilização social, atividade, que se esgota quando concluída. “Mobilização pode ser uma ferramenta do movimento [...] pode se desdobrar até formar um movimento; mas em si mobilização não necessariamente significa uma organização nem constitui um movimento social” (MONTAÑO; DURIGUETTO, 2014, p. 264).

Para uma melhor identificação, Touraine (1997) particulariza os movimentos sociais, distinguindo-os em três diferentes formatos: movimentos culturais, movimentos históricos e movimentos societais. Enquanto os movimentos culturais atuam focando mais na afirmação de direitos culturais, atendo-se menos ao conflito com o adversário, e os movimentos históricos colocam em questão a elite e

contrapõe o povo ao Estado, o movimento societal é caraterizado pela capacidade dos atores em compor uma práxis, de se comprometerem com o conflito e levantarem-se em defesa de seus valores, em um embate por meio do qual a contestação é contínua, habilitando-se, portanto, segundo Touraine (1997), como o movimento que está melhor adaptado e preparado para atuar.

No movimento societal são tratadas questões de liberdade, de direitos humanos, de projetos de vida e de questões onde não são visados ganhos materiais ou políticos, sendo que há, em sua formação, duas vertentes básicas: a utópica, quando o manifestante encontra identificação com os direitos do sujeito, e a ideológica, onde o ator se empenha na luta contra um adversário social.

Touraine (1998) assevera que a inclusão do sujeito no movimento social é uma forma de resistência frente à situação social dominante, contra a qual são evocados valores da sociedade. Assim sendo, os movimentos sociais contemporâneos não visam à sociedade perfeita ou lutam por ela, mas pela democratização das relações sociais na sociedade civil, relações entre empresas e sindicatos, com escolas, com as diversas igrejas, os clubes, as associações culturais e os movimentos populares.

Os movimentos populares, alerta Touraine (1998), não devem ser confundidos com os movimentos societais, pois o conceito de povo é usualmente empregado pelo Estado para criar uma indefinição, uma generalização e homogeneização que busca desfigurar e desmontar as questões postas. Já os movimentos societais são formados por grupos específicos, que não pertencem a nenhuma determinada classe, Touraine (1998) afirma que os movimentos sociais estão acima das classes e as absorvem.

De acordo com o mesmo autor, no percurso do desenvolvimento do liberalismo, o sistema procurou dotar o indivíduo de racionalidade e teve como efeito colateral a eliminação do sujeito, transformando o homem em um ator, representante de papéis institucionais, dentre eles o político. Touraine (1998) sustenta que o homem carece de uma introspeção que lhe possibilite voltar a si mesmo e buscar, no seu interior, o sujeito holístico: “Quanto mais o sujeito penetra no indivíduo, mas ele torna-se livre” (TOURAINE, 1998, p. 258).

Diferentemente do homem liberal, que se projetava em valores transcendentes, o homem-sujeito é fundante dos seus valores:

[...] As novas contestações não visam criar um novo tipo de sociedade, mas „mudar a vida‟, defender os direitos do homem, assim como o direito à vida para os que estão ameaçados pela fome e pelo extermínio, e também o direito à livre expressão ou à livre escolha de um estilo e de uma história de vida pessoais(TOURAINE, 1998, p. 262).

De acordo com Castells (2013), o movimento social não busca tomar o poder, pois, se isso ocorre, deixa de ser um movimento social para se tornar um movimento revolucionário, o que é totalmente diferente, o movimento social procura fazer com que o sujeito se redescubra. Touraine (1998) afirma que o sujeito redescoberto não atua mais sozinho, atua em um encadeamento global, mas cuja ação é local, o sujeito atua em rede e por atuar em rede, Castells (2002, p. 20) define movimento social como sendo “ações coletivas com um determinado propósito cujo resultado, tanto em caso de sucesso como de fracasso, transforma os valores e instituições da sociedade”.

Temas que envolvem a sociedade, como as questões de gênero, étnicas, de cunho sexual etc., que antes eram restritas a pequenos grupos específicos, hoje são questões amplamente tratadas nos Novos Movimentos Sociais - NMS (os quais Castells (2002) identifica como redes de mudança social), em conjunto com os temas de distribuição de renda, corrupção na política, globalização, mobilidade urbana etc., conforme se observou nas Jornadas de Junho.

2.2.2 Novos movimentos sociais

Esta é a denominação que, por exemplo, Scherer-Warren (2005), Gohn (2007) e Montaño e Duriguetto (2011) atribuem aos movimentos sociais recentes, que se apresentam de forma fragmentada ou especificadamente dividida. Os objetivos desses novos movimentos sociais não se fixam em grandes aspirações transformadoras, mas sim em defender “o direito de participar do consumo de bens e equipamentos coletivos” (SCHERER-WARREN, 2005, p. 54).

