A imaginação desponta como categoria-chave ao se considerar o domínio simbólico na esfera subjetiva. Tal nível de abordagem é importante para esta pesquisa porque o próprio conceito de experiência urbana se refere a uma prática de natureza fundamentalmente pessoal.
De acordo com Claval, a imaginação é a contraparte individual dos processos de representação. As representações são de natureza social, circulam entre os
80
Nesse contexto, as escalas individual e coletiva se unem e se isolam dinamicamente. O “mundo da vida” postulado por Habermas ilustra esse ponto: seus três componentes (a cultura, a sociedade e a personalidade) “não devem ser entendidos como sistemas que formam ambientes uns para os outros; através do meio comum, que é a linguagem cotidiana, eles se cruzam entre si” (HABERMAS, 2002, p. 100).
128 homens, enfatizando a dimensão coletiva dos fenômenos; elas tratam de narrativas e imagens de caráter descritivo. Por sua vez, a imaginação fala de
[...] mundos criados pela mente. [...] As pessoas têm a capacidade de construir, para além do que os seus sentidos lhe revelam, lugares que sejam mais de acordo com suas inclinações íntimas, seus sonhos e suas aspirações (CLAVAL, 2008, p. 17).
A passagem acima toca em duas questões essenciais: primeiro, resgata o significado original do termo latino imaginare, designando a faculdade subjetiva de compor mentalmente uma imagem; segundo, alerta-nos para o fato de que a construção imaginária, constantemente abastecida de estímulos mundanos objetivos (como formas, símbolos e espaços), tende a extrapolar esses estímulos e tecer imagens carregadas de significados íntimos. Em suma: a imagem é efeito e produto da imaginação; mas um produto significativo, de alta carga simbólica para o indivíduo, e por isso mesmo um elemento decisivo da sua experiência.
Esse processo de construção imagética tem sido bastante debatido no panorama da corrida tecnológica recente. Um dos pontos mais questionados trata das consequências humanas de uma visibilidade sem precedentes na história.81 Tornou- se clichê dizer que o espaço cotidiano está inundado de imagens massificadas e serializadas, pasteurizadas e empacotadas para consumo imediato. Talvez o epítome dessas manifestações visuais estéreis sejam as logomarcas, muito embora o problema não se resuma às mídias exteriores – afinal de contas, os espaços arquitetônicos e urbanísticos também configuram estímulos potenciais à imaginação, conforme já foi abordado. Em suma, se as sociedades urbanas têm experimentado um suposto “declínio da imaginação”, isso se deve não apenas às interferências espaciais de caráter publicitário, mas também diz respeito ao conceito de design desenvolvido nesta pesquisa, que inclui as tradicionais disciplinas do desenho arquitetônico e urbano.
81
Carlos Mendonça salienta que a palavra “imagem”, em sua raiz latina imago, apresenta duas vertentes semânticas, associadas à visibilidade e à permanência. Embora não se limite aos aspectos visuais, a noção de “imagem” assegura, ao mesmo tempo, a existência e a duração das coisas, ou seja, “[..] no terreno das imagens os homens não estariam mais atrelados ao tempo da natureza” (MENDONÇA, 2006, p. 112).
129 Portanto, entende-se que o empobrecimento dos espaços públicos urbanos enquanto manancial para a imaginação de seus usuários transcende o problema da saturação visual. Antes de existirem em sua forma manifesta, as imagens foram previamente imaginadas por um sem-número de agentes externos – e imaginadas de maneira a reduzir ou anular o potencial imaginário que nos é próprio. Este ponto é ilustrado tanto por uma peça publicitária no espaço público quanto por uma fachada envidraçada a refletir os contornos da cidade. Nesses casos, a construção de sentidos desloca-se, via de regra, do interior para o exterior. Poderíamos mesmo dizer que, de um ponto de vista externo, parece não existir construção subjetiva, pois as pessoas são cada vez mais confrontadas com imagens prontas, de significados anestesiantes.
O argumento acima pode ser complementado com o auxílio de outras duas formas simbólicas comuns: o livro e o filme. As palavras de um livro são imagens abertas à imaginação do leitor; a autoria formal da obra termina no momento de sua publicação. Já um filme lança mão de recursos audiovisuais para oferecer imagens mais acabadas e bem delineadas. Talvez seja esta a razão pela qual as adaptações cinematográficas dificilmente agradem tanto quanto as obras literárias que lhe serviram de base: a imaginação alheia nunca coincide exatamente com a nossa. Pelo senso comum, tanto melhor será a experiência do filme – e das demais formas simbólicas – quanto mais abertas e estimulantes forem suas imagens para a construção subjetiva de outras imagens.
