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Ao escreverem as cartas a Pedro Bandeira os leitores infanto-juvenis, em sua maioria, citam ou descrevem professores, e – em nossa hipótese - o fazem de acordo com os efeitos de sentido esperados, ou seja, a imagem do professor nas cartas é construída de acordo com a máscara do remetente: leitor-escritor, leitor-fã e leitor-institucional.

Nos textos dos remetentes classificados por nós de leitores-escritores a imagem do professor é, geralmente, a de um profissional culto, intelectual e competente, visto que os remetentes os citam como “boa referência” para que consigam a publicação desejada, abaixo selecionamos três trechos que sugerem esta imagem:

 “[...] já escrevi um livro, mas está com a minha professora, assim que ela me entregar eu mando para o senhor ler”39. (provavelmente após a leitura e, talvez, a

correção do professor o livro esteja pronto para edição!);

 “[...] minha ex professora disse que eu teria capacidade de fazer a minha e disse também quem sabe mais cedo ou mais tarde ela estaria lendo um livro meu”40 (a

remetente, possivelmente, acredita que o autor considera importante a opinião da professora);

 “Muitos que leram meus escritos elogiaram-me e aconselharam-me a publicar”41

(apesar de não aparecer a palavra professor, acreditamos que ele deve estar inserido em “muitos”).

O leitor-escritor também revela, talvez inconscientemente, a imagem de um professor que solicita leituras obrigatórias, elencamos alguns exemplos:

 “Minha professora de Português manda a gente ler dois livros por bimestres [...]”42

(o verbo “mandar” nos remeteria a imagem de um professor autoritário?);

 “Anteriormente eu lia, porque eu era obrigada”43 (a palavra “obrigada” denotaria

uma situação de imposição de leitura pelo professor?);  “O livro foi recomendado para leitura extra-classe”44;

 “Este ano foi-me recomendada a leitura do livro “a marca de uma lágrima”45 (dois

remetentes usam o vocábulo “recomendado”, possivelmente, o termo refere-se à leitura obrigatória bimestral).

Em uma primeira leitura, as construções acima nos apontariam a imagens de professores autoritários ou tradicionais46 e de práticas escolares de insucesso, uma vez que

aparentemente não há participação dos alunos na escolha do livro nem há descrição de alguma atividade que suscite o desejo de ler no aluno. Porém, acreditamos que tais relatos revelam imagens de professores com autoridade, promovendo o acesso dos alunos a obras literárias e

39 Carta a PB. CEDAE, Fundo “Memória de Leitura” – 75An3 – Pasta 23 40 Carta a PB. CEDAE, Fundo “Memória de Leitura” – 12San8 – Pasta 23 41Carta a PB. CEDAE, Fundo “Memória de Leitura” - 20SPa2 – Pasta 23 42Carta a PB. CEDAE, Fundo “Memória de Leitura” - 75An3 – Pasta 23 43 Carta a PB. CEDAE, Fundo “Memória de Leitura” – 12San8– Pasta 23 44 Carta a PB. CEDAE, Fundo “Memória de Leitura” – 12San6– Pasta 23 45Carta a PB. CEDAE, Fundo “Memória de Leitura” - 20SPa2 – Pasta 23 46 Cf. MIZUKAMI, 1986.

de atividades escolares de sucesso, uma vez que os mesmos remetentes descrevem o quanto gostaram das leituras realizadas ao autor.

Na maioria das cartas enviadas pelos remetentes, aqui, considerados leitores-fãs, a imagem do professor é construída como um “elo” entre aluno e leitura ou leitor e autor, isto é, o professor é aquele que facilita a construção do conhecimento: conhecer o livro e o autor, como sugerem os trechos:

 “Minha professora de Redação, Laís nos pediu para escrever um livro. [...] Então ela nos pediu para escrevermos pros autores convidando-os para feira.”47 (a

remetente utiliza o verbo “pedir” duas vezes ao referir-se à atividade solicitada, o que cria a imagem de um professor orientador) ,

 “Hoje terminei de ler um livro seu que emprestei de uma professora”48 (não aparece

o nome da professora, porém é ela que faz a mediação entre o leitor e o livro). O leitor-fã adulto constrói a imagem do professor “elo” com mais detalhes, talvez pelo saudosismo característico da fase adulta:

Minha querida professora, hoje respeitada e famosa por executar seu trabalho com excelência, perguntou se eu gostaria de ler alguns livros. Respondi que sim. E assim foi feito. Ela me entregou uma sacola com 12 livros (onde cinco deles eram seus). [...] Na hora de devolver a “sacolinha mágica” me agarrei com A Droga do Amor e comecei a chorar. Contei a Simone que me apegara ao livro e que não tinha coragem de devolvê-lo, que o livro era meu amigo e não tinha condições de comprar um igual (eu era bolsista no colégio).Ele me deu de presente! [...] Quando completei 15 anos a professora Simone me perguntou quais eram seus livros que eu ainda não tinha e foram eles meus presentes...49

As expressões “querida professora”, “sacolinha mágica”, “meus presentes” nos possibilitam a hipótese que a remetente tem admiração pela professora, mas também revela o papel de facilitadora realizado pela professora que favorece um clima favorável ao desenvolvimento da aluna o que possibilita liberdade para aprender.

Há apenas uma leitora-fã infanto-juvenil que relata uma prática impositiva de leitura: “Sabe, eu odiava ler livros, até que fui obrigada a ler um, já que a prova que iria salvar minha vida era sobre o livro”. Porém, as expressões ─ “eu odiava”, “fui obrigada” e “salvar minha vida” ─, a nosso ver exageradas, em relação à atividade, não têm como objetivo denegrir a

47 Carta a PB. CEDAE, Fundo “Memória de Leitura” – 18SJC5 – Pasta 23 48Carta a PB. CEDAE, Fundo “Memória de Leitura” – 6Strl – Pasta 23 49 Carta cedida por Pedro Bandeira à Profª Marisa Phibert Lajolo

prática pedagógica, mas sim demonstrar ao autor o quanto os seus livros são bons: “Estou escrevendo porquê aconteceu um milagre que nenhum outro autor, havia conseguido: prender minha atenção!” a palavra “milagre” atribui ao autor uma característica de um deus, o que consolida a máscara de leitor-fã.

Nas cartas enviadas pelos leitores-institucionais, geralmente, os professores aparecem como os motivadores da escrita da carta, visto que, a maioria desses remetentes descrevem as atividades propostas e solicitam informações biográficas para concluírem um trabalho solicitado pelo professor:

 “Em julho a professora nos mandou ler um livro e eu li ‘A Marca de uma lágrima’. Adorei.”50 (parece-nos que o verbo “mandar” enuncia a autoridade do

professor e o verbo “adorar” usado para indicar o resultado da leitura);

 “Esse livro foi recomendado pela minha professora que também leo e gostou”51

(o verbo “ler”, mesmo escrito de maneira incorreta, denota o professor como exemplo de leitor);

 “Pois isso é um trabalho que tem que ser entregue na primeira semana de novembro; sobre o livro Pântano de Sangue e sua vida.”52 (apesar da palavra

professor não estar explícita, pela descrição do trabalho ele aparece como motivador da leitura, uma vez que a solicitou)

4.2 A Literatura infanto-juvenil e a imagem do professor em Pântano de Sangue