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Os 60 anos da Universidade – fotos históricas
Segundo Maingueneau (2004, p. 48), quando os elementos do ethos forem integrados à discursividade “o discurso torna-se indissociável da forma pela qual ‘toma corpo’”. Introduz-se ai a noção de incorporação, que atua, conforme o autor, em três registros estreitamente articulados:
[...] a formação discursiva confere “corporalidade” à figura do enunciador e, correlativamente, àquela do destinatário, ela lhes dá corpo textualmente;
[...] esta corporalidade possibilita aos sujeitos a “incorporação” de esquemas que definem uma maneira específica de habitar o mundo, a sociedade;
[...] estes dois primeiros aspectos constituem uma condição da “incorporação” imaginária dos destinatários ao corpo, o grupo dos adeptos ao discurso (2004, p. 48)
O que pode ser apontado nos trechos dos dois textos em análise é a interligação existente entre o processo de comunicação e as raízes do presbiterianismo:
62 [...] o culto de Ação de Graças foi o momento de agradecer pelas bênçãos que o Senhor Deus derramou sobre a extraordinária obra educacional, desde seu início com a família Chamberlain, em 1870 (50 anos da UPM). Texto 1.
Os convidados destacaram a importância da Instituição na vida e no progresso da cidade de São Paulo, reiterando sua busca pela qualidade de ensino e seu caráter nitidamente confessional (60 anos da UPM). Texto 2.
A importância do ethos em uma Instituição com valores tão enraizados é observada fortemente no uso de linguagem formal, em tom quase acadêmico, adotada nos meios de comunicação institucionais do Mackenzie. Observamos que, particularmente na Revista, as informações trazem essa carga do ethos presente nos princípios que norteiam a Instituição. Nesse sentido, o enunciador passa a ser a voz que se assume como a própria Instituição, como assinala Maingueneau:
Esse enunciador legitima seu dizer em seu discurso, ele incorpora uma posição institucional e marca sua relação a um saber. No entanto, ele não se manifesta somente como um papel e um estatuto, ele se deixa apreender também como uma voz e um
corpo. O ethos se traduz também no tom, que se relaciona tanto
ao escrito quanto ao falado, e que se apóia em uma “dupla figura do enunciador, aquela de um caráter e de uma corporalidade” (MAINGUENEAU, Gêneses du discours, 2002: 100); (Dicionário da Análise do Discurso 2004: 220).
Desse modo, percebem-se, com nitidez, nas edições da Revista Mackenzie, tanto nas matérias quanto nas palavras das autoridades da Instituição, a presença de um conceito ideológico, que passa a ser o enunciador, ocupando um lugar determinado, perfeitamente incorporado e em sintonia com as diretrizes que norteiam a Instituição. Para Mussalim (2003, p.131), essas
63 diretrizes existem desde o início do discurso e seguem sentidos preestabelecidos na comunicação proposta:
Para a AD o que está em questão não é o sujeito em si; o que importa é o lugar ideológico de onde enunciam os sujeitos. [...] Dessa forma, apesar do caráter constitutivamente heterogêneo do discurso, não se pode concebê-lo como livre de restrições. O que é e o que não é possível de ser enunciado por um sujeito já está demarcado pela própria formação discursiva na qual está inserida. Os sentidos possíveis de um discurso, portanto, são sentidos demarcados, preestabelecidos pela própria identidade de cada uma das formações discursivas colocadas em relação no espaço interdiscursivo. No entanto, apesar dos sentidos possíveis de um discurso estarem preestabelecidos, eles são constituídos a priori, ou seja, eles não existem antes dos discursos. O sentido vai se constituindo à medida que se constitui o próprio discurso. Não existe, portanto, o sentido em si, ele vai sendo determinado simultaneamente às posições ideológicas que vão sendo colocadas em jogo na relação entre as formações discursivas que compõem o interdiscurso.
Nessa mesma linha, para Maingueneau (1993; 2001), estar em um determinado discurso não significa proferir um ou outro enunciado, mas adotar certo tom de voz e determinado comportamento assumido, um ethos, que está em harmonia com o princípio organizador do estatuto dos enunciadores. Nas palavras do autor, o modo de dizer está associado a uma maneira de ser.