Conforme apresentamos no início desta pesquisa, os espaços públicos têm sido explorados com interesses comerciais há mais de duzentos anos. Este paradigma de apropriação tecnológica e midiática acabou consolidando um modelo dominante que perdura até hoje – um modelo de caráter centralizador, pautado pela lógica de disseminar muitas imagens e restringir as possibilidades de imaginação e reflexão. A manifestação clássica desse paradigma é o painel exibindo marcas, produtos e serviços do alto de edifícios centrais. Neste caso, os usuários dos espaços públicos são reduzidos a meros consumidores, e enquanto tais são – na melhor das hipóteses – impelidos a imaginar suas vidas de posse do produto ou serviço anunciado. Ou seja: não é preciso imaginar mais nada; o mote comercial prescinde
130 do engajamento do corpo no meio ambiente e do sentido de lugar; a experiência só pode ser consumada no ato da compra – e jamais será uma experiência urbana.
O modelo publicitário de apropriação das superfícies tem servido de mote ao trabalho de artistas como o irreverente grafiteiro inglês Banksy. Seu argumento coincide com o nosso:
Quem realmente desfigura nossos bairros são as empresas que rabiscam slogans gigantes em prédios e ônibus tentando fazer com que nos sintamos inadequados se não comprarmos seus produtos. Elas acreditam ter o direito de gritar sua mensagem na cara de todo mundo em qualquer superfície disponível, sem que ninguém tenha o direito de resposta. Bem, elas começaram a briga e a parede é a arma escolhida para revidar (BANKSY, 2012, p. 8).
O exemplo acima deixa claro que as superfícies espalhadas pela cidade constituem o veículo mesmo da lógica mencionada – afinal os espaços públicos são percebidos através de suas superfícies, e é precisamente a visibilidade de cada superfície urbana que tanto mobiliza investimentos da indústria publicitária.
Percebe-se uma constatação semelhante no ensaio em que a pesquisadora Lucrécia Ferrara (2008) analisa a cidade como sistema comunicativo. Esta afirma que o avanço tecnológico tem convertido a “pele” da cidade em “imagem” da cidade. Em outras palavras, o meio material – os objetos e superfícies urbanos – teriam se transformado em mídia. Nesse movimento, Ferrara argumenta que a paisagem urbana acaba se convertendo em um “[...] modo de ver programado à distância [...], mais retórica visual do que paisagem propriamente dita” (2008, p. 47). Entende-se que essa “retórica visual” seja um instrumento poderoso para o marketing urbano mas socialmente alienante.
De fato, parece estar em curso um empobrecimento generalizado da camada simbólica dos espaços públicos. Se o habitante da cidade é produto do meio, significa que a experiência urbana também se dissolve: ela se transforma em ações condicionadas, objetivas e imediatas, perdendo seu caráter estético, subjetivo e reflexivo. O design cede ao espaço indiferenciado e à informação instantânea, em detrimento do lugar e da imaginação, do espaço-tempo vivenciado e contextual.
131 Walter Benjamin, ao abordar os elementos do cotidiano, os define como o alicerce da experiência e, portanto, são o caminho para a abertura de potencialidades criativas dos sujeitos.82 Em última análise, é possível supor que, sem o contexto palpável, não haveria subjetivação e, portanto, não existiria experiência: “a miséria surgida da experiência subtraída da humanidade desvincula o homem de seu patrimônio cultural” (MENDONÇA, 2006, p. 105).83
O declínio da experiência urbana é uma das facetas maléficas de uma questão muito mais abrangente. Antes de afetar a relação do homem com o espaço, os atuais padrões de visibilidade solapam o dom primordial de imaginar. Mas a derrocada da imaginação e da experiência urbana está longe de representar um caminho natural ou incontornável. Segundo nossa hipótese, a retomada do valor simbólico do espaço urbano tem, no design das S.M.U., um importante aliado.
Se a mídia e o espaço conformam o homem, a mídia aplicada no espaço apresenta um duplo potencial transformador. Aplicações tecnológicas atentas ao contexto ganham novos significados. Projetos com escala e alcance reduzidos tendem a oferecer melhores contribuições do que os modelos massificados, se levarmos em conta alguns aspectos que abordamos, tais como a identidade, a territorialidade e a imaginação que produzem o espaço-tempo da experiência urbana.
Concluímos, assim, a discussão das três categorias de análise propostas para o design de superfícies midiáticas urbanas: o espaço, o tempo e a usabilidade. A seguir, apresentaremos a metodologia utilizada na aplicação deste quadro conceitual. Esta metodologia é importante por fornecer a base de avaliação dos conceitos aqui explorados – com a qual terminaremos este trabalho.
82
Cf. BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre a literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.
83
Outros autores veem aí a raiz da “incomunicação”, um traço peculiar da modernidade tardia, decorrente do esvaziamento pelo excesso – excesso de informação, de imagens, de visibilidade. “A vida própria das imagens, a velocidade tecnológica e a predominância dos símbolos globais em detrimento dos locais provocam uma desvinculação dos significados simbólicos” (ANTIQUEIRA, 2009, p. 120). Cf. BAITELLO JUNIOR, Norval; CONTRERA, Malena; MENEZES, José Eugenio (Org.). Os meios da incomunicação. São Paulo: Annablume; CISC, 2005.
132