• No results found

O projeto 1 prevê um conjunto de estruturas metálicas de suporte para instalações temporárias na praça Raul Soares (ANEXO A, p. 185). Sua proposta é convidar artistas periodicamente, os quais utilizariam livremente as estruturas projetadas em suas obras interativas. Como base de análise, tomaremos um exemplo de tais instalações, apresentado por sua autora no curso Design em Espaços Públicos.

A estudante propõe uma série de superfícies maleáveis, presas a postes metálicos distribuídos em diversas áreas da praça Raul Soares (FIGURA 14). Segundo o projeto, os transeuntes deveriam interagir espontaneamente com as superfícies pendentes, seja puxando, esticando ou deixando-se envolver pelas tramas.

As estruturas contariam com sensores de presença e câmeras de vídeo, que transmitiriam as interações, em tempo real, a painéis de LED instalados em empenas de edifícios circundantes (FIGURA 13).

Figura 14 – Instalação do Projeto 1

Fonte: COELHO, 2012. Figura 13 – Transmissão nos painéis

136 Ainda de acordo com a proposta, quando os sensores não registrassem a presença de pessoas junto às instalações, os painéis de LED exibiriam imagens previamente definidas, cujo teor não foi especificado no projeto.

Partindo para a apreciação crítica da proposta, um primeiro aspecto essencial deve ser levantado: trata-se de uma obra de arte – e não de design, nos termos aqui discutidos. Não há, neste projeto, qualquer evidência da figura do usuário do espaço público, ou seja, o sistema projetado não problematiza a relação artefato-usuário (BONSIEPE, 1983). Conforme vimos, o design não pode prescindir da esfera do uso, das demandas e necessidades objetivas das pessoas – por mais banais e efêmeras que elas possam parecer a um designer, pesquisador ou observador externo. Nesta proposta, a dimensão utilitária é notadamente banida: qual a função objetiva de se envolver numa superfície pendente em praça pública? Com que finalidade palpável um indivíduo comum exporia sua imagem a toda vizinhança? Que demanda de uso da praça ou de seu entorno aquelas instalações procuram responder objetivamente?

O projeto 1 não responde às questões acima porque ele foi informado por preocupações de outra órbita. Sua própria autora comenta a esse respeito: importam, de fato, são as “sensações”, as “características estéticas e visuais” (COELHO, 2012). O usuário sai de cena, e cede espaço ao fruidor, o participante da obra de arte, o espectador das imagens espontâneas transmitidas a céu aberto. Aqui, a palavra de ordem é subjetividade.

Por se tratar de uma proposta eminentemente artística, o Projeto 1 acaba negligenciando alguns dos princípios e metas de usabilidade abordados no início desta pesquisa. Por exemplo, as metas de eficácia, eficiência e utilidade perdem o sentido ao se avaliar uma instalação artística como esta: as superfícies do Projeto 1 não são para algo, não oferecem uma resposta para um anseio objetivo, tampouco pretendem auxiliar em alguma tarefa ou atividade que a praça possa vir a receber. Em contraponto, outros aspectos como learnability, memorability, consistência e affordance parecem ser adequadamente atingidos, dada a simplicidade formal da proposta. Não existem, aqui, mecanismos de controle ou ajuste do sistema: à

137 medida que o indivíduo se envolve com a obra na praça, sua imagem é automaticamente transmitida nos painéis do entorno.

Talvez um dos maiores trunfos apresentados pelo Projeto 1 esteja na forma como o corpo é chamado à interação. As superfícies suspensas e maleáveis parecem mesmo convidar o corpo do transeunte a um modelo de engajamento sem paralelo na cena urbana ordinária. Não somente a visão, mas sobretudo o tato, e eventualmente a audição, parecem atuar ali de modo incisivo, à medida que o sujeito se envolve com as tramas. Nesse sentido, a proposta aponta para uma experiência fortemente cinestésica: é o corpo que deve se movimentar e se posicionar no espaço das superfícies projetadas, e é esta cinestesia a protagonista das imagens captadas e transmitidas pelos recursos de T.I. adotados.

No tocante aos aspectos espaciais, o Projeto 1 evoca outros questionamentos. Primeiramente, a proposta não parece demonstrar qualquer apego à noção de contexto socioespacial – uma noção central em nossa abordagem teórica. Em seu relato autocrítico, a autora do projeto reconhece tal lacuna, evidenciada quando do contato com os conceitos apresentados ao final do Curso. De fato, as superfícies por ela propostas ignoram as características socioespaciais não apenas da praça Raul Soares, como também de seu entorno micro e macroespacial, da vizinhança imediata à cidade e à região. São instalações topologicamente indiferenciadas, que poderiam ser replicadas, com o mesmo efeito e validade, em qualquer outro contexto físico e cultural. Tal questão se torna mais problemática se levarmos em conta que as instalações artísticas do Projeto 1 têm caráter temporário, ou seja, o fator tempo não poderia contribuir para que as soluções adotadas na praça viessem a gerar modos específicos de identificação entre os meios social e espacial – tal como ocorre, por exemplo, na Escadaria Selarón, apresentada no Capítulo 1.

Alheias ao seu contexto socioespacial, as superfícies do Projeto 1 não são superfícies urbanas, nos termos tratados no início deste trabalho. Além disso, se considerarmos a esfera experiencial, ainda que as soluções aqui adotadas possam deflagrar, em certos indivíduos, práticas espaciais subjetivas e significativas – isto é, experiências urbanas –, isso seria resultado de um padrão de engajamento

138 eminentemente subjetivo entre pessoa e superfície, desprovido de qualquer sentido utilitário. Mais uma vez, o forte viés artístico prescinde do design.

Sob a ótica da tecnologia, a proposta em análise não se enquadra em nosso conceito de Superfície Midiática Urbana. Primeiro, porque não visa responder a demandas dos usuários da praça Raul Soares; segundo, porque as próprias superfícies ditas “interativas” não são equipadas com recursos de T.I. Com efeito, o Projeto 1 sugere um emprego bastante incipiente das tecnologias computacionais: estas se limitam a captar e transmitir visualmente, para o entorno, eventuais relações que venham a se estabelecer entre os usuários da praça e as superfícies projetadas. Este não seria um aspecto problemático, caso as imagens transmitidas respondessem, de alguma forma, a demandas e interesses objetivos das pessoas ali inseridas.

Por fim, trata-se de um sistema essencialmente passivo, e não interativo de fato. O conteúdo veiculado pelos grandes painéis de LED limita-se ao registro automático das ações na praça, qual um televisor em nossas residências. Nesse sentido, o Projeto 1 levanta sérios questionamentos em torno da vigilância e da invasão de privacidade nos espaços públicos: o envolvimento com as superfícies em pauta pressupõe a ampla exposição visual do transeunte na vizinhança. Já com relação aos preceitos da “tecnologia calma” de Mark Weiser (1996), percebe-se, na presente proposta, que suas soluções tendem a sobrecarregar o ambiente urbano, sobretudo devido à escala e à proporção dos elementos projetados: diversas superfícies pendentes, amplas e de tons vibrantes, na área interna à praça, e grandes painéis de LED distribuídos nas fachadas do entorno imediato.