O corpo molda a subjetividade de cada indivíduo. Félix Guattari e Suely Rolnik (1986) discutem essa questão a partir do que eles denominam de “processo de singularização”. Segundo aqueles autores, a singularização é deflagrada quando as pessoas se reapropriam das mensagens que chegam até elas pelos meios de comunicação de massa, e se aventuram numa relação de expressão e criação. Trata-se de um modo de viver a subjetividade numa cena cultural massificada e opressora, uma atitude alternativa à postura alienada e submissa frente às mensagens impostas pelos sistemas dominantes de produção e circulação em massa.
A singularização está diretamente associada ao corpo, uma vez que, conforme apontam Guattari e Rolnik, ela consiste num “processo emancipatório e automodelador” caracterizado pela afirmação de outras maneiras de ser, sentir e perceber o mundo (1986). Com isso, reforçamos o argumento de que falar de experiência pressupõe incluir no debate o campo sensório-perceptivo que afeta nosso corpo e, nesse movimento, formata nossa condição subjetiva.
Alguns autores têm utilizado o conceito de “próteses eletrônicas” para discorrer sobre o corpo na cena tecnológica. Esta noção já compareceu há pouco, quando discutimos, a partir de Santaella (2009), a dualidade entre corpo físico e espectral.
51 Neste ponto merecem registro os experimentos realizados pelo artista performático australiano Stelarc. O artista emprega o próprio organismo para explorar suas possibilidades de “amplificação” mediante o acoplamento ou implantação de diversos componentes tecnológicos.21 A título de exemplo, um de seus projetos mais conhecidos denomina-se Third Hand (Terceira mão); como o nome sugere, consiste em uma mão robótica atrelada ao braço direito do artista, capaz de realizar movimentos complexos como segurar e soltar objetos, beliscar, girar o pulso e dotada até de um sistema de resposta tátil. Sem dúvida, trata-se de uma interpretação literal e radical do conceito de “prótese” que, embora desvie um pouco do foco desta pesquisa, representa um caso bastante ilustrativo de nossa discussão.
Voltando ao campo teórico, outra pesquisadora que trabalha com a ideia de próteses é Boyer (1996). Esta resgata Sally Pryor e o próprio Stelarc (1991)22, os quais veem na distinção homem/computador uma polarização coerente com a dualidade cartesiana corpo/mente. Segundo Boyer, o pensamento e a subjetividade estariam ligados ao par mente/computador, enquanto a emoção e a natureza, atreladas ao corpo físico. O problema está em que, se as conexões eletrônicas e cerebrais podem ser continuamente reprogramadas e alteradas atendendo às exigências do meio, a realidade carnal do homem vem representando um empecilho cada vez mais angustiante no âmbito das interações tecnológicas. Diante disso, pondera a autora, somente a prótese eletrônica seria capaz de “pacificar” o corpo humano – por vezes desfigurando-o:
O corpo está se tornando obsoleto, um inconveniente, suas dores ou fadigas interrompendo sessões interativas entre o computador e a mente. [...] através desses dispositivos [as próteses eletrônicas], a tecnologia se torna um grande pacificador do corpo; ela faz a mediação entre o corpo e a experiência, e desconecta mesmo o corpo de muitas de suas funções normais23 (BOYER, 1996, p. 226-7, tradução nossa).
21
Cf. STELARC. Disponível em: <http://stelarc.org>. Acesso em: 24 maio 2012.
22
Cf. PRYOR, Sally. Thinking of oneself as a computer. Leonardo 24, no. 5, 1991, p. 585; PRYOR; STELARC. Prosthetics, robotics remake existence. Leonardo 24, no. 5, 1991, p. 591.
23
No original: “The body is becoming obsolete, a nuisance, its pains or hungers terminating interactive sessions between the computer and the mind. [...] Through all of these devices, technology becomes
52 Paulo Reyes, ao falar do corpo humano entrecruzado com as mídias, é mais enfático ao acentuar o caráter prejudicial subjacente à ideia de prótese. Reyes salienta a debilitação das capacidades orgânicas, algo como uma autoamputação das funções corporais, que tendem a acometer o corpo em interação com os aparatos midiáticos: “a cada momento em que qualificamos um organismo humano, ao mesmo tempo o invalidamos, reduzindo sua potencialidade para fazer algo” (2005, p. 39). Esta suposta “negação do corpo” remonta ao sociólogo alemão Georg Simmel, que, no início do século XX, já situava na modernidade a causa de “[...] uma ruptura potencialmente incontornável da experiência corporal”24 (LEWIS, 2000, p. 65, tradução nossa).
Deve-se ressaltar que a “negação do corpo” tem gerado problemas típicos das cidades. Estudos da medicina, da psicologia, da sociologia e da comunicação vêm dando maior visibilidade às consequências, por vezes nefastas, advindas das atuais tendências de interação com os dispositivos midiáticos. Como exemplos desses problemas aparecem prejuízos de ordem física e também danos psicológicos e sociais. No primeiro caso, podem ser mencionadas a Lesão por Esforços Repetitivos, a obesidade e a debilitação motora. Dentro do segundo caso incluem-se consequências como o individualismo e a solidão exacerbados, a dependência tecnológica em diferentes graus, a “atitude blasé” descrita por Simmel (1979) e o declínio dos níveis de atenção e do espírito crítico. Em conjunto, tais fenômenos tendem a culminar no esvaziamento da vida urbana.
Como se pode notar do exposto, a experiência convoca a ideia de corpo, que por sua vez pede considerações em torno dos sentidos e da subjetividade. Mas o conceito de ser humano considerado nesta pesquisa está bem demarcado: é o indivíduo que habita os espaços públicos da cidade contemporânea, um ambiente tecnologicamente mediado. Portanto, nosso debate sempre terá como pano de
a great pacifier of the body; it mediates between the body and experience, even disconnecting the former from many of its normal functions.”
24
No original: “Simmel was perhaps the first sociologist to develop ideas regarding modernity as posing a potentially irredeemable rupture for embodied experience.”
53 fundo a dimensão comunicativa e significativa dessas três instâncias entrelaçadas – homem, espaço e tecnologia. Nesse sentido, a definição de experiência urbana que iremos propor agora está vinculada a esse panorama.
Designamos por experiência urbana toda prática espacial urbana subjetiva e significativa. Disso resultam três aspectos, a saber: o conceito “experiência espacial urbana”, para nós, é redundante; a essência subjetiva da experiência a torna diretamente acessível unicamente ao indivíduo que a vivencia; também, por hipótese, o valor significativo é dado pelo contexto urbano e implica aquilo que poderíamos chamar de “tempo subjetivo”, ou seja, o período de tempo necessário para que uma experiência urbana ganhe sentido para cada indivíduo. Por fim, cabe também realçar que a noção de “prática espacial” traz em seu bojo o engajamento constante do corpo, conforme desenvolvemos acima.