Retomando o esquema aristotélico apresentado no Capítulo 2 (página 26), aplicamos-o nos dois textos, dividindo-os em quatro grandes segmentos, como esquematizado a seguir:
53 Texto 1
Exórdio – O início do texto destaca os pontos importantes do evento:
Ponto alto nas comemorações do cinquentenário da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a apresentação da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo, sob a regência dos maestros Cyro Pereira e João Maurício Galindo, teve sabor especial ao ser realizada na Sala São Paulo, preparada de acordo com as técnicas mais modernas pelo arquiteto mackenzista Nelson Dupré, no antigo terminal da Estrada de Ferro Sorocabana, a bela Estação Júlio Prestes, construída por
outro mackenzista – Christiano Stockler das Neves, que fundou a Faculdade de Arquitetura e exerceu o cargo de prefeito de São Paulo.
Narração – destaca os fatos ocorridos durante o evento:
Os 85 integrantes da orquestra executaram a mescla de música popular com a erudita, apresentando programa que agradou pela beleza e harmonia das peças [...]. A bonita apresentação musical foi prestigiada pelo público mackenzista e por convidados que lotaram os 1.400 lugares da Sala São Paulo. Compareceram ao evento representantes da liderança do Mackenzie – tanto da Universidade quanto do Instituto, diretores de unidades, professores, além de funcionários e suas famílias.
54 Provas – destaca os fatos passados, que corroboram com a importância do evento:
A abertura foi feita com a execução do Hino Nacional Brasileiro, de Osório Duque Estrada, arranjo de Ruriá Duprat. Em seguida, ouviu-se Castelo Forte, composto por Martinho Lutero (1528), o hino protocolar da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em adaptação expressiva do maestro João Maurício Galindo.
Peroração – é a conclusão da importância do evento, o fechamento do que se pretende mostrar e planos futuros:
Os intercâmbios entre países de diversos continentes são a tônica dos objetivos da nossa universidade. A comemoração do cinquentenário serviu para repassar todo o crescimento da Instituição e traçar novos rumos para os próximos 50 anos (Claudio Lembo, reitor da UPM).
Texto 2
Exórdio – O início do texto destaca os pontos importantes do evento:
O Theatro Municipal foi palco de um grande evento [...] em um concerto regido pelo maestro Parcival Módolo, com a apresentação de corais Jovem Cênico e Universitário do Mackenzie.
55 Narração – destaca os fatos ocorridos durante o evento:
[...] reuniu mais de mil convidados [...]. Na abertura, as autoridades presentes participaram dos lançamentos do selo e do carimbo filatélicos comemorativos aos sexagésimo aniversário da UPM pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.
Provas – destaca os fatos passados, que corroboram com a importância do evento:
No programa, os ouvintes puderam apreciar composições de Handel, Purcell, Mozart, Rachmaninoff, Verdi e Rutter, além de Castelo Forte, de Martinho Lutero, cântico que tem feito parte das programações oficiais da Instituição.
Peroração – é a conclusão da importância do evento, o fechamento do que se pretende mostrar e planos futuros:
O Mackenzie sempre viu a educação como uma missão a ser cumprida e não como um negócio lucrativo. E se esmera para alcançar isto em busca incessante da qualidade em tudo o que faz (Maurício Melo de Meneses, então presidente do Conselho Deliberativo do IPM).
Observando a aplicabilidade dos dois textos, verificamos que ambos seguem o padrão proposto, contendo todas as partes de um texto exemplar, na concepção de Aristóteles.
56 3.2 Aspectos discursivos: o ethos
Com base nos estudos acerca do ethos discursivo, analisaremos os textos da Revista Mackenzie que comemoraram, respectivamente, os 50 e os 60 anos da Universidade Presbiteriana Mackenzie, doravante chamada de UPM. A escolha por esses dois textos, como dito anteriormente, deve-se à importância, do ponto de vista histórico, dessas datas na trajetória da UPM, principal mantida da Instituição.
Os dois textos da Revista Mackenzie, publicados sob os títulos “Concerto comemora os 50 anos de ouro” e “Theatro Municipal é palco das comemorações”, respectivamente em 2002 e 2012, demonstram os mesmos posicionamentos ideológicos e a mesma voz do enunciador. Eles assumem as propriedades encontradas no ethos discursivo, presente na comunicação institucional do Mackenzie. Como cita Maingueneau (2004), a análise do discurso, neste caso, reflete a forma como o discurso se organiza e se fixa num lugar social determinado. No mesmo sentido, situa Benveniste (1966), esse enunciador (a quem denomina “locutor”), estabelecendo uma relação entre seu enunciado e o mundo.
Conforme já referido, na análise do discurso de linha francesa os sujeitos (enunciador) são condicionados por uma determinada ideologia que predetermina o que poderão ou não dizer em determinadas conjunturas histórico-sociais. Isso pode ser confirmado nos trechos abaixo, em que se reforça a presença do calvinista Martinho Lutero, com o hino Castelo Forte, muito utilizado pelos protestantes históricos, de modo geral. É nessa perspectiva discursiva que percebemos o ethos presente no “mundo Mackenzie”, conceito incorporado na história da Instituição, demonstrando que as pessoas envolvidas ou que já se envolveram com o Mackenzie comungam das mesmas ideias.
O culto teve início com prelúdio instrumental – o hino Castelo Forte, composto por Martinho Lutero – cantado posteriormente por toda a
57 congregação, no ato de adoração, alternando congregação, Coral Mackenzie e orquestra. As leituras bíblicas do programa marcaram pela beleza e profundidade dos textos bíblicos[...] (2002) Texto 1.