De acordo com Montaño e Duriguetto (2011), os novos movimentos sociais apresentam duas características: a primeira refere-se a suas mobilizações e questões de lutas, por situarem-se fora do âmbito da relação trabalho x produção e seus líderes apresentarem-se indiferentes e até hostis às formas organizacionais dos movimentos operários, não importando se de posição socialdemocrata ou

socialista. A segunda característica se dá por possuírem uma postura antiestado e antipartidos políticos.

Scherer-Warren (2005) fornece alguns exemplos de novos movimentos sociais urbanos: Movimento dos Favelados, luta pelo direito de moradia; Movimento Ecológico, em busca de uma vida mais sadia; Movimentos Étnicos, lutam contra a descriminação cultural, aos quais podem ser acrescentados: A Marcha das Vadias, sobre o domínio das mulheres sobre seus corpos; As Paradas do Orgulho Gay, luta contra a descriminação sexual; Marcha para Jesus, para unir e evangelizar; Marcha da Maconha, pela descriminilização e liberação da droga etc. Como pode ser observado, estes movimentos buscam uma redefinição de cidadania, negando o modelo político existente e mirando novas formas de relações societárias.

Gohn (2007) coloca, entretanto, que no início da década de 1980, novos tipos de movimentos sociais foram criados no Brasil, resultado da conjuntura político- econômica do período. Esses movimentos sociais diferenciavam-se tanto dos movimentos sociais clássicos, como dos novos movimentos sociais. Gohn cita como exemplo o movimento das Diretas Já, que surgiu em um momento de auge de um ciclo de protestos contra o regime militar, contra o desemprego e, segundo a autora, “demarcou o início de um novo ciclo de protestos, então centrado na questão da Constituinte” (GOHN, 2007, p. 285).

Outro olhar sobre os movimentos sociais é oferecido por Melucci (1989, p. 52) que os considera “sistemas de ação que operam num campo sistêmico de possibilidades e limites”, quando observa que:

Talvez um novo espaço político esteja designado além da distinção tradicional entre Estado e “sociedade civil”: um espaço público intermediário, cuja função não é institucionalizar os movimentos, nem transformá-los em partidos, mas fazer a sociedade ouvir suas mensagens e traduzir suas reivindicações na tomada de decisão política, enquanto os movimentos mantêm sua autonomia (MELUCCI, 1989, p. 64).

Novos formatos na organização da sociedade civil são oferecidos por Scherer-Warren (2006), que os classifica em três níveis. O primeiro refere-se ao associativismo local, que reúne as associações civis, os movimentos comunitários e os sujeitos sociais relacionados com causas sociais e ou culturais. O segundo a autora classifica como formas de articulação inter-organizacionais, onde se encontram inter-relacionados os fóruns da sociedade civil, as associações nacionais

de ONGs e as redes de redes. No terceiro nível estão as mobilizações na esfera pública, que se originam na articulação dos diversos atores dos dois níveis anteriores, reunidos em praça pública, chamando a atenção da sociedade e da mídia para os mais diversos problemas. A esta mobilização Scherer-Warren (2006) denomina, enquanto conceito teórico, de rede de movimento social:

Esta pressupõe a identificação de sujeitos coletivos em torno de valores, objetivos ou projetos em comum, os quais definem os atores ou situações sistêmicas antagônicas que devem ser combatidas e transformadas. Em outras palavras, o Movimento Social, em sentido mais amplo, se constitui em torno de uma identidade ou identificação, da definição de adversários ou opositores e de um projeto ou utopia, num contínuo processo em construção e resulta das múltiplas articulações acima mencionadas. A ideia de rede de movimento social é, portanto, um conceito de referência que busca apreender o porvir ou o rumo das ações de movimento, transcendendo as experiências empíricas, concretas, datadas, localizadas dos sujeitos/atores coletivos (SCHERER-WARREN, 2006, p. 113).

A sociedade está transformando a forma de se relacionar, o que é de se esperar, já que o homem está em constante transformação, mas, se essa mudança trará um admirável mundo novo, ou não, somente a história dirá. Nogueira (2013, p. 42) afirma que o Brasil mudou, tornou-se urbano, “as cidades aumentaram em tamanho e em problemas. Converteram-se em barris de pólvora, ambientes em que tudo é difícil, oneroso e existencialmente pesado”.