Sob essa perspectiva, Amossy (2005, p. 9) diz que “todo ato de tomar a palavra implica a construção de uma imagem de si”. Dessa forma, vemos que os conceitos e o ethos presentes na Instituição são revelados no texto, independentemente de quem os cita:
64 Esta é a Universidade Presbiteriana Mackenzie que, na história, é elo do longo processo educativo, iniciado há 132 anos, com a presença de Simonton, Blackford e Chamberlain no Brasil (50 anos da UPM). Texto 1.
O Mackenzie sempre viu a educação como uma missão a ser cumprida e não como um negócio lucrativo. E se esmera para alcançar isto em busca incessante da qualidade em tudo o que faz (60 anos da UPM). Texto 2.
Ainda segundo Amossy (2005, p. 9):
Não é necessário que o enunciador faça seu auto-retrato, detalhe suas qualidades nem mesmo que fale explicitamente de si. Seu estilo, suas competências linguísticas e enciclopédicas, suas crenças implícitas são suficientes para construir uma representação de sua pessoa. Assim deliberadamente ou não, o enunciador efetua em seu discurso uma apresentação de si.
Dessa forma, por meio da análise do texto e da análise das próprias imagens, o
ethos constituído é revelador e reafirmado em toda comunicação institucional
65 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Essa dissertação, depois de uma trajetória pela área da comunicação institucional do Mackenzie desde suas origens, possibilitou uma análise que envolveu o ethos presente nas matérias escolhidas que retratam dois momentos importantes para a Instituição: os 50 e os 60 anos da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
De certa forma, a Revista Mackenzie é um dos canais que veicula a voz da Instituição. Pode-se dizer que um veículo de comunicação institucional parece assumir papel preponderante como mecanismo político para administrar a construção simbólica da empresa que pretende projetar, ou seja, por meio desse canal, as informações institucionais não só interagem com os leitores, como também legitimam a organização. Essas mensagens institucionais, conforme Charaudeau (2004, p. 39), “concorrem para criar espaços cênicos no ato de linguagem” e estabelecem modos de pensar a realidade da empresa e sua análise pode contribuir para a consciência dos processos envolvidos na comunicação.
Procuramos apontar, por meio do corpus escolhido, que as mensagens mostradas (ethos pré-discursivo) e as ditas (ethos discursivo) na comunicação institucional do Mackenzie são claramente visíveis em todos os seus gêneros do discurso.
A leitura que empreendemos para refletir sobre a constituição do ethos discursivo nos dois textos da Revista Mackenzie nos conduz a um dado importante: as atividades da comunicação institucional do Mackenzie fortalecem seu perfil confessional. Ao ampliarmos a compreensão dessa noção de ethos, podemos relacioná-lo à questão da identidade, considerando que a imagem que o leitor tem da Instituição é fortalecida pelas representações religiosas expostas diariamente em toda sua comunicação.
66 Dessa forma, procuramos demonstrar que os leitores (tanto do suporte impresso como do on-line da revista) têm contato, por meio das matérias ali expostas, com os valores e as condutas transmitidos pela Instituição, ao longo de sua trajetória centenária.
Ao finalizarmos esse estudo, ficou claro que o “olhar jornalístico” que nos acompanha, já que é essa a nossa formação, nos permitiu conhecer e apontar caminhos visando futuras abordagens linguísticas, criando outro olhar para o entendimento da comunicação proposta.
Mesmo que no início as barreiras existentes tenham parecido intransponíveis, ao longo do curso e da análise do corpus aqui estudado, pudemos adquirir conhecimento que agregou valores ao nosso trabalho, fortalecendo-o. É importante que o jornalista, ao escrever uma matéria, mais do que narrar os fatos ali expostos, tenha ciência de que seu texto traz uma bagagem identitária, essencial para o reconhecimento do leitor com seu universo.
Olhando pela perspectiva da área de Letras, essa percepção de identidade, sempre presente na Revista Mackenzie, serviu de parâmetro na escolha do corpus de nossa análise, exatamente por termos acompanhado, ao longo desses anos, a forte presença do ethos em toda a comunicação institucional do Mackenzie. Fica evidente que a análise do discurso, na qual o ethos está inserido, cria caminhos para que as pessoas que trabalham com linguagem, ao avaliarem um texto jornalístico, tenham a noção de que, antes da análise sintática, semântica, ou outra qualquer, o jornalista transmite em seu texto uma identidade pré-estabelecida, tanto da empresa na qual trabalha – no caso responsável pelos textos institucionais –, quanto do seu próprio universo e das experiências vividas.
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70 ANEXOS