[...]em um concerto regido pelo Maestro Parcival Módolo, com a apresentação dos Corais Jovem Cênico e Universitário Mackenzie. No programa, os ouvintes puderam apreciar composições de Handel, Purcell, Mozart, Rachmaninoff, Verdi e Rutter, além de Castelo Forte, de Martinho Lutero, cântico que tem feito parte das programações oficiais do IPM (2012).Texto 2.
Como vimos, os dois textos, apesar do distanciamento temporal de dez anos, citam Martinho Lutero como a representação da reforma protestante, base da Instituição em todas as suas ações, e Castelo Forte é o hino que canta essa história. Essa representação coaduna-se com o referenciado por Maingueneau (2001, p. 95), ao assinalar que “toda fala procede de um enunciador encarnado; mesmo quando escrito, um texto é sustentado por uma voz – a de um sujeito situado para além texto”.
Outro dado importante, comum aos dois textos, é a apresentação de corais, comum na esfera religiosa, com grupos de vozes que entoam cânticos. Dessa maneira, temos, aqui, outro elemento fundamental que caracteriza a forma como o ethos é trabalhado pela AD: como formação ideológica, que agrega um conjunto de atitudes e representações ou imagens que os falantes têm sobre si mesmos, sobre o interenunciador e o assunto em pauta. Diante do exposto, verificamos que no processo discursivo, “o caráter histórico do discurso torna- se revelador das concepções de um grupo social em determinada época” (GUIMARÃES, 2010, p. 62).
O acontecimento presente nos dois momentos citados é o culto de Ação de Graças, evento religioso com grande destaque em todo o discurso da Instituição. É um evento que vem dos cultos norte-americanos enraizados. Maingueneau (2005, p. 73) define o ethos como uma noção sociodiscursiva, neste caso presente no ritual que agrega fé, valores e convicções. Ao lidarmos com a ênfase
58 da Instituição ao Culto de Ação de Graças, vemos, a partir de Maingueneau (2005, p. 73), os valores ideológicos explicitados e inerentes ao fato:
[...] o texto não é para ser contemplado, ele é enunciação voltada para um co-enunciador [...] o poder da adesão de um discurso decorre em boa medida do fato de que leva leitor a identificar-se com a movimentação de um corpo investido de valores historicamente especificados.
As duas matérias, veiculadas em 2002 e 2012, focam nos leitores da revista institucional, formada em sua maioria de antigos alunos da Universidade, além de funcionários e professores. Esse posicionamento é encontrado em trechos dos textos que narram as comemorações, conforme segue:
Compareceram ao evento representantes da liderança do Mackenzie, tanto da Universidade, quanto do Instituto, diretores de unidades, professores, além de funcionários e suas famílias (2002). Texto 1.
[...] estiveram presentes autoridades do Instituto Presbiteriano Mackenzie e Universidade Presbiteriana Mackenzie, diretores de unidades, coordenadores e professores (2012). Texto 2.
Sob essa perspectiva, percebemos que, nessas referências da Revista Mackenzie, o ethos é a imagem de si que converge. Dessa sintonia decorre a constituição do discurso visto sob duas perspectivas: a perspectiva interacional, que garante a eficácia desse discurso, pois resulta de uma interação entre os leitores; e outra perspectiva é a que se harmoniza como Instituição representada pelo orador. Não se distancia o sujeito do discurso do seu campo de atuação profissional. Assim, não se concebe o cerne dos discursos, sejam eles religiosos, políticos, didáticos, entre outros, fora das escolhas feitas pelas instituições por eles representadas.
O jornalismo moderno soube encontrar os elementos necessários para tornar a sua linguagem atraente e interessante – a projetada nos manuais de estilo e nos projetos gráficos, muitas vezes, bastante ousados – para envolver e seduzir seu público.
59 Nos textos da Revista Mackenzie vemos uma linguagem sóbria, acadêmica e até ufanista, destacando a importância do Mackenzie na vida da cidade e de seus alunos/funcionários, nominando autoridades da vida pública que prestigiaram os eventos analisados. No discurso institucional há uma maneira específica de tratar esse discurso, utilizando-se de linguagem e formas próprias, como postula Maingueneau (2004, p. 38):
[...] um conjunto de categorias semânticas rege todos os planos discursivos: o vocabulário, os temas tratados, os modos de coesão, o estatuto dos participantes da enunciação, a dêixis enunciativa, o modo da enunciação, ou seja, uma maneira de dizer específica (2004:38).
A posição institucional da Revista marca sua vinculação com o saber, vinculação esta que se ajusta também à maneira como ela passa a se comunicar com seu público. Assim, tanto na perspectiva interacional quanto na institucional, manifesta-se o ethos que, segundo Maingueneau (2002: 100), traduz-se ainda no tom, e se apóia em uma dupla figura do enunciador – aquele de um caráter e de uma corporalidade.
O conceito ideológico é facilmente identificado nos dois momentos que os eventos trazem, sendo o primeiro (50 anos) com uma sessão solene especial na Câmara Municipal de São Paulo em comemoração ao cinquentenário; e o segundo (60 anos) com a presença do então prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab e da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, representada por Regina Teixeira Fiodorliva, que comandou a obliteração do selo em comemoração ao evento.
Outro aspecto marcante dos dois momentos é a disposição gráfica e imagens históricas, com personagens e locais do início do século XX. Para uma
60 Instituição com mais de 143 anos, esses fatos assumem papel preponderante na elaboração de sua identidade no decorrer de sua existência. Os primórdios, com a chegada dos missionários presbiterianos americanos são uma herança amplamente difundida, corroborando com o ethos discursivo presente no cotidiano do Mackenzie.